João Matias. “Portugal é dos países europeus onde se consome menos droga”

João Matias. “Portugal é dos países europeus onde se consome menos droga”


É especialista em águas residuais, onde descobre que drogas escondem os esgotos. E sabe que a cocaína está cada vez mais pura.


O edifício onde está o European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction fica no Cais do Sodré, em Lisboa. E foi num ambiente a lembrar Bruxelas que João Matias nos recebeu, não sem que antes uma responsável do marketing do instituto nos explicasse as especialidades do entrevistado, além de nos fornecer vasta literatura do gabinete sobre o fenómeno da droga. João Matias já incorpora bem o espírito de Bruxelas, mas não deixa de ter uma costela bem portuguesa. 

Como se tornou epidemiologista?

A minha formação base é em desenvolvimento comunitário, estudei em Lisboa. Mas depois continuei em Londres, com o mestrado em Epidemiologia. Todo o meu percurso profissional tem sido no fenómeno das drogas e trabalho no Observatório há mais de 14 anos, com o intervalo de um ano, que estive a trabalhar nas Nações Unidas, em Viena, no Gabinete de Drogas e Crime. Aqui trabalho mais na área da saúde pública. Portanto, todo o meu enfoque é coordenar o trabalho na área dos consumos: quais as substâncias, quantas pessoas, quais os padrões de consumo, quais as drogas, se são adulteradas, se não são. Ou seja, o Observatório tem como função recolher dados na área da saúde e da segurança. Em Viena, trabalhei mais na área dos mercados, na coordenação de todo o trabalho que faziam na análise de mercados de drogas a nível mundial.

O que significa isso?

É mais ligado à produção, ao cultivo, ao tráfico. Aqui é mais na área da Saúde.

O que fazia?

Coordenávamos a nível mundial. Como aqui fazemos relatórios a nível europeu, as Nações Unidas têm de fazer a análise global. A minha responsabilidade lá era coordenar a parte do Relatório Mundial de Drogas sobre mercados. Desde a produção às apreensões pela Polícia.

Como se faziam esses relatórios?

São muito baseados em dados da alfândegas e de polícias, de apreensões, de análises de pureza, do preço… Depois existem estudos específicos das zonas de cultivo no Afeganistão, principalmente para a heroína, em que há análises através de helicópteros em que se consegue fazer um mapeamento das zonas de cultivo. O mesmo se passa na Colômbia para a cocaína. E faziam também o mesmo no Peru. As estimativas de cultivo são com base em imagens de helicópteros mas também de satélite.

Têm os vossos próprios helicópteros?

Nós não, mas nas Nações Unidas subcontratavam.

Viu ou não um aumento da produção? No Afeganistão, por exemplo.

Na altura em que estive nas Nações Unidas, entre 2014 e 2015, estava a haver um aumento na produção de heroína, especialmente na área do Afeganistão e também na área do México, que fornecia principalmente o mercado norte-americano. É interessante, porque toda a heroína da Europa vem do Afeganistão, mas nos Estados Unidos, Canadá, parece que vem toda do México, é produzida no continente americano. E estava já a haver um aumento. Na área da cocaína estávamos a começar a ver um aumento na produção e agora, nos anos 2018, 2019 temos visto recordes de produção na América do Sul, especialmente na Colômbia.

Uma das suas funções é testar a qualidade do que se consome. Tenho ideia de que em Portugal existiu uma experiência em que as pessoas chegavam à discoteca e davam ecstasy para saber qual era a percentagem de MD. Existe isso em Portugal?

