Marcelo Rebelo de Sousa diz que aprendemos com os erros e que o país e os portugueses estão hoje muito mais bem preparados para responder, tanto na prevenção como no combate, aos incêndios. E deu como exemplo a época de fogos deste ano que, tirando casos pontuais como o de Monchique, demonstrou isso mesmo. Disse-o um ano depois da tragédia de 15 de outubro, participando numa ação de reflorestação na flagelada zona centro de Portugal. Na ocasião, Marcelo, rodeado de câmaras de televisão, arrancou uns quantos eucaliptos e ajudou a plantar carvalhos.
É um facto que, este ano, a área ardida – mesmo contabilizando Monchique – nada tem a ver com a do ano passado. Era só o que nos faltava. Mas também é um facto que as palavras do Presidente refletem um otimismo que até agora só se vira em António Costa e que irritava o próprio Marcelo. E que não pode deixar de irritar quem viaja pelo país e percorre as estradas de Oliveira do Hospital, de Midões, de Tábua, de Arganil, de Penacova, de Poiares, da Lousã, de Aveiro… Sim, basta olhar com olhos de ver para lá das bermas da A1 ou do IP3, da A25 ou da A23 – e se é assim nas estradas principais, o que dizer das secundárias? – que se percebe claramente que até pode haver já um plano de reflorestação, mas a verdade é que a sua execução é nula ou praticamente nula.
Nem a floresta que ardeu está limpa, quanto mais reflorestada. É verdade que, em muitos casos, é bom deixar as árvores ardidas no terreno para que as terras não cedam às primeiras chuvadas, mas não é deixá-las em risco de cair e de fazer perigar a integridade física de quem nelas vive ou simplesmente por elas passa. Por coincidência, a Leslie resolveu entrar pela zona centro do continente. E foi o que se viu. E quantas árvores saudáveis caíram e quantas ardidas tombaram, provocando danos e perigos absolutamente escusados… Ao contrário do que o otimismo de Marcelo faz crer, o país e os portugueses estão ainda muito longe de estarem preparados para enfrentar os incêndios e as intempéries.
A verdade é que tão depressa se exagera na cobertura informativa de um qualquer ciclone ou fogo – a modos que até parece que nada mais está a acontecer no mundo e não haverá amanhã – como se passa ao caso seguinte e se deixa cair no esquecimento o que devia ter servido de lição definitiva. A propósito, o que é feito do engenheiro florestal Tiago Oliveira, que o governo nomeou para a unidade de missão responsável pela gestão de tudo o que respeita aos incêndios? Nunca mais se viu nem ouviu. É como a reflorestação prometida. E depois, daqui uns anos, lá voltaremos a falar de que é preciso muito tempo para ordenar a floresta. Pois é. Esperemos é que não seja preciso mais nenhuma tragédia.