Talento em Lisboa


O sucesso e reconhecimento internacional dos nossos estudantes, professores e investigadores torna-os alvos naturais da competição global por talento


Setembro é o momento da renovação anual nas universidades. Novos estudantes iniciam os seus estudos de licenciatura, mestrado ou doutoramento. Novos professores e investigadores iniciam os seus contratos. Licenciados, mestres e doutores lançam-se nas suas carreiras profissionais. Este movimento perpétuo de renovação alimenta as universidades com muitos sonhos, grandes expectativas e novas ideias. É também fonte de renovação para as empresas, a indústria ou para as organizações para onde os novos graduados levam também um pouco da universidade, das suas ideias e da forma de resolver problemas complexos com saber e técnica. Quebrar este ciclo de renovação é, sem dúvida, desastroso.

Atualmente, assistimos em tempo real, a uma “experiência natural” nos Estados Unidos que começa a quebrar este círculo virtuoso e está já a desviar estudantes de doutoramento, investigadores e professores, que naturalmente ingressariam em universidades americanas, para outros locais do Mundo. A História permite-nos antecipar as consequências desta quebra. O domínio tecnológico norte americano no pós-guerra é resultado do êxodo das universidades europeias e o salto qualitativo das universidades norte-americanas, simultaneamente transformadas em instrumentos de aceleração da inovação e crescimento económico, através do reforço da sua missão como produtoras de conhecimento de elevada qualidade, livres de restrições intelectuais ou menores constrangimentos financeiros.

O impacto da quebra deste ciclo não se sentirá apenas nas universidades. Também as empresas, a indústria e toda a economia que depende de trabalhadores altamente qualificados será afetada. Em Lisboa poderemos começar a sentir também a curto prazo a quebra do ciclo de renovação. A origem não está nas políticas dirigidas às universidades ou à ciência mas numa “maldição do sucesso” da cidade de Lisboa. Esta “maldição do sucesso” afeta a capacidade das instituições científicas e das universidades de Lisboa para, por exemplo, se reequiparem por via de fundos estruturais europeus e limita a sua capacidade para colaborarem com empresas e indústria. Por exemplo, em Lisboa as taxas de cofinanciamento deste tipo de projetos situam-se nos 40% (ou seja, a instituição que desenvolve o projeto tem de encontrar 60% dos fundos de outras fontes para executar o projeto) enquanto, na generalidade do resto do país, assistimos a taxas de cofinanciamento de 80%. Como consequência desta assimetria as universidades e os centros de investigação têm maiores dificuldades para renovar os seus equipamentos científicos e as suas instalações.

Em simultâneo, os desafios associados à habitação e aumento do custo de vida têm, como consequência natural, a diminuição dos estudantes que se mudam para Lisboa e para Portugal. Também aumentam a dificuldade para atrair e reter professores, investigadores e outros profissionais. E se esta deslocação de talento que as universidades promovem em larga escala não é catalisada, toda a economia é afetada. Muitas empresas internacionais das áreas tecnológicas abrem delegações em Portugal, e em Lisboa em particular, por saberem que conseguem recrutar, em grande escala, talento de elevada qualidade e com excelente formação.

Em todo o Mundo, muitos dos grandes centros de produção do conhecimento e as grandes universidades estão também localizadas em locais que sofrem de pressões equivalentes. Um artigo recente na revista “The Economist” escrevia, relativamente à Universidade de Oxford: “Good luck trying to become a professor if you don’t have family money”.

Não existem soluções fáceis para este problema, mas não nos devemos esquecer que um dos papéis das universidades é também ser um elevador social. A inexistência de políticas de apoio a alojamento de qualidade e com um custo razoável e competitivo, por exemplo face a outras cidades europeias ou próximas da residência familiar, compromete o acesso dos estudantes às melhores instituições nacionais.

