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Violência. Raparigas estão mais agressivas e população menos tolerante a agressões
São 13 minutos de agressões contínuas

Violência. Raparigas estão mais agressivas e população menos tolerante a agressões

São 13 minutos de agressões contínuas Marta Cerqueira 13/05/2015 23:00

Os psicólogos ouvidos pelo i falam de um fenómeno recente: raparigas que usam a violência como forma de afirmação.

Constança e Marta põem-se em posição de ataque. Marta conta até três e começa a esbofetear um rapaz que está encostado a uma parede. Os amigos riem-se da sua falta de força e Constança decide mostrar como se faz. Fecha a mão em punho e diz: “Isto é que é força.” A partir daí, as duas vão trocando a posição de comando, perante o incentivo de um grupo de colegas. Mais murros, mais bofetadas e até joelhadas nos órgãos genitais. São 13 minutos de agressões transformadas em filme e que foram divulgadas nas redes sociais na noite de terça-feira. Antes de ser eliminado do YouTube, site que proíbe conteúdo concebido para “assediar, intimidar ou ameaçar”, contava com mais de 1,5 milhões de visualizações. As reacções de indignação não se fizeram esperar e o jovem agredido ganhou nome e até uma página de apoio no Facebook. “Todos pelo Jorge Oliveira” contava ontem à noite com mais de 8 mil likes e centenas de mensagens de apoio ao estudante da Escola Secundária Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz.

Agressão no feminino Apesar de o vídeo ter sido divulgado esta semana, a agressão aconteceu em Junho do ano passado e teve lugar numa zona residencial da cidade e não dentro da escola, como as primeiras notícias sobre o caso davam a entender. Com duas raparigas a liderar, o grupo fica completo com, pelo menos, mais seis adolescentes, identificados pela PSP, que vão surgindo durante o vídeo a incentivar a agressão. 

Para a coordenadora do Portal Bullying, Tânia Paias, este tipo de comportamento vem contrariar o que é comum entre raparigas: a exclusão e a violência verbal. “O sexo feminino não é tão dado à violência física como os rapazes, mas cada vez mais vemos caso de raparigas como agressoras”, esclarece a psicóloga, adiantando que este comportamento mostra uma forma distorcida de “afirmação perante o sexo oposto”.

O pediatra Mário Cordeiro vai mais longe e adverte que o caminho para uma igualdade entre os géneros “dá, a algumas pessoas, a sensação de que ‘finalmente posso fazer tudo’, privilégio que durante muitos anos era do sexo masculino”. Depois de analisar as imagens, o pediatra alerta para o facto de que, nestas idades – a vítima e os agressores têm entre 15 e 17 anos – , “as raparigas já têm corpo de adulto e alguns rapazes ainda são franzinos”. E aproveita o caso para lembrar que as campanhas contra a violência devem mostrar não só mulheres a serem maltratadas por homens como também o cenário inverso.

Género à parte, os psicólogos admitem que as agressões entre jovens sempre foram comuns. “Estamos é menos tolerantes face a isso, e muito bem”, diz Tânia Paias. A psicóloga aponta como diferença ao longo das últimas décadas a educação mais protectora dos pais, que pode influenciar negativamente o carácter dos jovens. “Temos miúdos muito mais frágeis e inseguros”, acrescentou. Apesar das diferenças, tanto de carácter como do tipo de violência, Mário Cordeiro refere que “a agressão em si foi como na idade das cavernas: soco, pontapé, murro, achincalhar”.

Prazos e consequências 

Depois de divulgado o vídeo, os pais de Jorge apresentaram queixa junto da PSP da Figueira da Foz. A polícia já identificou os suspeitos e reforçou a segurança nas duas escolas onde estudam os jovens. Entre os oito agressores identificados, quatro têm mais de 16 anos e serão alvo de procedimento criminal. Os restantes, menores de 16 anos, vão ver os processos a correr no tribunal de Família e Menores. O facto de a queixa ter sido apresentada mais de seis meses depois da agressão pode pôr em causa a sua validade, referem os advogados contactados pelo i. Saragoça da Matta lembra que, se o crime for considerado ofensa à integridade simples, o adolescente teria seis meses para apresentar queixa. “Mas se as ofensas forem consideradas graves, o crime muda de natureza e passa de semipúblico para público”, acrescenta. Nesse caso, já não existe a necessidade de queixa para a actuação das autoridades.

A advogada Rita Sassetti lembra que existe uma longa lista de itens que fazem com que o crime passe a ser público e aponta as duas alíneas que poderão dar validade a este caso: “praticar o facto contra pessoa particularmente indefesa em razão da idade” e “praticar o facto juntamente com, pelo menos, mais duas pessoas”.

Os dois advogados falam ainda da hipótese de a queixa apresentada ter sido relativa à divulgação do vídeo. “Nessa situação, é a sua honra e consideração que estão a ser postas em causa”, explica Saragoça da Matta, acrescentando que, nesse cenário, a queixa entra a tempo, tendo em conta que o vídeo foi divulgado esta semana. O i tentou, sem sucesso, saber junto da PSP de Coimbra a natureza da queixa apresentada. 

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