Tardes de verão


“Foram várias as férias passadas na Beira Alta, na quinta dos meus avós. Lia durante a tarde, sentado no alpendre de frente para o pinhal”.


Sempre li muito nas férias. Não tanto agora, que tenho um filho e que a vida em família impõe obrigações que não admitem o egoísmo de uma tarde inteira de leitura. Quando era adolescente, era o que fazia. Foram várias as férias passadas na Beira Alta, na quinta dos meus avós. Lia durante a tarde, sentado no alpendre de frente para o pinhal. 

Com o calor, cheirava a pinheiro e a resina. Ouvia--se um cuco e, no meio dos pinheiros, via-se um carvalho que tinha conquistado o seu espaço abrindo os braços, mais parecendo um leque. Tudo o resto era silêncio. O barulho que sentia vinha dos livros que lia. Abri-los era como permitir que o rebuliço neles contido saísse cá para fora, parando apenas quando levantava os olhos e olhava para o pinhal. E ouvia o cuco. 

Ninguém me interrompia. A minha avó ficava dentro de casa, onde estava fresco; a minha irmã, a passear ou a ler também. Hoje, não ser interrompido é um luxo. Um dos meus livros destas férias é o primeiro volume com os contos de Paul Bowles, editado pela Quetzal. Quando escritos em inglês e francês, prefiro ler no original, mas este encontrei-o à venda na Barata, em Lisboa, e a tentação de o adquirir naquele momento valeu a quebra da regra. 

E o que retiro destes contos de Bowles, além da beleza indescritível das suas palavras e da estranheza típica deste americano de Tânger, é a possibilidade de, por um instante, regressar àquele momento sentado a ler enquanto o calor fazia rescender os pinheiros e o cuco cantava. 

Advogado 


Tardes de verão


"Foram várias as férias passadas na Beira Alta, na quinta dos meus avós. Lia durante a tarde, sentado no alpendre de frente para o pinhal".


Sempre li muito nas férias. Não tanto agora, que tenho um filho e que a vida em família impõe obrigações que não admitem o egoísmo de uma tarde inteira de leitura. Quando era adolescente, era o que fazia. Foram várias as férias passadas na Beira Alta, na quinta dos meus avós. Lia durante a tarde, sentado no alpendre de frente para o pinhal. 

Com o calor, cheirava a pinheiro e a resina. Ouvia--se um cuco e, no meio dos pinheiros, via-se um carvalho que tinha conquistado o seu espaço abrindo os braços, mais parecendo um leque. Tudo o resto era silêncio. O barulho que sentia vinha dos livros que lia. Abri-los era como permitir que o rebuliço neles contido saísse cá para fora, parando apenas quando levantava os olhos e olhava para o pinhal. E ouvia o cuco. 

Ninguém me interrompia. A minha avó ficava dentro de casa, onde estava fresco; a minha irmã, a passear ou a ler também. Hoje, não ser interrompido é um luxo. Um dos meus livros destas férias é o primeiro volume com os contos de Paul Bowles, editado pela Quetzal. Quando escritos em inglês e francês, prefiro ler no original, mas este encontrei-o à venda na Barata, em Lisboa, e a tentação de o adquirir naquele momento valeu a quebra da regra. 

E o que retiro destes contos de Bowles, além da beleza indescritível das suas palavras e da estranheza típica deste americano de Tânger, é a possibilidade de, por um instante, regressar àquele momento sentado a ler enquanto o calor fazia rescender os pinheiros e o cuco cantava. 

Advogado