18/12/2018
 

 

 
Novo projeto para a praça do Martim Moniz está a ser contestado pelos moradores, mas esta é só a última polémica do bairro mais multicultural de Lisboa. O i foi ainda espreitar a vida da comunidade chinesa, uma das mais presentes nesta zona da cidade

TEXTOS | Beatriz Dias Coelho e Rita Pereira Carvalho
FOTOGRAFIA | Carlos Álvares e Mafalda Gomes

LISBOA

O QUE FAZ FALTA NO MARTIM MOZIZ, CONTENTORES COM COMÉRCIO OU UM JARDIM?

Os mais novos terão pouca memória do antigo Martim Moniz, mas foi há pouco mais de duas décadas que esta zona de Lisboa ganhou uma ampla praça com repuxos e espaço de lazer. A inauguração da renovada Praça Martim Moniz teve lugar em 1997 e, no ano seguinte, a câmara colocou os primeiros quiosques, ocupados ao longo dos anos por diferentes concessões. O objetivo era dar nova vida ao bairro mais multicultural da capital e, mesmo que os quiosques não tenham feito todo o trabalho, o certo é que o Martim Moniz está muito diferente do que era. Agora começa a desenhar-se um novo capítulo, mas está longe de haver consenso. A câmara insiste no comércio. Os moradores gostavam de ter um jardim. O que fará mais falta a esta zona histórica, e cada vez mais turística, de Lisboa? 

Para já, só é certo que a opinião dos moradores será tida em conta. Esta foi a última garantia de Fernando Medina, dada na reunião pública do executivo camarário, na semana passada. O concessionário da Praça Martim Moniz, segundo o autarca da capital, “pretende desenvolver um processo mais profundo de consulta, junto de intervenientes, de associações que estiveram na reunião [de apresentação do projeto aos munícipes], de grupos de moradores, outras individualidades, tendo em vista a apresentação de melhorias quanto ao projeto”.

O anúncio surgiu depois de, há quase duas semanas, no Hotel Mundial, Manuel Salgado, o vereador da Câmara Municipal de Lisboa (CML) com o pelouro do Planeamento, Urbanismo, Património e Obras Municipais, ter apresentado perante 120 pessoas a visão da autarquia para a praça. O que se pretende, explicou o vereador - acompanhado pelo presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho -, é transformar a praça num recinto repleto de contentores que irão substituir os quiosques que agora ali se encontram fechados, desde 11 de novembro, dia em que os contratos dos ocupantes com a empresa concessionária terminaram. A ideia, agora, é ocupá-los com restaurantes e outro tipo de espaços comerciais, estando previsto no projeto ainda a instalação, junto ao Hotel Mundial, de um parque infantil. Os presentes, contudo, deixaram claro que não é essa a transformação que desejam: querem um espaço verde onde lhes seja permitido relaxar, quase como um refúgio da agitação da Baixa lisboeta.

Em resposta às reações dos lisboetas, Manuel Salgado assegurou que registou as opiniões dos cidadãos e prometeu levá--las ao executivo. “Ouvi e obviamente que vou discutir isto no executivo. Não vos prometo rigorosamente nada. Registei tudo o que foi dito, é tudo o que vos posso dizer”, afirmou no final da apresentação. “Estamos com uma situação difícil neste momento. O nosso problema é que a concessão está válida. A larga maioria das pessoas prefere mais espaço aberto, prefere [espaços] vazios e prefere um jardim. Isso ficou muito claro no meu espírito e nos meus registos”, acrescentou o mesmo vereador.

