19/06/2019
 

TROTINETAS PARA QUE VOS QUERO

Em Lisboa, além das bicicletas – muitas delas elétricas –, são as trotinetas com motor que marcam o dia a dia de turistas e residentes. No Porto, além das scooters, continuam a ser as bicicletas os mais meios escolhidos para escapar ao trânsito e, nalguns casos, para fazer exercício. O i foi ver como se impõem estas novas realidades

TEXTOS | Carolina Brás e Joaquim Gomes
FOTOGRAFIA | Carlos Álvares e Mafalda Gomes

A INVASÃO DE LISBOA

Manhã de um dia de outono em que o calor do sol já não consegue esconder o frio que se faz sentir na capital. Os lisboetas preparam-se para mais um dia de normal azáfama na cidade. Com o saco de ginástica ao ombro e um ar feliz, Gil, estudante na Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa, pega na trotinete junto ao ginásio nos jardins do Campo Grande e arranca: “É mais rápido, cómodo e sei que a apanho em qualquer lado. É um percurso pequeno e prefiro fazê-lo assim”, diz ao i. A trotineta faz parte das rotinas de Gil, que três vezes por semana não prescinde de fazer este percurso neste novo meio de transporte. Se o fizesse a pé levaria 10 minutos, na trotinete faz em três.

E é pelo tempo que muitos munícipes já aderiram a esta moda, já que financeiramente ainda não é muito compensador. Afinal, “desbloquear” uma trotineta implica pagar logo um euro e, depois, a cada minuto é preciso desembolsar mais 15 cêntimos. “O problema disto é ser caro. 15 cêntimos por minuto ainda é um bocado”, exclama um dos rapazes de um grupo de quatro enquanto descarrega a aplicação da Hive, junto à Rotunda do Saldanha. “Se tivesse anuidade era melhor”, comentam, mas, agora, “é só para experimentar”.

As trotinetes amarelas despertam o interesse de muitos curiosos que apenas param para ver, ler as informações e perceber o serviço. E também de turistas, que veem nelas uma nova forma de conhecer a cidade.

“Os miúdos adoram, até está na lista de desejos dele”, confessa Diane, americana de férias em Lisboa com a família. Enquanto as duas filhas olham para as trotinetes e se põe em cima delas, Diane conta: “É a primeira vez que experimento, mas olho para elas como uma boa e diferente forma de ver a cidade”.

Também de férias em Portugal, um casal alemão que encontrou trotinetes em frente ao Horto do Campo Grande não resistiu a experimentar. A entender a língua portuguesa na perfeição, Anne conta ao i que esta seria a primeira vez que passearia de trotinete porque “em Berlim, só de bicicleta”. Enquanto o namorado percebia como funciona a aplicação e o veículo, Anne confessa que não têm um destino definido. “Vamos experimentar até onde quisermos e conhecer a cidade”. Os dois seguiram depois, divertidos, em cima da trotinete.

Mais do que as bicicletas, as trotinetes despertam, de facto, a curiosidade de jovens e turistas, que veem com bons olhos esta nova forma de mobilidade. As 200 trotinetas brancas da Lime estão espalhadas por Lisboa desde outubro e, através da aplicação, é possível perceber que não se encontram apenas em sítios estratégicos, mas também em ruas de habitação ou longe do centro. No entanto, o utilizador não pode estacioná-las no centro histórico, zona desenhada a vermelho no mapa da app.

Em pouco mais de um ano, a americana Lime cresceu de forma exponencial e, com o financiamento da Uber e da Google, já está presente em algumas das mais importantes cidades da Europa, como Madrid, Paris, Berlim e Londres. Além disso, foi a primeira empresa de trotinetas elétricas partilhadas a apostar em Portugal.

A primeira concorrente apareceu já em novembro, na última terça-feira. A “Hive”, projeto-piloto da myTaxi, tem mais de 126 veículos na cidade. Esta inovação de uma das maiores aplicações de táxis, escolheu Lisboa para testar o produto. “É um complemento perfeito para o nosso negócio do táxi, já existente, uma vez que podem ser utilizadas principalmente para passeios curtos, de cerca de um a dois quilómetros”, explicou a empresa em comunicado: “Uma mais-valia muito ecológica e sustentável ao mix da mobilidade”.
TROTINETAS ESTÃO EM LISBOA DESDE OUTUBRO, MAS JÁ DESPERTAM A CURIOSIDADE DE RESIDENTES E ESTRANGEIROS 
JUNTAS NA CICLOVIA

Embora as trotinetas estejam a ganhar espaço, a verdade é que as bicicletas continuam a merecer a preferência de jovens e adultos. “Desculpem, estou com pressa”, disse ao i, um senhor de fato e gravata que pedalava na ciclovia junto ao Campo Pequeno. Na sorte de apanhar um sinal vermelho, houve também quem confirmasse a emergência para chegar a casa. “Desculpem, vou ter exame a seguir e preciso mesmo de me despachar, vou só a casa almoçar”, disse, atrapalhada, uma estudante universitária.

