“Olhai, soldados e marinheiros, a bandeira de Portugal. Ela precisa mais do que nunca que se forme quadrado em sua defesa, sem temor nem desânimo, indiferentes às tentativas de intimidação e aos ataques à disciplina e à ordem que por vários lados nos assaltam.” A voz é de Américo Tomás, no 10 de Junho de 1973, o último celebrado no Terreiro do Paço. Marcelo volta agora ao sítio que ficou marcado pelas paradas militares de homenagem aos combatentes da guerra colonial. Aliás, vai condecorar três ex-combatentes da Guerra de África, um do “teatro” de Angola e dois de Moçambique.
O 10 de Junho passou a comemorar-se no Terreiro do Paço em 1963. Nesse ano, Salazar manda celebrar o “Dia da Raça” de uma forma diferente. A guerra colonial tinha começado há dois anos (Angola, 1961) e o poder político decidiu passar a fazer do Dia de Portugal um momento de celebração da guerra colonial e dos seus “heróis”, os soldados combatentes e os mortos.
Foi assim que aconteceu até 1973, embora no ano de 1972 as cerimónias oficiais do 10 de Junho tenham decorrido junto à Torre de Belém.
Uma gigantesca parada militar homenageava, ano após ano, o combate das forças armadas portuguesas contra a independência das então colónias. Depois de “O Mundo Português” ter acabado em 1974 – e com ele os festejos do Dia de Portugal no Terreiro do Paço -, veio agora o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, 42 anos depois do fim da Guerra Colonial, recuperar o lugar de memórias trágicas para cenário do “seu” 10 de Junho.
Os portugueses mais velhos – a começar por aqueles que combateram na guerra e suas famílias – lembram-se de ver na televisão esse 10 de Junho, cujo objetivo primeiro era condecorar os militares “por feitos em combate”. As famílias dos mortos nos campos de batalha recebiam condecorações a título póstumo.
Na edição de 11 de junho de 1973, o “Diário de Lisboa” fazia uma reportagem sobre o Dia de Portugal, referindo a presença “entre as forças em parada de duas companhias do navio-escola brasileiro ‘Custódio de Melo’, que também participaram no desfile final, de mais de três mil elementos dos três ramos das Forças Armadas, das corporações e dos estabelecimentos do ensino militar”.
O discurso do Presidente da República Américo Tomás, nesse 10 de Junho de 1973, é todo ele um panegírico aos “soldados e marinheiros” em guerra.
“Em todo o mundo português, seja nas terras da Mãe Pátria seja nas terras quentes do Ultramar, festeja-se hoje o dia de Portugal, de muito grande significado para os militares.”
No Terreiro do Paço, Américo Tomás homenageava as tropas: “Razão têm, assim, os militares para neste dia lembrar todos aqueles que deram a vida pela defesa da pátria, recordando todos os que em qualquer ponto do nosso território aguentam no cimo dos mastros a bandeira portuguesa.”
“Por tudo isto vestimos galas, seja nas praças mais importantes das mais importantes cidades, seja nos mais modestos e até por vezes inconfortáveis quartéis do mato africano. Será sempre uma festa sentida com coração militar.”
O momento era de derrota para os combatentes e a guerra era dada como perdida em alguns teatros – o caso mais óbvio era a Guiné-Bissau. É a partir deste “desânimo” das tropas que se desencadeia o Movimento das Forças Armadas, que derrubará o regime a 25 de Abril de 1974.
Nove meses antes, Américo Tomás já tinha percebido que alguma coisa não estava bem e tentava animar as tropas: “Teremos de responder ‘não’ a tudo o que possa diminuir ou enfraquecer a coesão das Forças Armadas, desfazer a sã camaradagem entre os militares de todos os escalões ou semear a discórdia e a confusão nas fileiras.”
Havia um “inimigo” e o poder pedia aos militares para não cederem. “Bem quer o inimigo que os nossos oficiais, sargentos e praças fiquem pelo meio do caminho que conduz à vitória. Bem se esforça o inimigo para destruir na juventude o ânimo forte que tantos heróis tem gerado.” Acreditava ainda o contra-almirante Tomás que “tudo tem sido em vão, porque o fogo sagrado vive inapagável no fundo da alma dos verdadeiros portugueses, dispostos a constituir fachos brilhantes de fé e de amor pátrio onde quer que seja preciso, na Guiné, em Angola ou em Moçambique”. Não é por acaso que Tomás refere os três principais teatros da guerra colonial.
Cavaco devolve dia Depois do 25 de Abril, a associação do Dia de Portugal aos militares desaparece. Não por um qualquer antimilitarismo do novo regime (foram os militares que fizeram a guerra que também fizeram o golpe do 25 de Abril), mas pela associação à guerra colonial.
Em todos os 10 de Junho seguintes, as cerimónias militares deixam as comemorações. Só Cavaco Silva, depois de ter chegado em 2006 à Presidência da República, irá voltar a associar o 10 de Junho às Forças Armadas e empenhar-se-á em homenagear os militares. Marcelo recupera agora o Terreiro do Paço.