Onze horas diárias em frente a um ecrã não deixam tempo para abrir um livro. Com a nova disciplina de “deep reading”, as escolas norte-americanas querem contrariar esta tendência.
“Moi, moi, moi”, dizia a Miss Piggy dos Marretas. Uma das consequências das redes sociais é o narcisismo impiedoso e o encerramento numa bolha, outra é que o pensamento se tenha trivializado e possua a profundidade de uma piscina de dez centímetros.
Não sei quantos adolescentes ou adultos se interessam hoje pelas memórias de Adriano, pelos Buddenbrook, pelo amor infinito em tempos de cólera do García Marquez, ou sonham com a liberdade de Huckleberry Finn. A leitura e a literatura complementam a nossa apreensão do mundo e alargam-na. Só que o admirável mundo novo está a engolir a literatura, embora alguns autores sobrevivam como citação para o Facebook. Mesmo que muitas vezes apócrifa.
Já ninguém cai no chão com uma síncope quando 57 por cento dos americanos afirmam, num inquérito de 2016, não ler um único livro por ano. Mas admiram-se por um presidente saído de um talkshow ter sido eleito. Um jornal em papel é lido apenas por um em cada cinco americanos. E mesmo em tempos difíceis já ninguém pega num livro de Charles Dickens, que como ninguém escreveu sobre a desigualdade e os mundos paralelos em que viviam ricos e pobres.
Um estudo do Nielsen Institute conclui que, em média, os norte-americanos passam diariamente dez horas e 40 minutos diante de um ecrã, sendo quatro horas de televisão e as restantes a navegar na internet. Oitenta vezes por dia olham para o smartphone e tocam-lhe 2500 vezes (entre scroll e digitar texto). Mais de 40 por cento dos americanos dormem menos de sete horas por noite, e a tendência é ascendente.
Os novos analfabetos, e estes não são apenas americanos, até sabem ler e escrever, porém não conseguem ler textos longos ou romances: falta-lhes a concentração.
Naomi Baron, professora de Linguística da Universidade de Washington, analisou a forma como se lê em papel e em suporte digital e concluiu que o ecrã apresenta demasiadas possibilidades de distração, de passar adiante, não permitindo a concentração. “Ao ler num ecrã já estamos com o nosso pensamento noutro tema ou noutra pergunta. Deve ser claro que, ao contrário da capacidade de falar, que é inata, a leitura é como um músculo que tem de ser treinado.”
As escolas americanas tentam agora uma nova abordagem para contrariar esta (des)evolução e introduzem no currículo a disciplina de “deep reading”, ler em profundidade. Para treinar os alunos a ler devagar, a concentrarem-se e serem capazes de articular um pensamento complexo. T. S. Eliot escreveu “The Hollow Men” em 1925 e o poema acaba desta forma: “os homens ocos, os homens de palha (…) e assim acaba o mundo, não com um estrondo mas com um gemido”. Ou com mais umas horas em frente a um ecrã.
O verdadeiro défice ? Não é o financeiro, mas o humano e de profundidade.
Escreve à segunda-feira