Costa no meio da tenaz
Os acordos à esquerda são um desafio único para pôr à prova as capacidades de governação de PS, BE e PCP
Não consigo deixar de pensar na minha infância e adolescência quando me refiro a políticos que me sensibilizaram. Pela convicção e pelo carisma. Não era muito mais que isso, porque não podia ser mais que isso aos olhos de um jovem em formação. Um dos que mais marcaram, por razões que só mais tarde compreendi cabalmente, foi sem dúvida Helmut Schmidt. Desapareceu esta semana, sendo certo que a vida lhe proporcionou uma longevidade assinalável, mesmo com cargas radicais de nicotina orgulhosamente acumulada. Mais tarde percebi que Schmidt governou a Alemanha Federal com uma coragem enorme contra o extremismo terrorista, uma visão transbordante sobre a união financeira e monetária da CEE e uma intuição única da implosão dos blocos da Guerra Fria. Quando me sentei mais tarde (e sabedor) a ver a feliz destruição do Muro de Berlim, logo me veio à ideia que seria Schmidt a merecer a recompensa de ser o protagonista e herói do feito. De facto, luterano convicto, talvez tenha ido buscar a algumas das 95 teses do credo protestante uma das suas grandes e eternizadas máximas: chegar aos objectivos – como foi possível naquele dia em Berlim – implica dar passos curtos. E muitos.
Olhando para a cena final do cumprimento de António Costa, triunfante depois da derrota, a cumprimentar no parlamento Passos Coelho e Portas, vencidos depois da vitória, perguntei muito. Schmidt veio depois. Terá António Costa ponderado a tese dos “passos curtos” quando avançou sem retorno para os entendimentos alternativos à sua esquerda? Terá ajuizado a função de dique que a social--democracia (tão sustentada por Schmidt no seu grande combate com Helmut Kohl) – e que por ora verdadeiramente apenas existe em alguns sectores do PS e do PSD – desempenha, em favor do PS, na delimitação sociológica e institucional do BE e do PCP? Terá compreendido o verdadeiro significado de se poder estar a assinar a necrologia do centro pela esquerda, hipostasiando um rumo de regime que, pelo menos em tese, pode comprometer as vantagens que o voto útil sempre teria para o PS? Terá lobrigado que um governo do PS, minoritário mas sem protecção perante moções de censura do PCP e do BE, não está ao abrigo de nada a não ser de si próprio?
Terá cedido no desejo de ter o PCP e o BE no governo apenas porque lhe é mais fácil assim gerir as sensibilidades internas? Terá força suficiente para contornar o desejo do PCP de voltar a ter a base de apoio sindical que foi perdendo na administração pública, no Estado empresarial e nos transportes? As respostas comportam os riscos máximos de um compromisso mínimo a três, que, obviamente, não é nem pode ser para uma legislatura. É um compromisso para cada um dos orçamentos anualmente a discutir, o que é muito no estado actual. E tudo o resto se verá, linha a linha dos dois acordos, legitimados por uma maioria de deputados. Basta para tão grande passo?
Como acordo global de “esquerda”, tem uma vantagem colossal: pôr à prova os partidos que o suportam. Governar e permitir governar é fazer opções, enfrentar a contestação, superar a adversidade, concertar leis, sanar as diferenças de temperamento e de carácter – tudo isso é muito mais difícil que fazer oposição ou simplesmente comentar. A prova dos nove. Se Cavaco fizer o que todos prognosticam como lógico, daqui a não mais de um ano estaremos a discutir de novo o rasgo de António Costa. Do concreto, do Diário da República à rua, sairá o seu lugar na história, que tão ciosamente procura no meio de uma tenaz.
Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto.
Escreve à quinta-feira