Partidos apresentam propostas Na reunião de câmara em que anunciou a decisão da empresa concessionária da praça, Fernando Medina reconheceu que “o projeto apresentado tem virtualidades evidentes” tendo em conta a “situação atual” da praça, assegurando ser o momento de ouvir opiniões, de haver abertura. “E há abertura para incorporação de alterações no projeto”, garantiu. “É uma abertura que valorizamos, mas convém não desvalorizar que há ali interesses que se movimentam que não são coincidentes com os interesses do município nem os interesses públicos que o município expressa”, afirmou. Referindo-se ao projeto, Medina garantiu que “a proposta de solução para o Martim Moniz não partiu de nenhuma iniciativa da câmara”, explicando que a proposta “foi coincidente com a análise”, feita pela CML, “de que havia coisas que não podiam ser melhoradas, e que foi desenvolvida no âmbito da atual concessão”

De resto, antes de a empresa concessionária fazer chegar a decisão à autarquia, já o Bloco de Esquerda (BE) e o PSD tinham mostrado o seu descontentamento com o projeto pensado para a praça.
Na reunião da assembleia municipal que se seguiu à apresentação do projeto, o BE apresentou um requerimento a Medina sobre o projeto, pedindo explicações e defendendo uma “cidade partilhada por todos e todas, em que os cidadãos não são obrigados a consumir para usufruir do espaço público e onde a segurança é garantida sem muros ou vedações”. No Martim Moniz “temos essa oportunidade de retomar uma praça e aumentar as zonas verdes da cidade, com equipamentos públicos para todos”, afirmavam os deputados municipais no mesmo documento.

O PSD, por sua vez, respondeu ao projeto propondo, como avançou ao “Público”, a abertura de um concurso internacional de ideias para encontrar o destino da praça. 

POUCA TRANSPARÊNCIA

Mas parece haver um problema de fundo: não é fácil perceber os contornos do contrato da CML com a empresa NCS - Número de Ciclos por Segundo, que detém a concessão da praça desde 2012. O i pediu esclarecimentos à autarquia, mas não obteve resposta. 

O BE não está satisfeito com a informação atual. Na reunião da última semana, o vereador bloquista Manuel Grilo apresentou uma moção - que foi aprovada - pedindo “a distribuição aos vereadores do contrato celebrado com a concessionária”, a par de “todos os elementos do novo projeto proposto pelos novos acionistas da concessionária”. Na moção, um tópico em particular gerou maior controvérsia na votação: a possibilidade de a praça vir a ser vedada à noite, ideia que recebeu os votos contra do PSD, CDS-PP e PCP. “Estamos perante uma zona que, historicamente, sempre foi uma zona, por vezes, com algumas situações de insegurança. A degradação também resulta um bocado disso. Poderá haver ali, durante a noite, alguma situação de controlo”, justificou Manuel Salgado ao “Público”, explicando que “na placa central vai haver um parque infantil grande, do lado do Hotel Mundial, e do lado oposto mantém-se o lago que lá está. Essas manter-se-ão sempre abertas, até porque deixa de haver cantos, zonas que pudessem de algum modo criar alguma situação de insegurança”, acrescentou o vereador ao mesmo jornal.

Na mesma ocasião, o PSD apresentou uma proposta - cuja votação foi adiada - que pede à CML “que se pronuncie sobre o eventual incumprimento do contrato de concessão”, acreditando que não está a ser cumprido. Por sua vez, o PCP reagiu ao projeto entregando, na mesma reunião, uma proposta - que ficou a aguardar agendamento - para “proceder à avaliação da concessão” com o objetivo de “concretizar as medidas necessárias para denunciar o contrato”.

Entre as várias forças políticas na câmara, o CDS é a única que ainda não apresentou nenhuma proposta.

MOVIMENTO CÍVICO JUNTA-SE À DISCUSSÃO

Dias depois da apresentação do projeto, o Fórum Cidadania Lx reagia em comunicado, anunciando que propôs à autarquia a anulação da concessão e do projeto em cima da mesa, bem como a “reformulação completa do programa de reabilitação da praça”. A ideia do movimento cívico é abrir um “concurso público internacional para a reabilitação paisagística da praça”, pedindo a existência de “um período de consulta pública sobre os parâmetros paisagísticos” da obra.

Para o grupo, os cidadãos devem ter algo a dizer sobre “o redesenho da praça, definição das áreas verdes e tipo de arvoredo, desenho dos percursos pedonais, características do mobiliário urbano, eventual presença de um quiosque e eventual colocação de gradeamento como medida de segurança no caso de se verificar uma manifesta incapacidade de policiamento eficaz”, defendendo que os moradores estejam representados no júri do concurso e que se realize um “referendo local” quanto às opções em cima da mesa. 

