Um alfarrabista no Japão deitou mãos a uma dessas preciosidades que espalham o pó das lendas sobre aquela profissão. Takeo Hatano, o dono de uma livraria na capital nipónica, descobriu um memorando de cinco páginas escrito poucas horas antes do ataque surpresa a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941. Escrito na noite da véspera, este revela que o então primeiro-ministro japonês, o General Hideki Tojo, estava “perfeitamente aliviado” e até um “pouquito embriagado”. O documento regista aquele momento crítico em que a História se decide, quando um bando de políticos, inebriados pela sua húbris, desencadeiam um nível de destruição inimaginável. No caso, o acontecimento que iria puxar os EUA para a II Guerra Mundial, e que além da humilhação das forças imperiais japonesas, culminaria na devastação de Hiroshima e Nagasaki. E o que registou aquele memorando? O que foi dito pelo líder do governo numa reunião no seu gabinete, em Tóquio, com o vice-ministro de Assuntos Internos, Michio Yuzawa, e o vice-ministro do Exército. Ao que parece, Tojo estava absolutamente convencido de que, assim que tivesse dado conta dos procedimentos burocráticos, o resto seria canja. E, por resto, entenda-se o conflito que se seguiria com as forças norte-americanas e britânicas no Havai e na Ásia.
“Estou perfeitamente aliviado. Poder-se-ia dizer que já ganhámos [a guerra], dada a situação atual”, terá dito o líder do executivo, aparentemente referindo-se ao apoio do imperador Hirohito aos seus preparativos para a guerra. E a razão por que o memorando está ser encarado como um documento de assinalável importância histórica é o facto de, da sua leitura, se depreender que Hirohito, que começou por temer um possível conflito com os EUA, acabou por ser convencido a apoiar a decisão do governo de declarar guerra ao “gigante adormecido”. Mais: dias antes do ataque à frota norte-americana em Pearl Harbor, o imperador japonês estaria até bastante calmo, supondo também que a coisa estava no papo. Pelo menos foram essas as conclusões de Takahisa Furukawa, um professor de História na Universidade de Nihon que teve já a possibilidade de analisar o documento. “Isto foi uma conversa privada. Penso que Tojo estava a dizer aquilo que realmente pensava”, disse Furukawa ao “The Japan Times”.
E assim, ficamos a saber que Tojo, um político nomeado para o cargo pela sua lealdade e intensa admiração pelo imperador, um mero burocrata que não tinha experiência nem percebia patavina de questões militares, lançou o Japão no abismo e pôr fim ao Império do Sol Nascente.