23/01/2019
 

O REGRESSO DA ASTROLOGIA

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Está aí o novo tempo da astrologia

Páginas de horóscopos registam crescimento exponencial e fala-se agora de astrocoach. Desde os anos 70 que não havia um interesse tão grande nos avisos dos astros 

TEXTO | CLÁDIA SOBRAL
Até março, pode dormir mais ou menos descansado. Até 5 de março, mais precisamente: é o dia em que Mercúrio volta a estar retrógrado. É provável que não saiba ao certo, ou que não saiba de todo, o que é que isso significa. Mas tão provável quanto ter ouvido essa expressão ultimamente, o que não admira. E não é propriamente por ser um fenómeno que se dá mais ou menos de quatro em quatro meses - a última vez, entre 17 novembro e 6 de dezembro passados. Ouvir “olha que Mercúrio está retrógrado, não é uma boa altura para…” no metro, por exemplo, parece ser sinal do início de um novo tempo em que a astrologia massificada deixou de ser sinónimo de leituras de horóscopos de cinco linhas com conselhos do género “aproveite para cuidar de si”. Deixemos Mercúrio de parte, pelo menos por agora, e tentemos compreender porquê.

Coincidência ou alinhamento dos planetas, na semana passada o site de notícias locais “O Corvo” noticiava uma polémica na Junta de Freguesia do Areeiro, em Lisboa. Eram as críticas da oposição e do grupo cívico Vizinhos do Areeiro ao presidente da junta, pela inclusão de um curso de astrologia na universidade sénior da freguesia. Fernando Braamcamp, do PSD, argumentou que o valor da inscrição suporta os custos da avença paga à astróloga que leciona o curso. E que, além disso, são os próprios alunos que pedem que o curso continue ativo. Vinte e seis, ao todo. 

Foi há quase 20 anos que o hoje em dia astrólogo e coach João Medeiros decidiu trocar o emprego no Instituto Nacional de Estatística na área em que se tinha formado, Economia, pela astrologia. A exercer a atividade de astrólogo desde 2003, tem também já alguns artigos publicados em revistas internacionais de astrologia, e dá cursos com regularidade. Num aspeto, nada mudou: oito em cada dez dos seus alunos continuam a ser mulheres. Mas a astrologia não é hoje olhada com o preconceito com que foi noutros tempos: “Já me aconteceu várias vezes ter pessoas de grandes empresas nos cursos por acharem que a astrologia é muito útil em termos interpessoais e também de gestão de equipas. A sociedade já está mais aberta”, nota. “As pessoas têm muita curiosidade e acho que já começa a haver a noção de que, como há bons médicos e maus médicos, bons políticos e maus políticos, também há bons astrólogos e maus astrólogos e que portanto isto não é assim tão banha da cobra como se diz e até há um fundo de verdade.”

A “verdade”, descobriu-a num estudo de estatística sobre astrologia. “A Cosmopsicologia”, publicado em livro por Michel Gauquelin em 1978. “Os melhores argumentos são os factos e, perante aqueles factos, não havia como argumentar. Para mim, foi claro que estava muito bem feito, que não era uma fraude o que ali estava, que implicava uma correlação significativa entre os planetas à nascença e as profissões das pessoas. Foi aí que a minha crença de que a astrologia não tinha nenhuma base credível foi à vida.”

Isto foi na viragem do milénio, quando a internet existia mas não se tinha materializado ainda no dia a dia. Quando memes a pulular pelas redes sociais não eram ainda nem miragem. E é João Medeiros que nos traz de volta ao tema do Mercúrio retrógrado: “Tive recentemente o caso de um amigo que faz eventos para grandes empresas que num jantar me disse: ‘Não ligo muito à astrologia, mas não faço um evento em Mercúrio retrógrado, nem pensar. Já tive exemplos disso e é a primeira coisa que vejo no calendário.’ E tenho um cunhado super-cético que também me veio falar no Mercúrio retrógrado.” 

O CASO DO MERCÚRIO RETRÓGRADO

De que falamos afinal? É um fenómeno que, pela diferença da velocidade de deslocação dos planetas, faz com que, da Terra, haja a ilusão de que Mercúrio está a movimentar-se para trás. “Disse-me: ‘Devias avisar as empresas de quando é o Mercúrio retrógrado’. Isto porque alguém da sua equipa disse ‘não lances essa campanha agora porque é o início do Mercúrio retrógrado’ e ele disse ‘vou lá esperar, a minha vida não se rege por Mercúrios retrógrados’, e tem muita razão nisso, mas lançou a campanha e percebeu que teve muito mais bloqueios, impedimentos e resistências do que o normal. A partir daí não se esqueceu”, conta João Medeiros.

Aparentemente, a consciência de que Mercúrio esteve retrógrado, andou por toda a parte. Num artigo publicado no início do ano, a revista “Atlantic” procurava explicar: “A astrologia é um meme, e está a florescer e a espalhar-se da mesma forma desenfreada com que os memes se espalham. Nas redes sociais, os astrólogos e as máquinas de memes de astrologia agregam dezenas ou centenas de milhares de seguidores, pessoas que fazem piadas com o Mercúrio retrógrado e categorizam ‘os signos como…’ literalmente tudo: raças de gatos, citações de Oscar Wilde, personagens do ‘Strangers Things’, tipos de batatas fritas.” Etc.

A diretora internacional da J. Walter Thompson, Lucie Greene, especializada no acompanhamento e previsão de novas tendências, traçava há um ano àquela revista um retrato do que estava a mudar: “Desde há dois anos para cá, temos assistido a um ressurgimento de práticas da New Age, muito impulsionadas por um quociente de Millennials e a Geração X [a nascida entre 1961-1981] mais jovem.”

Foi nesse período que ficou conhecido como New Age, um movimento das décadas de 1960 e 70 do século passado, que a astrologia conheceu o seu último grande boom. Viveram-na artistas como o escritor brasileiro Caio Fernando Abreu ou o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, que além disso é escritor, poeta e “psicomago”, como se autodenomina.