LISBOA

A MESQUITA QUE DEIXOU ANTÓNIO BARROSO SEM PRÉDIOS E O CENTRO DE SAÚDE FORA DA CAIXA

O futuro da Praça Martim Moniz está longe de ser a única polémica no bairro nos últimos anos. A decisão de se avançar com a construção da mesquita da Mouraria, projetada para a Rua do Benformoso, é dos dossiês que têm feito correr mais tinta. Para que o projeto possa ser uma realidade foi feita a expropriação dos prédios localizados nos números 135 e 151-A. O proprietário, António Barroso, nunca se conformou, mas perdeu o caso. Continua à espera que se faça justiça, até porque mensalmente tem de pagar o empréstimo com que tinha adquirido os imóveis, que já não são seus. 

António Barroso moveu um processo contra a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para contestar o procedimento mas, no final do ano passado, a justiça decidiu a favor da CML, dando luz verde à construção do templo muçulmano. Ao i, o homem, hoje com 65 anos, conta que, em maio de 2016, a câmara expropriou-o dos dois prédios, que comprou em 2006. Lamenta desde logo não ter tido voto na matéria. “O presidente da câmara convocou-me para uma reunião para falarmos sobre o assunto”, mas “horas antes” do encontro “já tinha sido depositado na minha conta um total de 531 850 euros” como indemnização. 

Barroso recusou o valor, que acabou por ser aumentado para 953 800 euros. Mas esse valor incluía indemnizações que seriam destinadas aos inquilinos, explica. É que, depois de comprar os prédios, o proprietário remodelou-os. Mudou-se para um dos andares de um prédio com três pisos, destinando os outros dois a alojamento local. Quanto às lojas, têm como inquilinos um restaurante e uma agência de viagens. “Fiz um empréstimo para as obras que continuo hoje a pagar e a indemnização que me transferiram não chega nem para isso”, lamenta. “Tenho de pagar ao Montepio 2300 euros todos os meses.”

Mesmo que quisesse comprar prédios semelhantes, a verba oferecida pela câmara não o possibilitaria. E garante: “Não vou usar esse dinheiro. Sou comerciante, mas prefiro recorrer a amigos se precisar.”

Legalmente, não sendo o proprietário dos prédios, não pode celebrar novos contratos. Ao mesmo tempo, tomou a decisão de deixar de cobrar rendas. “Os prédios não são meus”, justifica.

Num impasse, António Barroso conta que, no final do ano passado, foi contactado por um jornalista que lhe disse que Fernando Medina já lhe tinha oferecido dois prédios em troca. Mas o proprietário expropriado nega. “Nunca me foi oferecido nada em troca”, afirma. 

Para provar a sua posição, o homem foi mesmo a uma reunião de câmara, em dezembro do ano passado, confrontar Medina. “Perguntei-lhe onde estão os prédios e em que estado estão, mas não respondeu. E ainda me quis pôr na rua, porque disse que lhe estava a chamar mentiroso”, lamenta. Do seu lado, a câmara entende que o dossiê está fechado, uma vez que foi paga a indemnização determinada pela justiça.

UMA REVOLUÇÃO NA SAÚDE

A contrastar com o desenrolar desta história, que deverá terminar com um novo templo de três milhões de euros no coração na cidade (a construção da mesquita ainda não arrancou), nos últimos tempos houve um investimento público no bairro que despertou uma corrente de otimismo. Antes de ser uma realidade, passaram-se, porém, anos de impasse. 

A Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa, inaugurada em novembro de 2016, serve hoje cerca de 15 mil utentes. Na cerimónia de inauguração, o primeiro-ministro recordou que, desde o momento da assinatura do protocolo para a construção e o fim das obras da USF da Baixa, passaram “dois presidentes de câmaras e três governos distintos”.

