21/05/2019
 

ANTÓNIO POIARES BAPTISTA

"Os cancros da pele sempre existiram. As pessoas é que diziam 'é uma verruga'"

        TEXTO | MARTA F. REIS
FOTOGRAFIAS | MAFALDA GOMES

Treina às segundas, quartas e sextas, os mesmos dias a que dava consultas. Aos 91 anos e depois de uma vida dedicada à medicina e à Universidade de Coimbra, António Poiares Baptista é o nadador federado mais velho do país e conseguiu chegar ao top mundial na sua categoria. Quando lhe contaram não acreditou: começou a nadar em miúdo, quando se montava uma piscina de madeira nas margens do Mondego para os torneios, mas só voltou às pistas e à federação quando largou de vez a bata, há oito anos. Além da natação pela Associação Académica de Coimbra, dedica-se à pintura ou à leitura no seu covil, o escritório onde guarda a coleção de microscópios da anatomia patológica e os livros antigos da profissão. Segredos para envelhecer bem? Não tem nenhuma receita se não esta forma de se ter reinventado depois da reforma, manter o pensamento e a vida ocupada a fazer o que gosta.

Os seus feitos na natação foram recentemente noticiados pelo jornal regional Auri Negra, um quarto lugar no ranking de masters da FINA (Federação Internacional de Natação). Como chega até aqui?

A Federação Portuguesa tem várias disciplinas e tem esta dos masters, que depois tem categorias por idade. Antigamente chamava-se seniores, agora é masters, é mais chique. Só soube há pouco tempo que todos os anos envia para a FINA as classificações de cada uma das categorias dos masters. Começa aos 25 anos e eu estou na categoria N, dos 90 aos 95. 


Continua a fazer campeonatos?

Sim. Todos os anos temos a prova de inverno e a prova de verão e pelo meio há torneios, ainda há menos de um mês houve um na Mealhada.


É o mais master nas provas?

Sim, sou o mais velho [risos]. Na Federacão Portuguesa de Natação sou o mais velho. Fui nadador da Académica quando andava no liceu, aí a partir dos 11 anos. Não era nenhum nadador especial, a natação também não estava muito desenvolvida. Cá em Coimbra, por exemplo, não havia piscina permanente. Todos os anos faziam uma piscina no verão na margem do rio, de madeira. Só no verão é que se treinava. Depois entrei na universidade e acabou. Não havia tempo.


Tinha muito trabalho?

Sim. E a gente vai mudando de interesses. Quando entrei na universidade aquilo que tinha de fazer era estudar. A minha desgraça foi logo o primeiro exame: tive 19 e isso amarrou-me.


Amarrou-o e ainda bem?

Sim, claro, mas para manter a classificação tive de estudar. Eu e outro colega fomos os únicos a acabar com média de 18. Mas com isso deixei o resto, só nadava no verão, na Figueira da Foz.


Ou no rio da sua terra.

Em Ançã, sim, é um riacho. Não era bem nadar, lá andava metido na água. Depois no liceu nunca mais entrei em provas. Fiz a minha carreira como médico e a carreira universitária e quando acabou tudo é que pensei: o que é que vou fazer? Foi aí que voltei à natação.


Jubilou-se aos 70. Parou logo o consultório? 

Ainda mantive a consulta privada cerca de dez anos, mas por volta dos 80 anos acabei, já chegava. Os meus filhos são os dois médicos, estava tudo bem. E depois o falecimento inesperado da minha mulher foi o golpe decisivo. Tive de pensar no que ia fazer dali para a frente.


Conheceu a sua mulher Claude quando foi fazer a especialização em dermatologia em Paris. Como foi esse encontro?

Por mero acaso. Ela era aluna de Literatura Espanhola, tinha aulas na Sorbonne. Eu morava perto. Era amigo do leitor de Português que era o Urbano Tavares Rodrigues. À quinta-feira, que era o dia em que ele dava aulas, ia ter com ele para irmos jantar. Foi numa dessas saídas que conheci a minha mulher. Namorámos uns quatro anos e casámos.

