De que tem mais saudades dessa vida?
Sempre gostei de estar com os alunos, de ensinar.
Tinha alguma técnica, uma mensagem?
Não, era falar para jovens, para colegas mais novos. O que dizia muitas vezes até na minha especialidade é que a primeira coisa é olhar para o doente e ler o que ele tem na pele.
O que tinham de ver primeiro?
Não há isso de ver primeiro, era ver o doente. Isso era como dizerem-lhe “apresento-lhe fulana tal” e vê primeiro os lábios ou o nariz. Não, é preciso ver tudo para localizar o que podia parecer uma porias, esta doença ou aquela.
Sentiu alguma vez pressão para cada vez ter menos tempo para ver os doentes? Tem havido essa queixa por parte dos médicos por causa dos sistemas informáticos e a Ordem definiu tempos mínimos de consulta.
Pois, eu nem sei lidar com o computador. A Ordem tem de propor porque quem manda, para aumentar o número de consultas, encurtou o tempo. Isso é fatal. Um médico demora a olhar o doente aquilo que for necessário. Há indivíduos que faziam consultas em cinco minutos. Eu nunca fiz. Mesmo que o doente tivesse uma coisa que eu olhava para ele e dizia “é isto”, de caras, tinha de explicar-lhe o que tinha. Sempre o fiz, mesmo no consultório. O doente vai ao médico e quer saber o que tem. O médico tem obrigação de lhe dizer, é isto, tem importância ou não tem importância, porque é que aparece. Tem de dar uma explicação. Às vezes eu via um doente entrar no consultório, ele olhava para mim e eu dizia logo “já sei ao que vens”. Eram os que entravam e olhavam para a minha careca. Vinham porque estavam a ficar calvos. Pela maneira de olharem já sabia, mas gastava o mesmo tempo na consulta, a explicar às pessoas porque é que são calvas. A questão do tempo tem a ver com os hospitais serem regidos por pessoas que fazem contas.
Mas é necessário fazê-las, não?
De acordo que façam contas, mas depois exige-se do médico coisas que nem se pensa o impacto que têm. Um médico ver um doente em cinco minutos ou em meia hora é uma diferença enorme. Certamente que não é meia hora na conversa ou fofoquice. Na minha especialidade, como são lesões à vista, a pessoa vê ou não vê, mas tem de procurar, palpar. A certa altura fui acusado, embora não diretamente, porque via os doentes entre as pernas. Pedia-lhes para se sentarem ao meu lado, se era preciso ver uma coisa na perna punha a perna do doente em cima da minha. Não é maneira de ver um doente tê-lo sentado à nossa frente. É preciso palpar, ver, dói, não dói, tudo isto leva tempo.
Está com 91 anos. Como vê a idade?
Não sei. Às vezes penso para mim: “Ó pá, tu já tens 91 anos, estás velho”. Às vezes fico admirado, outras vezes não.
Admirado com o quê?
Por conseguir fazer determinadas coisas, a natação por exemplo.
As pessoas comentam quando o veem passar para a piscina?
Comentam. Somos uns quatro ou cinco velhotes, indivíduos com 70, 80 anos. Eu procuro acompanhá-los, “Baptista vem por aqui”, mas às vezes já não tenho força. Essa coisa do ranking, quem me disse foi um colega do Algés e Dafundo, a dar-me os parabéns. Disse-lhe você está a gozar comigo ou quê?”. Mas quer dizer, a marca é de 2017, hoje já não consigo fazer isto.
Aquele tempo de 1:16s nos 50 metros bruços?
Já não. Eu quando fazia isto ia para a piscina e fazia 1200 metros, 1300 metros a andar para trás e para diante. O que é muito chato, de resto [risos]. É preciso uma certa carolice. Quis arrastar a minha neta para a natação, tem bom físico para isso mas ela disse logo:“Avô, então a gente anda aqui para trás e para diante e não fala com ninguém?” É solitário.
Em que pensa quando vai a nadar?
Na vida. Costumo dizer que a única vantagem que isto tem é que a gente vai pensando “hoje tenho de fazer isto, amanhã aqueloutro”. Mas então quando eu fazia esse tempo andava a nadar, sem parar, 1200, 1300, 1500 metros, em crawl ou bruços. Atualmente se fizer 500 metros sem parar já é bom.
Mesmo assim é fora de comum.
Hoje fiquei satisfeito porque foi mil metros.
Devem-lhe perguntar muitas vezes qual é o seu segredo.
Não sei. Às vezes perguntam-me pela alimentação? Como o que me dão. Não sei cozinhar. A única coisa que sei fazer é o ovo estrelado, foi a minha neta que me ensinou. Não sou gourmet, longe disso. Às vezes dão-me um bife e não sei de que carne é.
O que pesa mais na idade?
