As campanhas fazem-se cada vez mais no Facebook e nos blogues e as presidenciais não são exceção. Com sondagens que o mostram a ganhar à primeira volta, Marcelo Rebelo de Sousa não tem sido poupado na internet
Marcelo Rebelo de Sousa é o alvo de todos os seus opositores na corrida para as presidenciais. As sondagens mostram-no com resultados acima dos 50% e isso é suficiente para que esteja na mira de todos os seus opositores. A estratégia passa pelas redes sociais, onde o antigo comentador não tem tido descanso e os seus detratores têm dois objetivos: confrontá-lo com o seu passado e associá-lo à imagem de Cavaco Silva.
O Cavaco que ri
Se Marcelo tem feito tudo o que está ao seu alcance para se distanciar de Passos e Portas, nas redes sociais a mensagem mais difundida é a de que o professor é, afinal, apenas uma versão mais sorridente do atual inquilino do Palácio de Belém.
Os níveis baixíssimos de popularidade de Cavaco justificam a colagem do candidato mais popular dos dez que se apresentam às eleições de 24 de janeiro.
Como é que se consegue isso com um candidato que está nos antípodas da personalidade Cavaco? Através de imagens. A internet está cheia delas e mostram Cavaco a transformar-se em Marcelo. Partilhadas em blogues e nas redes sociais, trazem uma mensagem subliminar importante, a de que Rebelo de Sousa é, afinal, o candidato do PSD e do CDS e não trará nada a um tempo que a esquerda garante ser “novo”.
O lançamento da candidatura de Marcelo fez-se, curiosamente, com críticas duras a Cavaco Silva, no rescaldo da crise que acabou com o Presidente a “indicar” António Costa para o lugar de primeiro-ministro. “Quanto maior, mais eficaz e mais duradouro o poder de influência do Presidente antes de eleições, mais eficaz é depois de eleições”, lançou na apresentação da sua candidatura na Voz do Operário, em Lisboa, durante a qual quis - como tem feito desde então - sublinhar a importância do “afeto” na sua forma de fazer política.
Em tudo, Marcelo quis mostrar-se a anos luz do atual Presidente. “Pela minha própria maneira de ser, que não enjeito, sou naturalmente próximo das pessoas. E não vou mudar um centímetro a minha maneira de ser”, disse na altura.
O lado descontraído de Marcelo que contrasta com a imagem distante de Cavaco é, assim, usada em imagens na internet que apresentam o candidato do centro-direita como “o Cavaco que ri”.
O passado
Com 15 anos de comentário televisivo, não é difícil encontrar contradições no discurso de Marcelo. E elas têm sido exploradas, recuperando os vídeos do comentador para o confrontar nesta campanha.
Um dos vídeos mais partilhados é aquele em que Rebelo de Sousa fala sobre o Banif na TVI, assegurando a sua estabilidade financeira e elogiando o papel do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. “Tão importante como saber avaliar a situação, é importante um presidente saber avaliar as pessoas e as suas ações. E Marcelo sabe isso tudo”, escreveu Daniel Oliveira no Facebook, quando partilhou o vídeo, com o qual Henrique Neto confrontou o candidato da direita num debate no domingo.
Tentando não se alongar na resposta, Marcelo lembrou apenas as críticas que fez mais tarde a Carlos Costa, defendendo que “ele deveria sair pelo próprio pé”.
O ‘afilhado’ de Marcello
Outra das estratégias de quem quer causar mossa eleitoral a Marcelo é recuperar o seu passado. No domingo, Henrique Neto usou a proximidade do antigo comentador com Marcello Caetano para o atacar no frente-a-frente emitido na SIC Notícias. Foi a primeira vez que as relações do candidato ao homem forte do antigo regime foram usadas por outro candidato de forma aberta, mas há muito que circulam pela internet referências a essa proximidade.
Henrique Neto referiu mesmo um episódio histórico que ilustra como os dois estavam em barricadas opostas antes do 25 de abril e que remete para uma carta que tem sido divulgada em blogues e redes sociais. Neto lembrou no debate que foi agredido em Aveiro, depois de ter participado num congresso que reuniu toda as oposições à ditadura em 1973 e sobre o qual Marcelo Rebelo de Sousa passou informações a Marcello Caetano.
Apanhado de surpresa, Marcelo justificou-se: “Não podemos ter todos o mesmo percurso”. Mas não se alongou em explicações sobre a carta referida por Henrique Neto e que está no segundo volume do livro ‘Cartas Particulares a Marcello Caetano’ de José Freire Antunes.
Na internet, a missiva aparece como a “carta de um delator” e tem sido difundida até nas caixas de comentários de notícias online sobre Marcelo. O texto mostra que Rebelo de Sousa avisou Marcello sobre a força que os comunistas tinham no seio da oposição ao regime, ao mesmo tempo que elogiava a reação firme do Presidente do Conselho sem fazer qualquer crítica ao uso da força feito pelo regime para conter as cerca de três mil pessoas que se juntaram de 4 a 8 de abril no III Congresso da Oposição Democrática.
O Congresso, no qual Henrique Neto participou, exigia a libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos, o fim da censura, o fim imediato da guerra no Ultramar e a liberdade de reunião, de criação de partidos políticos e de associação.
Na altura, Rebelo de Sousa estava já no Expresso, mas, descontente com as cadeiras que lhe tinham sido atribuídas na Faculdade de Direito, procurava falar pessoalmente com Marcello Caetano sobre a sua carreira académica. O problema era que Caetano estava magoado com Marcelo pelas coisas que escrevia nos jornais A Capital e Expresso. Daí que Marcelo Rebelo de Sousa use a carta como uma forma de aproximação.
“Pedindo desculpa do tempo que tomo a Vossa Excelência, vinha solicitar alguns minutos de audiência, para apresentar algumas questões, sobre as quais muito gostaria de ouvir o parecer de Vossa Excelência. (...) Seria possível, Senhor Presidente, conceder-me os escassos minutos que solicito?”, começa o documento que mais de 40 anos depois é usado como arma de arremesso contra o candidato do centro-direita.
No debate de domingo, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu chamar a atenção para o trabalho que fazia no Expresso, onde tinha muitos problemas com a censura. Tantos que nesse mesmo ano de 1973 - dois meses depois do Congresso de Aveiro - fez uma primeira página que levaria a medidas drásticas por parte da censura: o jornal passaria depois disso a ser sujeito a prova de página, o que atrasa o fecho e tem consequências financeiras graves para a distribuição do semanário. Marcelo tinha feito uma capa como se o regime já tivesse caído, com notícias chocantes sobre a guerra na Guiné e a “autópsia política do 28 de maio”.
A carta
“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”
“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””
“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”
Marcelo Rebelo de Sousa
Carta de 14 de abril de 1973