Neste momento, sim. Mas acho que devemos contextualizar a parte do testar as drogas que são consumidas. Primeiro, são testadas antes e não quer dizer que as pessoas depois consumam. Isto chama-se o drug checking. Em português penso que nem há tradução, será ‘serviço de análise de drogas’. Por que razão o drug checking interessa para o Observatório Europeu? Por três componentes primordiais: o drug checking é, de raiz, uma intervenção de redução de riscos. Há duas, três décadas que existe em países como a Holanda, Espanha, Áustria… Foi criado por organizações não governamentais que participavam principalmente em raves e festivais, para dar esse serviço a quem queria utilizar. Segundo, permite ao Observatório monitorizar o mercado, ver que drogas é que estão realmente disponíveis no mercado e que potencialmente as pessoas podem consumir. Terceiro, é uma componente de deteção rápida de novas substâncias. Assim que são testadas, são reportadas às entidades nacionais. Essas são as três principais componentes de importância desse serviço. Neste momento, é relevante ter um serviço desses disponível porque a situação das drogas nas últimas duas décadas mudou completamente. Não falamos só das drogas clássicas e tradicionais, como a canábis, a cocaína ou o ecstasy, mas vemos muito mais drogas disponíveis no mercado. Muito mais potentes. E vemos pessoas a consumirem mais como policonsumo, em que não consomem apenas uma substância, mas também álcool e outras substâncias. Por essa mesma razão, é muito mais difícil hoje em dia perceber quais os consumos das pessoas, é muito mais difícil aplicar um questionário e perguntar se consumiu canábis, cocaína ou ecstasy do que questionar se consumiu a droga ‘X432’, de que nós só sabemos a estrutura química, não sabemos o nome. É muito difícil aplicar num questionário e perceber padrões de consumo com estas novas substâncias. E estamos a ver mais ou menos 50 novas substâncias todos os anos a aparecer no mercado europeu. 

Pensei que fossem mais.

Houve um pico nos anos 2013, 2014, estavam a aparecer mais de 100 novas substâncias. Neste momento são por volta de 50/55. 

Onde é que existe em Portugal?

Os drug checkings em Portugal têm sido feitos de dois em dois anos no Boom Festival pela organização Kosmicare e no fim do mês de outubro abriu em Lisboa um serviço que se chama o Drop In, que é um sítio onde as pessoas durante a semana podem entregar uma amostra de uma droga específica que será testada e passados uns dias são-lhes comunicados os resultados. É possível neste momento em Lisboa, não só em contexto de festival, mas durante a semana, entregar drogas para testar. Uma das características deste serviço é que depende da técnica. Há técnicas que são muito rápidas, mas que não permitem dar resultados fiáveis. E a comunicação entre a pessoa que está a comunicar os resultados e a pessoa que a recebe vai ser muito limitada. Tendo mais dias, a análise permite ser diferente, quantificar, por exemplo, a percentagem de MDMA presente numa pastilha de ecstasy e os adulterantes. Se for uma análise muito rápida de um teste colorimétrico, só permite perceber se é ecstasy ou não, não sendo possível analisar nada acerca dos possíveis adulterantes.

Há muitas pessoas a procurar esse serviço?

Em Portugal, como não fazemos diretamente, é feito por uma organização não governamental portuguesa e abriu há pouco tempo, não recebemos dados. O que podemos saber dos dados portugueses, quando foi feito no Boom Festival, em 2018, tivemos umas centenas de amostras testadas em Portugal.

O que concluíram?

Que havia, primeiro, muitas drogas e variedades de substâncias presentes, algumas adulteradas, mas o problema é que, consoante o festival em que seja feito, o nível de drogas vai mudar. O Boom é um festival muito psicadélico, de música psicadélica, portanto, foram raras as amostras de, por exemplo, cocaína, que foram encontradas lá. Foram mais de LSD, ecstasy. Ou seja, consoante o festival e o tipo de música mudam as substâncias presentes.

O que o surpreendeu mais entre as coisas que tenham sido encontradas no Boom?

A pureza e a potência de algumas substâncias que foram encontradas. Por outro lado, a disponibilidade das pessoas em quererem ter um serviço desses. Estavam 40 graus de calor, filas de duas e três horas, mas as pessoas estavam dispostas a ficar lá para entregar. Mostra que há uma necessidade.

Os testes eram rápidos?

Levavam ainda algumas horas. As pessoas ficavam com um código e depois através dele sabiam os resultados das amostras que entregaram.

Que drogas encontrou que o tenham surpreendido?

Nós não fizemos essa análise. Nós trabalhamos a nível europeu e depois recolhemos dados de cada país membro. No caso de Portugal, é só mais um país dos 28 onde também recolhemos. Não temos intervenção direta no terreno. China e Índia são os principais produtores destas novas substâncias. As que aparecem na Europa vêm quase todas da China e da Índia. Uma das coisas que temos visto é a menor presença dessas novas substâncias – e isso também aconteceu no Boom –, vimos mais as drogas clássicas do que a presença dessas novas substâncias, o que poderá significar que estão menos presentes no mercado.

Como se caracterizam as novas drogas?

