Dez mil cabo-verdianos sem água potável por falta de pagamento da câmara local

Dez mil cabo-verdianos sem água potável por falta de pagamento da câmara local


A empresa Águas do Porto Novo (APN) suspendeu por tempo indeterminado a produção de água no município cabo-verdiano do Porto, alegando uma dívida da autarquia de quase 1,1 milhões de euros, que a Câmara diz ser fictícia.


Depois de várias ameaças e pré-avisos, a APN suspendeu sábado, e por tempo indeterminado, a produção e distribuição de água na Cidade do Porto Novo, ilha de Santo Antão, afectando cerca de 10 mil pessoas no centro urbano.

As zonas rurais do município, que totalizam cerca de 8 mil pessoas, são abastecidas por furos, poços ou autotanques.

Após os pré-avisos, muitos armazenaram água, assegurando o consumo para os próximos dias, mas a situação torna-se muito complexa para quem tem mais dificuldades económicas.

A APN alega que atingiu uma situação de "insustentabilidade financeira", com rutura de tesouraria, devido aos atrasos dos pagamentos da Câmara Municipal do Porto Novo. Segundo a empresa, no final de Julho, a autarquia devia 120 milhões de escudos cabo-verdianos (perto de 1,1 milhões de euros).

Segundo o director da APN, Damian Pujol, a empresa pediu somente a liquidação das faturas referentes a Junho e Julho, mas a autarquia pagou apenas 2,2 milhões de escudos (20 mil euros).

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, a presidente da Câmara Municipal do Porto Novo, Rosa Rocha, afirmou que a dívida de 120 milhões de escudos é "fictícia", arrastando-se desde 2007, e que a autarquia não a pode assumir.

Rosa Rocha disse que a autarquia tem feito todos os esforços para cumprir com as exigências do contrato assinado com a APN, mas entende que o documento deve ser revisto.

A autarca considera a atitude da APN uma "posição de força inoportuna e desnecessária" e teme outras exigências no futuro para mais cortes na produção de água.

A presidente da Câmara do Porto Novo informou que o Governo cabo-verdiano já adiantou 2.2 milhões de escudos (20 mil euros) através do Fundo de Financiamento Municipal para liquidar as faturas referentes a Junho.

A autarca espera normalizar a situação ainda hoje, após uma reunião que terá com a ministra do Turismo, Investimento e Desenvolvimento Empresarial, Leonesa Fortes, e a secretária de Estado das Finanças, Esana Carvalho.

O contrato assinado entre a APN e a CMPN em 2008 já gerou vários conflitos entre as duas instituições, tendo sido, até 2012, frequentemente anunciada a suspensão da água dessalinizada à Cidade do Porto Novo pela APN.

A APN foi criada em 2005 e entrou em funcionamento em 2008, resultado de uma parceria público-privada, envolvendo o Governo de Cabo Verde, o município do Porto Novo e a empresa Águas da Ponta Preta, da ilha do Sal.

A empresa dispõe de uma estação de produção de água dessalinizada, na cidade do Porto Novo, com capacidade para produzir mil metros cúbicos de água/dia, mas só produz 600 m3/dia.

A água é fornecida ao município através dos Serviços Autónomos de Água e Saneamento (SAAS), que procede à sua distribuição e comercialização juntos dos consumidores no centro urbano para cerca de 10 mil pessoas.

Segundo o censo de 2010 realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), 50.4% da população cabo-verdiana tem como principal fonte de abastecimento a água canalizada na rede pública, percentagem que aumenta para 56,7% nos centros urbanos, graças à dessalinização.

Lusa