A rapidez, eficácia e a comodidade é o que mais atrai os condutores. No entanto, o preço é palavra-chave. Mais barato do que as trotinetas e que os transportes públicos, a bicicleta é, para muitos, a forma ideal de deslocação em Lisboa. “É mais rápido, mais cómodo e acima de tudo mais barato que os transportes públicos. Eu uso quase todos os dias e para ir para quase todo o lado”, explicou João Almeida, estudante do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas que percorre quase todos os dias o caminho entre casa, Picoas, e o sítio onde estuda, de bicicleta.

Na doca junto à estação de comboios de Entrecampos e prestes a alugar uma destas bicicletas, que podem ser pagas anualmente por 25 euros ou mensalmente por 15€ para viagens com um limite de 45 minutos e que obrigam ao pagamento de uma taxa depois deste tempo, João contou que a experiência nas Gira nem sempre tem episódios felizes. “Por vezes encontro umas em mau estado, com problemas nos travões ou por exemplo assim”, explicou enquanto apontava para um selim com a proteção descolada. “Nos últimos meses chego às estações e não há bicicletas. Nessas situações acabo por ir a pé”, confessou.

As mesmas queixas tem Mariana Carvalho, que utiliza este serviço quase todos os dias. “Às vezes não há bicicletas nas docas e outras não dá para escolher que tipo de bicicleta queremos”. A procura é maior que a oferta e as exigências dos utilizadores pedem mais docas: “Muitas vezes quero ir para alguns sítios, mas não vou de bicicleta porque sei que não há docas”. Na mesma paragem que João, Mariana preparava-se para o curso de espanhol, na Avenida da Liberdade. “Vou de bicicleta cada vez que saio de casa para ir a algum lado”, finalizou.

A Gira oferece bicicletas clássicas e elétricas e estas últimas fazem os encantos da maior parte dos utilizadores. Em cima de uma destas bicicletas, Sílvio acabou de sair de uma consulta no Marquês de Pombal e prepara-se para regressar a casa, em Telheiras. Tem bicicleta própria, que usa quase todos os dias para passear, mas aluga “sempre destas (elétricas) para não chegar às consultas suado”.

O cansaço e as consequências do mesmo são também o que faz Maria Manuel Sá Pereira, acabada de sair do Saldanha, escolher apenas uma bicicleta clássica quando se prepara para ir para casa. “Utilizo (bicicleta clássica) sempre que vou das reuniões para casa, ao contrário não, porque fica mal chegar suada ao trabalho”, disse, entre risos. “As ciclovias estão bem assinaladas e os semáforos ajudam. Esta é uma boa e rápida forma de viajar, ainda por cima quando faz sol, que ajuda muito”.

Os lisboetas estão cada vez mais rendidos a esta nova forma de mobilidade e as Gira, que têm já mais de 92 estações e 935 bicicletas, já conta com mais de 15 mil passes anuais e mais de 675 mil viagens nos últimos 12 meses. Segundo dados da Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL), 75% das viagens são feitas por residentes e apenas 1% por estrangeiros.

Luís Natal Marques, presidente da EMEL, detentora do serviço, explicou ao i que a utilização das Gira “tem um pico às nove da manhã, volta a atingi-lo à hora de almoço e mais tarde na hora de regressar a casa”. O serviço está disponível desde setembro do ano passado e Natal Marques mostra-se orgulhoso do resultado. “É um meio de transporte fácil, comum e desenvolvido especialmente a pensar em nós”, disse. O presidente contou ainda em primeira mão ao i que o serviço chegará nas próximas semanas a um milhão de utilizações e que a “adesão faz pensar na expansão” para cerca de 1400 bicicletas já no próximo semestre, numa altura em que a cidade das sete colinas é cada vez mais amiga dos pedais.

