23/09/2018
 

O QUE ACONTECE ÀS EMBALAGENS QUE RECICLAMOS?

Numa altura em que o plástico é visto como o “inimigo número 1” do ambiente, o i foi tentar perceber como funciona a reciclagem deste material e em que objetos pode ser transformado

Reportagem de Filipa Traqueia

A história de um pacote de leite que queria ser uma mesa de piquenique



Quando pensamos em reciclagem, a primeira imagem que nos vem à cabeça é transformar as embalagens em... novas embalagens. No entanto, o processo vai mais longe e hoje é possível criar mobiliário de exterior com plástico reciclado. Um exemplo disso, fruto de uma parceria com a Sociedade Ponto Verde, é o parque de merendas do Jardim Zoológico

Não passava de um simples pacote de leite quando chegou à empresa de reciclagem. Pouco se esperava dele – o mais provável era que voltasse a ser uma embalagem como tantas outras, guardada no fundo de uma prateleira de supermercado. Mas a ambição leva o homem a ir mais além e o pacote de leite a chegar mais longe também: o seu destino já não tem de ser uma palete. Agora, também pode ambicionar ser, por exemplo, uma mesa de piquenique.

E isso é já uma realidade: sentemo-nos, então, na mesa que outrora foi um pacote de leite – ou, na verdade, 16 toneladas de pacotes –, no meio do Bosque Encantado, uma zona do Jardim Zoológico de Lisboa, para percebermos como tudo isto acontece.


O PROCESSO

O plástico chega à empresa de reciclagem Extruplás em “fardos” – nome dado às embalagens prensadas – e, no meio de toneladas, ainda é possível distinguir algumas embalagens de produtos alimentares: um boião de maionese ou o nosso pacote de leite, por exemplo. Ao entrarem para a linha de reciclagem, os objetos são selecionados num processo de triagem que tem como principal objetivo encontrar possíveis intrusos – os “contaminantes”. “No material que recebemos, apesar de já estar triado, por vezes ainda pode haver alguns contaminantes, nomeadamente madeira e papel”, disse Sandra Castro, diretora-geral da Extruplás, ao i. Em média, entre 3 e 4% do material que chega à recicladora é “contaminante”. 

Depois deste processo de separação, o plástico é triturado para entrar nas máquinas de extrusão, onde “é derretido e injetado para dentro de um molde que tem a forma da peça” a ser produzida. Pelo armazém onde decorre o processo veem-se os vários barrotes e perfis já feitos à espera da transformação final – fase em que o plástico irá assumir a forma de um novo objeto. 

Entretanto, um estrondo chama a atenção: a máquina acabou de produzir um novo perfil e um funcionário dirige-se ao aparelho para o retirar e colocar junto dos outros. Depois de o material pastoso ser injetado no molde que está inserido numa rotativa, a máquina gira de forma que o produto possa ficar debaixo de água, onde é arrefecido até solidificar. Por último, com um jato de ar, o material é libertado do molde e está pronto para ser transformado.

Do outro lado da sala, as serras elétricas e as perfuradoras vão marcando o passo. É a vez de cortar e montar o material à medida. Enquanto um trabalhador monta um banco de jardim preto, outro mede e corta o barrote de plástico.

“A gama de produtos pode ser muito ampla, tem a ver um pouco com aquilo que o cliente pretende”, esclarece a diretora-geral. Entre os produtos que têm para venda estão mesas, carteiras escolares, cadeiras de praia, chapéus de sol, decks e passadiços. “O nosso cliente maioritário acaba por ser o cliente público: câmaras municipais, juntas de freguesia”, acrescenta, lembrando que, no entanto, “a procura por parte do cliente particular também tem aumentado.” 

Este material à base de plástico é muito mais resistente ao sol e à chuva do que os objetos tradicionais de madeira. “A Extruplás existe há 18 anos e tem obras feitas desde essa altura. O material está tal e qual como estava na fase inicial”, garante Sandra Castro.

RECICLADO, EMBALADO E PRONTO A IR PARA O NOVO LUGAR

Foi este o processo que deu origem às mesas e às casinhas de brincar do Jardim Zoológico de Lisboa. A zona do Bosque Encantado, onde diariamente decorre a apresentação das aves e dos répteis, é apadrinhada pela Sociedade Ponto Verde (SPV) que, com a colaboração da Extruplás, remodelou a zona de piqueniques que lá existia. “É um espaço muito importante porque, no fundo, estamos a dar o exemplo e a mostrar às pessoas que quando fazemos a separação dos resíduos, estes podem transformar-se noutros materiais”, explicou ao i Tiago Carrilho, biólogo marinho e responsável pelo Centro Pedagógico do Jardim Zoológico. 


