20/09/2018
 

QUER TER MAIS SAÚDE?

Numa altura em que os telemóveis passaram a estar colados praticamente a todas as tarefas do quotidiano, há quem tenha orgulho em anunciar que é possível voltar a ser tudo como dantes. Simon Cowell, conhecido produtor britânico, desistiu do telemóvel há dez meses e a sua vida mudou. Não está sozinho: há vários estudos a apontar benefícios. Não se lembra de como era a vida antes de estar sempre ligado? Damos uma ajuda

MENOS LIGADOS, MAS FELIZES 

RAZÕES PARA COMBATER O
VÍCIO DO TELEMÓVEL

TEXTO | Beatriz Dias Coelho
Simon Cowell é conhecido por ser presença assídua no júri de reality shows como “American Idol” ou “The X Factor” – onde tantas vezes o seu feitio particular dá que falar –, mas desta vez não é isso que faz dele notícia. Em entrevista ao jornal britânico “Daily Mail”, no domingo, o produtor inglês admitiu não usar o telemóvel há dez meses. E sente-se mais feliz.

“Literalmente não uso o telemóvel há dez meses”, revelou. Porquê? Porque o irritava por exemplo toda a gente passar as reuniões a mexer no telemóvel. “A diferença é que fiquei mais consciente das pessoas à minha volta e muito mais concentrado. Tem sido tão bom para a minha saúde mental. É uma experiência muito estranha, mas é mesmo bom e fez-me realmente mais feliz”, admitiu o produtor de 58 anos.

A decisão pode causar alguma estranheza, mas a verdade é que Cowell não é a única cara conhecida a reconhecer ter posto o telemóvel de lado. Recentemente, o rapper Kanye West usou o Twitter para informar que “se livrou” do telemóvel para poder concentrar-se no álbum que estava a preparar – “ye”, lançado a 1 de junho.

A opção tem sido também defendida por anónimos: não faltam, na Internet, relatos de pessoas que decidiram fazer a experiência de não usar o smartphone por um determinado período de tempo. E o veredicto é transversal: sentem-se melhor.

"UNPLUG" QUE BENEFÍCIOS? 

77% da população tinha um smartphone; no mesmo período, em Portugal, o cenário não era muito diferente: 71,6% da população dizia ter um destes aparelhos. Numa sociedade em que a tecnologia tem um papel tão importante e onde cada vez mais se exige uma resposta no agora, rejeitar os smartphones pode ser uma tarefa difícil – até mesmo impossível, em determinadas profissões, por exemplo –, mas não faltam estudos científicos que elencam as vantagens que, pelo menos, uma utilização mais moderada pode ter.

As dificuldades de concentração são um problema para cada vez mais pessoas e não faltam estudos que mostram como os smartphones podem estar na sua origem. De acordo com uma investigação da Universidade do Texas publicado em 2017 no “Journal of the Association for Consumer Research”, a simples perceção de que o telemóvel está perto, ao nosso alcance, resulta por si só numa diminuição acentuada da capacidade para raciocinar. E isso verifica-se até quando o telemóvel está desligado ou em silêncio.

O estudo observou perto de 800 pessoas que tinham de realizar testes em computador e precisavam de total concentração para obterem uma boa pontuação: os participantes que tinham os telemóveis noutra sala alcançaram resultados significativamente melhores do que os que foram submetidos à experiência com os telemóveis ao seu alcance. Por isso, eis uma dica: se o objetivo é concentrar-se, coloque o telemóvel noutra divisão.