Este serviço teve já um concorrente, as “oBike”. O serviço permitia que as pessoas circulassem em bicicletas partilhadas e que as deixassem em qualquer sítio da cidade. Os veículos amontoados e deixados no meio das ruas alertou a autarquia, que mandou retirar de circulação todas as bicicletas da empresa de Singapura. Ainda assim, numa mensagem deixada na rede social Facebook, a empresa prometeu melhorar o serviço e voltar “em breve”.

O preço destas variava consoante os pontos, que se baseavam na utilização responsável e condução cuidada.

LISBOA É UMA CIDADE APETECÍVEL

Além da Lime a da Hive, são muitas as empresas que querem que as suas trotinetes passeiem pelas ruas da cidade à beira Tejo.

A partir de 15 de dezembro, as rodas das portuguesas Bungo vão levar os lisboetas até onde quiserem. João Pedro Cândido, um dos fundadores, contou ao i que a empresa está agora a “finalizar os últimos detalhes com a Câmara Municipal de Lisboa” e explicou que este serviço difere de todos os outros “em alguns detalhes”, uma vez que os preços e procedimentos são idênticos.

“O pagamento via multibanco e a possibilidade de emitir uma fatura com NIF fazem a diferença num mercado onde todas as soluções são tão parecidas”, disse.

Prestes a entrar em Portugal estão também as suecas VOI. A startup que tem como investidores Justin Mateen, co-fundador do Tinder, e Nicolas Brusson, co-fundador e presidente executivo da BlaBlaCar, já está presente em cidades como Madrid e Estocolmo e pretende agora expandir-se para o Luxemburgo e Itália, por exemplo.

Em comunicado, a empresa confirma que a expansão irá ser “rápida, mas sustentada” e diz que o objetivo passa por trabalhar “lado a lado com o poder político e decisores para melhorar a rede de transporte local em todas as cidades”.

Concorrência a estas quer também fazer a Iomo. Segundo Luís Reis, co-fundador da empresa, “a entrada está para breve, mas ainda não podemos avançar datas”.

As previsões são secretas, mas a aposta em Lisboa é séria até porque “é a cidade com melhor piso”, confessou ao i.

O mesmo interesse tem a empresa WIND, que irá funcionar através de um sistema de pontos se encontrar a trotineta da sorte.

CIDADE DAS SETE COLINAS É UM BOM INVESTIMENTO

TEXTO | Carolina Brás
INFOGRAFIA | Óscar Rocha

O crescimento do uso de bicicletas elétricas partilhadas e a enchente das ciclovias abriu o olhos das startups que apostam em novas formas de mobilidade. No mundo das trotinetes elétricas partilhadas, a Lime foi a primeira a ver em Lisboa um bom investimento, mas a concorrência promete ser muita. Este mês, a MyTaxi lançou as trotinetes Hive, mas segundo o vereador Miguel Gaspar, são mais de 13 as empresas interessadas. O i dá-lhe a conhecer algumas delas

Lime | Trotinetes elétricas 

Primeira empresa de trotinetes partilhadas a apostar em Lisboa


Entre as margens do rio Tejo e Benfica e de Algés até ao Parque das Nações, é este o perímetro em que poderá encontrar uma Lime. Com autonomia para 50 quilómetros e com velocidade máxima de 24 km/h, as trotinetes poderão ser encontradas em qualquer lugar, exceto no centro histórico, uma vez que o condutor poderá estacioná-la em qualquer lugar. Para saber o local exato de cada uma e o estado da sua bateria, basta procurá-la no mapa da app onde terá de ter já uma conta. Ao encontrá-la é necessário que leia o código específico (QR) e tire uma fotografia ao estado em que a encontrou. O desbloqueio da trotinete tem um custo de um euro e por cada minuto terá de pagar 0,15 cêntimos.

iomo | Trotinetes elétricas

A data de lançamento ainda é segredo, mas empresa assegura que será em breve 


As trotinetes azuis ainda não fazem parte do dia-a-dia da capital, o procedimento parece não ser muito diferente daquele que os portugueses já conhecem. O que muda? A bateria destas terá autonomia de 2 horas e as trotinetes conseguem atingir uma velocidade máxima de 20 km/h. As semelhanças aparecem no preço e na forma como podem ser alugadas. Um euro por desbloqueio e 15 cêntimos por cada minuto, através da app que já pode descarregar. Para as conduzir, precisa de ter mais de 18 anos, o uso do capacete é apenas aconselhado e a área de estacionamento terá de respeitar os locais considerados seguros e pré-definidos pela empresa através do mapa da aplicação.

oBike | Bicicletas elétricas

As bicicletas já andaram por Lisboa e depois de recolhidas prometeram voltar.