Essas novas drogas são basicamente substâncias produzidas em laboratórios, muitos deles altamente profissionais, que tentam imitar os efeitos de drogas clássicas, como a canábis, cocaína, ecstasy, mas químicos muito profissionais conseguem mudar a estrutura química para que não seja igual ao daquelas substâncias que já estão controladas pela lei. Ou seja, eles conseguem alterar a componente química para não serem controladas pela Polícia, ou seja, são drogas legais. Por isso é que se chamam novas drogas, porque eles conseguem contornar a lei através disso. Neste momento, os sistemas de mecanismos legais a nível europeu estão muito mais adaptados, mesmo em Portugal. Sempre que aparece uma nova substância que seja identificada em drug checking ou serviços da Polícia, é anexada à lei e passa  a ser proibída, é considerada ilegal. Isso são as novas drogas. E como aparecem a um ritmo tão rápido em que uma pessoa pode encomendar através da internet e rapidamente chega a Portugal ou a outro país europeu, isso cria-nos dificuldades e àqueles que intervêm a nível local como forma de monitorizar em termos de consumos quais os adulterantes presentes. É muito difícil encontrar aquilo que não se procura.

Alguma dessas drogas é mortal?

Temos visto alguns casos fatais relacionados com essas drogas. E o mecanismo europeu defende que sempre que se identifiquem casos mortais ou muitos casos de emergências hospitalares relacionados com consumo de uma determinada substância, é feito o que nós chamamos de risk assessement, que é coordenado por nós a nível europeu em conjunto com a União Europeia e a nível nacional para perceber quais as implicações e se essa droga deve ser controlada a nível europeu. Mas respondendo: sim. Há vários casos mortais através dessas drogas. Mas continua a ser marginal quando comparado com a mortalidade associada à heroína e à cocaína.

Existe muito a ideia – que pode ser mito – de que muitas vezes as drogas como a cocaína podem ter misturadas substâncias para matar ratos, por exemplo. Nos vários testes que fazem dá para perceber? É pior a droga mais pura ou a adulterada?

A questão entre o melhor e o pior em termos de drogas e a boa ou má qualidade é muito subjetivo e parte tudo também da pessoa que consome e como reage a determinado produto. É um facto que, neste momento, o que vemos no mercado da cocaína a nível europeu e mundial é que há uma cocaína muito mais pura e muito mais potente, relacionada com o aumento de produção na Colômbia, muito mais competição a nível daqueles que vendem. É uma cocaína muito menos cortada, muito menos adulterada. Os serviços de drug checking permitem perceber quais os adulterantes presentes na cocaína. E o que vemos é que continuam a ser os tradicionais.

Como por exemplo?

Levamisol, que era um antiparasita para animais mas pode ser utilizado a nível humano. Esse era o principal elemento de corte.

Deve fazer muito mal.

Sim, há estudos que indicam que faz mal a quem consome mas por outro lado é utilizado porque se dissolve. O ponto de combustão é inferior ao da cocaína, não se consegue distinguir a olho nu. Há estudos que dizem que a interação entre a cocaína e o levamisol permite ao utilizador uma sensação, quando consome, equivalente a anfetaminas. Não é só um elemento de corte mas também tem uma ligação pelas preferências do próprio utilizador. Mas os adulterantes estão a baixar a nível da cocaína.

E outros cortes conhecidos?

Cafeína, por exemplo. Mas há muitos mitos em relação ao veneno para ratos, por exemplo. No fim do dia, isto é um negócio e não quero acreditar que um vendedor, um traficante queira cortar uma substância para matar diretamente. Não acredito nisso. Até porque estaria a matar o próprio negócio. Se quiser continuar a vender, não pode matar os consumidores.

Apanham-se muitos laxantes?

Laxantes também, sim. O que é ou não considerado muito bom também é uma questão. Por exemplo, agora que estamos a ver um aumento na pureza da cocaína, o que nós vimos de informação daqueles que trabalham no terreno, é que muitos dos consumidores não gostam da cocaína mais pura, porque têm 20 anos de consumos de uma cocaína cortada, muitas vezes com levamisol, cafeína ou outros adulterantes e estão habituados a esse tipo de consumo. Vamos precisar ainda de mais alguns anos para perceber os efeitos a longo prazo da presença de cocaína mais pura no mercado, mas parece que existem mais lesões a nível do nariz por snifar [cheirar] associada a uma cocaína mais pura.

Há relatórios sobre as urgências que dizem que há mais pessoas a morrer devido ao consumo de cocaína. É assim? Há mais pessoas a injetarem-se com cocaína em Portugal?