Descontado o atraso, hoje parece estar a fazer alguma diferença. Se o bairro é dos mais multiculturais da cidade - somam-se perto de 80 nacionalidades -, o Martim Moniz é também uma zona onde a população idosa está muito presente. Contudo, até há dois anos, os cuidados de saúde primários da zona eram conhecidos pelas más condições. Hoje são conhecidos por algumas particularidades, mas o balanço parece ser positivo.

Ao i, Maria, uma das idosas utentes da instituição, conta que a primeira vez que lá foi estranhou. “Os médicos não usam bata e, quando o centro abriu, isso causou-me alguma estranheza”, recorda. Hoje, contudo, admite que o trabalho dos jovens médicos - um total de nove, nenhum com mais de 35 anos - é bom e Maria sente-se em boas mãos.

Jovens ou não, a verdade é que desde que os médicos lá chegaram, um dia normal nesta unidade de saúde familiar - aberta da 8h às 20h - é um dia em que não há filas. E o trabalho que lá se desenvolve já mereceu atenção internacional: é que, para lidar da melhor forma com a multiculturalidade - e porque, muitas vezes, as pessoas que ali chegam não conseguem falar sequer inglês -, os médicos criaram o Bengalisboa Community Health Project, com o objetivo de compreender e estar mais perto da comunidade imigrante do Bangladesh, ideia que valeu à USF da Baixa um destaque no site europeu da Integração de Migrantes, uma plataforma da Comissão Europeia que divulga boas práticas na área.

Outro projeto inovador nesta unidade de saúde é a prescrição social, que segue um modelo nascido no Reino Unido. A ideia é que os médicos, ao receberem os utentes, identifiquem se estes precisam de algum tipo de ajuda, colocando-os em contacto com associações que prestam apoio à comunidade.

A Unidade de Saúde Familiar da Baixa é ainda conhecida entre os utentes por outra iniciativa, praticada também lá fora: Walk With a Doc. Todos os meses, um dos médicos de família acompanha os utentes numa caminhada. O objetivo? Incentivar à prática de exercício físico, sem custos. 

LISBOA

O ADMIRÁVEL MUNDO CHINÊS DO MARTIM MONIZ

Basta pôr um pé no Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, e o cenário muda. É como entrar num mundo diferente. Quatro andares de lojas indianas, africanas e chinesas - sobretudo chinesas. Às 11 da manhã, a agitação já é geral. “Quanto custa?” é o que mais se ouve. Nos corredores já se veem pequenas mesas onde o garfo e a faca são substituídos pelos típicos pauzinhos chineses. Os trabalhadores das lojas não têm hora para o arroz chau chau e o cheiro denuncia-os. Logo no primeiro andar está uma pequena loja que só vende ganga - casacos, calças, camisas, é o paraíso da ganga. Lá dentro está Eric, concentrado no telemóvel, enquanto não entram clientes. 

Apesar de ter apenas 22 anos, é o dono do espaço. Decidiu abrir a loja por tradição. Os pais têm várias lojas e, como diz, é a vida. “Normalmente, um de nós só consegue ter uma loja, isso chega para nos concentrarmos nela e passar a vida”, conta. Em Portugal há 18 anos, Eric gosta de estar cá, tem amigos portugueses, frequentou escolas portuguesas e, agora, o seu futuro “passa por aqui”. Além disso, tem muitos amigos chineses cá, o que faz com que se sinta perto das tradições. 

Os chineses são a quinta comunidade estrangeira com mais residentes no nosso país. Em todo o território nacional há mais de 23 mil pessoas que deixaram a China e escolheram Portugal para viver. E a tendência é para aumentar, já que no ano passado se verificou uma subida de 3,1% em relação a 2016.

Tanto o Centro Comercial da Mouraria como a Rua da Palma são uma verdadeira Chinatown em Portugal. Não há zona mais chinesa do que esta. Mercearias só com comida oriental onde a única coisa portuguesa que se vê na montra é a cerveja - “só para atrair clientela”, dizem os comerciantes -, sapatarias e até um spa e um cabeleireiro, tudo direcionado para a comunidade chinesa. No cabeleireiro, por exemplo, a comunicação é muito difícil quando se fala português ou inglês. A língua dominante é mesmo o mandarim e, quando o cliente não fala o mesmo dialeto, a conversa é dada como terminada.