Não foi através dele que Carlos Manuel, de 30 anos, chegou à astrologia. Mas Jodorowsky é uma importante peça no puzzle do seu percurso até, depois de várias palestras e pequenos workshops, ter decidido inscrever-se num curso de maior fôlego que, a cada duas semanas, aos domingos, o leva de Lisboa até Leiria. “O primeiro contacto que tive com astrologia foi logo quando nasci: deram-me um peluche que era um carneirinho, o meu signo. E desde que consigo lembrar-me que, na minha família, se falava que eu era, tal como meu avô, um dragão dourado do zodíaco chinês. Isso só acontecia uma vez a cada sessenta anos, exatamente a diferença entre eu e o meu avô. Talvez fosse uma forma de me fazer sentir especial e único.”

Ao longo da vida, Carlos sempre teve a astrologia presente. “Inicialmente pelas revistas, no horóscopo diário, ao qual nunca dei muita atenção, e posteriormente através de amigos e namoradas que estudavam e liam.”
Mobirise
Em janeiro do ano passado, a editora sénior da “Broadly”, uma revista do grupo da “Vice” dedicada a um público jovem feminino e cuja secção de horóscopo reúne uma legião de seguidores entre millennials, dizia que as visitas às páginas de horóscopos tinha “crescido mesmo exponencialmente”. Na “The Cut”, que mantém uma secção semelhante, no início de 2018 o número de visualizações tinha crescido 150% em apenas um ano. 

Foi também há um ano que, no Brasil, surgiu, com o objetivo de mapear a relação desta nova sociedade com com a astrologia, o Peoplestrology. Um projeto que utiliza metodologias digitais de sondagem e análise cultural para tentar compreender o que está a mudar. Qualquer pessoa pode registar-se online e participar no inquérito (Portugal está entre os países em já foram recolhidos dados, apesar de numa pequena percentagem) e, no final, é possível consultar resultados como, por exemplo, como é que cada signo é visto. Periodicamente, o Peoplestrology vai publicando relatórios com resultados. No primeiro e único até agora disponibilizado, surgem dados que mostram que o interesse pela astrologia é de facto crescente. De 39% na Geração X (1961-1981), para 40% entre os Millennials (1981-1995) e 47% entre a geração seguinte, a Z. 

Um “interesse inédito”, analisam, por parte de uma geração “que não viveu a febre esotérica da época hippie e New Age”, aquele período de contracultura das décadas de 1960 e 70, mas que “também não viveu “a época dominada pelo avanço da informática, funcionalismo e conformismo dos anos 80 e 90, em que parece que a astrologia ficou fora de moda”. 

A plataforma conta ainda com um blogue de astrólogos que vão enriquecendo o projeto com mais informação. O objetivo, disseram os fundadores do Peoplestrology ao site brasileiro “The Summer Hunter”, é continuar o caminho que parece ter já sido iniciado de “desmistificar a astrologia”, e ao mesmo tempo utilizar a astrologia para falar sobre temas mais abrangentes. “Percebemos que nunca tinha sido feita uma pesquisa sobre astrologia de um jeito aberto e colaborativo, que usasse o tema como pano de fundo para pensar em coisas que estão acontecendo, como valores da sociedade, tendências comportamentais e sociais. Coisas que a astrologia acaba se tornando uma espécie de desculpa para se falar a respeito.”

MARCAS À BOLEIA DA MODA

Que a astrologia virou moda já se percebeu. Basta ver a forma como está a entrar no mundo da moda, precisamente, Em 2016, a Selfridges lançou em Londres uma campanha inteira dedicada aos signos do zodíaco, cada um representado por uma montra. Marcas como a Vetements lançaram coleções de camisolas com os signos; na Urban Outfitters é possível comprar pendentes com a representação de cada um dos signos.  

No entender de João Medeiros, o que tem contribuído para a popularização da astrologia é a transformação que ela própria tem vindo a atravessar. “Em geral, a linguagem da astrologia está mais apurada, mais aberta, não está tão fechada e determinística.” Ou seja, a astrologia já não é vista como algo que permite olhar para o futuro, mas para o presente - e para o indivíduo. “De uma maneira ou de outra, as pessoas vão dar a esse ouro que é a essência do indivíduo. Essa informação é preciosa. E tudo isso as pessoas procuram. Quem é que não quer, ou que não desejaria, ter uma interpretação sobre a razão da sua existência e uma explicação dos seus dons ou uma indicação dos seus possíveis maiores dons ainda não descobertos.”

Daí que esteja a popularizar-se uma nova prática, a de cruzar astrologia com o coaching, e em que o astrólogo acabou por procurar formação também. “Ultimamente tenho-me colocado mais no perfil de astrocoacher porque tenho percebido cada vez mais que as pessoas querem muito mais resultados: um acompanhamento para ter resultados. É um ramo interessante que tem crescido.” E explica: “Em termos clássicos, o astrólogo faz uma consulta e, mesmo que seja de astrologia psicológica, não é suposto haver uma continuidade do processo. Diz-se ‘você tem potencial aqui, aqui e ali, agora vá à sua vida’. Um astrocoach não faz só isso. Aproveita isso em ação. Nesse sentido, é muito mais ‘esperto’ do que o astrólogo, porque ajuda a criar resultados na vida pessoa. Não sendo tão interventivo, mas sendo um suporte e ajudando a pessoa não na parte técnica da astrologia mas na parte prática de avançar para materializar isso na realidade.”

