20/09/2018
 

REDUZIR O PLÁSTICO

UM COPO E UMA PALHINHA DE CADA VEZ


Bruxelas apresentou ontem um conjunto de medidas para reduzir significativamente a utilização do plásticos descartáveis. Por cá, a junta de freguesia de Cascais e Estoril decidiu aderir ao Movimento Claro Cascais e já aboliu palhinhas e outros plásticos descartáveis. A ideia é de sensibilizar a população para mudar comportamentos

TEXTO | Tatiana Costa

O plástico está presente em quase tudo: telemóvel, cartões, garrafas, sacos, palhinhas, computador, entre outros. A lista é longa e bem se tenta arranjar alternativas, mas parece impossível escapar. Ciente dos perigos e malefícios que o plástico tem para o meio ambiente, a junta de freguesia de Cascais e Estoril decidiu abolir a sua utilização nos seus serviços, ao aderir ao Movimento Claro Cascais, fruto do trabalho de três amigas que querem mudar o rumo da vila e deixar de prejudicar a natureza.

Numa altura em que a Comissão Europeia apresentou algumas medidas para reduzir a poluição no mar, esta é uma das iniciativas já em curso em Portugal. Em Bruxelas, os planos são ambiciosos: cotonetes, palhinhas, talheres, pratos e outros objetos de plástico descartável serão proibidos e, caso existam alternativas acessíveis em termos de preço, estes produtos serão banidos do mercado. As medidas ditam ainda que todos os países membros da UE serão obrigados a recolher 90% das garrafas de bebidas de plásticos, isto num horizonte temporal até 2025.

A proposta da Comissão já foi entregue ao Parlamento Europeu, que apela a que o diploma tenha caráter prioritário e que os resultados se tornem visíveis antes das eleições de maio de 2019.

COMEÇAR A FAZER A DIFERENÇA

Para Luísa Mandacaru, Carolina Gonçalves e Teresa Alves, as fundadoras do Movimento Cascais Claro, a necessidade de mudar alguma coisa tornou-se incontornável.

Luísa e Carolina passavam muito tempo na praia e foi aí que surgiu a ideia do projeto. Conscientes de que o plástico é cada vez mais um problema que precisa de ser resolvido rapidamente pensaram na criação do movimento. “Um dia disse que se chegasse aos 80 anos sem ter feito alguma coisa para ajudar a resolver este problema, que então não tinha cumprido um objetivo importante para mim”, explica Luísa, acrescentando que Carolina concordou com a ideia e, a partir daí, começaram a “pensar ativamente no que podia ser feito”. “A Teresa Vale juntou-se a nós e começámos”, completou.

O movimento começou por um primeiro passo: a abolição das palhinhas. Porquê? “São de muito difícil reciclagem, voam muito facilmente para o mar e no fundo não são essenciais à nossa existência, é um luxo que faz muita diferença”.

Para além disso, são os “itens mais encontrados nas praias”, constataram. E depois, os números falam por si: “Demoram um minuto a serem produzidas, são usadas durante 10 minutos e demoram cerca de 200 anos a decompor-se”.

MOVIMENTO CASCAIS CLARO PRETENDE ALERTAR A POPULAÇÃO PARA O CONSUMO DE PLÁSTICO DESNECESSÁRIO

Até ao momento, o projeto conta com o apoio de 17 membros, entre os quais restaurantes, cafés e festivais que se comprometeram a deixar de servir bebidas com palhinhas. E qualquer pessoa pode aderir a este projeto. Segundo Luísa, “o primeiro passo é começar a pedir as bebidas sem palhinha e partilhar com os amigos e família o porquê desta mudança”.

No fundo a ideia do movimento é “alertar a população para o consumo de plástico desnecessário e para a reavaliação de prioridades no que toca ao consumo”. Não é só a junta de Cascais e Estoril que está interessada em mudar de atitude, também a junta de Lordelo do Ouro e Massarelos, no Porto, e a junta de Carcavelos estão a pensar em aderir a esta iniciativa. E como se não bastasse o sucesso que o projeto tem tido na vila de Cascais, com vários restaurantes e cafés a tornarem-se membros, as criadoras têm também “recebido pedidos de Sintra e Ericeira [por parte de civis] que querem levar a campanha para lá”.