A MINHA DESGRAÇA FOI O PRIMEIRO EXAME: TIVE 19 E AMARROU-ME. PARA MANTER AS NOTAS TIVE DE ESTUDAR

Na altura já falava bem francês?

Não falava grande coisa e uma das razões foi essa. A minha mulher estava a tirar um curso de português de opção. O Urbano Tavares Rodrigues disse “está aqui um jovem médico, chegou há pouco tempo, fala mal francês, se quiser falar um bocado português...” E foi assim.


Como foi sair de um Portugal fechado para essa Paris dos anos 50?

Foi a primeira vez que saí de Portugal.


Tinha vivido os primeiros anos em Moçambique.

Sim, fiz os primeiros anos de escola em Quelimane. O meu pai era lá médico. Depois ficámos cá para o liceu, em casa de um tio médico. Parece uma família de médicos mas a nossa origem não é essa, o meu avô era lavrador. Tinha nove filhos, quatro raparigas e cinco rapazes. Todos os rapazes se formaram. Dois em medicina, dois padres e um engenheiro.


Era fora do comum?

Era preciso trabalhar muito. O meu pai contava-nos muito isso, que passava as férias à frente dos bois para cuidar das terras, a ajudar o pai. O avô Baptista era um bocado rígido mas o certo é que os filhos fizeram os estudos. Preferiram andar a estudar do que andar atrás dos bois. As raparigas na altura não estudavam, era diferente. Depois do meu avô o nível da família melhorou bastante. Mas de maneira que, quando vou para Paris, nunca tinha saído daqui.


Foi um choque?

Ora veja, com 21, 22 anos... tive a sorte de ter uma bolsa de estudo que me permitiu ir fazer a especialidade na Faculdade de Medicina de Paris. Cá o único sítio que tinha dermatologia era o Hospital do Desterro, em Lisboa, com o prof. Juvenal Esteves. Aqui em Coimbra os professores incentivaram-me a ir para Paris onde havia um dos centros mais conceituados (o Hospital de Saint-Louis). 


O dinheiro dava para viver bem? 

Era apertado, tinha um quarto, não dava para passear para aqui e para acolá, ia ao refeitório do hospital e aos restaurantes universitários ali no Quartier Latin.


A zona mais boémia.

Isso depende da vida que a pessoa quisesse. Eu tinha de estudar para manter a bolsa e porque era difícil reter as coisas em francês. No primeiro mês chegava a casa com dores de cabeça de tentar perceber o que as pessoas diziam, de tentar fixar tudo o que lia e via.


O que o impressionou mais na sociedade francesa?

Era tudo muito diferente. Uma vez a minha mulher veio cá. Andei a fazer de cicerone. Ela fumava. Cá não podia entrar num café e fumar. Uma rapariga a fumar era um escândalo. Obrigava-me a mim a fumar para ela poder fumar, eu que não fumo. As raparigas cá não iam à praia de biquíni, era proibido. Até os rapazes: para irmos para a praia tínhamos de levar um camisola a cobrir o tronco e uns calções tinham meio saiote à frente, para não se ver os contornos.


Havia o fiscal da praia a controlar.

Sim, e quem não cumprisse ia preso. Lembro-me de uma vez um grupo de médicos na Figueira terem barafustado contra isso, foram para a praia de tronco nu e foram todos presos. Em Paris adaptei-me bem, estava ali para estudar. Reuníamo-nos no café Luxemburgo, que ainda existe, íamos aos museus. Estive três anos, ao fim daquele tempo o meu patrão perguntou-me se eu queria continuar e conseguiu prolongar-me a bolsa. Já especialista regressei. Fui nomeado assistente da faculdade. Fui o primeiro professor de dermatologia em Coimbra.


Tinha 30 anos.

Uns 28 ou 29. Namorava a minha mulher, que ficou lá. Depois pensei em fazer a tese de doutoramento, mas aqui havia poucos casos. Consegui uma segunda bolsa, esta da Gulbenkian, para estar mais um ano em Paris. Foi na altura que me casei. E depois voltámos. O meu filho nasceu cá, mas começou a falar primeiro francês do que português. A minha mulher mesmo cá falou sempre francês, embora falasse português. Sabe que os franceses são considerados chauvinistas. Os meus filhos perguntavam: “Oh mãe, diga lá qual é o melhor país?” É França. E o segundo? É França... Portugal era o quinto ou sexto.