Relacionada com esta questão está uma outra descoberta, desta feita relativamente às notificações que aparecem nos ecrãs dos smartphones. Manter o telemóvel próximo e ver no canto do olho os constantes avisos luminosos intermitentes, alertando para diferentes notificações, provoca mesmo alterações a nível cerebral. Quem o diz é uma equipa de investigadores da Radiological Society of North America (RSNA) que, no encontro anual da entidade em 2017, apresentou um estudo segundo o qual essa interação cria um padrão designado pelos cientistas como “switch cost” – e que se baseia na interrupção da concentração na tarefa que estamos a levar a cabo, perante uma notificação, para depois voltarmos a ela. Segundo a equipa, essa interação prejudica a “eficiência” do cérebro em cerca de 40%.
DORMIR MELHOR PASSA POR USAR MENOS O SMARTPHONE – OS ECRÃS, EM GERAL –, EM ESPECIAL ANTES DE IR PARA A CAMA
Uma utilização mais moderada do smartphone – dos ecrãs, em geral –, pode resultar em noites melhor dormidas. Especialmente se o seu uso for interrompido nos momentos que antecedem a hora de ir dormir. É que, como concluiu um grupo de investigadores da Universidade John Carroll, nos EUA, a luz azul tem consequências na produção de melatonina, uma hormona que induz o sono e que é produzida sobretudo durante a noite.

E, afinal, é ou não verdade que o uso de smartphones influencia o estado de espírito – e a felicidade, como fez questão de anunciar ao mundo Simon Cowell? A ciência diz que sim. A Universidade de Gotemburgo quis medir os efeitos da utilização do smartphone na sensação de bem estar. Para tal, seguiu um grupo de pessoas na casa dos 20 anos ao longo de um ano. Os resultados? Os investigadores concluíram que, tanto nos homens como nas mulheres, a utilização acentuada do telemóvel estava diretamente relacionada com relatos de depressão. Para esse estado contribui, em especial, a constante comparação entre o “eu” e o “outro” que as redes sociais proporcionam.

Mas há mais: o Rabin Medical Center, na cidade israelita de Tel Aviv, verificou que os utilizadores intensivos de smartphones apresentam valores acrescidos de stress oxidativo na saliva.

A ciência não deixa margem para dúvidas: não usar o telemóvel, ou usá-lo com menor frequência, tem benefícios para a saúde e para a vida profissional e pessoal. E se a tentação de estar constantemente a usar o telemóvel é tão forte que simplesmente não consegue combatê-la, os especialistas aconselham que comece por se privar do uso apenas por alguns minutos numa fase inicial. Depois a ideia é ir aumentando diariamente o intervalo de tempo em que não o usa. De resto, não faltam conselhos online de como combater o uso exagerado. E, em último recurso, saiba até que o próprio smartphone pode ajudar a combater o vício. Pode parecer contraditório, mas há várias aplicações criadas para o efeito. 

APPS PARA ACABAR COM O VÍCIO

AS MEMÓRIAS QUE OS
TELEMÓVEIS NÃO REGISTARAM

TEXTO | Edilson Coutinho
Ainda que a dependência do telemóvel não seja reconhecida como uma doença mental, é impossível ignorar uma certa tendência para o uso descontrolado do aparelho. Um estudo da Universidade Nottingham Trent revelou que, durante o dia, olhamos para o telemóvel 85 vezes e que esse hábito foi sendo cada vez maior com o aparecimento de telemóveis mais sofisticados: os smartphones.

Os estudos que abordam a tecnologia são muitos: em 2015, segundo a TeleGeography – empresa de pesquisa de mercado na área da telecomunicações – existiam, em todo o mundo, sete mil milhões de subscrições de comunicações móveis. Tantas como os habitantes do planeta. Há até uma fobia conhecida por nomofobia, que surge quando as pessoas ficam desconfortáveis com a falta de acesso à comunicação através do telemóvel ou computador. 

Por isso, não se assuste quando alguém lhe disser que não pode viver sem o telemóvel. A professora e psicóloga clínica, Ivone Padrão, especialista na área das dependências da Internet, declarou à “Notícias Magazine” que muitas pessoas “estão familiarizadas com a tecnologia” a ponto de correrem o “risco de não conseguir desligar”. Mas a verdade é que as gerações mais antigas nasceram e cresceram sem acesso aos telemóveis. E viver nesta época, era tudo menos aborrecido.

O testemunho é Manuela Cutileiro, sexagenária. Nasceu em Óbidos e no seu tempo não havia quase nenhuma forma de tecnologia. Aos poucos foram surgindo novos objetos e nem os velhos telefones eram algum comum: tem memória de começar por exemplo a discar os números para iniciar uma chamada, mas nem sempre teve essa hipótese em casa.