Do lado autárquico, tudo faz sentido. “A Junta quer ser amiga do ambiente, juntamente com toda a comunidade de Cascais e Estoril”, explica Pedro Morais Soares, presidente da junta de freguesia de Cascais e Estoril.

O presidente da junta sublinha que a freguesia decidiu aderir depois de lhes ter sido apresentada a ideia: “Achámos que esta junta devia dar o exemplo e proibir a utilização das palhinhas e dos plásticos em geral, não se pode fechar os olhos às questões ambientais, o exemplo tem que partir dos organismos públicos”.

A entidade decidiu ir mais além e proibir não só as palhinhas mas todos os plásticos descartáveis nos seus serviços. Tudo começou depois de terem conhecimento de que em Portugal, por ano, segundo dados da Quercus, são utilizadas, em média, 721 milhões de garrafas de plástico, 259 milhões de copos de café e 40 milhões de embalagens de fast food, que acabam por poder ir parar ao mar. Desde que aderiram ao movimento, já foram implementadas várias medidas. “Temos 12 escolas com bandeira eco escolas”, referiu o responsável, acrescentando que no passado dia 11 de maio, a propósito da Semana do Voluntariado Jovem, cerca de 2000 jovens realizaram algumas iniciativas para melhorar a freguesia, como a recolha de plásticos nas praias. E, para dar o exemplo, nessa iniciativa as habituais 10 mil garrafas de plásticos foram substituídas por 3 mil cantis.

COMEÇAR A FAZER A DIFERENÇA

O plástico pode durar entre 200 a 500 anos e o uso abusivo deste material está a transformar o planeta.

De acordo com Carmen Lima, responsável pelo Centro de Informação dos Resíduos da Quercus, existem 80 mil toneladas de plástico a flutuar nos oceanos, muitos em forma de microplásticos, que se infiltram na rede de esgotos. Como “são demasiado pequenos” para serem filtrados pelos sistemas de tratamento, acabam por ir para aos rios e para o mar, chegando até aos humanos através da cadeia alimentar. “Como entram na cadeia alimentar dos animais, entram na cadeia alimentar dos humanos, podendo colocar a nossa saúde em risco”, alerta a especialista.

Carmen concorda com a ideia de que criar legislação sobre a utilização de produtos descartáveis em plástico, limitar a distribuição gratuita de produtos de utilização única, promover o uso de produtos em plástico reutilizável – como por exemplo os copos para grandes eventos como concertos e festivais – é o caminho a seguir. É preciso “mudar comportamentos, tentarmos escolher soluções que sejam passíveis de serem reutilizáveis e principalmente enviarmos estes resíduos para a reciclagem”, diz.

Apesar de este problema estar longe de estar resolvido, a junta de Cascais e Estoril relembra que qualquer gesto, por muito pequeno que seja, é sempre um passo importante em direção à mudança. Na capital, a revolução começa este Santo António. Este ano a autarquia anunciou que as Festas de Lisboa, assim como os futuros grandes eventos da cidade, vão deixar de oferecer copos de plástico descartáveis.
“Não será possível ainda em toda a cidade, porque os arraiais são imensos e espalham-se por toda a cidade, mas em todas as organizações de concertos em espaços organizados, será esse o método utilizado”, explicou Fernando Medina.

ALTERNATIVAS

Mobirise

ESCOVAS DE BAMBU

Quer cortar relações com o plástico? Parece fácil mas olhe bem para a sua casa de banho. Este material está nas embalagens de champô e até na escova dos dentes. Um primeiro passo pode passar por usar escovas de bambu. 

Mobirise

SACOS DE PANO

Só tem de dobrar o saco e guardá-lo na mala. As vantagens são muitas: pode ser lavado, é fácil de transportar e, o fator mais importante, são reutilizáveis durante muitos anos.