Por que não ficaram lá?

Fazer uma carreira universitária lá seria impossível para mim: era só para franceses, teria de fazer equivalência do curso e a própria especialidade, tendo sido feita lá, tinha de ter outro reconhecimento. Em termos de carreira hospitalar ou universitária, nunca daria. Podia instalar-me lá com um consultório, mas não era isso que eu queria. Cá a universidade acolheu-me bem.


Regressa em meados dos anos 60, ainda não existia o Serviço Nacional de Saúde. Como era a vida no hospital? 

Ao início nem havia uma carreira hospitalar. Havia outra coisa diferente do que se passava em França que era não haver exclusividade de funções. A pessoa trabalhava na universidade. Depois trabalhava no hospital universitário mas o que fazia não era pago.


E por isso viravam-se para o consultório privado?

Era. Um indivíduo praticamente era obrigado a fazer a privada, era aí que ganhava. As coisas modificaram-se com a criação das carreiras e do SNS, que foi sempre algo que defendi, até pelo contacto com a realidade francesa. Em França quem quisesse ser professor da universidade tinha de trabalhar em dedicação exclusiva, não podia ter consultório privado. O mesmo com os médicos dos hospitais. Tinham um ordenado maior, mas estavam dedicados.


Foi um erro cá não se ter ido por aí?

Acho que foi, mas enfim, foi assim.


E as condições de trabalho?

As instalações aqui eram mais pobretanas do que em França, agora parece que lá também as coisas já não estão tão bem. Nós modificamos a nossa vida e as instituições também se modificam ao longo do tempo.
Que memórias tem do início do SNS?

Para mim foi formidável, aproximou-nos do melhor que se fazia em França, Inglaterra ou mesmo a Alemanha. Quem de resto deu a ideia do SNS foi um colega meu aqui de Coimbra, o Mário Mendes, que era parteiro e foi professor da universidade. Trabalhou muito para a criação do SNS. 


Garantiu o acesso universal à saúde independentemente dos rendimentos. António Arnaut costumava contar que muitas pessoas quando adoeciam tinham de vender gado para poder pagar uma ida ao médico.

Havia o sistema de avenças. Numa terra qualquer o senhor doutor abria o consultório e as pessoas, se queriam poder ir lá, pagavam uma avença anual. O problema é que aquilo não tinha um custo fixo, um médico podia levar x, outro levava 2x. Em regra, nas povoações havia um ou dois médicos e as pessoas eram avençadas de um ou de outro. Isto era uma coisa mais do campo, nas cidades não creio que houvesse. Era o sistema, os lavradores pagarem o que era pedido.


Às vezes com animais, com galinhas?

Também acontecia. Recebia muitas galinhas lá em Ançã mas era diferente. Via um doente qualquer, uma doença de pele, tinham alguma coisa e diziam que iam ao ti António. Não ia levar dinheiro àquela gente. Passado algum tempo ofereciam-me uma galinha, uma travessa de arroz doce. Mesmo com isso das avenças no campo não se fazia grande fortunas. Era um país pobre. O que vale é que havia as colónias. O meu pai formou-se aqui em Coimbra e a primeira coisa que fez foi ir para África, para o quadro sanitário do Ultramar. Esses sim eram funcionários, tinham uma carreira, no fundo o sistema que se viria a fazer cá mais tarde. Abriam vagas e os médicos concorriam. Tinham de ter o diploma de Medicina Tropical para concorrer. O meu pai começou em Angola e depois conseguiu transferência para Moçambique.


Era médico de família?

Médico generalista. Esteve em duas povoações, em Quelimane e Inhambane. Fez toda a carreira lá.


Lembra-se da primeira vez em que pensou que também ia ser médico?

Acompanhava o meu pai nas visitas que ele tinha de fazer às povoações, aquelas filas de doentes negros. As pessoas faziam xixi para uma casca de coco cortada ao meio, era o que fazia de recipiente para se fazer uma análise, para ser visto ao microscópio se tinha bichos.


Faltavam meios para ter de ser assim?

