15/11/2018
 

YOGA NA ESCOLA PODE AJUDAR CRIANÇAS HIPERATIVAS












Texto | Marta Cerqueira
Fotografias | Diana Tinoco


As crianças ficam mais calmas, concentradas e melhoram as notas. As vantagens da prática de yoga a partir dos seis anos são óbvias para pais e professores e, por isso, a Confederação Portuguesa do Yoga quer que a prática passe a fazer parte dos currículos escolares de todas as escolas do país

Os sapatos vão-se alinhando à porta da sala de aula. E da mesma forma ordenada, cada um sabe exatamente que colchão escolher para começar a saudação, feita em forma de canção. «Com uma cara alegre, um grande sorriso, para fazer yoga é o que é preciso». A letra continua, sempre cantada em voz baixa e acompanhada por gestos.

Esta espécie de coreografia de bom comportamento, capaz de deixar qualquer um de boca aberta, não aconteceu de forma espontânea. «Ainda me lembro bem de chegarem a correr, aos saltos, a falar muito alto», relata Vera Revez. Era assim há um ano, quando começou a dar aulas de yoga na Escola António Matos Fortuna, em Palmela. Agora, já no segundo ano, as músicas sabem-se de cor, os pés e os braços esticados chegam cada vez mais longe e a sensação de calma prolonga-se para além da hora que todas as semanas é dedicada a esta prática.

Se dependesse da Confederação Portuguesa de Yoga, estes alunos especialmente calmos e ordeiros seriam comuns em todas as escolas do país. É, aliás, essa a próxima meta desta equipa habituada a grandes conquistas. Afinal, estiveram na linha da frente da candidatura da prática a Património Imaterial da Humanidade e conseguiram que o 21 de Junho fosse passasse a ser Dia Mundial do Yoga. «Agora, só falta que o yoga passe a fazer parte dos currículos escolares», admite Jorge Veiga e Castro, presidente da Confederação Portuguesa do Yoga.
A GINÁSTICA DO SÉCULO XXI 
Jorge ainda se lembra de quando era dos poucos do seu grupo de amigos a fazer ginástica, prática ainda pouco comum há quase 60 anos. «Agora toda a gente tem educação física, tornou-se uma coisa banal», refere, aproveitando para dizer que espera que o mesmo aconteça com o yoga. 

É por isso que a confederação mantém diálogo aberto com escolas e autarquias e, mais recentemente, com o atual Governo, «muito aberto a este tipo de iniciativa». 

De tal forma que Jorge acredita que será ainda na atual legislatura que o yoga passará a fazer parte dos currículos escolares. «Estou à espera que chegue o dia em que se diga: ‘ok, o yoga é a ginástica do século XXI’».

Para já, aguardam feedback, até porque não têm como prática a imposição. «Temos dado a conhecer as vantagens, estamos abertos a todas as questões, mas estamos preparados para implementar o yoga nas escolas assim que nos for dada essa abertura». 

Até lá, vão certificando professores e é só sobre eles que Jorge se responsabiliza. «É que, de repente, tudo é yoga e não é bem assim», lamenta. 

O curso superior de yoga é de seis anos e corresponde a 6500 horas de formação. Com mais quatro anos, os instrutores passam a professores, o equivalente a um mestrado. Só com mais quatro, num total de 14 é que se chega à categoria de mestre. Caso haja vontade de ensinar yoga a crianças, há uma especialização que pode ser feita ainda durante o curso inicial. «Se não é um especialista em pesca desportiva a dar aulas de matemática, também não faz sentido que seja uma pessoa sem formação na área a dar aulas de yoga, pois não?».

 

 









ENSINAR CRIANÇAS É ESPECIAL
Falar em «pránáyáma», «mudrá» ou «mantra» a crianças de seis anos seria abrir caminho a uma aula cheia de espíritos distraídos. É por isso que o ensino de yoga é diferente quando se trata de público infantil, «até porque a criança é, por si, um ser especial», resume Rosa Xufre. 

A diretora do departamento do yoga para crianças da Confederação Portuguesa do Yoga lembra que esta é uma atividade recomendada para crianças a partir dos seis anos, apanhando-a numa fase intensa de desenvolvimento físico e emocional. 

Assim, além de conhecimentos anatómicos, os professores têm que primar pela criatividade, conseguindo que as crianças cheguem ao «pránáyáma», «mudrá» ou «mantra» - exercícios do yoga - sem dar nomes aos movimentos. 

Nesta aula, Vera Revez decide contar uma história protagonizada por animais. Assim que tira a tartaruga de peluche da caixa que tem ao seu lado, os miúdos descem imediatamente a cabeça, até que toque nas pernas esticadas em frente ao corpo, em imitação. Segue-se a girafa, que põe a turma toda de pé, o elefante que os faz balançar o corpo, a imitar o movimento das orelhas do animal e, por fim, a zebra, que os obriga a estar de quatro, alternando o apoio entre braços e pernas de maneira a simular as riscas brancas e pretas. Todos este animais querem chegar à lua, obrigando as crianças a ir esticando o corpo até conseguir tocar no círculo redondo que a professora vai passando por cima de cada um.

É com histórias, bonecos e teatros que as professoras conseguem que muitos melhorem a flexibilidade, a concentração e até a capacidade de se acalmarem. Mas há mais. Segundo Rosa Xufre, até os níveis de aprendizagem aumentam. «Começam a conseguir acalmar-se e a visualizar as respostas, quando antes o primeiro impulso era desistir», explica. 

São, por isso, crianças mais calmas, mais fraternas com os colegas e com uma consciência ambiental acima da média. «Até dormem melhor, noites inteiras, sem pesadelos», acrescenta.

Este rol de vantagens faz com que o Jorge Veiga e Castro não se iniba de admitir que a prática de yoga poderia até substituir a toma de certos medicamentos, principalmente entre os mais novos, «que agora são todos diagnosticados com hiperatividade». 

Para o presidente da confederação, «se todos praticássemos yoga, poupávamos ao erário público muitos milhares de euros em despesas de saúde». Prova disso está na resposta curta e direta ao desafio de se lembrar da última vez que esteve doente. «Não me lembro de isso acontecer».