Portugal tal qual é: ora universal, ora paroquial. Vivemos entre a expetativa relativamente à histórica vinda do Papa Francisco a Fátima, a emoção do futebol e o fado corrido que é a nossa política paroquial
No momento em que nos preparamos com emoção para receber o enorme Papa Francisco e que o país do futebol vive momentos únicos, com o Benfica a poder também marcar o 13 de Maio na sua história, verificam-se na política factos mais paroquiais que muito dizem sobre o que somos e como andamos neste retângulo à beira-mar plantado.
1) Depois de alguns largos meses em que apaparicou Maria Luís Albuquerque, chegando a sugeri-la para eventual líder do PSD, Luís Marques Mendes caiu na real e no domingo, na SIC, concluiu que a ex–ministra das Finanças é um erro de casting, como atestam as suas mais recentes intervenções públicas, nomeadamente a respeito da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A opinião revista do influente comentador político torna mais claro o que já era óbvio para muitos outros: nos sociais-
-democratas, só há quatro hipóteses de liderança possíveis: Passos, ou Montenegro se o primeiro não avançar, Rui Rio ou, então, Pedro Duarte, um jovem cheio de experiência que vai ganhando consistência e que é reconhecidamente próximo de Marcelo. Desenvolvimentos, depois das autárquicas. Quanto a Maria Luís, assunto arrumado. Foi um mal-entendido. Uma visão, e não uma aparição.
2) Há uns meses, neste espaço, tinha-se prevenido que a circunstância de o PS se ter aniquilado no Porto era perigosa. Ao juntar-se a Rui Moreira na governação da Invicta e ao humilhar-se ao ponto de não se apresentar nem negociar sequer os termos de uma coligação, o PS suicidou-se. Quando, para acautelar o futuro, Ana Catarina Mendes tentou associar os socialistas a uma mais que provável vitória de Rui Moreira, este descartou-os e desconsiderou-os. Nada de estranho. António Costa, ele próprio, tinha oferecido o flanco no congresso socialista quando deu abertura à candidatura de um independente, numa facilitação só justificada porque contava com o seu proverbial fator sorte. Manuel Pizarro seguiu-lhe as pisadas e pôs-se ainda mais a jeito, talvez na expetativa de que Moreira fosse para o governo ou para eurodeputado e ele ascendesse a presidente de secretaria como Medina. Para o efeito, já não interessa. Os factos aí estão. No Porto há um candidato independente e forte. Há um PS inexistente, ridiculamente protagonizado por Pizarro. Há um PSD periclitante e um CDS que viaja na bolsa marsupial de Moreira. Hoje, na Europa, os partidos não são imprescindíveis e volta e meia eclipsam-se, como sucedeu em França. Já se viu que Moreira é forte e eficaz. Politicamente, é de todos e de nada. Sociologicamente, é interclassista. É pragmático e não tem partido. Tem o melhor de dois mundos e deve isso a si próprio. É do futebol e dos negócios, sem que isso o afete especialmente. Além disso, tem boa pinta. Veremos se para nos Aliados ou se tem ambições mais vastas, tipo Macron. Se por cá houver um do género, é ele, mas à moda do Porto, onde também há uma elite que não deixa de ser popular.
3) Outro dos pontos de interesse nas autárquicas é Oeiras. Não só pela disputa política, mas pelas personalidades envolvidas e, especialmente, pela circunstância de Isaltino Morais se apresentar tendo como principal adversário Paulo Vistas, uma criação sua que se esperava estivesse lá apenas enquanto o mestre não pudesse. Mas, como em muitos outros casos, o inventado ganhou vida própria e quer manter-se. Quanto a Isaltino, há quem considere que não deveria ou poderia candidatar-se por ter sido condenado pela justiça a uma pena de cadeia. Errado. Em primeiro lugar, porque a condenação nada teve a ver com atos cometidos enquanto autarca. Em segundo lugar porque, uma vez cumprida a pena e não havendo outras inibições, qualquer cidadão tem o direito de retomar uma vida normal. E finalmente porque, quer se goste ou não dele, Isaltino Morais foi o criador de uma dinâmica e de um enorme desenvolvimento em Oeiras que nos últimos anos parou, apenas se concluindo o que ele tinha lançado e projetado.
4) O encerramento do balcão da CGD em Almeida demonstrou a falta de cultura democrática que subsiste mais de 40 anos depois do 25 de Abril. A administração da CGD não quis, numa primeira fase, receber os respetivos eleitos municipais, enquanto o povo ocupasse as instalações. Álvaro Amaro, o líder dos autarcas sociais-democratas e presidente da Câmara da Guarda, não hesitou. Deu um murro na mesa e explicou alto e bom som que os representantes do poder local não mandam no povo, embora o representem, forçando o recuo da CGD e um encontro. Falta gente como Amaro, com preparação democrática. Aliás, com tantas instituições que existem para supostamente cuidar da democracia, das suas regras e da sua qualidade, talvez uma formação cívica obrigatória fosse de grande oportunidade para alguns gestores de nomeação política. E melhor seria se houvesse no fim um pequeno exame. Era eventualmente mais útil do que a CReSAP, que parece uma máquina de fretes.
Jornalista