Muitos estudantes e as suas famílias estão, apesar de todos os desafios, disponíveis para investir na formação em universidades porque sabem que será aí que vão encontrar o melhor ambiente intelectual, professores inspiradores e melhores infraestruturas e condições para amplificar o seu potencial. No entanto, atrair professores e investigadores – o aspeto crítico numa universidade – é ainda mais desafiador. Os melhores professores e investigadores recebem ofertas de emprego e são aliciados por instituições de todo o Mundo. São-lhes oferecidas condições salariais diferenciadas, pacotes de financiamento para lançamento dos seus laboratórios, apoios específicos para o início da carreira e até para aquisição de habitação na cidade. Os novos professores e investigadores procuram ambientes científicos estimulantes, estudantes de qualidade, e condições para o seu desenvolvimento pessoal e familiar. Algumas experiências, ainda que limitadas, como as que fazemos no Técnico para os novos professores, com o programa “Shaping the Future”, demonstram que estes elementos, quando amplificados, são determinantes para se atraírem professores e investigadores de elevada qualidade.

O sucesso e reconhecimento internacional dos nossos estudantes, professores e investigadores torna-os alvos naturais da competição global por talento. Lisboa oferece uma qualidade de vida altamente atrativa. Para que essa vantagem se traduza numa verdadeira capacidade de reter e atrair estudantes, professores e investigadores, os incentivos e políticas devem alinhar-se com este objetivo, reproduzindo o que já é feito em muitos locais do Mundo colocados perante desafios equivalentes: apoios financeiros reforçados aos estudantes (por exemplo, 46%/55% dos estudantes de licenciatura das Universidades de Stanford/Harvard receberam apoio no último ano lectivo), ou apoios direccionados aos novos professores/investigadores (por exemplo, fundos para iniciar equipa de investigação, ou concursos específicos de financiamento em exclusivo para professores/investigadores em período experimental, como o programa NSF Career). Cabe às universidades, às autarquias e às empresas da área metropolitana de Lisboa assumir um papel ativo nesse esforço, potenciando os predicados da cidade e transformando-os num fator decisivo para contrariar as forças que afastam o talento da capital.

Professor do Instituto Superior Técnico

Talento em Lisboa


O sucesso e reconhecimento internacional dos nossos estudantes, professores e investigadores torna-os alvos naturais da competição global por talento


Setembro é o momento da renovação anual nas universidades. Novos estudantes iniciam os seus estudos de licenciatura, mestrado ou doutoramento. Novos professores e investigadores iniciam os seus contratos. Licenciados, mestres e doutores lançam-se nas suas carreiras profissionais. Este movimento perpétuo de renovação alimenta as universidades com muitos sonhos, grandes expectativas e novas ideias. É também fonte de renovação para as empresas, a indústria ou para as organizações para onde os novos graduados levam também um pouco da universidade, das suas ideias e da forma de resolver problemas complexos com saber e técnica. Quebrar este ciclo de renovação é, sem dúvida, desastroso.

Atualmente, assistimos em tempo real, a uma “experiência natural” nos Estados Unidos que começa a quebrar este círculo virtuoso e está já a desviar estudantes de doutoramento, investigadores e professores, que naturalmente ingressariam em universidades americanas, para outros locais do Mundo. A História permite-nos antecipar as consequências desta quebra. O domínio tecnológico norte americano no pós-guerra é resultado do êxodo das universidades europeias e o salto qualitativo das universidades norte-americanas, simultaneamente transformadas em instrumentos de aceleração da inovação e crescimento económico, através do reforço da sua missão como produtoras de conhecimento de elevada qualidade, livres de restrições intelectuais ou menores constrangimentos financeiros.