Mobirise

GARRAFAS

Podem ser de vidro, alumínio, inox ou até mesmo plástico.
A utilização é simples, depois de usar só tem de a lavar e voltar a usar. Se o plástico ficar danificado, mande a garrafa para a reciclagem.

Mobirise

COMPRAS A GRANEL

Está farto de comprar fruta ou legumes dentro daqueles sacos de plástico frágeis de utilização única? A resposta pode estar na comprar a granel, que permite ao cliente levar sacos reutilizáveis ou frascos sempre que for à loja para abastecer a despensa.

EM 2050 PODE HAVER MAIS PLÁSTICO QUE PEIXES NOS OCEANOS E BRUXELAS QUER AGIR

A União Europeia quer investir na modernização dos produtores de plástico e que todos estes resíduos sejam recicláveis até 2030

Confrontada com indícios de que a produção de plástico no mundo se multiplicou 20 vezes desde 1964, que nos próximos 20 anos ainda vai duplicar o número atual e que até 2050 pode existir mais plástico nos oceanos que peixes, a União Europeia está a preparar uma estratégia para combater estes resíduos e forçar produtores a apenas fabricar plásticos recicláveis até 2030.

A prioridade, como explica ao “Guardian” o vice-presidente da Comissão Europeia, Franz Timmermans, é acabar com “os plásticos que se usam apenas uma vez, demoram cinco segundos a produzir, servem-nos para apenas cinco minutos e demoram 500 anos a decompor-se”.

Os números são alarmantes.

De acordo com a fundação da ex-navegadora Ellen McArthur, que se foca em temas de regeneração e economia ambiental, a cada minuto a carga de um camião cheio de plásticos é largada no oceano. Em 2030, estima-se que, em média, duas cargas de camião sejam largadas e, em 2050, que este valor atinja os quatro depósitos de plásticos nos mares a cada minuto.

“Num cenário em que nada se faça, espera-se que os oceanos contenham uma tonelada de plástico por cada três toneladas de peixe por volta de 2025, e, pelo ano 2050, mais plásticos do que peixes (considerando o peso de ambos)”, lê-se no estudo publicado em janeiro do último ano.

Estes materiais têm um impacto muito severo nos ecossistemas marinhos, agarrando-se a aves, peixes e mamíferos, sufocando-os, afogando-os e contaminando-os. O Homem também sofre comendo animais marinhos contaminados. Bruxelas quer sobretudo acabar com os plásticos usados nas palhinhas de beber e em garrafas de sumo coloridas.

A UE planeia investir 350 milhões de euros ao longo do próximo orçamento em programas de modernização da produção de plásticos e ainda 100 milhões de euros em investigação. “Vamos sufocar em plástico se não fizermos nada. Quantos milhões de palhinhas usamos todos os dias na Europa?”, reflete Timmermans. 

GRANEL, GUARDANAPOS DE PANO E GARRAFAS DE VIDRO. O MARAVILHOSO MUNDO DO DESPERDÍCIO ZERO

São cada vez mais os portugueses preocupados em diminuir a pegada ecológica. Para eles, é normal recusar água que venha em garrafas de plástico ou andar com talheres reutilizáveis na mala. Neste mundo ideal, só falta trocar o “eles” por “nós” na frase anterior 

TEXTO | Marta Cerqueira

Susana Ribeiro já recusou comer uma feijoada comunitária no Intendente quando percebeu que ia ser servida em pratos de plástico. Também já disse que preferia um copo de água da torneira quando o funcionário do restaurante disse que não tinha garrafas de vidro. No Santo António, leva um copo de alumínio que vai enchendo ao longo da noite. “Eu não é só no Santo António, levo sempre que saio à noite”, remata Graça, que já chegou a ter desconto na imperial porque o seu copo leva um pouco menos que uma imperial de 25 cl.

Claro que apanharam quem se recusasse a servir cerveja sem ser nos copos disponíveis, quem estranhasse servir água num copo e não em garrafa ou ainda mais quando Rita Baptista, que se junta à conversa, explica que o lixo que produz em casa ou vai para reciclagem ou acaba no caixote de compostagem que tem na cozinha e no qual as minhocas transformam os resíduos em adubo.