Uma das maiores startups de partilha de bicicletas do mundo chegou a Lisboa em fevereiro com 350 bicicletas. Sem estações fixas, o que levou a que fossem recolhidas em menos de um mês por estacionamento indevido, e colocadas entre Belém e Santa Apolónia, o utilizador apenas teria de a desbloquear através do QR e, quando a deixasse em qualquer local, travá-la manualmente. O pagamento era feito através de cartão de crédito, e o preço variava consoante o comportamento do utilizador. Dependendo da condução positiva e da conduta responsável, o condutor ganhava pontos que se refletiam no preço das viagens. Com mais de 80 pontos pagaria 50 cêntimos por viagem, com menos teria de pagar cinco euros. 

Gira | Bicicletas elétricas e clássicas

Serviço da EMEL foi o primeiro na cidade


As bicicletas verdes de Lisboa são um caso de sucesso. Tal como um transporte público, poderá escolher de que forma quer pagar pelo serviço. O passe anual tem um custo de 25 euros, o mensal de 15 euros e o passe diário de dois euros. No entanto, nas modalidades anuais e mensais, terá de pagar 10 cêntimos por aluguer de bicicleta e uma taxa de um ou dois euros se exceder os 45 minutos de viagem. As bicicletas encontram-se nas 92 docas espalhadas entre Moscavide a Praça do Comércio e no caminho entre a zona ribeirinha e o Colégio Militar. Cada uma tem, em média, 18 bicicletas e mais de metade são elétricas. Estas docas têm wi-fi para que possa utilizar a aplicação para desbloquear a bicicleta sem problemas.

WIND | Trotinetes elétricas

Condutores vão poder alugar trotinete da sorte e ganhar prémios


As trotinetes azuis e verdes ainda não estão na cidade, mas a aplicação já pode ser descarregada e o perímetro onde estas poderão ser encontradas já é conhecido. A zona de Lisboa está ativa, no entanto só no centro, até à Avenida de Berna e de Belém a Santa Apolónia. A novidade desta aplicação está na sorte. Caso a encontre e conduza a trotinete da sorte ganhará pontos que se podem traduzir em algumas ofertas, não explicadas na app. O preço é igual ao dos restantes serviços de bicicletas partilhadas – um euro para desbloquear e quinze cêntimos por minuto – e o estacionamento poder ser feito em qualquer lado. Terá ainda um código através do qual pode oferecer uma viagem grátis a um amigo.

Hive | Trotinetes elétricas

Acabadinhas de sair, são o novo projeto do serviço MyTaxi


Desde terça-feira, as 120 Hive já podem ser alugadas nas ruas de Lisboa, a cidade escolhida para implementar o projeto-piloto da empresa MyTaxi. A autonomia das trotinetes é de 45 quilómetros e podem atingir uma velocidade máxima de 24 km/h. Estas encontram-se entre Algés e Moscavide, desde as margens do rio Tejo até ao Bairro Padre Cruz. Desbloqueá-las tem o custo de um euro e, por minuto de viagem, irá pagar quinze cêntimos. Poderá estacioná-las dentro do perímetro definido, sem qualquer restrição. Este é o segundo serviço de trotinetes partilhadas em Lisboa, fazendo concorrência direta com as Lime.

Bungo | Trotinetes elétricas

Empresa aponta 15 de Dezembro como data para marcar presença em Lisboa


As 100 scooters laranja da empresa de origem brasileira prometem entrar para breve no mercado de trotinetes partilhadas. A Bungo destaca a forma de pagamento como principal diferenciador para as demais trotinetes, uma vez que irá ser possível emitir uma fatura com NIF ou pagar através do multibanco. As trotinetes atingem os 25 quilómetros por hora e têm uma autonomia de 20 quilómetros, no entanto a empresa poderá optar por introduzir uma bateria extra que aumentará esta autonomia para 45 km/h. A Bungo irá também testar a entrega de capacete a alguns utilizadores, a ideia ainda está a ser discutida com algumas empresas de seguros.