Estes objetos, de cor castanha, têm mesmo o feitio dos barrotes de madeira e, por vezes, deixam os visitantes do zoo incrédulos. “Temos de explicar que aquilo que estão a ver já foi, na verdade, um objeto de plástico, o que os deixa surpreendidos”, acrescenta.

Uma placa ajuda a entender o que realmente está no jardim: “O Bosque Encantado é feito com mais de 16 toneladas de embalagens recicladas que colocaste no ecoponto. O peso de dois elefantes”, o que equivale também a 150 mil pacotes de batatas fritas, 66 mil embalagens de champô ou 230 mil garrafas de plástico.

“O que nós quisemos mostrar é que qualquer pessoa que visite o Jardim Zoológico pode perceber as mais-valias da separação das embalagens”, esclarece Teresa Cortes, gestora de marketing e comunicação da Sociedade Ponto Verde (SPV). Para além da remodelação do parque de merendas, a parceria entre a SPV e o Jardim Zoológico permitiu ainda ter ecopontos espalhados por todo o espaço do zoo e promover atividade educativas para as crianças. “Se nós queremos educar e queremos que as pessoas tenham melhores práticas em relação ao ambiente, temos sempre de dar o exemplo”, remata Tiago Carrilho.

O PAPEL DAS ENTIDADES GESTORAS

Uma das principais funções da SPV é precisamente comunicar e incentivar a população a reciclar cada vez mais e melhor. “O nosso objetivo de cumprir metas passa por incentivar a uma maior adesão dos consumidores à separação das embalagens. Hoje em dia, já temos sete em cada dez lares a fazer separação das embalagens, mas é necessário que esses lares e as pessoas que os constituem separem cada vez mais e melhor”, disse Teresa Cortes ao i.


Para chegar mais perto dos jovens, a SPV tem vindo a marcar presença nos festivais de verão. No NOS Alive, a entidade gestora de embalagens é responsável pelo encaminhamento dos plásticos produzidos durante o festival para reciclagem, onde se transformam em mesas que são colocadas na zona de restauração, na edição seguinte. Este ano contavam-se já 86 mesas de plástico reciclado, fruto do lixo produzido nos anos anteriores. 

Para além da comunicação, a SPV – a par com a Novo Verde e a Amb3e, que entraram no mercado da gestão de embalagens no decorrer do último ano – faz a gestão financeira do processo. “Depois de as embalagens estarem colocadas nos ecopontos ou nos sistemas porta-a-porta, os sistemas de gestão de resíduos urbanos – ou municipais, ou as entidades gestoras – passam a recolher esses mesmos equipamentos. É essa logística que a SPV financia, para garantir que o material é recolhido e depois triado e preparado para seguir para reciclagem. É o chamado valor-contrapartida”, acrescenta Teresa Cortes.

Esta contrapartida representa a maior fatia de investimento da SPV. Ou seja, com o pagamento da taxa Ponto Verde – obrigatória para todas as embalagens colocadas no mercado –, as entidades gestoras de embalagens financiam quer a recolha dos ecopontos aos municípios ou sistemas de gestão de resíduos, quer a triagem dos materiais. No final, os resíduos são vendidos em leilão.

E se pudesse trocar uma garrafa de plástico por comida?

As metas comunitárias já são conhecidas e exigem que Portugal recicle 65% dos resíduos urbanos. Para isso, o governo tem uma série de iniciativas pensadas, com o objetivo de incentivar os portugueses a reciclarem mais. Uma delas passa por trocar objetos de plástico por produtos de consumo

Numa altura em que o plástico ganha estatuto de inimigo número um – com várias iniciativas no parlamento para a redução da utilização de plástico descartável –, a Comissão Europeia já anunciou um aumento das metas de reciclagem previstas para 2025 e Portugal terá de passar a reciclar 65% das embalagens existentes. Para isso, o governo irá investir em várias medidas que têm como objetivo incentivar os portugueses a reciclar cada vez mais.

A Sociedade Ponto Verde (SPV) mostra-se satisfeita com as imposições feitas pela Comissão Europeia: “Ainda que seja uma meta ambiciosa, é o reflexo do caminho que se quer percorrer para uma economia mais circular, porque significa uma maior reintrodução de materiais no ciclo”, disse Teresa Cortes, gestora de marketing e comunicação da SPV, ao i.