Na redação do “Sino”, que tem um jornal, uma rádio e prepara um bloco televisivo, trabalham 40 pessoas

OS MUROS QUE ISOLAM A COMUNIDADE

Passear no Martim Moniz ou na Mouraria é uma aventura e a única dificuldade é mesmo a incompatibilidade da língua. Há, de facto, um fenómeno curioso dentro da comunidade chinesa: a geração mais nova fala abertamente sobre os motivos da sua vinda, sobre gostar ou não de estar no nosso país; os mais velhos cortam de imediato a comunicação. Inês Andrade, diretora da Associação Renovar a Mouraria, refere exatamente que “os mais jovens já começam a adquirir um estilo de vida um bocadinho mais ocidental”, mas os pais muitas vezes criam barreiras. E aqui assenta a cultura de perfeccionismo que é característica desta comunidade, além de falarem uma língua que tem um alfabeto diferente. “Os chineses são tão perfeccionistas que não falam com medo de falar mal. Têm vergonha, têm uma cultura de perfeccionismo. E tudo o que eles fazem tem precisamente essa questão”, diz Inês. A Associação Renovar a Mouraria tem um jornal anual onde, neste momento, colaboram duas chinesas e, conta a responsável, já tiveram até “a história de uma família chinesa na capa”.

O jovem Eric, por exemplo, tem muitos amigos portugueses e não tem vergonha de falar. Já os pais, diz o jovem, “não têm muitos amigos portugueses, têm mais o hábito de estar com a comunidade chinesa, com as famílias, e o problema é a dificuldade em falar português”

A não ser para pedir informações sobre os produtos que vendem, é muito difícil saber mais sobre os chineses que vivem em Portugal. Mesmo nos restaurantes, nos chamados “chineses clandestinos” que enchem as estreitas ruas adjacentes à Rua da Palma, a comunicação entre empregado e cliente é muito difícil, quase impossível, ao ponto de o empregado dar uma caneta para o cliente escrever. Acontece com o menu, com as reservas, tudo truques para evitar a comunicação. É certo que a tendência é de mudança, mas os muros ainda são altos, sobretudo quando se fala dos mais velhos. Mas também é verdade que no país não há incentivos para aprender a falar português. Os cursos ou são pagos ou são ministrados por associações, como é o caso da Renovar a Mouraria, onde as comunidades da zona aprendem português. 

Os chineses acabam por aprender a falar português pela força do hábito, ou então nunca aprendem. Muitos estão em Portugal há mais de 20 anos e falam muito pouco. E aqui há outro fator importante. Na estrutura social, o conceito de grupo, com a estrutura familiar no lugar central desse grupo, é a característica mais marcante da sociedade chinesa. O lugar central da família reflete-se nas atividades económicas, onde se espera que os filhos ajudem na atividade dos pais e, quando estes cheguem a uma idade avançada, os filhos continuem o negócio familiar. 

Em relação aos vistos gold para Portugal, os chineses lideram a tabela. No ano passado, 538 pessoas oriundas da China obtiveram o regime especial de autorização de residência para atividade de investimento. 

Este cenário é próximo de Chen. Novamente dentro do Centro Comercial da Mouraria, na loja 230, o jovem de apenas 20 anos ajuda os pais no negócio. Não quis ir para a faculdade exatamente por causa da língua. Na escola, não gostava de português. Os verbos são o mais difícil de uma língua que Chen ainda não domina, apesar de estar no país há seis anos. Fora a gramática, tinha sempre boas notas a Matemática, conta Chen, enquanto atende uma cliente que procura um vestido de festa. 