Uma questão são as emergências hospitalares, uma vez que há muitos casos de emergência não fatais, de overdoses não fatais. Aí temos um sistema europeu de redes de hospitais que recolhe dados das emergências relacionadas com o consumo de drogas. Portugal não participa nessa rede europeia, não existe nenhum hospital em Portugal.

Porquê?

Não consigo responder. Muitas vezes por disponibilidade dos hospitais. Muitos destes métodos que nós trabalhamos a nível europeu não significa que devam ser implementados em todos os países. Uns farão mais sentido nuns do que noutros. Por exemplo, voltando ao drug checking. Provavelmente, noutro país não fará sentido ter, se não existirem muitos festivais nem uma grande procura desse serviço. Muitas vezes passa também por investigadores a nível nacional estarem interessados num determinado tema e irem aos hospitais. Os hospitais estão sobrecarregados, terem mais um trabalho adicional de estar a recolher informação sobre drogas ou sobre emergências hospitalares de drogas, seria ainda mais uma tarefa adicional. Passa muito por isso. Temos visto é que a nível europeu – e é um facto – temos mais casos de emergências hospitalares relacionadas com o consumo de cocaína. Em termos de mortalidade, temos por volta de nove mil overdoses fatais a nível europeu. Temos visto um aumento da presença de cocaína nesses casos de mortes mas sempre, ou quase sempre associados à presença de heroína e de álcool. É muito raro haver overdoses fatais só de cocaína. É raríssimo.

Pensei que fosse comum.

É comum a presença de cocaína mas sempre em conjunto com outras substâncias. Sempre num contexto de policonsumo.

Não há indicadores em Portugal de mais pessoas a chegar às urgências?

Neste momento, não. Há uns anos, num estudo que fizemos sobre urgências hospitalares de cocaína, até fomos entrevistar médicos num hospital aqui em Lisboa. É muito difícil ter dados fiáveis sobre casos de emergências de taquicardia ou de outros problemas cardíacos. Se a pessoa não disser que consumiu, não é feito de forma rotineira análises ao sangue para despiste de drogas. Primeiro, porque levam tempo, porque são caros e se a pessoa não comunicar é muito difícil os próprios médicos perceberem que houve um consumo de um determinado estimulante.

Há médicos que percebem logo.

Poderão perceber. Mas muitas vezes as pessoas consomem aquilo que não sabem e isso é um dos grandes problemas das novas drogas. Muitas vezes uma pessoa vai comprar cocaína, vendem-lhe uma coisa completamente diferente e depois a pessoa vai a uma urgência e diz que consumiu cocaína mas na verdade consumiu outra coisa qualquer. Isso contribui para uma situação ainda mais caótica na área das drogas.

Num mundo ideal, o que era preferível: termos o drug checking ou é um disparate as pessoas poderem despistar a droga que vão consumir? Nós sabemos que o aumento de droga não vai diminuir.

Não sabemos. Não há situações ideais e a mesma solução não serve para o país A, B ou C.  Acho que o que se deve desmistificar em relação ao drug checking é que eles não estão a verificar droga para as pessoas consumirem. A primeira mensagem que todos os serviços drug checking querem passar é de que todo o consumo traz um risco associado. Não há consumos de drogas sem riscos. Essa é a primeira coisa: a única coisa sem risco é não consumir e essa é a primeira mensagem que passam. A segunda, quando eles fazem uma análise de drogas, não significa que a pessoa depois consuma a droga e até há alguns estudos neste momento em que sempre que é comunicado às pessoas que uma determinada droga está bastante adulterada ou não era a substância que a pessoa estava à espera, a maior parte das pessoas não vai consumir essa droga depois de obter o resultado. Uma das coisas que falta em relação ao drug checking são mais estudos para que se consiga quantificar isso.

Percebe por que razão tantas pessoas se drogam?

Isso é a pergunta do um milhão de euros. Há milhentas razões. É a disponibilidade, é a curiosidade, capacidade financeira para poder adquirir drogas, o interesse pessoal… A maioria das pessoas não consome drogas e mesmo a maioria das pessoas que experimentam uma droga, a maioria não continua a consumir.

Madrid chegou a ter 90% das notas com vestígios de cocaína. Portugal também tem um valor elevado.

