O desporto como escola de civismo
Uns chamam-lhe civismo, outros polimento ou verniz. Nós optamos pela humanização que traduz um ser que se preocupa com o seu semelhante, e isso é o princípio que mais destrinça o homem do animal
O objectivo fundamental da prática do desporto é sem dúvida o aperfeiçoamento do ser humano enquanto tal, e conseguir uma grande diferenciação em relação ao animal que era quando nasceu.
Alguns chamam-lhe civismo, outros polimento ou verniz. Nós optamos pela humanização, o que implicitamente traduz um ser que se preocupa com o seu semelhante, e isso é o princípio que mais destrinça o homem do animal.
E o desporto está na base deste princípio, já que através da sua prática é possível moldar e modificar o animal que há em cada ser humano.
Se dúvidas houvesse acerca disto, basta ver o ambiente de uma cadeia penitenciária para entender o que foi dito e perceber que sem a prática do desporto, mesmo a posteriori, não será possível qualquer reinserção social, porque não haverá previamente regeneração, condição essencial para que seja possível a reinserção.
Por aperfeiçoamento do ser humano entendemos a capacidade de renunciar voluntariamente a todo e qualquer comportamento que seja contrário à estabilidade social e susceptível de a lesar.
Isto só é possível através de um acto voluntário e consciente, princípio activo que está na base da aprendizagem e da sua pedagogia.
Ora só exercitando e fortalecendo a vontade é possível atingir tal desiderato.
Aqui aparece o desporto como escola de civismo, que de facto transforma o homem, próximo do animal, em homem urbano, ou seja, com urbanidade.
O que causa mais estranheza, e até um certo espanto, é a sociedade investir no conhecimento humano e depois ignorá-lo, e ouvir ainda por cima alguns, nomeados, por razões que desconhecemos, para os cargos, virem publicamente reconhecer que não há resultados positivos, mas recusam adoptar as ideias daqueles que estudaram os temas, e que foram pagos pela sociedade para o fazer.
É seguramente uma atitude irracional e anti-social que está na base do insucesso que grassa nesta área. Talvez a solução passe por convencer primeiro as autoridades através de uma experiência-piloto, ou até pelo exemplo que elas próprias possam dar praticando desporto, pois será certamente uma forma de se humanizarem e de transmitirem tal estado de espírito ao seu ambiente de trabalho.
É disso que o país precisa, e julgamos que há pessoas disponíveis para colaborar, assim haja vontade e a humildade democrática de reconhecer que haverá sempre quem faça melhor.
Mas sejamos claros: é absolutamente necessário, e urgente, que aqueles espíritos ancilosados (anquilosados) nesta matéria, e que querem interferir no fenómeno educativo, a partir da 5 de Outubro (Ministério da Educação), percebam de uma vez por todas que o desporto é um instrumento fundamental do fenómeno educativo, porque opera transformações de dentro para fora, ou seja, é o educando que, através de actos voluntários, se autocorrige, por perceber que errou e o caminho certo é outro, que toma agora como correcto e em sintonia com os costumes vigentes.
Se percebem isto, como é possível existir uma Secretaria de Estado da Juventude e Desporto fora do Ministério da Educação?
Mas se não percebem peçam a um ex-bolseiro do I.N.I.C., que foi pago pelo Estado, que o explique, ou até ao Conselho Nacional da Educação, ou ao próprio ministério, e depois decidam em consciência.
É que “o curso das coisas torna-se natural quando não nos interrogamos sobre o seu sentido” (Max Weber). Parece pois que poucos se interrogam!
Sociólogo
Escreve quinzenalmente à quarta-feira
