Uma inscrição centenária com um aviso que hoje faz mais sentido do que nunca

Uma inscrição centenária com um aviso que hoje faz mais sentido do que nunca


Um conjunto de rochas com inscrições bizarras emergiu ao longo do Rio Elba. Outrora, as “pedras da fome” serviam como um aviso de tempos vindouros difíceis, mas mesmo hoje, quando o planeta está ameaçado por vários problemas trazidos pelas alterações climáticas, não perderam a validade


“Quando me vires, chora”. Esta é a inscrição que tem estado a ser noticiada um pouco por toda a imprensa internacional. Emergiu graças à seca intensa que este verão está a afetar vários países na Europa Central; na Alemanha, por exemplo, o mês de julho foi o mais quente desde que há registo de temperaturas, com o dia 31 desse mês a consagrar-se o mais quente de sempre.

A sinistra frase está gravada em alemão numa rocha do rio Elba – que nasce na República Checa e atravessa o território alemão para ir desaguar no Mar do Norte – e foi revelada devido ao baixo nível das águas. Mas esta não é a única: mais de 12 rochas com vários tipos de inscrições podem por estes dias ser vistas fora de água, na cidade checa de Decin, perto da fronteira com a Alemanha.

Mas porque motivo têm estas rochas palavras gravadas? A História responde: são conhecidas como “pedras da fome” e só ficam visíveis quando o nível das águas do rio fica preocupantemente baixo. E quando isso acontece, as inscrições, que registam para a posteridade os diversos anos passados em que houve seca, têm como função alertar que se avizinham tempos difíceis. Estranho? Nem por isso. As “pedras da fome” são um tipo de marco hidrológico bastante comum naquela região europeia, como forma de mostrar e registar o baixo nível das águas – hoje constituem uma popular atração turística. Mas este método de registo hidrológico é, também, muito antigo; a inscrição que está nas bocas do mundo, por exemplo, remonta a 1616.

A par da referida frase, outras inscrições igualmente curiosas se escondem no Elba. “Se voltares a ver esta pedra, vais voltar a chorar, de tão rasa estava a água no ano de 1417”, lê-se numa. “Nós chorámos – Nós choramos – E tu chorarás”, profetiza outra. “Quem me viu certa vez, chorou. Quem me vir agora irá chorar”, garante mais uma. Outra, é mais esperançosa: “Não chores, menina, não te inquietes. Quando está seco, borrifa o teu campo com água”. Apesar de as mensagens no rio remontarem a tempos idos, certo é que a Europa tem, atualmente, razões para se preocupar com a falta de água – segundo a comunidade científica, o fenómeno será cada vez mais grave e frequente devido às alterações climáticas.

Quanto ao Elba, registou em 1934 o mais baixo nível das águas de sempre, com 48 centímetros. Este ano, já esteve perto, tendo chegado aos 51 centímetros de profundidade.

 

outros vestígios do passado As “pedras da fome”, contudo, não têm sido os únicos vestígios do passado a ser revelados pela descida do nível do rio. Outros indícios que datam de épocas mais recentes, potencialmente mais perigosos, têm ficado a descoberto ao longo do Elba. Segundo o Deutsche Welle, a polícia alemã encontrou várias munições em diversos pontos do rio, nos estados de Saxónia-Anhalt e de Saxónia. No total, avança a emissora alemã, este ano já foram encontradas 22 granadas, minas, bem como outros explosivos.

Este cenário, contudo, não causa surpresa: à mesma fonte, a polícia alemã disse que a descoberta de bombas “é uma ocorrência relativamente frequente”, uma vez que, com o final da Segunda Guerra Mundial, muitos explosivos foram descartados no Elba – que viria a ser, depois de 1945, marca natural da divisão da Alemanha entre República Federal da Alemanha (da esfera dos Aliados) e República Democrática da Alemanha (sob influência da União Soviética).

De acordo com o Deutsche Welle, quando são encontradas munições, mandam as boas práticas que se avisem as autoridades competentes. A isso, segue-se uma investigação por parte de especialistas. Caso os explosivos não possam ser transportados, a alternativa é serem detonados no local onde foram encontrados – algo que, segundo a polícia alemã, é pouco frequente. Com os aparecimentos no Elba, a polícia tem estado a apelar às pessoas para que não toquem nas munições, apesar de se saber que, ao fim de mais de 70 anos submersas, as bombas, por exemplo, tendem a ficar cobertas por uma espessa crosta de sedimentos, sendo improvável uma explosão.