Fala-se pouco mas o serviço médico das colónias talvez fosse melhor do que o daqui, estava organizado. Aqui uma pessoa instalava-se numa aldeia qualquer e ninguém controlava nada. Em África não.


Mas percebeu logo que ia seguir as pisadas do pai?

Só me lembro que nunca quis ser outra coisa. O meu irmão não, nunca quis ser médico, queria ser engenheiro e foi. Agora porquê a medicina, não sei. Pouco a pouco comecei a gostar daquilo, foi natural, como um filho de um militar pode querer ser militar.


Podia ser por uma visão mais romanceada, salvar vidas.

Em miúdo não pensei nisso, ser salvador do mundo.


E na ideia de que seria a carreira melhor?

Também não pensei nisso. Tinha dois tios que eram padres e um deles queria que eu fosse para o seminário, mas nunca fui chamado para isso. Sempre quis ser médico e depois fiz tudo para o conseguir. Quando entrei para a universidade acabei por ter classificações que nunca pensei que teria e isso fez os professores entusiasmarem-me para continuar, como eu entusiasmei mais tarde os meus assistentes para fazerem o doutoramento e seguirem determinada carreira. 


Tem uma carreira cheia entre os Hospitais da Universidade de Coimbra e a Universidade. Onde foi mais feliz?

Fiz a carreira completa, não era candidato para isso, mas aconteceu. Comecei por professor. A certa altura dá-se o 25 de Abril e eu era o professor catedrático mais novo da faculdade. A direção e o próprio reitor pedem a demissão, por serem cargos nomeados pelo governo. Há um grupo de jovens médicos que se reúne e me vem pedir para assumir o cargo. E assim foi.


Não apoiava o regime?

Nunca fiz política, nunca fui de nenhum partido. Era um professor jovem e isso é que deve ter tido influência. Na altura estávamos a criar o internato médico. Eu tinha uma certa vivência disso porque o primeiro internato na história da Medicina surge em França no tempo de Napoleão. Uns anos mais tarde, quando estava na direção do hospital, há a eleição do reitor para a universidade. Fui convidado para vice. 


De que ambiente gostava mais?

De trabalhar no hospital e de ensinar. Nunca fui um grande amante de consultório. Tinha a minha consulta três vezes por semana, não era todos os dias.


Porquê?

Queria ter tempo para estudar, para trabalhar, para fazer outras coisas. Fazia as consultas às segundas, quartas e sextas. Agora na natação também é assim: segundas, quartas e sextas. Nos outros dias tinha tempo livre e por isso é que me apanharam para hospital e depois para vice-reitor. Gostava muito de ensinar e e dediquei-me à anatomia patológica. Nos dias em que não tinha consultório passava as tardes no laboratório da faculdade a ver cortes.


O que o fascinava mais nesses momentos junto ao microscópio?

Não ver o doente só na superfície. Era uma coisa relativamente nova naquela área. Eu e um colega de Lisboa, o Garcia Silva, criámos o clube da anatomia patológica da pele. Ele tinha estado em Inglaterra e eu em França. Tirávamos um tumor, fazíamos a análise, começámos a perceber os diferentes casos que existiam. O meu nome está ligado a um tumor da pele que estudei com um colega francês que mais tarde viria a ser professor da cadeira lá em Paris. Acantoma de células claras, fomos os autores dessa nova entidade. 


Na altura não havia internet, as comunicações eram mais difíceis, devia ser um processo mais lento, não?

Era para isso que havia os congressos, levávamos as lâminas com material para discutir, para comparar.


Formou muitos dermatologistas?

Sim, muitos. De resto hoje já existe uma secção de dermatopatologia que é reconhecida pela Ordem dos Médicos. Fomos nós que a fomentámos.

"FECHEI O CONSULTÓRIO HÁ OITO, NOVE ANOS. COSTUMO DIZER QUE DEIXEI OS DOENTES EM PAZ"

Tem havido alertas para o aumento dos casos de cancro da pele nos últimos anos. Notou essa evolução?

