Saída de Pedro Duarte é a ocasião para refrescar o Governo

Saída de Pedro Duarte é a ocasião para refrescar o Governo


Montenegro está preocupado com os resultados que tem para apresentar ao fim de um ano. O momento pode ser de mexidas profundas no Governo


Apesar das justificações dadas em público pela ministra da Saúde, na sequência dos resultados do relatório preliminar da Inspeção Geral das Atividade em Saúde (IGAS), a posição de Ana Paula Martins no Governo voltou nas últimas horas a ser posta em questão.
Além dos pedidos de demissão, vindos de todos os partidos da oposição, a verdade é que também no interior do Governo se começam a levantar dúvidas sobre as condições que a ministra tem para se manter no cargo.
No interior do Executivo há quem considere que a posição de Ana Paula Martins depende agora da apresentação de resultados visíveis, que tardam em chegar. Todos reconhecem que a tarefa não é fácil, e muito menos depende de uma mudança de titular da pasta. Mas o que é facto é que à dificuldade da tarefa, a atual ministra junta uma gestão confrontacional com as várias estruturas da Saúde, ao mesmo tempo que as nomeações que tem vindo a fazer não lhe têm corrido bem. Tudo somado, são cada vez mais os que acham muito difícil a manutenção por muito mais tempo no Governo da titular da pasta da Saúde.

Pedro Duarte pode levar a remodelação
Não faltará muito tempo para que Luís Montenegro tenha que voltar a fazer mexidas no Governo. Fontes conhecedoras do processo garantem que a saída de Pedro Duarte do Executivo, para se candidatar à Câmara do Porto, terá de ocorrer entre o fim de março e o fim do mês de abril.
Nessa altura, o primeiro-ministro vai ter que fazer uma avaliação do Governo. Ou aproveita a saída do seu ministro dos Assuntos Parlamentares para refrescar o Governo e resolver problemas latentes, ou será muito mais complicado fazê-lo em momento posterior.
Ana Paula Martins, Margarida Blasco e Dalila Rodrigues são os três nomes apontados como os mais frágeis do Executivo. Montenegro tem querido segurar as ministras nos diversos casos em que se têm envolvido, mas o desgaste natural do Governo e o facto de duas delas ocuparem pastas pesadas e cruciais para o Governo, pode levar o chefe do Executivo a precipitar as mudanças.

Balanço de um ano de governo preocupa
No momento em que fizer a remodelação, maior ou mais pequena, o Governo estará a cumprir um ano em funções. É uma data redonda que leva sempre a fazer balanços e análises sobre as metas cumpridas do Governo.
As contas que se vão fazer à obra feita preocupam o líder do Governo da AD, que, há um ano, quando iniciou funções, pôs um grande enfoque na solução dos problemas da Saúde e da Segurança. Apesar das gafes da ministra da Administração Interna, a verdade é que em matéria de segurança as coisas não têm estado a correr mal para a agenda do Governo. Os protestos das forças de segurança acalmaram e a maior atenção dada ao tema por parte do Governo tem tido alguns resultados. É certo que tudo isto tem sido possível graças a uma menor visibilidade da ministra que raramente fala ou aparece, cumprindo uma estratégia de contenção de danos, mas, apesar de tudo, o facto de Margarida Blasco ser considerada entre as forças de segurança, leva, ao que nos dizem, o primeiro-ministro a hesitar sobre se mantém ou não a ministra no Governo.
Apesar de ser uma decisão difícil, Ana Paula Martins é vista como o elo mais fraco do Governo neste momento. Os próximos dias prometem não aliviar a tensão sobre a ministra da Saúde, já que o caso das mortes provocadas pelas falhas do INEM vai continuar a dar que falar, não só com a sequência do relatório conhecido esta quarta-feira, como porque se espera um outro, especificamente sobre o nexo de causalidade entre as mortes registadas nos dias das greves de outubro e novembro de 2024 e as falhas do INEM. (ver página 21). Nos últimos tempos, Montenegro tem-se esforçado por valorizar o trabalho da ministra da Saúde, inclusivamente em reuniões internas do partido, onde Ana Paula Azevedo é apresentada como uma das ministras fortes do Executivo. O problema é que na hora do balanço, a ministra soma mais problemas do que soluções. Ao que disseram ao nosso jornal, o momento é de esperar resultados, «ela tem de ter alguma coisa para mostrar, coisa que até agora não aconteceu». Se não houver sinais de inversão do ciclo, diz ao Nascer do SOL uma fonte próxima do Governo, é muito difícil que Ana Paula Martins possa continuar. «O problema é que todos sabemos que não é a mudança de ministro que vai resolver os principais problemas», acrescenta.
Com menos peso no Governo, a ministra da Cultura é indicada como remodelável. Em causa estará a relação difícil com muitos agentes do meio mas não só. Ao longo deste ano em funções, Dalila Rodrigues colocou também alguma areia na engrenagem no interior do próprio Executivo.
Com pouco espírito colaborativo e muitas decisões consideradas intempestivas, o ambiente azedou quando, sem dar conhecimento a ninguém, a ministra decidiu inverter a mudança de gabinete que tinha sido determinada pelo núcleo duro do Governo. O ministério da Cultura, que funcionava no Palácio da Ajuda, recebeu instruções para mudar de instalações no início do ano. Na data prevista, o gabinete de Dalila Rodrigues mudou-se para o Campus XXI, edifício sede do Governo, onde já estavam instalados muitos outros Ministérios. O problema é que a ministra não chegou a aquecer o lugar no Campo Pequeno. Desagradada com as condições do novo gabinete, Dalila Rodrigues deu ordens à equipa para regressar ao Palácio da Ajuda, onde já não havia computadores nem outros equipamentos indispensáveis ao trabalho. O episódio insólito agravou o mal estar interno no Executivo e Leitão Amaro, o ministro da Presidência responsável pela logística impôs à equipa da cultura que regressasse à base. Foi uma história que deixou marcas e que terá ditado a decisão de substituir a ministra assim que houver oportunidade.

mais candidatos a sair do governo
Sendo as eleições autárquicas o principal motivo para a remodelação, as saídas para candidaturas autárquicas podem não se ficar por Pedro Duarte, garantem ao Nascer do SOL. A acontecer, os escolhidos não serão outros ministros, mas sim, secretários de Estado.
Tudo somado, a remodelação que começou por ser cirúrgica, pode transformar-se mesmo numa remodelação de fundo, não só para corrigir erros, mas também para preparar o Governo para uma nova fase, em que tem de enfrentar eleições autárquicas e presidenciais, momentos cruciais para se começar a perceber quanto mais tempo de vida tem o Governo.
A nova fase começa com a aprovação, ou não, do Orçamento para 2026 que acontecerá imediatamente após as eleições autárquicas. Socialistas e Chega olham para os resultados das eleições locais como um marco fundamental para avaliar da capacidade do Governo da AD seguir em frente e do resultado destas eleições dependerá uma decisão final sobre o que fazer: deixar passar mais um Orçamento ou chumbá-lo.