Isso é importante para vocês?
É. É triste uma pessoa deixar de ser aquilo que é só porque está a haver alguma pressão. Não nos podemos deixar intimidar.
Vive isto 24 horas por dia.
Praticamente. Até em sonhos. Sou apaixonada pela festa desde muito pequena.
Já sofreu muitas colhidas?
Sim. Bastantes. Foram muitas, mas vou falar daquela que mais me magoou do ponto de vista afetivo. Tive uma grande queda com um cavalo que teve uma paragem cardíaca. Perdi o meu companheiro de profissão. A lesão foi muito grande, mas não tem comparação a dor física com a dor que eu senti ao perder um companheiro de que gostava tanto. Fui para o hospital a chorar, mas não chorei uma lágrima por dor. Fui todo o caminho a chorar devido à tristeza que sentia por perder o cavalo. Rasguei um músculo e tive de estar parada três meses.
Quando é apanhada pelo toiro ou se magoa na praça o que sente?
Tento voltar sempre quando há uma colhida. Cheguei a ser cosida na ambulância e a voltar para a arena.
Os médicos não discordam de determinadas opções?
Os médicos são profissionais e querem o nosso bem, mas nós queremos normalmente antecipar a recuperação. Fazemos tudo e mais alguma coisa para recuperar, porque só temos aqueles meses para tourear. Uma vez parti a tíbia e o perónio e eram quatro meses de recuperação. Eu disse-lhe: “Isso é impossível doutor”. Fui operada de urgência e a recuperação acabou por ser um mês e meio com todos os dias de fisioterapia para poder ainda apanhar essa época e não esperar pelo novo ano. Por vezes ficamos com lesões que deviam ter sido mais bem curadas.
Tem algumas marcas dessas lesões?
Tenho. Muitas marcas. Já magoei o joelho muitas vezes. Tenho algumas marcas nas pernas. Quando há alguma alteração no tempo ou quando faço algum esforço sinto dores e lembro-me logo que devia-me ter curado. Estou agora a pagar as consequências.
Não sentiu mais dificuldades em enfrentar o toiro depois de ser colhida?
Acho que uma das minhas grandes particularidades é a raça que tenho. Sou destemida. Gosto de adrenalina. Não só no toureio, mas em muitas coisas na vida. Gosto de muitas coisas na vida que imponham adrenalina e até algum perigo. Felizmente até hoje não houve nenhuma colhida em que ficasse sem vontade de voltar por ter medo. Não quer dizer que isso não venha a acontecer.
Quem vai ver corridas gosta dessa ousadia?
Sim. Julgo que transmito sempre muito essa minha garra. As pessoas dizem-me sempre que sou muito destemida e que tenho muita garra.
Envolveu quase toda a família nesta atividade. O seu pai, a sua irmã, o seu companheiro...
O meu pai já não é o meu apoderado. Agora é o meu companheiro que é um grande profissional e um grande bandarilheiro. A minha irmã também continua a ir às corridas. Teve um bebé, mas quando pode vai comigo às corridas com o papel de moça de espadas. Ajuda-me a vestir, a marcar os hotéis... Consegui arrastar toda a família. É confortável ter a família ao meu lado. Acabamos por ser uma equipa.
Quanto ganha por cada corrida de toiros?
É melhor nem dizer. Cada zona é uma zona... A única coisa que lhe posso dizer é que não enriqueço à conta disto e tenho de pôr de outro lado para poder continuar a tourear. Neste momento é isso que se passa.
Li que gostava de ter filhos, mas que tem adiado por causa da profissão que exerce. É verdade?
Tenho adiado, mas quando se chega quase aos quarenta anos temos aquela sensação de que há pouco tempo. Neste momento já penso nisso, porque tenho uma pessoa ao meu lado de quem gosto imenso. Ainda me falta realizar um dos meus grandes sonhos que é ir tourear ao México.
Porquê no México?
É daquelas pancadas. Se calhar nem vou gostar tanto como idealizei, mas sempre pensei no México como um dos pontos fundamentais na minha carreira. Já fui ao Equador, Venezuela, Espanha, Estados Unidos... Felizmente que as coisas estão a acontecer para que eu possa realizar esse grande sonho da minha vida.
Há muitas diferenças entre os países, nomeadamente em relação ao público.
Adorei tourear no Venezuela. O público foi super caloroso. Nunca lá tinha toureado uma mulher e foi a loucura total. No Equador também vivi uma experiência única, porque o público estava louco. Nunca tinham visto uma senhora a tourear.
Ser mulher também é uma vantagem. Desperta alguma curiosidade nas pessoas.
É verdade. Na Venezuela estava a arranjar os cavalos cá fora, antes da corrida, e tive de entrar para dentro da praça, porque não me conseguia mexer com o cavalo. Fui quase abalroada pelo carinho das pessoas. Queriam falar comigo. Sem dúvida que nesse aspeto ajuda ser mulher. Há sítios em que as mulheres me dizem: “Mostra aí que as mulheres são as melhores”. As mulheres veem em nós toureiras a força e a capacidade de estar ao nível dos homens. Há muita gente que gosta de ir às corridas porque também está lá uma mulher.