A minha convicção é que os cancros da pele sempre existiram, mais nos camponeses que trabalhavam expostos ao sol do que nos citadinos, o que é normal. O que acontece é que há 20, 30 anos a pessoa tinha qualquer coisa mas dizia “isto é uma verruga” e não ligava, não havia tantos tratamentos, havia dificuldades de assistência médica. As coisas tomavam um certo volume. Atualmente a pessoa tem qualquer coisinha e vai logo ao médico, é detetado mais cedo, isso aumenta as estatísticas. Com certeza que quem anda ao sol tem mais risco, mas não acho que haja muito mais risco hoje.


Mas tinha especial cuidado, deixava os filhos ir a praia? Punha creme protetor?

Eu nunca pus.


Mas deitava-se ao sol?

Também não, mas nunca apliquei cremes. Às vezes perguntam-me isso: “Não tem rugas, é de algum creme?”. É do meu tipo de pele. A minha pele é um bocado oleosa e a pele oleosa protege-se melhor do que a pele seca. Vou para a praia, ponho-me ao sol, passado uma semana já estou moreno, tenho uma proteção mais natural. Porque é que os indivíduos de raça negra estão em África? Na evolução natural do género humano, estavam numa região onde a pele, para se proteger, foi ficando progressivamente mais negra. Porque é que os indivíduos do norte são louros? Porque não havia essas mesmas condições.


O que diz da moda de tomar banho menos vezes, não usar gel e champô?

Mais uma vez depende da pele de cada um. A minha pele é uma pele oleosa, por isso é que sou calvo, em regra geral os calvos são indivíduos de pele oleosa. Esta pele protege-se melhor do que a pele seca. Um indivíduo com pele oleosa não tem de andar sempre a pôr sabão, eu quando vou à piscina não uso.


Nem para tirar o cloro?

Basta passar por água e o cloro desapareceu. Nem óculos uso. Se a água não me causa problemas, para quê? A pessoa tem de conhecer a sua pele e adaptar-se. Agora se quiser uma proteção como deve ser gasta bom dinheiro.


Os cremes do supermercado não funcionam?

Tem de ter uma boa espessura.


O protetor em spray é má ideia?

Não é tão eficaz como o outro em creme e é preciso ir pondo.


Ainda o procuram para mostrar sinais?

Agora já não.


Custou-lhe?

Não, fechei o consultório há cerca de oito, nove anos. Costumo dizer que deixei os doentes em paz. Não me venham chatear que já nem sei nada disso. De vez em quando pedem-me, mas é isso: já estou um bocado desligado. Há artigos que atualmente leio que nem sei bem o que eles estão a dizer. A gente vai perdendo a pedalada nisto. E depois fui-me interessando por outras coisas. Isso é que é sempre o problema das pessoas de idade. Ainda ontem estavam a discutir isso na televisão. Largamos uma determinada área mas, para continuarmos ativos, temos de preencher o nosso pensamento, dedicarmo-nos a outra área. Por isso é que comecei a natação e a fazer pintura.


Já gostava de pintar em miúdo?

Os meus pais estavam em África e eu escrevia uma carta à minha mãe ou ao meu pai e fazia um boneco para não estar a escrever, não sabia o que escrever. Ia a carta por correio aéreo. Os meus pais deixaram-me aqui a mim e ao meu irmão no primeiro ano do liceu. Quando vieram depois da guerra estava no primeiro ano da universidade. Estive aquele tempo todo sem eles, quando tinha alguma coisa da minha vida falava com o meu tio. Os médicos em África tinham férias graciosas de quatro em quatro anos, em que podiam vir à metrópole. 


Esteve quatro anos sem ver os pais?

Estive oito. Tinham essas férias graciosas de seis meses, dois para a viagem de ida e volta de barco e depois estavam por cá. Mas como entretanto houve a guerra, as pessoas tinham medo de vir. De vez em quando havia um barco que era bombardeado. Portanto todo o meu tempo de liceu estivemos afastados. A correspondência era por escrito, nessa altura havia telegramas até com textos já feitos que as pessoas assinavam apenas. 


Deixou-lhe muitas marcas?

