Altruísmo em tempo de guerra


Reconheçamos a importância do altruísmo e da compaixão hoje e amanhã, quando o vírus do individualismo teimar em regressar para uma segunda vaga e volte a ser a pandemia do séc. XXI.


Não há memória de uma desgraça tão assustadora quanto esta, em que o inimigo não se vê nem se pode fugir dele. Não há exército que avance para a linha da frente, numa tentativa de parar a ofensiva ou, pelo menos, de a suster, protegendo os civis que ficaram para trás. A teoria da estratégia e os estudos de defesa não se aplicam nesta guerra em que todos somos convocados para a linha defensiva, como melhor forma de eliminar o adversário.

Estamos sós nesta batalha. Cada um em sua trincheira, com as armas que tem à mão: álcool, luvas, máscaras e moral. A solidão faz parte da tática definida para os soldados de infantaria, ao contrário dos batalhões que reuniam várias companhias e se lançavam contra os exércitos adversários.

Vivemos um tempo de grandes mudanças e de desafios globais assustadores. Não só neste preciso momento de combate ao vírus como a seguir, quando a vitória sobre o mesmo se concretizar, iremos ser postos à prova, uma vez mais. A vitória será amarga e à custa de muitas baixas, com consequências duras para a sociedade e para cada um de nós. Se todos os dias nos reinventamos para nos adaptarmos à quarentena e ao isolamento, quando tudo acalmar teremos de nos adaptar às consequências desta experiência, repensando o nosso modelo de consumo, de vivência e de preparação para situações análogas.

É necessário encontrar uma ética mundial que congregue todos na prossecução do bem coletivo, que nos proteja de nós próprios e do nosso individualismo. O que estamos a passar demonstra que, lá no fundo, queremos fazer parte de um bem maior e sabemos bem como fazê-lo quando somos chamados às nossas responsabilidades. Hoje fazemos parte de uma cadeia que não ousamos quebrar, por nós e pelo próximo. Mas onde estava este sentido há um mês? Não havia consciência da sua presença, porque não o nutríamos. Era um sentido nonsense, ignorado por uns, completamente desconhecido de outros: o sentido de pertença à comunidade.

Por natureza, somos animais sociais que individualmente sobrevivemos e dependemos da comunidade. O egocentrismo tem vencido a luta contra a nossa natureza mais compassiva, substituindo na dialética social o “nós” pelo “eles” – uma tendência que tem ganho terreno no palco mediático e que alastra à organização económica, social e política da nossa sociedade.

Confirma-se que não somos indivíduos independentes e que a nossa força e, quem sabe, a nossa sobrevivência advêm da interconectividade cooperante, desencadeando um processo social que nos favorece a todos.

Esta é uma certeza a reter para os próximos tempos. Tempos que podem ser muito complicados se não reconhecermos que temos de nos sujeitar a uma transformação social que resulte numa ética para todo o mundo, criando união entre os Estados e todos os cidadãos, independentemente das nossas identidades.

A mudança cultural pode acontecer se cada um de nós insistir na mudança pessoal e continuar este processo de crescimento interior, ainda que solitário, por tempo indeterminado. A consciência de cada um, sem os filtros sociais e sem os holofotes que induzem erraticamente ao caminho do individualismo, pode vir a ser a soma de mudanças que nos façam abandonar características de personalidade que fomos absorvendo inadvertidamente.

Não desperdicemos o altruísmo, a compaixão e tudo o que associamos à bondade que temos evidenciado nestas semanas. Rentabilizemos este caminho que pode vir a ser um produto da evolução.

À semelhança do que fazemos a partir das janelas das nossas casas há vários dias, continuemos a desencorajar o comportamento egoísta entre os indivíduos. Valorizemos quem tem a coragem de se entregar e reconheça em si uma responsabilidade individual perante os outros. Reconheçamos a importância destes valores hoje e amanhã, quando o novo coronavírus já não se encontrar entre nós e o vírus do individualismo teime em regressar para uma segunda vaga e volte a ser a pandemia do séc. xxi.