Eu, que não escrevi o artigo de Gouveia e Melo


Almas combativas e mordazes acusaram o almirante de andar submerso, executando milimetricamente o plano de campanha: não aparecer, não falar, acenar a partir de Outubro e chegar ao dia das eleições presidenciais, em 25 de Janeiro de 2026.


Helás! Gouveia e Melo, depois de extinguir um auto-organizado movimento de apoio, sentiu a necessidade de dizer ao que vem. Fê-lo por escrito, na passada sexta-feira, e encheu seis-colunas-seis de a Revista do Expresso.

O artigo é um acto de sondagem, enfiando a vara na água para detectar a profundidade dos fundos e dos eleitores. Lido, descobre-se que se acabou a vara e ainda não tocou o fundo. O texto está fora de pé, o tempo de submersão foi excessivo, as palavras chegam bafientas e as ideias têm mofo. Titulado “Honrar a democracia” não desdenha a glosa desta estranha ideia: a democracia está desonrada e precisa de um cavaleiro que, por amor cortês, a salve pelos feitos de armas políticas. O dualismo entre democracia “honrada” (a que há-de vir no fim do ciclo protagonizado pelo novo herói) e a democracia desonrada (a que temos ao dia de hoje) arrepia.

Há no artigo um profundo desconhecimento do que sejam os poderes do Presidente da República desde a revisão constitucional de 1982, decidida por Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, e feita, por sinal, contra as derivas interpretativas dos poderes presidenciais ensaiadas por um outro militar. Gouveia e Melo pretende “reiniciar o sistema fora dos períodos eleitorais previstos”, o que o aproxima da prática do actual Presidente no que respeita à dissolução da Assembleia da República. Já quanto à demissão do Governo, o ainda não candidato tem um entendimento amplíssimo do que seja “o regular funcionamento das instituições democráticas” previsto no nº 2 do artigo 195º da CRP, entendimento que inclui a “perda de confiança do povo no Governo em funções”. Medida pelas sondagens, a perda de confiança do povo no Governo de turno (que Gouveia e Melo também estende à confiança no Parlamento) é quase permanente. Anuncia-se um regresso à prática da I República (45 Governos e duas Juntas entre 1910 e 1926)…

O texto de Gouveia e Melo deveria ser dedicado a todos os nègres, litéraires e não só, escribas e outros, autores anónimos de muito do que os políticos escrevem. Cada uma das seis colunas parece ter um autor diferente, um estilo díspar, uma origem académica variegada: há um cientista político (com duas bengalas e uma “democracia liberal”), um gestor (que sonha com “elevado valor acrescentado”), um comunicador modernaço (“cidadãos empoderados”), um ambientalista contemporâneo de Aldo Leopold (que prega a favor da “preservação ambiental”),  um mau tradutor (que usa “checks and balances” por pesos e contrapesos) e um auto-retratista que percorre o campo semântico do funil (“Na conjuntura actual, um Presidente sem a independência necessária afunila a democracia.”[…] “É tempo de ir além do óbvio e dos interesses imediatos, sem afunilamentos.”). Felizmente que do topo da III coluna se proclama: “Não basta sonhar ou recorrer a discursos elaborados, repletos de fórmulas gastas e banalidades cínicas”.

São Ghostwriters, dirão, escritores fantasma, como aqueles que deram à estampa o “Eu Carolina”, de Carolina Salgado. Cada um tem os negros que merece. São conhecidos casos de Presidentes sombra, eternos candidatos ao exercício da função mas que nunca se apresentaram a eleições. Afinal também haverá Presidentes fantasma?

Eu, que não escrevi o artigo de Gouveia e Melo


Almas combativas e mordazes acusaram o almirante de andar submerso, executando milimetricamente o plano de campanha: não aparecer, não falar, acenar a partir de Outubro e chegar ao dia das eleições presidenciais, em 25 de Janeiro de 2026.


Helás! Gouveia e Melo, depois de extinguir um auto-organizado movimento de apoio, sentiu a necessidade de dizer ao que vem. Fê-lo por escrito, na passada sexta-feira, e encheu seis-colunas-seis de a Revista do Expresso.

O artigo é um acto de sondagem, enfiando a vara na água para detectar a profundidade dos fundos e dos eleitores. Lido, descobre-se que se acabou a vara e ainda não tocou o fundo. O texto está fora de pé, o tempo de submersão foi excessivo, as palavras chegam bafientas e as ideias têm mofo. Titulado “Honrar a democracia” não desdenha a glosa desta estranha ideia: a democracia está desonrada e precisa de um cavaleiro que, por amor cortês, a salve pelos feitos de armas políticas. O dualismo entre democracia “honrada” (a que há-de vir no fim do ciclo protagonizado pelo novo herói) e a democracia desonrada (a que temos ao dia de hoje) arrepia.

Há no artigo um profundo desconhecimento do que sejam os poderes do Presidente da República desde a revisão constitucional de 1982, decidida por Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, e feita, por sinal, contra as derivas interpretativas dos poderes presidenciais ensaiadas por um outro militar. Gouveia e Melo pretende “reiniciar o sistema fora dos períodos eleitorais previstos”, o que o aproxima da prática do actual Presidente no que respeita à dissolução da Assembleia da República. Já quanto à demissão do Governo, o ainda não candidato tem um entendimento amplíssimo do que seja “o regular funcionamento das instituições democráticas” previsto no nº 2 do artigo 195º da CRP, entendimento que inclui a “perda de confiança do povo no Governo em funções”. Medida pelas sondagens, a perda de confiança do povo no Governo de turno (que Gouveia e Melo também estende à confiança no Parlamento) é quase permanente. Anuncia-se um regresso à prática da I República (45 Governos e duas Juntas entre 1910 e 1926)…

O texto de Gouveia e Melo deveria ser dedicado a todos os nègres, litéraires e não só, escribas e outros, autores anónimos de muito do que os políticos escrevem. Cada uma das seis colunas parece ter um autor diferente, um estilo díspar, uma origem académica variegada: há um cientista político (com duas bengalas e uma “democracia liberal”), um gestor (que sonha com “elevado valor acrescentado”), um comunicador modernaço (“cidadãos empoderados”), um ambientalista contemporâneo de Aldo Leopold (que prega a favor da “preservação ambiental”),  um mau tradutor (que usa “checks and balances” por pesos e contrapesos) e um auto-retratista que percorre o campo semântico do funil (“Na conjuntura actual, um Presidente sem a independência necessária afunila a democracia.”[…] “É tempo de ir além do óbvio e dos interesses imediatos, sem afunilamentos.”). Felizmente que do topo da III coluna se proclama: “Não basta sonhar ou recorrer a discursos elaborados, repletos de fórmulas gastas e banalidades cínicas”.

São Ghostwriters, dirão, escritores fantasma, como aqueles que deram à estampa o “Eu Carolina”, de Carolina Salgado. Cada um tem os negros que merece. São conhecidos casos de Presidentes sombra, eternos candidatos ao exercício da função mas que nunca se apresentaram a eleições. Afinal também haverá Presidentes fantasma?