Não esquecer que uma nota pode ser tocada por milhares de pessoas e isso não significa que esses milhares tenham consumido. Temos variados estudos representativos a nível nacional e continuamos a ver que as prevalências de consumo, especialmente em Portugal, em relação ao contexto europeu são muito baixos quer em canábis, cocaína… todas as drogas. Estamos abaixo da média europeia em termos de consumos para as diversas substâncias.

Esses números existem?

Sim. A principal forma de perceber os consumos a nível nacional são os inquéritos à população em geral. O último em Portugal foi em 2017, em que se viu que os consumos são baixos relativos à média europeia e que não têm aumentado nos últimos anos.

Que tipo de inquéritos?

São inquéritos feitos em casas. Explico: no caso de Portugal são entrevistadas mais de 10 mil pessoas, são amostras representativas de toda a população. São feitas através do INE tendo em conta a distribuição da população em termos de idade, de sexo, do contexto urbano ou rural. Esses dados permitem-nos perceber a dimensão nacional de consumos. Depois, os níveis de águas residuais permitem-nos perceber quais as substâncias que são realmente consumidas mas não permitem perceber o número de pessoas nem a frequência de consumo. É como um puzzle. Temos de juntar sempre diferentes peças para tentar perceber o que está a acontecer. O  drug checking é outra peça do puzzle que nos permite perceber mais daqueles que consomem em contextos recreativos. Esse é um dos problemas do drug checking que, como nós costumamos dizer, não é um processo muito democrático, porque a análise de drogas é feita em festivais de música onde geralmente estão as pessoas que conseguem ir a festivais de música, que têm dinheiro para ir, geralmente brancos, com bastante formação académica e que já têm um elevado background de informação sobre questões de drogas. São esses que geralmente utilizam os serviços de drug checking.

Na Holanda já existiu à porta de discotecas.

A Holanda é um caso interessante – há mais de 20 anos que tem o serviço de drug checking. Começou por ser em festivais e em discotecas, foi proibido e neste momento é feito como agora em Lisboa, mas eles têm escritórios em todo o país, em que todas as semanas as pessoas podem entregar uma amostra, é feita a análise e é-lhes comunicado o resultado uns dias depois. Eles deixaram de fazer em contexto de festival e discoteca para fazer em sistema.

E quanto à percentagem de consumo em Portugal?

No que diz respeito à canábis, por exemplo, Portugal tem um consumo de 8% entre jovens de 15 e 34 anos, no último ano. A média europeia é muito superior – de 14,4%. As nossas perceções, do que vemos na rua e em discotecas, às vezes condicionam a nossa análise.

E em relação à cocaína?

É 0,3% com idades entre os 15 e os 34. A média europeia é de 2%.

Mas há drogas que são geralmente consumidas por pessoas mais velhas.

A cocaína geralmente é para um grupo etário mais velho do que o canábis, mas temos os dados e posso dizer que continuam muito abaixo da média europeia.

Quantas pessoas consomem cocaína na Europa?

18 milhões. 18 milhões que experimentaram cocaína pelo menos uma vez ao longo da vida. 5% da população adulta. Isto são inquéritos à população. Neste caso são dados só de inquéritos à população em geral. Uma das grandes questões que temos agora, com o aumento de produção de cocaína e com esta cocaína que está a ser apreendida, é como é que isso se vai refletir em termos de consumos. Porque, ao nível dos inquéritos, começamos a ver, quando analisamos as tendências, um aumento de consumo. Na análise de águas residuais, nos últimos dois anos, também temos visto um aumento da presença de cocaína. Poderá ser um reflexo do aumento da produção e da disponibilidade a nível europeu.

Através da água poderá ver qual o grau de pureza da cocaína?

Não da pureza, mas se foi consumida ou não. Isso é impossível, porque o que vamos procurar às águas residuais, às estações de tratamento de água são os metabólitos criados pelo corpo humano depois de ser consumida, portanto, já não se consegue depois de ser consumida. Já não se consegue ver qual é o grau de pureza.

Em termos de preços, tem ideia do valor a que são vendidas as drogas?

Temos dados de um inquérito online que fizemos com 80 mil pessoas em 15 países europeus em que obtivemos quanto é que as pessoas gastam e depois temos dados da Polícia que nos dão valores de mercado. A cocaína será cerca de 50 euros a grama. Mas também difere um pouco de país para país e de consumidor para consumidor. Uma das coisas interessantes que obtivemos desse inquérito online – que é outra das ferramentas alternativas que temos aos inquéritos tradicionais – é que, quanto mais frequente o consumo, menor o dinheiro que pagam pela compra de determinadas substâncias. Parece mesmo que há uma relação clara: quanto mais compram, mais consomem, menos pagam. É a lei do mercado.