Deixa, claro. Depois de o meu pai se reformar ainda viveu connosco uns cinco anos, a minha mãe um pouco mais. O meu pai felizmente ainda assistiu às minhas provas de doutoramento. Foi a única vez que vi o meu pai chorar, abraçado a mim. Para ele era uma glória, um filho professor na universidade. Não sei, era uma espécie de bouquet do sacrifício que ele fez em relação aos filhos. Nessa altura o ser professor universitário na escala social era uma coisa… hoje é diferente.


Não é tão prestigiante?

É diferente. Antigamente o doutoramento era o primeiro degrau mas era um degrau alto. Tinha de ter pelo menos média de 16, o que era uma média alta. Tinha de fazer a tese sobre um assunto original.


A sua foi sobre o quê?

Um tumor da pele que se chama queratoacantoma, nunca ouviu falar disso.


Pois não. É um tumor maligno?

Sim. Para estudar esse tumor que tinha sido identificado um ano antes por um indivíduo inglês tinha de encontrar casos. Tinha sido o meu patrão de Paris a propor-me o tema. Lá, como o hospital era uma espécie de centro de dermatologia nacional, mandavam-lhes muita coisa. Foi assim que para uma lesão que era recente consegui reunir cento e poucos exemplares, alguns que me enviaram da Alemanha, da Bélgica.


Cá também havia essas lesões.

Sim, mas não estavam identificadas. Mas além de fazer a tese, depois havia a discussão. E ainda tínhamos um ponto tirado à sorte e sobre o qual tínhamos de dissertar. Para chegar a professor associado, que na altura se dizia professor extraordinário, era uma maratona. Tínhamos de preparar uma lição, depois tirar à sorte outro assunto 20 dias antes para outra lição, havia uma discussão do currículo e uma discussão de doentes nas provas clínicas. Era uma semana para fazer esta prova de agregação. Hoje em dia para ser professor agregado são dois dias: num dia discute-se o currículo e, no outro, o trabalho que a pessoa fez. Uma pessoa tinha de fazer sacrifício para conseguir a carreira médica.


Historicamente como foi vendo a relação entre médicos e enfermeiros?

Os enfermeiros sempre quiseram ser doutores, tinham essa vontade normal de subir. Tal como os mecânicos, os eletricistas, que a certa altura passaram a ser engenheiros técnicos. Os engenheiros barafustaram, mas não ganharam nada com isso.


Mas não houve também momentos de maior sobranceria dos médicos para com os enfermeiros?

Havia sempre, os médicos não eram nenhuns santos. Sabemos perfeitamente que se os médicos pudessem empurrar para o enfermeiro empurravam. Mas também há muitos enfermeiros que se sentem quase doutores. Os politécnicos têm-se batido para que haja doutoramentos, quando são realidades diferentes. De qualquer forma estou afastado. Saí em 1997, quando me puseram o colar ao pescoço.

"PARA AUMENTAR AS CONSULTAS, ENCURTOU-SE O TEMPO. VER O DOENTE EM CINCO MINUTOS OU MEIA HORA É UMA DIFERENÇA ENORME"

De que tem mais saudades dessa vida?

Sempre gostei de estar com os alunos, de ensinar.


Tinha alguma técnica, uma mensagem?

Não, era falar para jovens, para colegas mais novos. O que dizia muitas vezes até na minha especialidade é que a primeira coisa é olhar para o doente e ler o que ele tem na pele. 


O que tinham de ver primeiro?

Não há isso de ver primeiro, era ver o doente. Isso era como dizerem-lhe “apresento-lhe fulana tal” e vê primeiro os lábios ou o nariz. Não, é preciso ver tudo para localizar o que podia parecer uma porias, esta doença ou aquela.


Sentiu alguma vez pressão para cada vez ter menos tempo para ver os doentes? Tem havido essa queixa por parte dos médicos por causa dos sistemas informáticos e a Ordem definiu tempos mínimos de consulta.