Um dos familiares de Manuela possuía uma PBX – central telefónica – que na altura era bastante cara e era onde se concentravam os telefones da aldeia. Só existiam cerca de três telefones ligados e nem todos podiam utilizar.

Gravadas na memória ficaram ainda as fugas de casa com as amigas, para ir brincar com a PBX. Conseguiam ouvir a conversa das outras pessoas, o que “divertidíssimo”.

Cutileiro relembra que o conhecimento do mundo nessa época era muito relativo. As notícias chegavam sempre mais tarde e a comunicação entre as pessoas que se encontravam longe era muito demorada. Mas para ela, “vivia-se perfeitamente bem”.

Quando emigrou uns meses para África: parecia que estava num mundo diferente. Foi na altura das inundações de 1967 na cidade de Lisboa e a sua família “não se apercebeu de nada”. Só mais tarde é que souberam da tragédia que abalou o país de onde partiram, através das cartas que chegaram meses depois.

Até podia existir menos comunicação, mas Manuela afirma que as crianças brincavam mais e, sobretudo, “estavam mais atentas ao que as rodeava”. Uma boa memória é que na sua aldeia em Óbidos as pessoas conheciam todos os vizinhos e gostavam de socializar. As grandes reuniões de pequenos e adultos que se faziam pelas ruas foi algo que se perdeu ao longo do tempo. 

Em comparação com a atualidade, não há dúvidas de que a tecnologia deu um grande passo. Mas será que foram assim tantos os benefícios que esta evolução trouxe? Como muita gente que viveu mais tempo desligado do que nesta nova era, Manuela sente que as pessoas hoje gastam demasiado tempo ao telemóvel. Aquilo que lhe faz mais impressão é “ver as pessoas sempre a olhar para o ecrã” e esquecerem-se do mundo que as rodeia. Ou as pessoas que vão nos transportes a falar e a partilhar “verdadeiros romances” com os restantes passageiros. Por vezes esquece-se do telemóvel, involuntariamente, e isso é outro problema da tecnologia. A família fica em pânico: “querem todos entrar em contacto e a certa altura acham que já aconteceu algo”.

COMBATE AO PHUBBING. AMIGOS AMIGOS, TELEMÓVEIS À PARTE

TEXTO | Laura Ramires
Não são raras as vezes que estamos num restaurante e, ao deitar um olhar para a mesa do lado, nos apercebemos que não há qualquer tipo de comunicação entre o casal, o grupo de amigos ou a família que ali está.

A razão para isso acontecer é normalmente uma: os gadgets. Seja telemóveis, a maioria deles smartphones, iPad, ou simplesmente qualquer outro dispositivo eletrónico portátil, a tecnologia está, claramente, cada vez mais presente na nossa rotina, muito além daquilo que achamos que precisamos.

Longe vão os tempos em que os telefones móveis eram usados apenas para as chamadas essenciais, de emergência, ou o meio que passou a permitir contactar uma pessoa que não está perto de nós. Mas também é indiscutível que os jovens são os principais utilizadores dos telemóveis, um acessório indispensável que até os leva a criar formas de combater o phubbing, um termo criado para descrever o ato de ignorar alguém através do uso desse aparelho.

TOCA, PAGA!

“A verdade é que muitas vezes pego no telemóvel sem razão nenhuma. Já é um tique”, diz Maria, que aos 20 anos estuda Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras. “É um mal geral.

Afinal, se olharmos à volta, todos nós temos sempre o telemóvel na mão”, acrescenta. O seu colega David dá palmadinhas no bolso como que a tentar a sua defesa, mas aproveita o balanço para ver “as últimas” do grupo de amigos no WhatsApp.

Apesar disso, Maria explica que não há nada que a “irrite mais” do que estar num jantar e estar constantemente “a falar com pessoas que cortam a conversa para mostrar o que o João acabou de partilhar ou que a Joaquina deixou de seguir o não sei quantos” – uma situação que se agrava quando “conseguem perder mais de dez minutos a tirar uma fotografia ao bitoque”. “Isso acho ridículo”, diz, convicta.

