(continuação do artigo anterior)
Na altura foi assumida pela câmara municipal como principal estratégia o reforço da capacidade operacional da empresa, investindo nos recursos físicos e humanos necessários para relançar a empresa de transporte público, colocando-a ao serviço de uma política de mobilidade coerente e que permita, como já se disse, promover o seu uso no dia-a-dia pelos cidadãos de forma segura, rápida e cómoda.
Lançou-se imediatamente uma política de aquisição de autocarros e elétricos, tendo desde 2017 a frota da Carris aumentado em mais 100 autocarros; encontra-se em curso a aquisição de mais 70 autocarros a gás de baixas emissões e ultima-se o procedimento de aquisição de outros 30 autocarros elétricos. Encontra-se em fase final de adjudicação a aquisição de 15 elétricos rápidos, mais que duplicando a atual capacidade, num investimento de mais de 45 milhões de euros nestas composições.
Este investimento em material circulante tem como objetivo a mais que obviamente necessária renovação da frota pertencente à Carris, mas visa sobretudo o reforço da capacidade da oferta, dando resposta àquela que terá sido, nos últimos anos, a medida com maior impacto social nas famílias portuguesas que se concentram nas áreas metropolitanas do país: a redução do preço dos passes e a política do passe único com o novo sistema tarifário desde 2019.
Não tecerei loas à revolução operada, para melhor, na vida de todos aqueles que usufruem do passe único, em especial, tendo esta medida operado do ponto vista do rendimento disponível das famílias como nenhuma outra medida de aumento de salários em Portugal. Os utilizadores frequentes dos transportes públicos têm bem essa noção. Quero, antes, realçar a importância da medida no impacto em matéria da mobilidade e no aumento da utilização do transporte público. Os números falam por si.
Durante o ano de 2019 já foram transportados perto de 562 milhões de passageiros nos serviços de transporte público dentro da Área Metropolitana de Lisboa. Desde a implementação do novo sistema tarifário, entre abril e novembro de 2019, foram transportados mais 63 milhões de passageiros face a igual período de 2018, o que corresponde a um aumento médio de 17,4%.
Ainda, de acordo com os dados disponibilizados pela Área Metropolitana de Lisboa, que podem ser consultados aqui em novembro de 2019 foram vendidos 764 mil passes, o que corresponde a um aumento de 36,3% na venda de passes em relação ao período homólogo.
Acresce ainda que a Carris inaugurou as “carreiras de bairro”, aumentando a oferta na mobilidade local ao nível das freguesias de Lisboa e apoiando assim os trajetos dentro da zona de residência dos cidadãos. Das 21 carreiras de bairro planeadas estão já em funcionamento mais de metade, prevendo-se a conclusão do projeto até ao final de 2020.
Por último, uma nota para o investimento em ciclovias na cidade e o apoio aos modos de mobilidade suave, com o objetivo de dotar a cidade de meios de mobilidade mais sustentáveis. A par do investimento na “GIRA” – bicicletas públicas de utilização partilhada – e na sua rede, cujo sucesso apenas contrasta com a exigência pública de aumento da rede de forma mais célere, Lisboa conta atualmente com cerca de 100 quilómetros de ciclovias e pretende a sua duplicação em 2021, num investimento de cerca de 20 milhões de euros já em 2020, bem como um investimento de 13 milhões de euros em pavimentos e acessibilidade pedonal.
De forma genérica, e voltando ao propósito inicial com que começámos este artigo, só por incúria ou clara discordância com a estratégia adotada (o que é legítimo) se pode afirmar que não existe uma clara política de mobilidade sustentável em Lisboa. Os desafios continuam a ser muitos e prova disso é o pré-anúncio de Fernando Medina, na abertura da Capital Europeia Verde, quanto às alterações que se preparam em matéria de mobilidade na Baixa da cidade.