The day after


Que hipóteses tem uma “coligação Jamaica” entre CDU/CSU, Verdes e Liberais? Algumas. Vejamos. Com o SPD na oposição, é a única possível e que evita novas eleições


1. “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história.” São sobejamente conhecidas as palavras proferidas por Winston Churchill na Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. O paradoxo da frase do primeiro–ministro britânico ajuda a explicar o aparente descontentamento dos alemães com a sua classe política.

Quando questionados sobre o seu bem–estar económico e social, 84 por cento dos alemães disseram “viver bem”; a economia cresce, assim como os salários reais, e o desemprego é o mais baixo da zona euro. Antes do sufrágio, a maioria dos alemães atribuíam uma nota bastante positiva ao desempenho da chanceler. O que explica então este pequeno terramoto político e a eleição para o Bundestag de um partido de extrema-direita? Um misto de ressentimento em relação ao processo de reunificação, de medo do futuro e ausência de perspetivas, de antieuropeísmo, de inveja em relação ao que possa parecer um tratamento privilegiado dos refugiados? Mas o que explica a expressão que a AfD teve na Baviera e em Baden-Württemberg? “Os Estados federados mais ricos da Alemanha, com um nível de vida invejável, com segurança, com taxas de desemprego mínimas: contra o quê protestam eles? O que lhes falta?”, questiona, certeira, Helena Araújo. Ao rol das perguntas às quais os políticos terão de dar resposta ou confrontar o eleitorado com factos, acrescento mais três que me ocorreram ao ver a lista de deputados que se irá sentar pela AfD no parlamento: o que leva alguém a eleger um deputado que tem como matrícula AH 1818 (AH são as iniciais de Adolf Hitler e o número 18, nos círculos neonazis, tem o mesmo significado)? Ou um parlamentar (juiz no tribunal de Dresden) que expressou abertamente simpatia pelo terrorista Anders Behring Breivik, ou ainda outro que designa os adversários políticos como “cocainómanos”, “incendiários de carros”, “pedófilos”, e que foi condenado por ofensas corporais graves?

“A progressão espetacular dos populistas de direita constitui um ponto de viragem histórico para a vida política alemã”, que até agora funcionou numa cultura de consensos e debates civilizados e que entra numa era de conflito, aponta o diário “Frankfurter Allgemeine Zeitung”. Conflito que não tem necessariamente de ser negativo.

A democracia, com todas as suas imperfeições e que permite que no parlamento se sentem forças antidemocráticas e que nela não acreditam, é também o mais exigente de todos os regimes. Obriga a um exercício constante de cidadania e a desmontar o argumentário de quem não a respeita. Será um day-after que porá à prova a sólida democracia alemã.

2. Que hipóteses tem uma “coligação Jamaica” entre CDU/CSU, Verdes e Liberais ? Algumas. Vejamos. Com o SPD na oposição, é a única possível e que evita novas eleições que poderiam criar um problema bem maior, uma vez que a votação na AfD poderia sair reforçada. Faço aqui um parêntesis: nunca a CDU/CSU fará uma coligação com a extrema-direita, ao contrário do que alguns têm, com leviandade, escrito por aí. Na Alemanha, nem como tese se faz essa discussão. Tanto os Verdes como os Liberais sinalizaram disponibilidade para governar, não a qualquer preço. Os ecologistas querem o posto de ministro dos Negócios Estrangeiros (o que poderia dar à Alemanha um chefe da diplomacia de origem turca, o que não deve ser difícil obter), o FDP reclama para si a pasta das Finanças. Há, todavia, nesta equação um quarto partido: a CSU bávara (o partido de Angela Merkel é uma união entre a CDU e a CSU que só existe na Baviera). No próximo ano há eleições regionais na Baviera e a CSU teve perdas significativas para a AfD neste estado federado, e agora quer proteger o “flanco direito”. Os liberais do FDP, que em 2013 não entraram para o Bundestag, renovaram-se, mas de tal forma que lhes falta a experiência. Há quem ironize dizendo que as negociações de coligação deste partido serão conduzidas por uma agência publicitária. O que fará o FDP desta vez é uma autêntica incógnita, porque o partido está centrado no novo chefe. Este expressou forte oposição em relação às políticas de resgate e também de imigração. Anteveem–se dificuldades quanto à política energética e aos temas sociais como a redução da pobreza. Entendimentos são esperados na educação, política agrária, liberdades fundamentais e política de imigração.