“Temos consciência de que temos quase que duplicar, num espaço curto, aquilo que são as metas que temos hoje”, reconhece o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins. Para isso, uma das iniciativas avançadas pelo governo foi a atribuição de um valor às embalagens entregues pelos cidadãos para reciclagem. “Nós vamos ter ainda este ano na Área Metropolitana de Lisboa – por iniciativa de um projeto que foi aprovado no âmbito do Fundo Ambiental – algumas experiências com base na oferta não de valores monetários, mas de produtos de consumo”, explicou ao i o secretário de Estado, referindo a existência de um acordo feito entre o governo e uma empresa de distribuição “de referência a nível nacional”. “Este é um projeto embrionário muito interessante que pode mobilizar as pessoas, ajudando-as a mudarem de comportamentos”, acrescenta.

A forma de financiamento do projeto ainda está em estudo, mas Carlos Martins avança que irá estar a cargo das entidades gestoras que têm responsabilidade pelas embalagens, ou seja a SPV, a Novo Verde e a Amb3e. “É essa análise que está a ser feita, não só a origem do valor com que depois podemos reembolsar os consumidores, mas também os custos necessários à implementação do sistema com máquinas”, afirma Teresa Cortes, dando destaque à necessidade de se “perceber se, no final, o retorno desta iniciativa em termos de materiais é viável para uma implementação” de um serviço completo, espalhado por mais pontos do país.

Para já, as pessoas vão poder receber e pesar os materiais que querem reciclar – por agora, a iniciativa destina-se apenas às garrafas de plástico usadas para armazenamento de bebidas. No entanto, o objetivo do governo é incentivar a que a entrega das embalagens seja voluntária, evitando a implementação de um sistema semelhante às antigas taras que existiam nas garrafas de vidro: “Os dez milhões de portugueses têm de ser ganhos a pensar nos bons gestos ambientais, e não só por motivações de natureza económica.”

Este não é o único projeto que o governo tem preparado para atingir as novas metas: “Temos um acordo com a associação das empresas das águas minerais e dos refrigerantes no qual é estipulado que, a partir de setembro, serão iniciados trabalhos regulares para fazer um calendário de iniciativas; temos também com a AHRESP [Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal] um conjunto de iniciativas para vir a identificar estabelecimentos hoteleiros e de restauração” que tenham boas práticas ambientais, descreve o secretário de Estado.


NÚMEROS QUE NÃO COINCIDEM

A Associação Zero, uma associação ambientalista que procura analisar as políticas ambientais, denunciou no final de 2017 uma discrepância entre os números de embalagens que pagavam Ponto Verde – o imposto obrigatório a todas as embalagens e que financia, através das entidades gestoras, os processos de reciclagem – e o número de embalagens que apareceram nos resíduos urbanos.

“Todas as embalagens que nós consumimos deveriam pagar Ponto Verde. Os dados que obtivemos foram 700 mil toneladas de embalagens que pagaram o imposto à SPV em 2016”, enquanto “nos resíduos urbanos existem 1250 milhares de toneladas de embalagens”, explicou ao i Rui Beckemeier, presidente da associação. “Foi um dado um bocado chocante” e que se manteve em 2017, segundo informações da Inspeção-Geral do Ambiente prestadas à associação.

Os dados analisados são oficiais, recolhidos junto da SPV e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Para Rui Beckemeier, as empresas estão a fazer subdeclaração, ou seja, estão a colocar mais embalagens no mercado do que aquelas que declaram à entidade gestora.

Sobre este assunto, a SPV garantiu apenas que são feitas auditorias regulares às empresas, afirmando que “essa questão ultrapassa a SPV”. Já Carlos Martins vê a interpretação feita dos números como sendo “muito simplista”. “A declaração das quantidades colocadas no mercado já deixou de ser feita às entidades gestoras e passa a ser feita junto da própria APA, o que responsabiliza quem presta essa informação”, anuncia o secretário de Estado, acreditando que esta medida irá desincentivar qualquer subdeclaração. No entanto, para o secretário de Estado, a raiz do problema está nos chamados free riders – empresas que colocam embalagens no mercado sem contribuírem para a sua reciclagem – e nas embalagens que estão “num regime omisso”, como é o caso dos medicamentos vendidos pelas parafarmácias e que não integram a lista da Infarmed. Rui Beckemeier defende que os free riders não são a justificação desta discrepância.