Foi a partir desse aborrecimento nos jantares de grupo em que participava que Maria passou a apresentar uma proposta para lutar contra o phubbing. “Quando chegamos ao restaurante colocamos os telemóveis no centro da mesa, em cima uns dos outros. O primeiro a pegar... paga”, explica, enquanto se vai rindo porque sabe “que nunca há de ser a primeira”. Aqui, a regra é simples e a única exceção são os telefonemas dos pais. 

“PODES FICAR À RASCA!”

Do outro lado do jardim, um pouco abaixo, encontramos a Faculdade de Psicologia de Lisboa. Não era difícil de apanhar e, assim, vamos diretos ao primeiro grupo de jovens de caderno na mão e... telemóvel, claro está. Não hesitámos em perguntar, logo de início, o que faziam. “Estamos no intervalo. ‘Tou no Facebook. Só a fazer scroll [mostra o polegar a percorrer o feed da rede social].”

Enquanto António queima os 15 minutos de pausa a ver as novidades do dia, André escreve uma mensagem. “É para a minha namorada, que estuda aqui ao lado”, atira, num momento em que, tendo em conta o contexto da conversa, se regozija. “Não tenho redes sociais. Facebook, Twitter, Instagram, nada, nada.” António não perde tempo a justificar a ausência do amigo nas redes: “A namorada é muito controladora.” Riem-se os dois.

Chega mais um colega que se junta e acende um cigarro. Passam a palavra ao “Lino, o rei dos jogos”. “Este é aquele tipo que te pode deixar à rasca.” Depois de estar a par do tema, Lino fala como se dividíssemos carteira nas aulas. “Ah, o jogo é muito simples, e é sobretudo muito divertido. Imagina, estamos seis pessoas numa mesa, todas passam o seu telefone à pessoa que está à direita [exemplifica passando o telefone ao colega António] e, basicamente, se receberes uma mensagem ou uma chamada tem de ser essa pessoa a ler ou atender.”

A gargalhada é inevitável quando atira: “Já vi muitos viciados a esquecerem-se do telemóvel por horas...” Os três amigos trocam olhares e falam em código, como que a lembrar uma situação recente em que a pessoa visada “ainda está chateada”. Vão para dentro do edifício como os encontrámos: olhos postos no telemóvel.

QUANDO A SOLUÇÃO ESTÁ NO TELEMÓVEL

Teresa tem 21 anos e admite que gasta demasiado tempo no telemóvel. “Serve para todas as pausas”, “companhia em algumas refeições”, “antes de deitar” ou “quando acorda”. Entre redes sociais e vídeos e música no YouTube, “a bateria vai-se”.

Sem terapias de grupo para combater o fenómeno, a jovem fala de uma aplicação que “sacou” para os momentos em “que precisa mesmo de estar concentrada”. A app chama-se “Forest: Stay Focused” e a utilização não podia ser mais simples, dado que o objetivo é mesmo deixar o aparelho de lado pelo tempo que o próprio utilizador assim desejar. “Quando tenho trabalhos ou exames, vou à aplicação, que consiste em plantar árvores. Cada árvore tem um tempo de crescimento: tu escolhes a que queres. Meia hora, uma hora... És tu que escolhes. Depois não podes mesmo mexer no telemóvel antes de terminar esse tempo, senão a árvore morre. Por outro lado, se cumprires com sucesso, ganhas moedas para novas plantações”, esclarece, e mostra com orgulho o seu jardim. E as notas? “A minha mãe não me tem dado nas orelhas, o meu pai é mais tranquilo.” 

Às vezes, a solução pode mesmo ser encontrada no problema. Teresa, pelo menos, está satisfeita.

