1.Vila-Nova de Baixo. É um povoação sonolenta encostado à “bila”, Vila-Real. As casas distribuem-se ao longo de duas estradas, a nacional, prenha de velocidade, e a estrada antiga, cujos seixos redondos e polidos de outrora foram cobertos por asfalto. Uma fiada de ruínas, de casas esboroadas, com a grandeza de outros tempos, de fidalgos que passaram a remediados, esquecidas por herdeiros em desacato, convivem com a construção moderna. O mesmo musgo acastanhado nos muros de pedra, o mesmo cheiro adocicado das flores, as mesmas vinhas enxertadas de Moscatel de onde em Setembro saem dornas de uvas, as mesmas silvas onde se oferecem amoras doces como namoros de Verão. A mesma vibração plangente a descer da torre sineira chamando à missa, dobrando a finados, repicando a baptizados de filhos de emigrantes.
No fim do caminho ergue-se um caramanchão de pedra a abrigar um Cristo na cruz e o “parque das merendas”, obra recente.
Refaço, ligeira e atenta, aquele que foi o caminho das minhas férias na infância.
Páro no local onde morou a minha avó. Um casarão de granito desagasalhado, janelas pintadas de ocre e um terraço de rosas emoldurado por videiras. Subo o lanço de escadas que leva à porta de amdeira e abro-a com vagar. Assomo à janela que dá para a serra do Marão. Deslumbro-me com a imutável paisagem. Flashes de memória. Essa traiçoeira que molda o passado, que o colore de ternura ou o enche de sombras e encruzilhadas.
Quando penso na minha avó Emília – vestida de negro perene, a geografia da vida, difícil, inscrita nos sulcos do rosto, e o cabelo longo, branco, enrolado no topo da cabeça – surpreendo-me a lembrar-me da sua sopa. Nela fundiam-se couves, batatas, cenouras, nabos, cebolas, azeite e fumeiro. Com uma consistência tão espessa que a colher se mantinha em pé no prato. Essa sopa, cozinhada num pote de ferro sobre a lareira, era a sua forma de demonstrar carinho aos netos. Uma ternura sólida e simples, feita das coisas da terra. A mulher que eu julgava eterna, talhada em granito, nunca foi de beijoquices ou de contar histórias mas decantava sentimentos no que servia naquela mesa de madeira tosca. “Às vezes a infância manda-me postais”, diz o poeta, podia mandar-me uma sopa.
2. Naquele tempo eu pensava que a pior coisa do mundo eram as férias de Verão em família. Os quilómetros intermináveis de curvas que ligavam Lisboa à “terra”, as procissões em que me vestia(m) de santa ou anjo, os arraiais populares. Naquele tempo eu era uma adolescente citadina e ainda não conhecia a comida inglesa, Fifty Shades of Grey ou o Despacito. Adiante.
Como os quadros, há dois modos de observar a vida: de perto como o pintor ao criá-los e ao longe, à distância necessária para avaliá-los. Neste ir e vir, escreveu Ferreira Gullar, “descobrirá o viés/ da tessitura/da pasta luminosa e basta/ que lhe constitui/ a carnadura”.
Nostalgicamente, graças à serenidade conquistada pelos anos, recordo de sorriso nos lábios as aventuras com os primos na quinta da avó, subir à cerejeira, mergulhar os pés na água gelada da fonte, os banhos de rio, no tanque de rega e o céu negro feito capulana de estrelas. Quase que sinto o cheiro da cozinha tosca da avó Emília, e a avó afadigada entre os tabuleiros que assavam cabrito e batatas. Aos sabores da mesa unem-se os demais sentidos, o perfume da hortelã e do melão maduro, a seda dos pêssegos rosados, o bruá dos netos naquele casarão de pedra granítica.
Hoje, quando escrevo, é a minha filha adolescente que contempla as fragas do cadeirão na varanda, bebe o sol transmontano, deslumbra os sentidos e comove-se com as histórias da bisavó. Como as uvas que vão ser cortadas, a mais alemã das minhas filhas, está madura para ceder ao sortilégio da sopa.
Escreve à segunda-feira