Que tipos de estudos fazem sobre os consumidores de cocaína? 

Em termos de cocaína temos um estudo feito por nós, muito específico, por causa do aumento de produção em que temos identificado diferentes perfis de consumidores. Aqueles que consomem cocaína em contexto recreativo, geralmente com amigos, em contexto noite, fins de semana, festivais de música; aqueles que consomem cocaína de forma mais regular durante a semana e que são aqueles que mais tarde irão aparecer nos dados de tratamento, aqueles que entram para tratamento; e depois aqueles consumidores de cocaína mais problemáticos, que injetam. Muitos deles sem abrigo, muitos deles em policonsumos com heroína e aí temos visto um aumento da injeção de cocaína. 

Disse numa entrevista ao Público que o vosso organismo se debate com problemas para fazer as análises às águas das estações de tratamento. Por que razão isso acontece?

A nível europeu coordenamos o estudo mas depois temos parceiros a nível de cada país para fazerem a análise concreta das águas residuais. Uma das grandes dificuldades, não só em Portugal, em qualquer outro país, é termos investigadores que queiram fazer este tipo de análise. Em alguns casos, como a Irlanda, por exemplo, são privados que gerem e que não permitem o acesso às estações de tratamento da água. Muitas vezes os funcionários também não estão disponíveis para deixarem um investigador da universidade que diz que quer tirar amostras fazer o trabalho. Noutros casos são as câmaras que poderão não querer.

Que problemas têm tido em Portugal?

Não aplicamos a nível nacional mas temos dados de Lisboa, Porto e Almada. 

Como têm acesso às ETAR se não vão lá?

Nós não, são os nossos parceiros. Neste caso, a faculdade de Lisboa e o Instituto de Medicina Legal que conseguem ter acesso às estações de tratamento de água e a obter amostras. Nós coordenamos o estudo a nível europeu.

A Finlândia é um dos melhores exemplos.

Em termos de águas residuais, sim.

Semanalmente, fazem análises. Qual é a vantagem de fazer este tipo de análises?

Sim. A limitação dos dados de águas residuais é que não se consegue perceber a quantidade de pessoas que consumiu nem os padrões de consumo. Fazendo uma análise a nível semanal, consegue perceber-se a presença, se há picos de uma determinada substância e, mais importante, se há o aparecimento de uma dessas novas drogas no mercado. E sempre que há o aparecimento de uma nova é comunicado a nível de Polícia. São comunicadas também essas informações para os serviços de saúde para estarem mais alerta caso apareçam emergências hospitalares diferentes do padrão habitual.

Como se consegue distinguir uma que já está devidamente identificada de outra que não está?

Existem técnicas químicas que permitem fazer um despiste. Conseguem-se ver picos em termos das substâncias que são analisadas e, quando se vê um componente diferente, eles fazem uma análise adicional para tentar perceber. E vão a bases de dados existentes de polícias, de outros países, para tentar perceber se aquela substância já foi identificada em outro país.

As vantagens são evidentes. Desde a saúde pública, avisar hospitais… Por que acha que Portugal tem esse atraso?

Mas Portugal aposta, temos as águas residuais em três cidades, por exemplo. O que nós consideramos os novos métodos, Portugal participa em vários. Muitas vezes tem a ver com prioridades a nível nacional, com investimento, disponibilidade de investigadores que tenham interesse nessa área, passa muitas vezes por isso, mais do que por qualquer outra razão.

Através de análises aos esgotos consegue saber-se onde ficam os laboratórios de drogas novas?

 

 

Através de águas residuais é possível perceber quando houve um despejo ou quando há presença de químicos associados à produção de drogas sintéticas que principalmente acontece na Holanda e na Bélgica. Basicamente, todo o ecstasy e anfetaminas existentes no mundo são produzidos a nível europeu, na Bélgica e na Holanda, principalmente na Holanda. Análises de águas residuais permitem perceber locais em que foram utilizados químicos que se sabe que são associados à produção. Por isso, consegue perceber-se que naquela determinada região foram produzidos e houve uma descarga de poluentes relacionados com a produção sintética mas não é possível detetar laboratórios.

Não há estudos nos esgotos das discotecas?