Voi | Trotinetes elétricas

A startup sueca quer investir em Lisboa


A aplicação já está disponível em português e, em Lisboa, já estão disponíveis pelo menos duas trotinetes. O lançamento oficial ainda não aconteceu, mas a empresa já demonstrou vontade de entrar em “novos mercados como Portugal”, segundo comunicado. O mapa ainda não é conhecido, mas o preço é idêntico ao da restante oferta: quinze cêntimos por minuto e um euro por desbloqueio. Em Espanha e na Suécia, mercados onde já se encontram, em apenas 12 semanas já contam com mais de 120 utilizadores. 




SEGURANÇA. A NOVA MOBILIDADE PEDE REGRAS

Acidentes e feridos levantam questões sobre a segurança de trotinetes e bicicletas. PSD e CDS-PP afirmam ser urgente a necessidade de fiscalização e regras de utilização, como o controlo de velocidade ou o uso do capacete.

TEXTO | Carolina Brás
As novas formas de mobilidade parecem ter vindo para ficar e a adesão é cada vez maior. No entanto, as notícias de acidentes em Portugal começam a aparecer, os seguros são uma dúvida para muitos utilizadores e as regras de utilização são muitas delas desconhecidas.

A história da moda das trotinetas não tem apenas episódios felizes, uma vez que os relatos de acidentes têm vindo a ser uma constante. Nos Estados Unidos da América, foram recolhidas cerca de duas mil Lime das ruas com risco de explosão de bateria – sendo que a empresa que também funciona em Portugal. Já na vizinha Espanha, até ao início do mês foram registados cerca de 23 acidentes, dos quais oito foram atropelamentos e de onde resultou uma morte, 16 feridos ligeiros e dois graves. Em Portugal, os relatos de acidentes ainda não têm a mesma gravidade, mas já se começam a contar pelos dedos. Há já histórias de uma traumatismo craniano.

No entanto, por agora, o mau estacionamento das trotinetas é o maior problema apontado em Portugal. Estas são deixadas no meio da rua, por vezes em locais de acesso a mobilidade reduzida, que perturbam o bom funcionamento da via pública. Situação que, no estrangeiro, já foi alvo de medidas por parte da ministra dos transportes francesa por forma a proibir a circulação das trotinetas em passeios e que, em Barcelona, levou mesmo à interdição dos veículos no centro da cidade.

Todos estes cenários, tanto a nível nacionais como internacional, fizeram com que a fiscalização, o seguro obrigatório e a necessidade de novas regras sejam hoje alguns dos temas em cima da mesa quando se fala sobre os novos meios de mobilidade, mais concretamente nas trotinetas. As regras explicadas nas aplicações não parecem ser claras, as explicações escritas nos próprios veículos estão em inglês ou acabam por ser deixadas de lado quando o utilizador começa a viagem na trotineta.

Na semana passada, a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a recomendação do CDS-PP para a criação de regras e boas práticas para as trotinetas eléctricas na cidade. “É uma necessidade óbvia no sentido de organizar aquilo que é uma boa ideia e uma boa iniciativa e tentar enquadrar algumas regras e alguns parâmetros”, afirmou João Gonçalves Pereira, vereador na Câmara de Lisboa e membro da comissão política do CDS-PP ao jornal i.

ACIDENTES

116

Acidentes com bicicletas Gira desde o início do ano em Portugal

2000

Trotinetas da Lime com risco de explodir, nos EUA, foram recolhidas 

22

Acidentes em Espanha com trotinetas. Registaram-se, até agora, dois feridos graves

A recomendação feita ao município lisboeta solicitava que fossem clarificadas algumas questões como a do estacionamento e de circulação, através da intervenção da Polícia Municipal, em campanhas de sensibilização e fiscalização sobre infrações e cumprimentos das regras, uma vez que condutores com velocidade excessiva, circulação comexcesso de álcool, utilização de telemóvel, falta de dispositivos de iluminação e refletores ainda não sofrem qualquer sanção. A mesma preocupação tem o PSD que descreve como necessária e urgente a segurança dos utilizadores e dos peões face à velocidade inapropriada que estas podem atingir e no pouco controlo que oferecem ao condutor.

