O preço da t-shirt e o abraço de Dhaka – notas do Bangladesh


O Bangladesh é, depois da China, o segundo maior exportador mundial de têxteis e produz sobretudo para marcas ocidentais. Em média, cada mulher europeia possui 22 peças de roupa ou acessórios que nunca usou


1. Lembram-se do abraço de Pompeia? Um derradeiro gesto de amor conservado pela lava do Vesúvio? Há um outro que fascina e repele. Se Pompeia foi uma catástrofe natural e o seu abraço tem quase a tessitura da ficção, o abraço de Dhaka confere a dimensão do “real” aos acontecimentos, espicaça a consciência, é resultado de uma catástrofe causada pela indiferença e pela ganância.

Recuemos quatro anos no tempo, a abril de 2013 e a uma fotografia que nos obriga a ver. A imagem captada por Taslima Akhter fixa-se na retina. Um homem e uma mulher, jovens, ela num sari rosa- -choque e laranja, abraçam-se entre os escombros e os ferros retorcidos do Rana Plaza. Tornaram-se o símbolo da maior tragédia têxtil de sempre. O Rana Plaza foi construído num terreno pantanoso. A licença de construção era para cinco andares. Foram construídos oito. Nele funcionavam cinco fábricas que produziam roupa para uma dúzia de conhecidas marcas europeias e americanas. Roupa produzida barata, por vidas baratas. A 22 de abril apareceram fraturas no edifício e este foi evacuado. Dois dias mais tarde, os trabalhadores receberam a ordem de regressar – eufemismo para espancamentos e ameaças – ao trabalho. Antes das 9 da manhã, o edifício colapsou com mais de 3 mil pessoas no seu interior. Mil cento e trinta e quatro pessoas morreram, alguns corpos nunca foram recuperados. Oitenta por cento das pessoas que trabalhavam no Rana tinham entre 18 e 20 anos, um horário de 14 horas diárias, chegando às cem horas por semana, e um salário de menos de 50 euros por mês.

Em 2011, a ecologista e jornalista Lucy Siegle publicou “To Die For: Is Fashion Wearing Out the World?”, um livro extraordinário – resultante de uma investigação profunda sobre os bastidores da indústria da moda – que perturba o nosso egoísmo. Refere a anormalmente elevada taxa de suicídio na Índia entre os trabalhadores nos campos de algodão – segundo dados da OMS, anualmente morrem entre 20 mil e 40 mil trabalhadores em todo o mundo devido aos pesticidas usados na produção de algodão – ou as costureiras do Bangladesh obrigadas a tomar a pílula porque a maternidade atrapalharia o processo produtivo.

O que mudou de 2013 para cá? Nada ou quase nada. O Bangladesh é, depois da China, o segundo maior exportador mundial de têxteis e produz sobretudo para marcas ocidentais. Em média, cada mulher europeia possui 22 peças de roupa ou acessórios que nunca usou. Mais perturbador do que o desperdício, que pode ser compensado através da doação do que não se necessita, são as consequências ambientais e humanas do comportamento compulsivo das fashionistas. Longe vão os dias em que a roupa era remendada e preservada.

2. Vêm em revoadas, as vagas de buzinadelas, dispersam-se e regressam, numa desorientação labiríntica.

Da porta do hotel para lá, fica a realidade. Que não é plausível.

Saí do hotel para caminhar em Chittagong, está uma noite quente, calor bastante para aquecer o mundo. Vou jantar qualquer coisa na berma da estrada. No meio da vertigem, da voragem humana que é esta cidade. Caminho depressa, ziguezagueando entre o amontoado confuso de riquexós, carros, autocarros no limiar das eras. O cheiro de lixo amontoado, de coisas apodrecidas, de comida torna-se íntimo, como uma segunda pele.

O olhar errante na dispersão do horizonte é interrompido um puxão no braço. Quedo-me um instante. Hirsuto, mostra-me o coto da perna e pede-me a graça de uma moeda. Ponho-me a adivinhar. Terá dez, 12 anos, o menino estropiado. Há milhares nesta cidade, farrapos de gente de quem os cínicos diriam que estão na flor da idade. Olhar trémulo. Fita-me. Abrasa-me. Não o fotografo. Nem à menina cega, com um ricto de esforço, nem à mulher de idade indefinida e mãos aduncas. Olho-os, fito-os na voragem no meu vazio.

Depois avanço. Como com esforço um pedaço de nan com frango. Ao pé de uma vidraça coberta de uma grossa camada de pó. Olho para dentro da loja. Tudo quieto no tempo, e então reparei. Duas crianças, de túnicas azuis, sentadas numa mesa de plástico a escrever em letra redonda as conjugações dos verbos. “I am. You are. He/she is.” Quedo-me suspensa da graça que me visita. “We are.”

Escreve à segunda-feira