Estes são comportamentos que podem ser surpresa para muitos, mas não para uma sala cheia de pessoas empenhadas em reduzir a sua pegada ecológica e cuja vontade se nota ainda antes da partilha da experiência em viva voz. No workshop “Uso do descartável e excesso de embalagem”, promovido pela associação ambientalista Zero, ninguém saca da garrafa de água da mochila ou do pacote de bolachas [feito de plástico, como sempre] para o lanche. A água vem em cantis reutilizáveis, quem arrisca a petiscar opta por fruta e Susana Fonseca, que acompanha as áreas de sociedades sustentáveis e novas formas de economia na Zero, nem precisa de distribuir folhas para apontamentos: cada um trouxe o seu caderno.

Numa espécie de mesa-redonda debatem-se novas formas de evitar desperdício, isto depois de a Zero apresentar o resultado de um estudo com resultados que, apesar de preocupantes, não chocam quem lida com a temática no dia-a-dia. “Foi mais uma forma de chamar a atenção para práticas que se tornam banais mas que, no conjunto, têm um impacto muito forte”, explica Susana Fonseca.

Num conjunto de 75 inquéritos feitos a 24 estabelecimentos - cafés e restaurantes - em centros comerciais, foi possível perceber que uma grande percentagem dos utensílios usados para servir refeições e bebidas continuam a ser descartáveis. Se, nos pratos, essa percentagem é de 33% e nos talheres de 34%, nos copos chega aos 79%. As palhinhas são entregues em 44% dos casos, mesmo que não seja pedido pelo cliente, e em 75% dos casos o tabuleiro fornecido vem já com base de papel.

Por muitas ideias que se lancem para a mesa, o denominador comum é um: a ação. “Se eu for restaurante e recusar o papel do tabuleiro, se for a um café e recusar a palhinha para o sumo ou se for a uma farmácia e disser que não preciso de um saco para guardar um medicamento minúsculo, talvez o comerciante comece a pôr em causa os métodos de distribuição”, explica Susana Monteiro. 

GRUPO A CRESCER

Se, quando Ana Milhazes Martins decidiu começar a reduzir o lixo que produzia, se via obrigada a fazer vários quilómetros para comprar produtos a granel, agora, só no Porto, onde vive, existem 19 lojas.

Essa foi uma das primeiras dificuldades que sentiu quando decidiu abraçar um estilo de vida “minimalista, simples e vegan”, como descreve no seu blogue “Ana, Go Slowly”, no qual partilha, entre outras coisas, listas de lojas com práticas sustentáveis, dicas para conseguir viver com menos bens materiais, restaurantes de comida vegan ou espaços que pratiquem o desperdício zero. E foi exatamente esta necessidade de partilha que a fez criar também um grupo no Facebook sobre combate ao desperdício que num ano ganhou mais de cinco mil membros.

Todos os dias são partilhadas notícias sobre o tema, eventos e workshops, questões de quem está a começar agora a combater o desperdício ou dicas de quem já é profissional. Por exemplo, um dos membros do grupo Zero Waste Portugal informou ontem que no Starbuks há desconto para quem levar o seu próprio copo. Por um capuccino sem lactose pagou 2,80, menos 40 cêntimos que o preço original.

Este seria apenas um bónus para quem, como Ana, já não sai de casa sem o seu kit, que inclui uma palhinha, um copo, um guardanapo de pano e talheres reutilizáveis. “É mesmo fácil produzir menos lixo”, garante, agora que quase nem precisa de caixote para o seu. A mudança mais radical deu-se quando, apesar de já reciclar há muitos anos, olhou para o caixote do lixo orgânico e percebeu que podia fazer mais. As toalhitas que todos os dias usava para limpar as patas dos cães quando voltavam da rua foram trocadas por panos feitos com t-shirts velhas. Já as cascas dos alimentos e os poucos restos de comida que sobram em casa entrega aos agricultores a quem compra os cabazes de frutas e legumes, numa espécie de dois-em-um da sustentabilidade.

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