O jornal, em mandarim, é uma forma de manter a comunidade em contacto

“DE SEGUNDA A SEGUNDA, 24 HORAS POR DIA”

A cultura da comunidade chinesa não é só de perfeccionismo, é também de trabalho. Inês Andrade refere isso como um ponto que pode prejudicar as relações sociais dos chineses em Portugal. “São comunidades que estão vocacionadas para o trabalho intenso, vivem para o trabalho. Aí têm muito menos disponibilidade para trabalhos extra aquilo que é o seu dia-a-dia laboral. De segunda a segunda, 24 horas por dia.” E quais são as consequências de tanto trabalho? Naturalmente, a falta de tempo para outras atividades. “Normalmente, os miúdos chineses não vão porque os pais estão a trabalhar e não os podem levar. São este tipo de detalhes que demonstram a falta de participação deles numa vida social mais normal segundo os nossos padrões”, explica a diretora da Associação Renovar a Mouraria. 

Mas este cenário não é regra. No último andar do Centro Comercial da Mouraria, no fundo do corredor, onde as lojas já estão despidas e só há paredes, está uma agência de viagens chinesa. Aliás, no meio de tantos carateres, só a imagem de um avião denuncia o que realmente se vende ali dentro: viagens.

Lá dentro, Tracy é uma das trabalhadoras. Escolheu um nome inglês para ser mais fácil. Mas, em relação às festas de aniversário, Tracy faz questão de levar sempre a filha a todos os eventos. “Em casa falamos chinês, na escola fala português. Ela tem muitos amigos, tem sempre os aniversários”, acrescenta. Em Portugal há nove anos, Tracy sente que os portugueses recebem bem quem vem de fora para trabalhar. Além disso, fala da comida: “Os portugueses têm comida mais saborosa, é mesmo muito boa. Em casa fazemos comida chinesa, mas quando vamos jantar fora comemos comida portuguesa.” 

Nos primeiros dois anos, Tracy não falava português, foi aprendendo com o tempo. “É uma língua muito, muito difícil. A minha filha já sabe mais do que eu”, diz. Além das festas de aniversário, a chinesa de 39 anos admite que tem muitos amigos portugueses. O esforço é grande, mas compensa.

COMO DERRUBAR O MURO?

Na Rua da Palma, a proprietária da única mercearia que quis contar a sua história e não teve medo de falhar nas palavras enquanto conversava foi Susana. O nome é português, mas garante que é chinesa todo o ano. “Foi uma amiga minha portuguesa que me deu o nome quando vim para Portugal.” Apesar da disponibilidade para falar, Susana nunca para de trabalhar. Atende clientes enquanto fala da data lunar - outro festejo que acontece todos os anos na Praça Martim Moniz, além do Ano Novo chinês. À porta tem um jornal. “O jornal é semanal e é oferta. Nem toda a gente leva, agora tudo tem internet, telemóvel. É muito triste, mas é assim”, diz Susana. 

Fala do jornal “Sino”. Para um português, as únicas coisas percetíveis são, de facto, as imagens, mas para a comunidade chinesa em Portugal é como ter um pedaço da China cá. O “Sino” estava perto de Susana, mas mudou-se recentemente para a Expo. Cresceu, a redação aumentou e foram obrigados a sair da Rua da Palma. 

Imprensa escrita, televisão e até rádio. No “Sino” é tudo direcionado para a comunidade chinesa e para quebrar as barreiras entre chineses e portugueses. São cerca de 40 pessoas que trabalham para que tudo funcione da melhor maneira. Têm estúdios de rádio e de televisão e uma pequena redação onde também trabalham portugueses que, obviamente, têm formação em mandarim. Joana Xu é a tradutora do jornal. De dupla nacionalidade, já nasceu em Portugal e garante que o jornal é uma forma de quebrar as barreiras entre portugueses e chineses. Neste momento estão a preparar um novo conteúdo, chamado “Janela da China” que será transmitido no “Porto Canal”. O canal chinês é traduzido para português, tanto para os chineses aprenderem português como para os portugueses se aproximarem da China. O objetivo é juntar as duas comunidades.

É o admirável mundo chinês, uma espécie de segundo mundo em Portugal. As barreiras ainda são muitas - a língua, as longas horas de trabalho - e separam os chineses dos portugueses. Chegar ao Martim Moniz, à Rua da Palma ou à Mouraria é entrar no verdadeiro universo da China. 

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