“Claramente, a câmara tem de ter um papel proativo e liderante na discussão do uso das trotinetas”, afirmou João Pedro Costa, vereado do PSD na Câmara Municipal de Lisboa. Questões de fiscalização e a regulação que são também levantadas por algumas empresas ligadas ao setor dos seguros automovél e que apontam responsabilidades e deveres à Câmara Municipal de Lisboa. Uma ideia que vai de encontro ao defendido pelo Automóvel Club de Portugal (ACP), segundo esclareceu fonte ao i, não só no que diz respeito às trotinetas, mas também às bicicletas.

Além destas questões, estes dois tipos de veículos apresentam outro problema comum, mencionado pelo vereador do PSD: o uso do capacete. Elemento que segundo o artigo 112 do Código da Estrada é obrigatório por estas serem equiparadas a velocípedes com motor. A multa por ir de 60 a 300 euros. “Entendemos que numa bicicleta elétrica devia ser obrigatório o uso de capacete, mais achamos que uma trotineta com muito menos estabilidade devia ser acompanhada pelo uso de capacete”, explicou. Para o João Pedro Costa, as bicicletas têm características diferentes das trotinetas, o que lhes permite ser conduzidas nas estradas, juntamente com outros carros.

Neste sentido, a Lime prepara-se para fazer uma campanha – Respect the Ride – onde serão distribuídos mil capacetes como forma de sensibilização.

Para o presidente da EMEL, Luís Natal Marques, a partilha da estrada entre carros e bicicletas não parece ser um problema até porque “a maioria das quedas acontece porque os os ciclistas têm de se desviar dos peões que usam a ciclovia, uma vez que alguns passeios não são confortáveis para andar”.

Quedas que partilhou não serem graves e que, “comparativamente com os níveis de utilização, não são alarmantes”. Além do relato de uma bicicleta que ardeu, segundo dados fornecidos à agência Lusa, em 2018, foram registadas 116 incidentes dos quais resultaram 37 feridos, nenhum deles grave.

Há ainda muitas pontas para afinar, mas a verdade é que as novas formas de mobilidade estão a ganhar cada vez mais espaço na discussão pública.

PORTO. A CIDADE ONDE A FEBRE DAS BICICLETAS E DAS SCOOTERS AINDA NÃO DEU ESPAÇO ÀS TROTINETES

Na baixa do Porto as ruas inclinadas fazem os turistas procurarem cada vez mais as bicicletas elétricas. Já os portuenses continuam a preferir as scooters para fugir ao trânsito, ainda que em algumas partes da cidade já muitos usem bicicletas nos trajetos do dia a dia

TEXTO | Joaquim Gomes
Turistas e mais turistas, portugueses – portuenses e não só –, novos e velhos. E bicicletas, muitas delas elétricas, vão serpenteando pelas ruas da Invicta, da baixa à Foz, e até pelas periferias. Para os que querem fugir ao trânsito e aos apertos dos transportes públicos, pedalar tem sido a solução e a cidade já nem estranha. Ainda sem as típicas trotinetes de Lisboa, no Porto as scooters continuam a ser a alternativa aos que gostam de um pouco mais de velocidade.

“Só o tempo que eu demoraria a chegar de casa até ao Metro do Porto, cerca de 15 minutos, é o mesmo período em que faço a viagem completa de bicicleta”, conta ao i David Moro, um italiano de 31 anos que vive no Porto.

Enquanto a chuva não vem em força, são muitos os visitantes que aproveitam para desfrutar do centro em bicicletas, sendo que as subidas e descidas fazem com que as elétricas sejam já moda. A pressa de chegar ao trabalho e de ao fim do dia regressar a casa faz com que quem vive na cidade ainda não se tenha rendido aos pedais para as deslocações do dia a dia. E é aí que entram as scooters.

As duas rodas são, aliás, cada vez mais uma opção numa cidade em que a procura turística também está a tornar o trânsito ainda mais denso – sim, porque nem todos os turistas optam por bicicletas, há os que continuam a preferir as viagens de tuk-tuk ou mesmo os tradicionais autocarros turísticos.

E, segundo a autarquia, o Porto é cada vez mais um exemplo de mobilidade. “O Município do Porto é, cada vez mais, uma cidade modelo no que à mobilidade sustentável diz respeito e aqui também se enquadra a utilização dos meios de transporte suaves, como são as trotinetes”, afirmou ao i fonte oficial.