O que mais me chateia, que é o termo, é a memória. Desaparece num instante. Foi uma das razões para deixar de fazer consulta. Felizmente durante algum tempo tive o meu filho comigo, que também seguiu a especialidade. Mas a certa altura comecei a esquecer-me do nome da doença, dos novos medicamentos.
Mas são as memórias do dia-a-dia, não as antigas. Saber onde pôs as chaves.
Puxa, as chaves. Ainda noutro dia me fui embora e deixei as chaves cá por dentro. E primeiro que abrisse a porta... A mulher a dias é que me valeu. Sabe como é que se abre uma porta? Com uma radiografia ou com um cartão.
Aprendeu a arrombar portas aos 90 anos
[Risos]. A memória vai falhando.
E lições importantes da vida?
Não me posso queixar da minha carreira, da vida que fiz, dos cargos que desempenhei. Fui vice-reitor oito anos, foi o lugar que menos gostei. Diretor do hospital foi o lugar que mais gostei, e foi numa época má logo a seguir ao 25 de Abril. Mas gostei porque conseguimos fazer coisas que noutra altura não seria possível, nomeadamente fazer no velho edifício do hospital uma grande alteração. As enfermarias de mulheres e de homens estavam muito longe umas das outras. Havia serviços em que a enfermaria de homens estava numa ponta do hospital e a das mulheres noutra ponta. E os médicos, o pessoal de enfermagem, tinham de andar ali…
A fazer piscinas?
Um pouco isso, sim. Conseguimos acoplar e pôr mulheres em cima e homens em baixo mas mais interligado. Conseguimos criar um serviço de reanimação, um serviço de medicina dentária. Mas estas coisas fazem-se nos tempos revolucionários em que as pessoas aceitam, estão abertas à mudança. Em tempo normal é muito difícil mudar. Quando estive oito anos como vice-reitor era diferente. O meu pelouro eram os desportos, o estádio universitário, e os estudantes, a ação social, as repúblicas. Mas chateei-me com aquilo. Sempre que havia problemas com os estudantes, eu propunha alguma coisa mas o reitor punha travões. Foi um bom reitor de resto, mas tinha uma filosofia: a juventude anda sempre apressada, a gente deixa passar um tempo, isto arrefece e eles começam a pensar noutra coisa, esquecem-se.
E as saudades dos amigos?
No meu curso éramos 97 alunos, dos quais seis raparigas. Hoje é o contrário, elas estão em maioria. Desses 97 estamos vivos 14, o resto já tudo foi. De há uns anos para cá fazemos reuniões todos os anos e um colega meu já me telefonou para marcar a lampreia. Eu sou sempre o encarregado porque dizem que sou quem está em melhores condições. Ainda há duas colegas e estão bem. Na última reunião estava a olhar e há um deles que pergunta: estás a contar as bengalas? E estava. Sem bengalas só somos três.
Pensa no fim?
Não, é quando for. Costumo dizer que já fiz o que tinha a fazer, morrer hoje ou morrer amanhã, ou daqui a um ano.
Tem um episódio em miúdo em que foi por um triz, o ataque de um leopardo.
Lá em Quelimane ou Inhambane, já não me lembro bem, uma das povoações onde o meu pai foi médico. O leopardo ia-me matando mas tive sorte. Foi na escola, eu tinha uns sete ou oito anos e o leopardo estava lá no quintal com uma corrente mas costumava abrir a porta do sítio onde nós estávamos. Um dia faz isso, rebenta com a corrente, um elo devia estar estragado, e saltou-me para cima.
Foi a vez que teve mais medo de morrer?
Com sete ou oito anos a gente nem pensa, foge. Estava lá a professora que teve coragem suficiente para agarrar o leopardo pela correia e arrastá-lo. Ficou sem um dedo, foi ela que me safou.
E o sentido da vida, já descobriu?
Nem sei. Filosofia não é muito comigo, gosto é de história, da história da ciência, de saber.
É uma pessoa crente?
Já fui mais, tinha dois tios padres. Já há muito tempo que não. Agora vou à missa quando morre um colega meu.
Destes quadros todos que pintou, qual lhe diz mais?
Só vendo. Ali tenho a capela da Senhora da Fonte da minha terra. Ançã tem uma fonte de água que nunca secou, dá origem a uma ribeira que atravessa a quinta onde eu nasci. Ali é a igreja de Ançã onde fui batizado. Casei-me em França: éramos sete, chega para fazer o casamento. Os meus sogros, tios da minha mulher, um colega meu. O meu pai ficou zangado, a minha mãe mandou um telegrama, mas o meu pai não disse nada. “Casar, tu ainda não tens emprego e já vais casar?” Depois tenho quadros que pinto de memória de Paris. Outros são mais devaneios.