O impacto da quebra deste ciclo não se sentirá apenas nas universidades. Também as empresas, a indústria e toda a economia que depende de trabalhadores altamente qualificados será afetada. Em Lisboa poderemos começar a sentir também a curto prazo a quebra do ciclo de renovação. A origem não está nas políticas dirigidas às universidades ou à ciência mas numa “maldição do sucesso” da cidade de Lisboa. Esta “maldição do sucesso” afeta a capacidade das instituições científicas e das universidades de Lisboa para, por exemplo, se reequiparem por via de fundos estruturais europeus e limita a sua capacidade para colaborarem com empresas e indústria. Por exemplo, em Lisboa as taxas de cofinanciamento deste tipo de projetos situam-se nos 40% (ou seja, a instituição que desenvolve o projeto tem de encontrar 60% dos fundos de outras fontes para executar o projeto) enquanto, na generalidade do resto do país, assistimos a taxas de cofinanciamento de 80%. Como consequência desta assimetria as universidades e os centros de investigação têm maiores dificuldades para renovar os seus equipamentos científicos e as suas instalações.

Em simultâneo, os desafios associados à habitação e aumento do custo de vida têm, como consequência natural, a diminuição dos estudantes que se mudam para Lisboa e para Portugal. Também aumentam a dificuldade para atrair e reter professores, investigadores e outros profissionais. E se esta deslocação de talento que as universidades promovem em larga escala não é catalisada, toda a economia é afetada. Muitas empresas internacionais das áreas tecnológicas abrem delegações em Portugal, e em Lisboa em particular, por saberem que conseguem recrutar, em grande escala, talento de elevada qualidade e com excelente formação.

Em todo o Mundo, muitos dos grandes centros de produção do conhecimento e as grandes universidades estão também localizadas em locais que sofrem de pressões equivalentes. Um artigo recente na revista “The Economist” escrevia, relativamente à Universidade de Oxford: “Good luck trying to become a professor if you don’t have family money”.

Não existem soluções fáceis para este problema, mas não nos devemos esquecer que um dos papéis das universidades é também ser um elevador social. A inexistência de políticas de apoio a alojamento de qualidade e com um custo razoável e competitivo, por exemplo face a outras cidades europeias ou próximas da residência familiar, compromete o acesso dos estudantes às melhores instituições nacionais.

Muitos estudantes e as suas famílias estão, apesar de todos os desafios, disponíveis para investir na formação em universidades porque sabem que será aí que vão encontrar o melhor ambiente intelectual, professores inspiradores e melhores infraestruturas e condições para amplificar o seu potencial. No entanto, atrair professores e investigadores – o aspeto crítico numa universidade – é ainda mais desafiador. Os melhores professores e investigadores recebem ofertas de emprego e são aliciados por instituições de todo o Mundo. São-lhes oferecidas condições salariais diferenciadas, pacotes de financiamento para lançamento dos seus laboratórios, apoios específicos para o início da carreira e até para aquisição de habitação na cidade. Os novos professores e investigadores procuram ambientes científicos estimulantes, estudantes de qualidade, e condições para o seu desenvolvimento pessoal e familiar. Algumas experiências, ainda que limitadas, como as que fazemos no Técnico para os novos professores, com o programa “Shaping the Future”, demonstram que estes elementos, quando amplificados, são determinantes para se atraírem professores e investigadores de elevada qualidade.

O sucesso e reconhecimento internacional dos nossos estudantes, professores e investigadores torna-os alvos naturais da competição global por talento. Lisboa oferece uma qualidade de vida altamente atrativa. Para que essa vantagem se traduza numa verdadeira capacidade de reter e atrair estudantes, professores e investigadores, os incentivos e políticas devem alinhar-se com este objetivo, reproduzindo o que já é feito em muitos locais do Mundo colocados perante desafios equivalentes: apoios financeiros reforçados aos estudantes (por exemplo, 46%/55% dos estudantes de licenciatura das Universidades de Stanford/Harvard receberam apoio no último ano lectivo), ou apoios direccionados aos novos professores/investigadores (por exemplo, fundos para iniciar equipa de investigação, ou concursos específicos de financiamento em exclusivo para professores/investigadores em período experimental, como o programa NSF Career). Cabe às universidades, às autarquias e às empresas da área metropolitana de Lisboa assumir um papel ativo nesse esforço, potenciando os predicados da cidade e transformando-os num fator decisivo para contrariar as forças que afastam o talento da capital.

Professor do Instituto Superior Técnico