CITAÇÕES

Mobirise

“A sociedade já está mais aberta. As pessoas têm muita curiosidade e acho que já começa a haver a noção de que, como há bons médicos e maus médicos, bons políticos e maus políticos, também há bons astrólogos e maus astrólogos”

João Medeiros, astrólogo e coacher

Mobirise

“Creio que a astrologia, o tarot, a cabala, a interpretação da Bíblia, a psicanálise, a medicina tradicional chinesa, todos são conhecimentos complementares e que vão na mesma direção: o autoconhecimento e a aprendizagem de como podemos interpretar e lidar com a vida de forma a condizer com o nosso tal ser interior”

Carlos Manuel, curioso por astrologia

Mobirise

“Percebemos que nunca tinha sido feita uma pesquisa [sondagem] sobre astrologia de um jeito aberto e colaborativo, que usasse o tema como pano de fundo para pensar em coisas que estão acontecendo, como valores da sociedade, tendências comportamentais e sociais. Coisas que a astrologia acaba se tornando uma espécie de desculpa para se falar a respeito”

Lucas Liedke, psicanalista e investigador do Peoplestrology

Co-Star. Os algoritmos alinhados para democratizar a astrologia

Mapas astrais e horóscopos ultra personalizados numa app que vai buscar dados à NASA. A ideia partiu de três jovens de Nova Iorque e foi um dos sucessos digitais do ano que passou

TEXTO | CLÁDIA SOBRAL
O tempo da leitura de horóscopos por piada em revistas cor de rosa pode bem ter os dias contados. Num tempo em que confirmar se vai chover, e a que horas, antes de sair de casa se tornou parte da rotina, por que não fazer o mesmo com o alinhamento dos planetas? E se alguém inventasse uma forma de, por um processo de inteligência artificial, relacionar o mapa astral completo de cada pessoa com as informações do posicionamento dos planetas fornecidas pela NASA para um horóscopo diário ultra personalizado?

Foi a ideia que tiveram Banu Guler, Ben Weitzman e Anna Kopp, três amigos que trabalhavam juntos na VFILES, uma loja online de moda, em Nova Iorque. No outono de 2017, lançaram a Co-Star. “A primeira app movida por inteligência artificial que compreende a forma como as pessoas já se ligam e falam sobre astrologia”, dizem, e que parece estar também a democratizá-la.

Depois da Co-Star, que recolheu críticas positivas entre uma série de publicações norte-americanas (do “New York Times” e da “Vanity Fair” à “i-D”, a “Refinery29” ou a “Vice”), o fosso entre as análises demasiado genéricas dos horóscopos de revista — aquilo que habitualmente se diz ser o signo de alguém corresponde apenas ao posicionamento do Sol no seu mapa astral, que compreende todo um sistema de planetas e asteroides até — e o tempo e a despesa que implicam uma consulta com um astrólogo parece estar a ser preenchido.
A prova é que, pouco mais de um ano depois de ter sido lançada, a Co-Star era por estes dias a décima terceira aplicação no ranking de Lifestyle da App Store, com 17,7 mil reviews e uma classificação de 4,9 em 5. Para “breve” anunciam já o lançamento da versão Android. Até lá, no site da Co-Star está disponível a opção de gerar, a partir da data e hora de nascimento, o seu mapa astral, com o envio de relatórios diários via email a partir dessa informação.

Não lhes faltam argumentos. Hoje em dia “toda a gente consulta os seus horóscopos na Broadly [um dos sites da revista ‘Vice’, que através dos seus horóscopos tem contribuído para a popularização da astrologia entre as gerações mais jovens] e da Susan Miller [autora do Astrology Zone], faz os seus mapas astrais naqueles sites ultrapassados dos anos 90, e sabe se Mercúrio está retrógrado. Mas não havia realmente uma aplicação que abordasse a astrologia da forma que sabemos que ela está a ser falada”, explicou Banu Guler à “Vice” sobre a necessidade e janela de oportunidade que identificou com os colegas da Co-Star.

Para lá da análise diária sobre que influência o posicionamento dos astros poderá ter no mapa astral de cada um a cada dia, a Co-Star permite encontrar amigos que utilizem a aplicação e, a partir daí, testar compatibilidades. Não genericamente, mas nas áreas regidas por cada um dos planetas. Como resumiu o “Girlboss”, fundado por Sophia Amoruso, a it girl que fez nascer a Nasty Gal: “Os planetas alinharam-se para pôr na moda os horóscopos.”

Como ler um mapa astral?

Mapas astrais e horóscopos ultra personalizados numa app que vai buscar dados à NASA. A ideia partiu de três jovens de Nova Iorque e foi um dos sucessos digitais do ano que passou

  1. O QUE É UM MAPA ASTRAL? - “De que signo és?” A resposta que se dá a esta pergunta não é tudo. Na verdade, é quase nada quando se fala de astrologia. Aquilo que nos habituámos a designar como o “signo” de uma pessoa corresponde apenas ao posicionamento do Sol no momento do seu nascimento. É preciso ter em conta ainda o Ascendente, a Lua e todo o conjunto dos planetas que compõem o sistema solar. E não só: há ainda os asteroides, por exemplo. É a combinação do posicionamento de todos eles no momento e na latitude do nascimento de uma pessoa que dará aquilo a que se chama o seu mapa astral. Olhando apenas para a combinação de Sol, Lua e Ascendente, são 1720 as combinações possíveis. Juntando a isto os outros planetas, diz quem já fez as contas que a probabilidade de um mapa astral coincidir com outro é de um em mais de 77 mil milhões.  
     
  2. O QUE DIZ CADA PLANETA? - Se o Sol, a que corresponde àquilo a que habitualmente se diz ser o “signo” de alguém, está relacionado com o ego, a identidade, a Lua diz respeito ao lado emocional e ao subconsciente de cada um. Do Ascendente, diz-se corresponder a uma primeira capa no contacto mais imediato com os outros. De Mercúrio, diz-se que rege a forma como se comunica e processa a informação; de Vénus, como (e quem) se ama; de Marte, que corresponde ao instinto mais animal. O posicionamento dos planetas mais distantes leva anos a mudar, daí que se diga de planetas como Plutão que são “geracionais” 

  3. O QUE SÃO AS CASAS? - O signo correspondente a cada planeta, de Mercúrio a Plutão, continua a não dizer tudo num mapa astral. Em cada mapa astral, o “céu” é dividido em 12 secções, cada uma associada a uma área diferente da vida. A primeira, por exemplo, está associada à autoimagem; a quarta, à vida doméstica; a sexta, à produtividade; a oitava, aos finais e recomeços, a décima segunda ao inconsciente. Cada uma delas, está associada a um dos 12 signos do zodíaco. Assim, um Vénus em Touro posicionado na primeira casa ou segmento, por exemplo, será diferente de um Vénus também em Touro posicionado na décima segunda.