TELEMÓVEIS. AGORA HÁ QUASE 12 MILHÕES DE UTILIZADORES MAS NEM SEMPRE FOI ASSIM

TEXTO | Marta F. Reis
Estão sempre agarrados aos telemóveis, mas agora há mais informação sobre esta sede de comunicação dos mais novos. Inquéritos feitos ao longo de cinco anos por investigadores do projeto FAQtos, desenvolvido no INOV – INESC Inovação/Instituto Superior Técnico, revelam que a maioria dos jovens começam a ter telemóvel aos dez anos de idade e a partir dos 13/14 anos os dispositivos são praticamente regra entre os adolescentes. Ao todo, a equipa aplicou 8.595 inquéritos em 130 estabelecimentos de ensino secundário em todo o país entre 2010 e 2016. São poucos os jovens dos 15 aos 18 anos sem telemóvel – apenas 0,4%. Em contrapartida, são muito mais os que não têm apenas um mas dois ou mais equipamentos – 15% dos adolescentes portugueses está nesta situação.

Os resultados foram divulgados ontem, a um mês da cerimónia final do Prémio FAQtos 2017, competição que visa sensibilizar os alunos do secundário para a formação de uma “consciência coletiva em matéria de campos eletromagnéticos oriundos de fontes de telecomunicações (banda das radiofrequências), e do seu impacto na sociedade, bem como potenciais efeitos na saúde e ambiente”, informa o site do projeto faqtos.pt.

Os dados agora conhecidos revelam que a utilização da internet no telemóvel tem vindo a aumentar de forma significativa. No ano letivo de 2010/2011, apenas 35% tinham este tipo de uso e agora mais de 89% usam os dispositivos para navegar online. Quase metade dos jovens (48%) indica mesmo que a internet é o principal serviço que usam no telemóvel, sobretudo para aceder as redes sociais. Além da net, é a comunicação por voz ou escrita que alimenta o fenómeno. Os jovens reportam em média o envio de 75 sms por dia e 30 minutos diários de chamadas, sendo que as mensagens escritas têm estado, ainda assim, a perder algum espaço para as caixas de conversação online ou aplicações como WhatsApp ou o Viber, assinalam os investigadores. Nos primeiros três anos do projeto chegou a registar-se uma média de 100 sms por dia.

Outra constatação dos investigadores é que as raparigas fazem menos chamadas mas 20% mais longas, enquanto que os rapazes telefonam mais vezes por períodos mais curtos e enviam mais mensagens escritas.

O gasto médio mensal dos jovens com os telemóveis é de 9,81 euros, mas a equipa assinala que se nota um ligeiro aumento nos carregamentos acima dos 15 euros para acompanhar as necessidades de pacotes de dados.

Já no que diz respeito à questão das radiações, que lá fora já levou por exemplo França a proibir wifi nas creches, os jovens não parecem estar muito preocupados. Apenas 12% dos jovens adota medidas de proteção quando usa o telemóvel e 28% indicam não saber que medidas tomar. Entre os que têm algum cuidado, predominam atitudes como afastar o telemóvel do corpo, usar auricular e desligar o telemóvel ou wifi à noite e quando não é necessário.

TELEMÓVEIS. AGORA HÁ QUASE 12 MILHÕES DE UTILIZADORES MAS NEM SEMPRE FOI ASSIM

TEXTO | Sónia Peres Pinto
Portugal conta com 11,6 milhões de utilizadores de telemóveis, de acordo com os últimos dados da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), referentes a 2016. Ainda assim, o número representa uma descida de 1,2% face ao ano anterior, mas continua a ser superior ao número de habitantes no nosso país: 10,3 milhões, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). 

Em 2016, o tráfego de voz, em termos de minutos, aumentou 2,7%, valor inferior à taxa de crescimento média dos quatro anos anteriores (+5,1%), embora superior à taxa de crescimento do número de assinantes. O número de chamadas realizadas e o volume de minutos de conversação atingiram, em 2016, máximos históricos. Esta evolução está relacionada com o aumento da penetração das ofertas em pacote que integram serviços móveis e serviços fixos e incluem chamadas a zero cêntimos.

Já a duração média das chamadas manteve-se nos 155 segundos, o mesmo valor dos anos anteriores. No entanto, assistiu-se a uma quebra do serviço de mensagens escritas, ao terem sido enviadas menos 11,1% de mensagens face a 2015 – uma queda superior à redução média dos últimos anos (- 9,2%), em que o número médio mensal de mensagens enviadas por utilizador deste serviço foi de 200, valor mais baixo desde 2010. Este abrandamento do tráfego de mensagens escritas que se tem vindo a registar nos últimos anos resulta, segundo a Anacom, do aparecimento de formas de comunicação alternativas. 