Pois, eu nem sei lidar com o computador. A Ordem tem de propor porque quem manda, para aumentar o número de consultas, encurtou o tempo. Isso é fatal. Um médico demora a olhar o doente aquilo que for necessário. Há indivíduos que faziam consultas em cinco minutos. Eu nunca fiz. Mesmo que o doente tivesse uma coisa que eu olhava para ele e dizia “é isto”, de caras, tinha de explicar-lhe o que tinha. Sempre o fiz, mesmo no consultório. O doente vai ao médico e quer saber o que tem. O médico tem obrigação de lhe dizer, é isto, tem importância ou não tem importância, porque é que aparece. Tem de dar uma explicação. Às vezes eu via um doente entrar no consultório, ele olhava para mim e eu dizia logo “já sei ao que vens”. Eram os que entravam e olhavam para a minha careca. Vinham porque estavam a ficar calvos. Pela maneira de olharem já sabia, mas gastava o mesmo tempo na consulta, a explicar às pessoas porque é que são calvas. A questão do tempo tem a ver com os hospitais serem regidos por pessoas que fazem contas.


Mas é necessário fazê-las, não?

De acordo que façam contas, mas depois exige-se do médico coisas que nem se pensa o impacto que têm. Um médico ver um doente em cinco minutos ou em meia hora é uma diferença enorme. Certamente que não é meia hora na conversa ou fofoquice. Na minha especialidade, como são lesões à vista, a pessoa vê ou não vê, mas tem de procurar, palpar. A certa altura fui acusado, embora não diretamente, porque via os doentes entre as pernas. Pedia-lhes para se sentarem ao meu lado, se era preciso ver uma coisa na perna punha a perna do doente em cima da minha. Não é maneira de ver um doente tê-lo sentado à nossa frente. É preciso palpar, ver, dói, não dói, tudo isto leva tempo.


Está com 91 anos. Como vê a idade?

Não sei. Às vezes penso para mim: “Ó pá, tu já tens 91 anos, estás velho”. Às vezes fico admirado, outras vezes não.


Admirado com o quê?

Por conseguir fazer determinadas coisas, a natação por exemplo.


As pessoas comentam quando o veem passar para a piscina?

Comentam. Somos uns quatro ou cinco velhotes, indivíduos com 70, 80 anos. Eu procuro acompanhá-los, “Baptista vem por aqui”, mas às vezes já não tenho força. Essa coisa do ranking, quem me disse foi um colega do Algés e Dafundo, a dar-me os parabéns. Disse-lhe você está a gozar comigo ou quê?”. Mas quer dizer, a marca é de 2017, hoje já não consigo fazer isto.


Aquele tempo de 1:16s nos 50 metros bruços?

Já não. Eu quando fazia isto ia para a piscina e fazia 1200 metros, 1300 metros a andar para trás e para diante. O que é muito chato, de resto [risos]. É preciso uma certa carolice. Quis arrastar a minha neta para a natação, tem bom físico para isso mas ela disse logo:“Avô, então a gente anda aqui para trás e para diante e não fala com ninguém?” É solitário.


Em que pensa quando vai a nadar?

Na vida. Costumo dizer que a única vantagem que isto tem é que a gente vai pensando “hoje tenho de fazer isto, amanhã aqueloutro”. Mas então quando eu fazia esse tempo andava a nadar, sem parar, 1200, 1300, 1500 metros, em crawl ou bruços. Atualmente se fizer 500 metros sem parar já é bom.


Mesmo assim é fora de comum.

Hoje fiquei satisfeito porque foi mil metros.


Devem-lhe perguntar muitas vezes qual é o seu segredo.

Não sei. Às vezes perguntam-me pela alimentação? Como o que me dão. Não sei cozinhar. A única coisa que sei fazer é o ovo estrelado, foi a minha neta que me ensinou. Não sou gourmet, longe disso. Às vezes dão-me um bife e não sei de que carne é.


O que pesa mais na idade?

O que mais me chateia, que é o termo, é a memória. Desaparece num instante. Foi uma das razões para deixar de fazer consulta. Felizmente durante algum tempo tive o meu filho comigo, que também seguiu a especialidade. Mas a certa altura comecei a esquecer-me do nome da doença, dos novos medicamentos.


Mas são as memórias do dia-a-dia, não as antigas. Saber onde pôs as chaves.

Puxa, as chaves. Ainda noutro dia me fui embora e deixei as chaves cá por dentro. E primeiro que abrisse a porta... A mulher a dias é que me valeu. Sabe como é que se abre uma porta? Com uma radiografia ou com um cartão.