  4. E NÃO É TUDO - Diz quem se dedica ao estudo da astrologia que a sua compreensão - e a interpretação de mapas astrais - é um poço de conhecimento sem fundo. Além do posicionamento dos signos nos planetas e nas casas, que dão o desenho de um mapa, há que apreender conceitos como “conjunção”, “oposição” e outros que designam as relações angulares que se formam entre dois pontos num mapa. Por exemplo o Sol em oposição à Lua (separados por um ângulo de 180 graus) é interpretado como potencializador de alguma tensão interior. 

Quando a data de nascimento influencia a personalidade...e não é astrologia

Diferentes estudos têm associado a estação do ano em que se nasce a diferentes traços de personalidade e até doenças. “Não é astrologia, é biologia sazonal”

TEXTO | MARTA F. REIS

“Choque do horóscopo! O seu signo dita REALMENTE como a sua vida se desenrola, diz cientista”. A notícia publicada no passado mês de setembro pelo tabloide inglês “Express” não poupa no entusiasmo, afinal trata-se de dar a conhecer um cientista que garante que os horóscopos são “REAIS”. As maiúsculas bastariam para desconfiar, mas as ‘fake news’ estão nos detalhes: o artigo publicado há três meses tem por base um texto divulgado em 2011 no site “Psycology Today”, com o título “Ciência confirma a astrologia”. Basta abrir a publicação para ver que a mensagem não era bem essa.

O cientista é Ben Hayden, investigador do departamento de neurociências da Universidade do Minnesota, e a ideia era chamar a atenção para o facto de, apesar de a astrologia não ter qualquer validade científica, não ser correta a ideia de que a data de nascimento não tem nada a ver com a personalidade. É preciso ver para lá do ceticismo e em causa está um conjunto de estudos que têm mostrado uma associação entre o mês de nascimento e características psicológicas.

Se as razões ainda não são totalmente conhecidas, o alinhamento dos planetas não tem sido uma das variáveis estudadas pelos investigadores, que apontam mais para fatores biológicos associados às condições ambientais durante a gestação e na primeira infância.

Matéria não falta. Um estudo publicado em 2004 por investigadores da Universidade de Tóquio analisou os efeitos da época de nascimento na personalidade de 397 indivíduos adultos e concluiu que pessoas nascidas nos meses de inverno, entre dezembro e janeiro, tinham menores níveis de agradabilidade – em psicologia, a tendência para ser mais compassivo e cooperante em relação aos outros. Já uma investigação publicada em 2009 por uma equipa da Universidade de Yamagata, também no Japão, analisou a personalidade de 595 indivíduos saudáveis e concluiu que nascer em meses com maior temperatura ambiente está ligado a maiores índices de persistência e autoaprendizagem entre as mulheres, mas também a menores índices de massa corporal, fatores que poderão estar relacionados, admitem os investigadores.

Os japoneses têm sido persistentes no estudo deste capítulo da psicologia. Em 2016, uma terceira equipa liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade Hamamatsu investigou esta associação em 885 crianças de 18 meses e concluiu que as que nasciam na primavera e no verão tinham maiores níveis daquilo a que chamam controlo coativo – a capacidade para determinar o curso das ações durante um conflito. Também os níveis de agressividade (a expressão de raiva para com terceiros) pareciam ser menores nas crianças nascidas na primavera.

A ideia das equipas é que o ambiente externo no período de gestação e primeira infância deixa uma marca no desenvolvimento cerebral, uma ideia hoje já consolidada noutras áreas como a relação entre má nutrição ou a exposição a vírus ainda na gravidez com diferenças ao nível do metabolismo e desenvolvimento.

No campo clínico também têm sido apresentadas diferentes associações e os meses de inverno parecem ser desvantajosos. Por exemplo o risco de ter sintomas de depressão sazonal, a desordem afetiva sazonal, parece ser maior nas pessoas que nascem nos meses frios do ano, o que poderá ter a ver com a manifestação de estados melancólicos na mãe. Também já foi identificado um maior risco de doenças como esquizofrenia e doença bipolar nos indivíduos que nascem no inverno.

“NÃO É ASTROLOGIA, É BIOLOGIA SAZONAL”

Se as explicações exatas têm faltado, uma equipa da Universidade Vanderbilt (EUA) anunciou em 2010 ter descoberto a primeira evidência de uma “impressão sazonal” a nível biológico num estudo feito com ratinhos. “Os nossos relógios biológicos medem a duração do dia e alteram o nosso comportamento consoante as estacões. Estávamos curiosos por perceber se os sinais de luz poderiam moldar o desenvolvimento deste relógio biológico”, explicou na altura Douglas McMahon, responsável pela investigação.

Nas experiências que conduziram, os ratinhos foram criados desde o nascimento até ao desmame em ciclos artificiais de inverno e de verão e depois passaram mais 28 dias no ciclo inicial ou no oposto. Seguiu-se um período na escuridão em que os investigadores analisavam o seu comportamento.