O cenário é bem diferente daquele a que se assistia há 25 anos, altura em que apareceu a Vodafone no mercado português – na altura, com o nome de Telecel –, onde havia apenas uma operadora de telecomunicações, a TMN, da incumbente Portugal Telecom. A comemorar os 25 anos da marca, a operadora lembra que o seu aparecimento pretendeu mudar “radicalmente o mercado das telecomunicações em Portugal e transformar a forma de comunicar dos cidadãos e das empresas”.

E os estudos para a penetração no mercado móvel tinham sido feitos numa altura em que existiam cerca de seis mil clientes de telefones móveis em Portugal. Na proposta estimava-se para o ano 2000 uma taxa de penetração de 8%, número que o tempo viria a corrigir para 66%, o que implicou um investimento três vezes superior ao inicialmente previsto.

E estes 25 anos deixaram marcas. A Vodafone lembra que o seu aparecimento representou a introdução do telemóvel no quotidiano de milhões de consumidores; o primeiro serviço de apoio aos clientes 24 horas por dia e sete dias por semana; a febre das Vitaminas; a criação da primeira oferta disruptiva para jovens, a Yorn; o serviço pioneiro One Net para empresas; a liderança no lançamento do 3G e 4G; a democratização do acesso à internet e da oferta de TV-Net-Voz de última geração; e a primeira oferta de 1Gbps são apenas alguns exemplos das múltiplas referências históricas. 

REALIDADE DISTINTA

A verdade é que, atualmente, a compra de um telemóvel e a sua utilização (ver coluna ao lado) era bem diferente face ao que se assiste nos dias de hoje. O i sabe que nos primeiros dias, os funcionários das lojas, perante a forte adesão, acabavam por reunir os clientes em mesas-redondas e fazer mini-workshops para explicar como preencher contratos e funcionar com os equipamentos, que na época demoravam cerca de 48h e alguns faxes internos até ficarem operacionais.

Também o processo era mais complicado: não havia serviços pré-pagos, preencher os contratos era demorado, eram necessários vários documentos e nem todos os clientes aceitavam bem a burocracia necessária. 

Ambições Para comemorar os 25 anos da empresa, a subsidiária portuguesa lança o Vodafone Future, a primeira plataforma totalmente focada na divulgação de conteúdos futuristas, que revelará projetos mundiais inovadores nas áreas da saúde, entretenimento, vida digital, ciência, educação e sociedade.

Segundo a operadora, a iniciativa tem “um cariz inspirador e, simultaneamente, pedagógico. Ao mesmo tempo que dá a conhecer o potencial de novas tendências, a plataforma desmistifica a sua utilização e o impacto na sociedade”.

O Vodafone Future faz parte da estratégia de transformação digital da empresa, que quer comunicar com os portugueses de uma forma mais dinâmica, mostrando os progressos tecnológicos que estão a acontecer em todo o mundo e que, em breve, estarão presentes nas nossas vidas.

Nos últimos três anos, a Vodafone investiu 900 milhões de euros no mercado português, contando atualmente com 1400 colaboradores, e “um terço destes já exportam serviços para outras operações”.

“Somos reconhecidos como uma empresa de referência no mundo Vodafone e queremos ter um papel ativo na economia digital e contribuir para o país”, já veio afirmar o presidente executivo da Vodafone Portugal, Mário Vaz. 

Ao mesmo tempo, a ideia é continuar a crescer no mercado nacional e, por isso, no mês passado, a NOS e a Vodafone assinaram um acordo para partilhar infraestrutura de fibra ótica com o objetivo de alargar a abrangência da sua oferta comercial. Serão 2,6 milhões de casas e empresas que passarão a poder usar os serviços destas operadoras. O acordo inclui ainda a partilha de rede móvel 4G. Quanto à infraestrutura móvel, pretende-se assegurar a “partilha mínima de 200 torres móveis”. Esta parceria permitirá aos dois operadores a disponibilização das suas ofertas comerciais, sob a rede partilhada, a partir do início de 2018.