Aprendeu a arrombar portas aos 90 anos

[Risos]. A memória vai falhando.


E lições importantes da vida? 

Não me posso queixar da minha carreira, da vida que fiz, dos cargos que desempenhei. Fui vice-reitor oito anos, foi o lugar que menos gostei. Diretor do hospital foi o lugar que mais gostei, e foi numa época má logo a seguir ao 25 de Abril. Mas gostei porque conseguimos fazer coisas que noutra altura não seria possível, nomeadamente fazer no velho edifício do hospital uma grande alteração. As enfermarias de mulheres e de homens estavam muito longe umas das outras. Havia serviços em que a enfermaria de homens estava numa ponta do hospital e a das mulheres noutra ponta. E os médicos, o pessoal de enfermagem, tinham de andar ali…


A fazer piscinas?

Um pouco isso, sim. Conseguimos acoplar e pôr mulheres em cima e homens em baixo mas mais interligado. Conseguimos criar um serviço de reanimação, um serviço de medicina dentária. Mas estas coisas fazem-se nos tempos revolucionários em que as pessoas aceitam, estão abertas à mudança. Em tempo normal é muito difícil mudar. Quando estive oito anos como vice-reitor era diferente. O meu pelouro eram os desportos, o estádio universitário, e os estudantes, a ação social, as repúblicas. Mas chateei-me com aquilo. Sempre que havia problemas com os estudantes, eu propunha alguma coisa mas o reitor punha travões. Foi um bom reitor de resto, mas tinha uma filosofia: a juventude anda sempre apressada, a gente deixa passar um tempo, isto arrefece e eles começam a pensar noutra coisa, esquecem-se.


E as saudades dos amigos?

No meu curso éramos 97 alunos, dos quais seis raparigas. Hoje é o contrário, elas estão em maioria. Desses 97 estamos vivos 14, o resto já tudo foi. De há uns anos para cá fazemos reuniões todos os anos e um colega meu já me telefonou para marcar a lampreia. Eu sou sempre o encarregado porque dizem que sou quem está em melhores condições. Ainda há duas colegas e estão bem. Na última reunião estava a olhar e há um deles que pergunta: estás a contar as bengalas? E estava. Sem bengalas só somos três.


Pensa no fim?

Não, é quando for. Costumo dizer que já fiz o que tinha a fazer, morrer hoje ou morrer amanhã, ou daqui a um ano.


Tem um episódio em miúdo em que foi por um triz, o ataque de um leopardo.

Lá em Quelimane ou Inhambane, já não me lembro bem, uma das povoações onde o meu pai foi médico. O leopardo ia-me matando mas tive sorte. Foi na escola, eu tinha uns sete ou oito anos e o leopardo estava lá no quintal com uma corrente mas costumava abrir a porta do sítio onde nós estávamos. Um dia faz isso, rebenta com a corrente, um elo devia estar estragado, e saltou-me para cima.


Foi a vez que teve mais medo de morrer?

Com sete ou oito anos a gente nem pensa, foge. Estava lá a professora que teve coragem suficiente para agarrar o leopardo pela correia e arrastá-lo. Ficou sem um dedo, foi ela que me safou.


E o sentido da vida, já descobriu? 

Nem sei. Filosofia não é muito comigo, gosto é de história, da história da ciência, de saber.


É uma pessoa crente?

Já fui mais, tinha dois tios padres. Já há muito tempo que não. Agora vou à missa quando morre um colega meu.


Destes quadros todos que pintou, qual lhe diz mais?

Só vendo. Ali tenho a capela da Senhora da Fonte da minha terra. Ançã tem uma fonte de água que nunca secou, dá origem a uma ribeira que atravessa a quinta onde eu nasci. Ali é a igreja de Ançã onde fui batizado. Casei-me em França: éramos sete, chega para fazer o casamento. Os meus sogros, tios da minha mulher, um colega meu. O meu pai ficou zangado, a minha mãe mandou um telegrama, mas o meu pai não disse nada. “Casar, tu ainda não tens emprego e já vais casar?” Depois tenho quadros que pinto de memória de Paris. Outros são mais devaneios. 

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