A conclusão surpreendeu: os ratinhos nascidos no inverno tinham uma menor atividade diária e, analisando o cérebro dos roedores, os investigadores descobriram que apresentavam uma desaceleração dos seus relógios biológicos, que os torna mais vulneráveis a alterações de estação. “Os ratinhos criados no ciclo de inverno têm uma resposta exagerada a mudanças de estação que são semelhantes às dos humanos que sofrem de desordem afetiva sazonal”, concluía McMahon, deixando outras portas em aberto. “Sabemos que o relógio biológico regula o humor em humanos. Se houver um mecanismo semelhante ao dos ratinhos, não terá apenas um efeito em distúrbios comportamentais mas pode também ter um efeito mais geral na personalidade”, prosseguia o investigador. “É importante enfatizar que apesar de isto soar um pouco a astrologia, não é: é biologia sazonal”, resumia McMahon.

Quem também tem defendido que é preciso vencer o preconceito da astrologia e pôr a ciência a estudar o fenómeno é Mark Hamilton, da Universidade do Connecticut, que acredita que, em vez de astrologia, falaremos cada vez mais de cronobiologia, a ciência que estuda os ritmos biológicos. Em 2015 publicou um estudo na revista científica “Comprehensive Psychology” que sugere um efeito sazonal na tendência para ter sucesso, com base no historial de 300 celebridades – estão agora a estudar a ligação numa amostra de 85 mil figuras de diferentes eras. Há mais figuras públicas nascidas entre dezembro e março, com um pico de “famosos” entre os nativos de aquário e peixes, recorrendo ao zodíaco, o que pode estar ligado a serem personalidades mais criativas.

“As previsões astrológicas ao nível do indivíduo são pouco confiáveis, as pessoas não devem investir muito em horóscopos diários. Mas as previsões que ligam signos a personalidades podem sugerir padrões que vale a pena serem explorados”, disse na altura o investigador. “A astrologia tem uma reputação contaminada nos círculos científicos. Os cientistas são rápidos em rejeitar todas as alegações astrológicas. Se refletirmos sobre a história mais longa da astrologia, que abrange milhares de anos, milhões de pessoas e muitas das culturas do mundo, pode haver núcleos de verdade enterrados no meio das afirmações tontas”.

DIZ-ME QUANDO NASCENTE

VERÃO


Segundo os investigadores da Universidade Semmelweis (Hungria), as pessoas que nascem no verão tendem a apresentar mais vezes um temperamento “ciclotímico”, caracterizado por alterações rápidas e frequentes de humor entre estados tristes e alegres. A equipa de Xenia Gonda lembrou, em 2014, que vários estudos já ligaram a estação em que se nasce à programação de neurotransmissores no cérebro como a dopamina ou a serotonina.

PRIMAVERA


O mesmo trabalho, divulgado no Congresso do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia, concluiu que as pessoas nascidas na primavera e no verão têm maior tendência para temperamentos “hipertímicos”: ser excessivamente positivo. As conclusões são um pouco contraditórias, já que alguns estudos sugerem que existe uma maior tendência para quadros de depressão entre os nascidos na primavera, com um pico de incidência entre quem nasce em maio.

INVERNO


Se nascer no inverno já foi associado a um maior risco de doença mental (alguns estudos apontam para um pico de esquizofrenia e doença mental entre nascidos em janeiro), o trabalho de Gonda oferece um dado mais positivo: nascer nos meses frios foi associado a uma menor tendência para um temperamento irritável.



OUTONO


A mesma equipa concluiu que os nascidos no outono têm menos tendência a temperamentos depressivos. 







Quatro em cada dez acham que astrologia é "científica"

Em 2005, ano do último inquérito na UE, a crença era grande  

Não faltam páginas de horóscopos e programas de tarot, mas até que ponto é que as pessoas acreditam que a astrologia é fiável? Um dos últimos dados europeus tem já mais de uma década. Um Eurobarómetro de 2005 concluiu que 41% dos inquiridos atribuíam validade científica à astrologia – em Portugal, onde foram inquiridas 489 pessoas, 45% tinham esta opinião.

A nível europeu, as respostas apontavam para uma hierarquia com algumas surpresas. Medicina, física e biologia eram os campos a que os inquiridos reconheciam mais validade científica, seguindo-se matemática e psicologia. Mas a astrologia surgia à frente da economia e da história e, por último, da homeopatia. Questionados sobre horóscopos, o ceticismo dos europeus aumentava, com apenas 13% dos inquiridos a admitir que existisse ciência por detrás das previsões dos signos. Em Portugal, a percentagem era ligeiramente maior, com 23% dos inquiridos a reconhecer validade científica aos horóscopos.
Crenças à parte, a resposta da ciência tem sido perentória. Nas palavras da NASA: “A astrologia é outra coisa qualquer, não é ciência”, lê-se no site da agência espacial dos EUA. “Ninguém demonstrou que a astrologia possa ser usada para prever o futuro ou descrever como é que as pessoas são com base na sua data de nascimento”.

Uma das principais referências são as experiências de Shawn Carlson, publicadas na “Nature”, em 1985. Concluiu que as previsões dos astrólogos não eram mais certeiras do que a sorte. Mais recentemente, David Voas, da Universidade de Manchester, analisou 20 milhões de casais e não conseguiu provar que haja signos mais compatíveis do que outros. “Se houvesse a menor tendência para Virgens sentirem-se atraídos por Capricórnios e Balanças por Leões, devíamos poder ver isso nas estatísticas de matrimónio”, disse Voas. 

Maria Helena.
"Somos todos energia"

É uma das tarólogas mais conhecidas do país, fruto também da presença contínua frente às câmaras. Mantém um programa diário na “SIC Internacional” - “Ponto de Equilíbrio” - dá consultas no centro Maria Helena, em Lisboa, e lançou recentemente o livro “Mudar Melhorar Curar” (ed. Guerra e Paz), onde ensina orações e sugere mezinhas para cada dia do ano.

Maria Helena Martins levou o tarot às manhãs da SIC e lançou recentemente (mais) um livro com orações, mezinhas e conselhos para o dia-a-dia

Fotografia | Mafalda Gomes

Como veio parar ao mundo da Astrologia, como foi este caminho?