Não, até por questões éticas. À porta de discotecas há muitos estudos mas mais de inquéritos feitos diretamente às pessoas, onde se perguntam os consumos. Também já foram feitos estudos – obviamente com autorização da pessoa – com análises, testes de saliva e testes de cabelo que permitem perceber consumos. Isso já foi feito à porta de discotecas. Recentemente, houve um estudo a nível europeu que combinou inquéritos à população, análises de águas residuais e análises de urina em festivais de música: o que as pessoas reportam, o que consumiram e, depois, o que realmente foi identificado nas análises de urina por festivais não dá. Não há nenhum festival que esteja ligado ao sistema de água sanitária, são urinóis. 

Sente que existe algum preconceito quando se diz que estão a fazer um estudo para saber se as pessoas estão a consumir bem?

Ainda há um estigma associado. No fim do dia é tudo uma questão moral. Se acho que as drogas são boas ou más, isso vai influenciar depois como é que eu respondo a questões sobre drogas, mesmo num inquérito sobre consumos. Por isso é que em muitos destes inquéritos, das principais partes são as questões que são relacionadas com consumos. As pessoas respondem por elas próprias, quer seja num tablet ou a escrever enquanto o resto da entrevista é feita pelo entrevistador diretamente para garantir que a pessoa não tem problemas em reportar consumos. No caso da análise das águas residuais, a grande vantagem é que, como costumamos dizer, as águas não mentem. E não entrevistamos ninguém, ninguém nos vai mentir. Permitem-nos saber realmente quais as drogas que foram consumidas. Mas, sim, os inquéritos poderão produzir dados menos fiáveis ainda pela questão do estigma associado a consumos.

Há mais métodos?

Sim, a análise de seringas utilizadas. Esse ainda só foi feito em seis cidades. É um estudo piloto onde é feita a análise de seringas utilizadas. Aí, uma das formas que nós temos de aceder àquelas populações que utilizam drogas de uma forma muito mais problemática e que não têm contacto com serviços. As seringas são recolhidas em salas de consumo assistido, em sítios onde as pessoas vão trocar as seringas utilizadas por seringas novas e são retiradas essas seringas e permite-nos perceber quais são as drogas. Uma das coisas mais interessantes foi perceber que há muito mais drogas estimulantes a serem injetadas quando nós tínhamos a perceção que eram muito mais opiáceos, heroína. Mas vimos que existe a presença de cocaína e algumas dessas novas substâncias que falámos antes, drogas estimulantes, presentes em seringas utilizadas. E existem muitas substâncias presentes, quase sempre mais do que uma, em cada seringa.

Não temos resultados sobre Portugal nessa matéria?

Não, isso é um estudo muito recente e ainda não temos dados para Portugal.

Estão a pensar fazê-lo cá?

Passa muito pelas entidades nacionais terem interesse nisso. Nós promovemos o estudo mas como instituição europeia da Comissão Europeia não podemos impor um determinado método ou estudo a nível nacional.

Hoje em dia há drogas sintéticas que podem ser feitas num vão de escada.

Eu diria que é muito mais fácil neste momento ter informação sobre como produzir uma droga e sobre como encomendar as máquinas – da China ou da Índia – necessárias para, por exemplo, pressionar as pastilhas. Mas diria que a maior parte das drogas sintéticas produzidas a nível europeu não são produzidas em vãos de escada, mas sim em laboratórios, alguns com escala. E temos visto um aumento na apreensão e deteção de laboratórios, principalmente na Bélgica ou na Holanda, que têm uma capacidade de produção cada vez maior e são muito mais profissionais.

Os estudos sobre a canábis cada vez mostram mais percentagem de THC.

Sim, temos visto um aumento da percentagem de THC nos últimos 10, 15 anos.

Considerável?

Considerável, sim. E que poderá ter, a longo prazo, consequências a nível de saúde. Vemos também muito mais cultivo de erva a nível europeu e por todo o lado. Em Portugal também. O haxixe vem principalmente de Marrocos e entra por Portugal, Espanha, e para o resto da Europa. A erva é uma situação completamente diferente, é produzida a nível local, em todos os países há cultivo de erva. Isso é outro dos problemas da internet, porque é muito mais fácil perceber como cultivar, qual o nível de luz que tem de ter… Por outro lado, a internet tem muitas outras vantagens como o nosso inquérito online é feito através da internet e permite perceber padrões de consumo, quanto é que as pessoas gastaram, quanto é que geralmente consomem e permite novas modalidades de tratamento.