Ao ser dado este passo, as duas operadoras esperam, cada uma, totalizar mais de quatro milhões de casas na sua rede de fibra ótica até final do próximo ano. A infraestrutura será partilhada, mas os clientes não.

CURIOSIDADES

UTILIZAÇÃO


No início da venda de telemóveis em Portugal havia clientes que falavam para o o telemóvel como se fosse um walkie-Talkie, deitavam fora as baterias como se de pilhas se tratassem e estranhavam palavras que hoje são de uso corrente, como cobertura, pin, etc.



BATERIA


A cliente tinha perdido o telefone, mas sabia que devia estar em casa. Ligou para o 1212 para fazerem o favor de lhe telefonar para o telemóvel e assim poderia encontrá-lo. O assistente sugere que a cliente utilize o seu telefone de rede fixa (do qual está a ligar) para ligar para o seu telemóvel. Ela responde: "Não está a perceber. É que o telefone não tem bateria e eu preciso que vocês o carreguem para depois poder achar."

APOIO A CLIENTES


O universo ainda reduzido de clientes fazia com que o atendimento fosse quase "familiar". Por exemplo, um detido, que habitualmente contactava o 1212, ao sair da prisão enviou uma caixa de chocolates para os assistentes, agradecendo a forma como sempre foi tratado. 



PROPRIETÁRIOS


No início, o mercado de telemóveis resumia-se a poucos e pesados: o Motorola 1000, o Ericsson GH172, o Nokia 6050 e o Siemens S1. Os preços eram elevados e os clientes que contactavam a Vodafone identificavam-se como sendo "proprietários de um telemóvel".



CRONOLOGIA

1992

SERVIÇOS

O serviço era pós-pago e as chamadas não tinham qualquer distinção em função do destino. Só mais tarde foi criado o conceito de chamadas móvel-móvel e, muito mais tarde, a distinção entre rede fixa e outras redes móveis. Em outubro de 1992 existia apenas um plano tarifário (só mais tarde surgiram novas opções) e tanto se aplicava a um cliente empresarial como a um particular

1995

SMS

O SMS foi lançado para os clientes de serviço pós-pagos em 1995 e em 1999 tornou-se disponível também para os clientes de serviço Vitamina. Só no 2º trimestre de 2008 foram trocados cerca de 5 866 721 milhares de SMS (em média, cada cliente enviou cerca de 137 por mês)

1995

FAMOSO ANÚNCIO

Em 1995 um anúncio pôs o país inteiro a dizer "tou xim" de cada vez que se atendia o telemóvel. O vídeo do pastor a atender o telefone no meio do seu rebanho tornou-se um dos mais emblemáticos anúncios dos anos 90.

1992

NÚMERO DE TRABALHADORES

A Telecel tinha 175 colaboradores no final de 1992 e atualmente tem um número médio de cerca de 1376.

1992

CLIENTES NO ANO DE ARRANQUE

A Vodafone inaugurou a sua atividade comercial a 18 de outubro de 1992, enquanto a Telecel, disponibilizando ao público um serviço de comunicações celulares GSM e cobrindo, na altura, 57% do território e 83% da população nacional. Em 15 dias já existiam 1000 clientes. No final de 1992 contava já com cerca de 8 mil. Ao final de um ano de atividade, esse número disparou para 39 235 clientes.

1992

PREÇO DO 1º TELEMÓVEL

Em dezembro de 1992 é emitida a primeira fatura e com ela começam a surgir as questões relacionadas com cobranças. Em novembro sai também o primeiro telefone portátil, o Ericsson GH 172, acessível ainda a poucas bolsas pois custava 255 200$00 (1273 euros) - valores com IVA incluído.

1992

1º PLANO TARIFÁRIO

Em outubro de 1992, falar um minuto ao telemóvel custava (84$10 (0,42 cêntimos) durante o dia e 43$50 (0,22 cêntimos) à noite. Além disso era necessário pagar uma taxa de ativação de 10 440$00 (52 euros) e uma mensalidade de 7540$00 (38 euros) - valores com IVA incluído.

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