Nesse aspeto sou um bocadinho fora do vulgar porque a maioria dos tarólogos e astrólogos batem com a cabeça e veem a luz, muitas vezes porque acontece alguma coisa na vida deles. Eu não bati com a cabeça em lado nenhum. Comecei de miudinha, logo a ensinarem-me a ler cartas, a rezar à lua. Ensinaram-me, pronto.

Mas quem é que a ensinava?

A minha mãe, as vizinhas. Naquela altura, portanto há uns anos grandes, isto era mais normal do que agora. As tias ou as avós sabiam benzer o mau olhado. E portanto, para mim, foi uma coisa absolutamente normal. Ensinavam-me o tarot, a ler as cartas, e ao mesmo tempo ia à igreja rezar o terço todos os dias.

E onde se passou isto que descreve?

Em Moscavide, sou de lá. Também ia às freiras nos Olivais, que ainda hoje continuam lá. Não houve nada de muito especial, foi tudo normal. Depois fui estudando.

Lembra-se da primeira vez que lançou as cartas?

Era miudinha. 

Com seis, sete anos?

Era pequenita.

E lançava para si própria ou para outras pessoas?

Começava a ver o significado das cartas. Agora que me lembre, assim de lançar as cartas já foi mais grandinha. Aprendi um respeito muito grande pelas cartas logo de pequenina. Olhava para isto mas com respeito, quem me ensinava transmitia-me esse respeito.

E transmitiram-lhe a ideia de que o que dissesse às outras pessoas podia influenciar a vida delas para um lado ou para o outro?

Obviamente. Percebi logo, porque aquilo que a gente diz às outras pessoas tem muita influência. E se for em períodos em que as pessoas estão mais frágeis então é que influencia mesmo. Portanto não gosto nada de ouvir - “ah fui à taróloga e disseram-me isto ou aquilo de negativo”. Quer dizer, quando há alguma coisa negativa, acho que é a nossa obrigação dizer “é negativo, mas tem que superar”. Há que dar força à pessoa para superar os momentos mais difíceis, está a compreender?

Estava entretanto a contar que depois estudou essas matérias.

Mais tarde, sim. Toda a vida estudei. Estudei as religiões todas. Tudo o que é esoterismo me interessa, reiki, tudo o que sejam energias, cristais. Tudo o que está relacionado com a natureza interessa-me, percebe? As rezas à lua... Porque é que as pessoas rezam à lua? Antigamente rezava-se muito à lua. Era natural as pessoas terem mezinhas, terem até rezas para quando estavam doentes, havia rezas para cada doença. E é o que faço agora. Ao fim ao cabo, o que ensino hoje às pessoas é o que me ensinaram a mim, só que com uma roupagem nova. Uso outra linguagem mas é a mesma coisa.

Como fazia para estudar nessa altura, encomendava livros?

Houve uma altura quando era novita que nem sabia bem onde procurar. E as pessoas ensinavam-me: mostravam-me um livrinho, de acordo com a minha capacidade, logicamente. Depois, à medida que fui crescendo, é que comecei a ir às bibliotecas. Uma das primeiras coisas que me lembro assim que me marcou e que estudei foi Allan Kardec, que tem a ver com espiritismo. Estudei, não me identifiquei mas respeito, está a ver?

Mas quis conhecer na mesma.

Quis porque gosto de conhecer um bocadinho de tudo. Então gosto de conhecer as filosofias que estão por trás de cada uma das religiões. É da minha natureza saber e aprender a respeitar, até porque as pessoas acreditam naquilo. Não é pelo facto de aceitar ou não aquelas ideias que são verdade ou mentira, não tem nada a ver com isso. Portanto aceito ou não aceito, mas tenho um enorme respeito por todo o tipo de religião. Até porque chego à conclusão de que todas querem o bem das pessoas, é intrínseco nas religiões. Especialmente, quando começam a história, é sempre para bem e querem que as pessoas tenham uma vida boa.

Fotografia | Mafalda Gomes

Houve algum mentor no seu caminho?

Houve um astrólogo que é o professor Luís, um homem de que gostava muito. Era o meu astrólogo, que fazia sempre a minha carta astral todos os anos e que teve muita influência porque é uma pessoa muito ligada ao yoga e à espiritualidade, e a esposa dele também. Foi um casal que teve muita influência na minha tomada de consciência para me profissionalizar.

Em que ano?

Comecei a dar cartas assim mesmo como ocupação já depois de os meus filhos irem para a universidade. Foi aí que me pude dedicar inteiramente a esta profissão, porque sou socióloga.

Antes de se dedicar unicamente a isto foi socióloga?

Não, não. Na verdade tinha outras ocupações. Licenciei-me em Sociologia e comecei a estudar com 45 anos. Portanto a minha história de vida também mostra que as pessoas podem começar quando quiserem. Até aos 45 anos tinha a quarta classe, porque achava que não conseguia estudar.

Por que achava isso?

Porque antigamente estudavam só os ricos ou quem tinha poder económico e não era o caso da minha família. Portanto achava que não era capaz. Agora fez-me uma pergunta muito bonita, porque é que achava isso... Eu achava isto se calhar pelo mesmo motivo que acha que não pode vir a ser multimilionária. São ideias, percebe?

O que a fez superar essa ideia e ter coragem então de ir estudar com 45 anos, qual foi o gatilho?

O gatilho não sei, mas numa determinada altura sei que me pus de volta de mais livros. Estudei sempre Astrologia, como já tinha dito, só que achava que um curso superior era demais para mim. Mas depois pus-me a pensar: mas se eu estudo tanto Astrologia e tarot, e isto e aquilo, se sou tão interessada, porque é que não posso aplicar a mesma energia no estudo? E foi assim. Afinal foi um exemplo que já tinha na minha própria vida que fui buscar para me dar força. 

Porquê Sociologia?

Porque era o que gostava, era um curso que tinha a ver comigo. Tem a ver com as pessoas, comportamentos sociais e eu morava no Algarve nessa altura e era o que estava ali mais à mão.

