Há 43 anos, no dia 25 de Abril de 1974, já tinha 29 anos e ainda estava na tropa a cumprir o serviço militar obrigatório. Era casado e pai de duas filhas (uma com quatro anos e a outra com seis meses), licenciado em Direito, jornalista profissional e um dos fundadores do PS (por procuração clandestina). Entrara dois anos antes, exactamente no dia 25 de Abril de 1972, com 27 anos, na EPI (Escola Prática de Infantaria), instalada no Convento de Mafra, para fazer em três meses o COM (Curso de Oficiais Milicianos), após sucessivos adiamentos da minha incorporação que fui requerendo à pala do estágio que estava a fazer na Ordem dos Advogados apenas com esse propósito.
Na realidade, já optara pela carreira de jornalista profissional, estreando-me, em 1969, na redacção do jornal “A Capital”, então dirigido por Norberto Lopes (director) e Mário Neves (director adjunto), sendo Maurício de Oliveira o chefe da redacção, coadjuvado por Rogério Fernandes e Rodolfo Iriarte, e tendo como colegas, mesmo ao meu lado, os excelentes jornalistas António Borges Coelho (esse mesmo, o historiador), António Valdemar (memória viva da cultura portuguesa) e Manuel Alpedrinha (um dos sobreviventes do Tarrafal).
Como era licenciado em Direito e a tropa estava muito desfalcada de jovens juristas, fui colocado – depois de outros três meses na EPAM (Escola Prática de Administração Militar), ao Lumiar – nos Serviços de Justiça e Disciplina do Ministério do Exército, no 2.o piso do torreão norte do Terreiro do Paço, precisamente aquele onde, no dia 25 de Abril de 1974, dois valerosos ministros de Marcelo Caetano (o do Exército e o da Marinha) mandaram esburacar uma parede, mesmo ao lado de um pequeno bar que servia bicas e bolos, para fugirem rumo ao Arsenal da Marinha e daqui não sei para onde. Em suma: piraram-se. Mas eu não estava lá.
Costumava sair do Ministério do Exército todos os dias, cerca das 18 horas, para ir trabalhar na redacção do jornal “O Século”, na rua do dito, ao Bairro Alto, para onde me transferira quando saí do jornal “A Capital”, em 1972. N’“O Século”, então dirigido por Manuel Figueira, tinha como colegas de redacção uma formidável equipa de jornalistas: Mário Zambujal, José Silva Pinto, Ernâni Santos, José Mensurado, Augusto Abelaira, Augusto Fraga, Joaquim Benite, Altino do Tojal, Adelino Tavares da Silva, Jorge Feio e uma velha glória do jornalismo, o Francisco Mata, com quem eu fazia equipa numa nova redacção (a R2) inventada pelo excelente director do jornal.
Lembro-me que, nessa altura, tinha um Austin Mini comprado em segunda mão, que sucedera a um Citroën 2 cavalos, comprado nem sei em que mão (e que, em estrada, era um verdadeiro barco à vela a flutuar em águas mansas). Era no Mini que eu percorria todos os dias um triângulo cujos vértices se situavam na Avenida do Brasil (onde eu morava), no Terreiro do Paço (onde fazia a tropa) e na Rua do Século (onde trabalhava). Na noite de 24 de Abril, em conversa com amigos (jornalistas), constatei que o “golpe” estava mesmo à beira de acontecer. E assim foi. Na madrugada de 25 de Abril fui acordado pelo telefonema do meu amigo José Morgado, contemporâneo de faculdade e colega de tropa, que me disse para ligar o rádio, o que imediatamente fiz, passando então a ouvir as marchas militares e os porreiríssimos comunicados do Movimento das Forças Armadas.
Daí em diante, foi um rebuliço. Acabou-se a rotina. Foi começar a viver outra vida, aceleradamente, vendo fazer-se a história, comigo dentro dela, sem dúvida com imensos problemas de “tráfego”, sobretudo político, mas decididamente rumo à liberdade, à descolonização e à democracia.
Só o acanhamento mental, a ignorância beata, o reaccionarismo salazarento e a ilusão de um império em ruínas é que não consentem que se admita ou perceba como este país mudou tanto, para muito melhor, da noite para o dia, em tão poucos anos.
Não trocaria por nada deste mundo esses anos tão intensos que vivi a seguir ao 25 de Abril de 1974. Comparo sempre os 29 anos que vivi em ditadura com os 43 anos em liberdade que já levo no papo, desde esse “dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”, como admiravelmente o imortalizou a grande poetisa Sophia de Mello Breyner.
Certamente terão reparado que estava a dormir a sono solto na madrugada de 25 de Abril de 1974 – e por isso não me foi dado praticar qualquer acto de heroísmo. Mas aderi à Revolução – de alma e coração e sem pestanejar – até hoje. E assim vou continuar!
Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990







