O barco na morte


Há poucas semanas, um grupo de jovens europeus de clásse média-alta abriu uma conta para financiar um navio. Objetivo: impedir o salvamento de refugiados no Mediterrâneo


Prefácio: nos últimos sete anos mais de quarenta mil pessoas morreram ao tentar chegar às costas europeias. De Janeiro a Junho de 2017 perderam a vida duas mil e trezentas. O Mediterrâneo, que condensa, no seu significado etimológico, a ideia de contacto e de mediação, “é hoje uma fronteira de água, carne e política, assim como de percursos migratórios inéditos, traçados pelo desespero das condições dos países de origem e pela violência da Fortaleza Europa”, escreve Chiara Pusseti. A fronteira contemporânea não tem como finalidade a interrupção do “trânsito” mas, sim, a sua seleção.

Dito de uma forma mais simples. Há dois tipos de pessoas os que têm casa para voltar – e que podem, como eu debater ou filosofar a vida – e os que não a têm; aqueles para quem “fome” é apenas um vocábulo e aqueles para quem a fome é existência.

A tragédia dos refugiados está contida nesta diferença: aqueles que têm casa e para os quais a fome é uma palavra têm o poder de decidir sobre a vida e a fome daqueles para quem a guerra ou a fome “é”.

E depois há aqueles quem nem pessoas são. São o tema desta crónica. Antes disso um parêntese.

Recuemos a 3 de outubro de 2013. Ao largo da ilha italiana de Lampedusa, um naufrágio fez mais de quatrocentas vítimas, sobretudo eritreus e somalis. A fila de cadáveres na areia tornou-se, como agora se diz, viral e gerou uma onda de comoção coletiva. Itália honrou as vítimas com funerais de Estado e concedeu-lhes a cidadania italiana honorária, segundo o ius soli post mortem. Aos que sobreviveram reservou outro destino: campos de acolhimento, acusação de imigração ilegal, crime que pode ser punido pelo estado italiano com a detenção de até cinco anos ou com uma multa de até 10 mil euros, seguida da expulsão imediata do país. Ou seja a lei italiana concedeu direitos aos corpos, mas não aos sujeitos destes corpos. É apenas uma das muitas perversões na forma como a fortaleza Europa trata os que perseguem a esperança de uma vida melhor ou tentam salvar a sua.

Voltemos aqueles que nem pessoas são. Esta semana chegará à costa siciliana o C Star, um navio de 40 metros, com uma tripulação de 25 pessoas. Missão ? Impedir, ao arrepio do direito internacional, o salvamento de refugiados no Mediterrâneo. Há poucas semanas um grupo de jovens europeus – austríacos, alemães, checos, polacos, com estudos superiores e de classe média-alta – abriu uma conta que visava financiar o navio. Rapidamente se alcançaram os 125 mil euros necessários, antes de plataformas como a Paypal bloquearem o envio de dinheiro, para o frete do navio. O líder deste grupo, em entrevista ao Der Spiegel, fala, sem pudor, em “defender a Europa”. Defender que Europa? Uma Europa egoísta e xenófoba? Onde poucos se lembram da história recente da Líbia, da Síria, da Somália, do Sudão, da Argélia, da Etiópia ou da Eritreia? Onde não se reconhecem as responsabilidades face às diásporas contemporâneas? Onde se esquece que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados foi criado para responder aos milhões de refugiados, deslocados e apátridas europeus.

Um cada vez maior número de não pessoas, em vez de horrorizar com a violência que sequestra o presente e o futuro do “boat people”, em vez de se empenhar em soluções e combate às causas (leia-se investimento sério em política de desenvolvimento), preocupa-se em desumanizar os refugiados, apagando-lhe singularidades, esvaziando-os de sentido. Que se afoguem os desesperados. Desde que o sistema de privilégios europeus se mantenha intacto.

 

Escreve à segunda-feira