Isto foi mais ou menos em que ano? 

Epá, sei lá. Então tinha 45 anos, agora tinha que saber que idade é que tenho (risos). 

Depois chegou a fazer uma pós graduação, não só ultrapassou essa tal ideia como foi mais longe.

Depois fiz tudo! Quando comecei a estudar não parei mais . Fiz a pós-graduação em Estudos Lusófonos, depois, também no ISPA, outros cursos. No ISPA, sendo licenciados, podemos ir para lá tirar assim uns cursos de três, quatro meses, aquilo é fantástico, é muito giro. A gente tira uma porção de cursos e fica assim com umas luzinhas sobre as coisas e eu pronto, faço isso.

Como é o seu dia-a-dia? Vem todos os dias gravar?

Pois, tenho o “Ponto de Equilíbrio” na “Sic Internacional” que dá para 15 países e portanto faço todos os dias.

E como se prepara antes de começar a gravar?

Estudo tudo. Estudo duas horas por dia. Todos os dias estudo duas horas, ponto. 

Mas estuda de manhã ou à tarde?

À tarde, duas horinhas.

E continua a dar consultas ou já não dá?

Dou, dou, isso não posso deixar de dar. Dou no Centro Maria Helena, que é no Saldanha, Avenida Praia da Vitória número 57. E pronto, dou lá as consultinhas e organizo tudo. Tenho dias para as consultas. Quem disser que a gente não pode fazer tudo mente. Não podemos é fazer tudo ao mesmo tempo. Quando estou aqui, estou aqui. Acabei aqui, pronto, acabou-se, nem me lembro mais. É assim que faço tudo. Quando estou, estou.

O MEU CONSELHOPARA QUALQUER ANO, SINCERAMENTE, É A PESSOA PENSAR O QUE QUER DA VIDA

No geral, qual é a formação das pessoas que a procuram?

É muito transversal. Recebo desde a senhora da limpeza até ao presidente do banco. Políticos, cantores…

E foi sempre assim?

Comigo foi. Pessoas de todos os lados. Nunca tive assim [um padrão]… São pessoas! Eu atendo pessoas, não é? Depois de dar a consulta é que fico a perceber quem é que são, por causa do discurso. Só no final é que digo:”Ah, então este é aquele!”. Outras vezes eles dizem-me.

Recebe mais mulheres ou mais homens?

Mais senhoras.

Por que acha que há mais mulheres a procurá-la?

Porque as senhoras vão no lugar dos homens, dos filhos e não sei quê. Vão as mães, as mulheres. Vão perguntar para os outros. 

Já lhe aconteceu alguma vez perceber que a pessoa precisava de ir a um médico?

Já, muitas vezes mesmo. Pelo menos mando ir ao médico, posso não indicar a especialidade, porque isso compete ao médico aconselhar. Mas mandar ir ao médico muitas vezes, e aos psiquiatras mando muito. Mas isso eu vejo logo de caras. Qualquer uma de nós com um bocadinho de sensibilidade vê. Não é o que a gente faz umas às outras quando a gente gosta? 

Como surgiu a televisão na sua vida?

Foi tudo muito fácil. Bem, não direi foi fácil, mas foi tudo muito de repente. Comecei a escrever para aí por volta dos 50 e poucos anos e comecei a escrever para as maiores editoras, naquele caso para a Impala. Escrevia para a “Maria”, para essas revistas assim que se vendiam mais, e comecei logo a ter muito sucesso na escrita, a verdade é isso. Depois também mandei o meu currículo para a produtora da Teresa Guilherme, ela mandou-me chamar e sou entrevistada pelo Manuel Luís Goucha. Ele gostou de mim e do meu trabalho e então comecei com ele. Depois não saí mais. Fui para a Praça da Alegria, já passei por todas as televisões e agora estou na “SIC”. Aqui é que estou há mais tempo, já sete anos. 

Quando começou a fazer televisão, qual sentiu que era a principal diferença entre dar uma consulta na televisão e frente a frente com uma pessoa, qual foi o grande desafio para si?

O grande desafio foi interiorizar que é uma pessoa e que estou a falar só para aquela pessoa, não importa se tenho câmaras ou não. É isso que faço até hoje. 

E é fácil fazer isso ouvindo a voz só da pessoa?

Claro. Para o universo não há cá… Somos todos energia, filha. Isto é tudo energia. O que a gente vê… isto é tudo mais do que a gente vê. Então se os telemóveis comunicam de um lado para o outro, imagina nós. Achas que um telemóvel, isto que está aqui, é superior a um ser humano? A gente comunica muito pela voz, até pela presença.

Alguma vez se arrependeu de algum conselho que tenha dado na televisão? Houve uma polémica quando disse a uma senhora que, para não ser traída, tinha que se arranjar bem. 

O que acontece é o seguinte: aquilo que as pessoas dizem a meu respeito, eu não tenho nada a ver com isso. Somos responsáveis unicamente por isto que lhe vou dizer: por aquilo que dizemos, por aquilo que fazemos e por aquilo que pensamos. Não temos comando sobre mais nada. Sobre aquilo que o outro vai dizer sobre nós, não temos comando nenhum. Portanto aquilo que as pessoas pensam ou digam, para mim, não é muito… Respeito, claro que sim, mas não é muito significativo. Então se uma pessoa diz que sou santa nesse dia, sou santa, outro se disser noutro dia que sou bruxa, sou bruxa? Não. Sou como a água. Podes olhar para um copo de água e dizer é gin, é aguardente, e a água está-se pouco lixando para a tua opinião. A água é água. E portanto eu sou mais ou menos assim. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre mim porque não é sobre mim que elas estão a falar, as pessoas estão a dizer como elas me veem, que é um assunto totalmente diferente. E há muito mal-entendido na vida por causa disso, porque as pessoas não sabem distinguir isto que é básico. 

E nunca ficou preocupada ou magoada com os comentários ou não vai procurar o que as pessoas dizem de si?