65%

Do lixo urbano tem de ser reciclado. Esta é a nova meta imposta pela Comissão Europeia, que vigorará até 2025, o que significa o dobro do que se recicla atualmente

705,6

Milhares de toneladas de embalagens pagaram Ponto Verde à SPV em 2016, segundo dados da entidade gestora reunidos pela Associação Zero

1252

Milhares de toneladas foram encontradas, no mesmo ano, entre os resíduos urbanos. Os dados, também recolhidos pela associação ambientalista, foram fornecidos pela APA

2400

É o número de postos de trabalho diretos que a atividade da reciclagem gera em Portugal

Ditos e mitos da separação das embalagens

Uma das principais funções da Sociedade Ponto Verde é desmitificar e esclarecer as dúvidas do consumidor sobre o processo da reciclagem. E isso implica acabar com os mitos que existem à volta da separação das embalagens. “O processo de comunicação da Sociedade Ponto Verde tem sido ir ao encontro das dúvidas e mitos que são colocados pelo consumidor e tentarmos desmitificá-los, com o objetivo de esclarecer as pessoas e mantê-las informadas de como o processo decorre”, explica Teresa Cortes, diretora de marketing e comunicação da Sociedade Ponto Verde. O i reuniu e esclarece alguns mitos e curiosidades sobre a reciclagem.

  • PARA RECICLAR TEM DE LAVAR AS EMBALAGENS

    Um dos mitos que existe sobre a reciclagem, e que leva as pessoas a não separarem as embalagens, é a necessidade de lavá-las antes de as colocar no ecoponto. “Não é necessário lavar as embalagens, não é necessário retirar rótulos nem tampas. Basta escorrer a embalagem, espalmá-la e colocá-la na cor certa”, explica Teresa Cortes. Mais: a lavagem das embalagens é mesmo desaconselhável, pois implica um gasto desnecessário de água.

  • A RECICLAGEM NÃO FAZ DIFERENÇA

    Desde que a Sociedade Ponto Verde apareceu, há 20 anos, já foram encaminhadas para reciclagem mais de 7,5 mil milhões de toneladas de embalagens de papel, plástico, metal e vidro. O número pode parecer astronómico, mas se dissermos que representa três pontes Vasco da Gama já se torna mais concreto. “Às vezes perde-se um bocadinho a noção da quantidade quando entramos nos milhares de milhões de toneladas, mas temos tentado sempre materializar essas quantidades, neste caso com três pontes Vasco da Gama”, afirma Teresa Cortes.

  • OS CONTENTORES JUNTAM TUDO NA RECOLHA

    Este é um dos mitos que mais se costuma ouvir. Muitas vezes, a perceção que as pessoas têm é que os contentores que recolhem as embalagens dos ecopontos juntam papel e plástico no mesmo compartimento. Mas isso não é verdade: “Podem existir camiões que estão bicompartimentados e isso dá a ilusão de que os materiais estão a ser misturados. Não faria sentido que isso acontecesse”, explica Teresa Cortes. Se mesmo assim não está convencido, não se esqueça que existe uma outra fase importante na separação dos materiais: depois de serem recolhidas as embalagens, é feita uma triagem que, no caso do plástico, serve para diferenciar e encaminhar para os recicladores específicos os diferentes tipos de plástico. 

  • OS COPOS DE VIDRO TAMBÉM SÃO RECICLÁVEIS

    Não, não são. Apesar de o vidro ser 100% reciclável, a percentagem de material que compõe cada tipo de vidro altera a temperatura a que o vidro funde. E isso pode vir a comprometer um lote inteiro de vidro reciclado. Por isso, copos, espelhos, lâmpadas incandescentes, cerâmicas , pirex e cristais devem ficar fora do ecoponto verde. Apenas as embalagens de vidro, como os frascos, boiões e garrafas, podem ser recicladas.

  • EXISTEM POUCOS ECOPONTOS NO PAÍS

    Sabia que existem 40 mil ecopontos espalhados pelo país? E que isso significa que há três vezes mais ecopontos do que caixas multibanco? “Portugal tem uma cobertura de 100% de recolha seletiva”, explica Teresa Cortes. Feitas as contas, há um ecoponto para cada 240 portugueses. Para além do elevado número de contentores, existem municípios onde a recolha das embalagens chega mesmo a ser feita porta a porta.

  • JÁ PAGO A RECICLAGEM E A RECOLHA DO LIXO

    O valor Ponto Verde é pago pelas empresas embaladoras para que seja possível fazer-se a recolha dos materiais reciclados. Este valor vai compensar os gastos extra que as autarquias e serviços de gestão de resíduos têm para recolher as embalagens colocadas no ecoponto. E sabe quantas pessoas trabalham nesta área? A reciclagem em Portugal gera 2400 empregos e é responsável por cerca de 71 milhões de euros do produto interno bruto. Ao não separar as embalagens está a contribuir para a redução destes números, já para não falar dos prejuízos que traz ao ambiente.