ELÉTRICAS PREFERIDAS PELOS DE FORA

Se antes alugavam uma bicicleta a pedal, os turistas hoje começam a preferir subir as inclinadas ruas do centro do Porto com as elétricas. Vários operadores turísticos explicaram ao i que são cada vez mais frequentes as perguntas dos visitantes sobre como aventurar-se em duas rodas, sobretudo em bicicletas elétricas. Entre os turistas, esta opção tem sido mais procurada do que as scooters, uma vez que, além de os preços serem mais atrativos, muitos já estão habituados a andar de bicicletas elétricas nos seus países – e o que pretendem conhecer fica num raio pequeno, nomeadamente os pontos mais turísticos, como os cascos históricos do Porto e de Vila Nova de Gaia.

Bruno Correia, tour manager da Bluedragon, instalada na zona da Ribeira do Porto, confirma ao i que tem “havido um aumento da procura, pelos turistas, de bicicletas elétricas, em relação às convencionais”. E avançou com uma explicação: “A meu deve-se às características da cidade, porque é muito penoso para uma pessoa à partida fazer subidas de bicicletas com pedal para conhecer a nossa cidade”.

Mas há alternativas, como veículos motorizados em forma de triciclo, com sistema de GPS auto guiado, em que os turistas percorrem a cidade ao seu próprio ritmo e à sua vontade e vão tendo ao longo do percurso informação sobre as zonas históricas e também sobre as áreas panorâmicas – como a Ribeira dos dois lados do Rio Douro e ainda a Foz do Douro”.

PORTUENSES AINDA ‘PRESOS’ ÀS SCOOTERS

As preferências dos portuenses são diferentes. As motos, sobretudo as scooters, continuam a ser as duas rodas mais procuradas. Conseguir uma viagem rápida, especialmente nos principais acessos à cidade do Porto em horas de ponta, é a principal motivação.

Mas se é verdade que no centro as scooters se vão impondo a autocarros e táxis – sendo possível a utilização partilhada de motos nas faixas de bus – já na zona circundante da Boavista até os moradores já estão a ficar rendidos às tradicionais bicicletas. Isto, porque que a área da Boavista, incluindo a vizinha zona do Campo Alegre, é plana, ao contrário da “baixa” da cidade, o que permite viagens rápidas de casa para o trabalho sem grande esforço.

O facto de esta área mais ocidental do Porto ser uma zona com muitas Faculdades da Universidade do Porto e ao mesmo tempo se ter transformado num centro de serviços, cosmopolita, faz com que muito facilmente também se adotem alternativas aos tradicionais autocarros e até ao metro.

O caso se David Moro é um desses exemplos. O italiano conta que para as suas deslocações do dia-a-dia, “é mais relaxante conduzir uma bicicleta e muito saudável”. E acrescenta: “é igualmente mais ecológico, o que também temos de ter em conta”.
DE MATOSINHOS AO FREIXO DE ‘BIKE’

Mais abaixo ainda, já na parte litoral, entre o Atlântico e o Douro, desde Matosinhos Sul até ao Freixo, não falta quem diariamente ande por gosto de bicicleta, neste caso mais por desporto e em passeio. Os locais de paragem obrigatória são o Castelo do Queijo, a Foz do Douro, a Alfândega e a Ribeira – percursos que podem chegar aos dez quilómetros para cada lado, embora o mais comum seja partir de Norte, desde as praias de Matosinhos, circular só até à zona do Passeio Alegre, na Foz do Douro, por terminarem aí as melhores ciclovias e as que são contínuas.

As Avenidas de Montevideu e do Brasil são o espaço por excelência para recreio familiar, isto é, onde é possível com mais segurança pais e filhos passearem de bicicleta por alguns quilómetros.

Trotinetes: uma febre que ainda não chegou As trotinetes elétricas, pelo contrário, ainda são usadas principalmente nos tempos livres, embora existam já alguns utilizadores diários, para deslocações para o trabalho.

E enquanto a febre das trotinetas não chega, a câmara promete que vai continuar a fazer esforços para integrar este tipo de meios não poluentes no sistema de transporte: “A este respeito, a Câmara do Porto está, neste momento, a analisar a melhor forma de conseguir integrar este sistema de transporte na política de mobilidade da cidade”, referiu ao i Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal do Porto.

A circulação de trotinetes, tal como de outros meios de transporte elétrico e não poluente, não potenciado acidentes, na região do Grande Porto. A confirmação foi dada ao i pelo Comando Metropolitano da PSP do Porto: “Não temos registo de quaisquer reclamações”.