Eu não, às vezes acho é piada. Não ligo.

Foi sempre assim ou foi criando uma carapaça?

Para já não leio revistas, é raro ver. Vou uma vez por mês ao cabeleireiro e é lá que vejo uma revista ou assim. Mas as pessoas contam-me quando é assim engraçado. Há uma tal de “Maria das Cartas”, também na internet, que fizeram sobre mim. Quando lá vou mato-me a rir. Eu mato-me a rir! Sou fã da Maria das Cartas.

É uma rábula?

É uma coisa que fizeram na internet, já há muitos anos, mas estão atualizados, a malta trabalha! A malta trabalha, vê os meus programas, tudo direitinho para pôr ali.

Já aconteceu uma pessoa a quem tenha dado uma consulta na televisão depois procurá-la fisicamente no seu espaço?

Muitas vezes. Isso acontece muito, normalmente dou as consultas, as pessoas gostam e dizem-me que já tinham tido na televisão. É muito vulgar. Ou levarem filhos, maridos, amigas, isso faz parte do dia-a-dia para mim.

O que é que as pessoas podem encontrar neste livro que seja diferente dos outros que já publicou?

Este livro foi feito muito a pensar nas pessoas que querem mudar a sua vida. Estou sempre a dizer às pessoas: “Quer que a vida mude? Mude você”. Acho uma coisa… Santa Margarida! Então já viu se a vida andasse a mudar ao gosto de cada um? Nós é que temos de mudar de acordo com a vida, não é a vida mudar para nós. E então é fundamental as pessoas fazerem as mudanças que elas acharem que são capazes e precisas na vida delas, e este livro é para ajudar essa mudança. Fiz um livro diferente dos outros, que normalmente têm várias temáticas divididas por sete capítulos. Este fiz com 365 conselhos e é uma espécie de uma agenda onde as pessoas podem dizer “ah, este mês proponho-me a alcançar isto, por isso o que tenho que mudar é...”. É um passo a passo para ajudar as pessoas.

Porquê o tarot e não outro meio dentro do esoterismo? O que a fascinou nas cartas?

É uma boa pergunta mas também não sei responder. Só sei que, quando vi o baralho, achei que era meu. O baralho que tenho, depois cada um interpreta como quiser, eu achei que era meu. É um sentimento, é como tu chegares a um lugar e achares que já lá tinhas estado. Pronto, foi o que aconteceu com este baralho, que é o Visconti-Sforza, que é o baralho mais antigo, mais estudado e mais bonito do mundo e que está guardado em três museus. Mas eu não sabia disso quando o descobri. 

Quando se deparou com ele?

Já foi há muitos anos. Primeiro comecei com o de Marselha, que é o que toda a gente usa e que era considerado o mais conhecido, o mais vulgar. E depois deparei-me com este. Não me lembro sinceramente como veio parar à minha mão, já foi há tantos anos. Sei que, quando olhei para ele, achei que era aquele. Deixei o outro e fiquei sempre com este.

Tem algum baralho especial?

Tenho um que anda sempre comigo, mas tenho mais do que um igual. Tenho aquele que anda sempre comigo, que trouxe aqui para as cartinhas, mas depois tenho mais. Tenho um no centro, outro que está guardado mas mais se fizer falta. Já está é muito velhinho, o meu, na televisão vê-se que está muito gasto.

E não se lembra onde o comprou?

Não me lembro, aquilo veio parar à minha mão. Lembro-me foi de o escolher entre os muitos baralhos que tinha. Faço coleção já há muitos anos de baralhos.

Tem quantos?

Não sei, não os contei, mas são mais de cem, à vontade. De todo o lado onde vou trago baralhos, se calhar já tenho a maior coleção de todas. Já trouxe dos EUA, da Holanda, do Brasil. De França trouxe o tarot de Marselha, o mais antigo de que consegui uma cópia. Vou procurar estas preciosidades. 

Quando pegamos num guia para 2019 e, dependendo dos guias, encontramos mensagens díspares para os mesmos signos. Porque é que isto acontece, qual é a explicação?

Então é assim: se for sobre Astrologia, desde que seja um bom astrólogo, todos dizem o mesmo. Podem é dizer com palavras diferentes, ok? Porque os planetas são aqueles, e não há muito para dizer. Sobre a Astrologia é aquilo, são 12 signos, e os planetas e essa coisa toda e é aquilo que a gente tem. Agora se for sobre outros métodos, já tem mais a ver com a sensibilidade da pessoa, se bem que eu, no meu caso, associo a Astrologia ao tarot. Porque cada carta do tarot, principalmente cada carta de cada signo, está ligada a um planeta e então, como estudo muito, tenho esta facilidade de juntar tudo. Portanto os meus signos muitas vezes não são assim muito díspares. Agora realmente que há [diferenças], há, mas é de acordo com a interpretação de cada um.

Já tem a agenda cheia para 2019? As pessoas têm de esperar muito?

Não têm que esperar muito porque não faço agendas com muita antecedência. Se fizesse com muita antecedência tinha uma agenda já cheia até morrer.

Está a falar a sério?

Sim. Tenho 400 mil seguidores, faz ideia do que isso dá em clientes? Dá um catilhão e eu não posso fazer agendas assim. Por isso as pessoas vão ligando e, à medida que vão ligando, vou fazendo. Hoje deu para atender, atendo. É de uma semana para a outra, não faço mais do que isso. Só se por acaso for viajar ou fazer alguma coisa. Normalmente é dentro de uma semana, duas, três, é dentro disto.

Qual é o seu conselho, de uma forma muito generalista, para 2019?

Acho que o conselho para qualquer pessoa, para qualquer ano, é, sinceramente, a pessoa pensar no que quer da vida. A maioria das pessoas nem pensa nisso, no que quer da vida realmente. E depois ir atrás, todos os dias, e vai conseguir aquilo que quer, seja o que for. 

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