‘Cinco dicas para ter uma alimentação mais saudável’, ’10 conselhos para se tornar mais fit’, ‘O que todos devem fazer para ter um corpo invejável’. O nosso feed do Facebook é invadido por dezenas de artigos dedicados à alimentação saudável e ao exercício físico. Várias figuras públicas divulgam os seus hábitos e dão conselhos sobre como tonificar o corpo e comer melhor. Há cada vez mais blogues dedicados ao tema. Este tipo de conteúdos entram-nos em casa a toda a hora e, mesmo sem querer, acabamos por ficar a conhecer os benefícios da quinoa ou as potencialidades do abacate. Mas, afinal, onde fica o nutricionista no meio desta evolução? Ainda há espaço para estes profissionais?
Ágata Roquette deixa um alerta a quem tenta perder peso através destas publicações: receitas saudáveis não são sinónimo de emagrecimento. “Às vezes temos de tirar coisas boas do nosso dia-a-dia, mesmo quando o objetivo é perder peso. As pessoas têm de perceber que um blogue de alimentação saudável é ótimo e que devem tirar receitas de lá – eu própria sigo alguns –, mas não quer dizer que vão perder peso com elas. Podem melhorar os níveis de colesterol, a diabetes, mas têm de consultar o nutricionista para saberem quando devem comer as coisas certas, para saberem a melhor forma de encaixar os alimentos saudáveis no dia-a-dia. Uma coisa não colide com a outra. Acho que não é uma competição”.
Ao mesmo tempo, o conceito de ‘comida de conforto’ tem ganho cada vez mais peso no quotidiano dos portugueses. Com a moda do ‘hygge’ (palavra dinamarquesa que não tem tradução para português, mas que significa algo como ‘viver num aconchego permanente’, recorrendo apenas aos pequenos prazeres da vida’), há cada vez mais pessoas a apostar na ‘comida confortável’ e nos pratos que deixam o corpo e a alma satisfeitos. Mas é preciso ter cuidado com este conceito.
“’Comida de conforto” é um conceito que exige alguma cautela na sua interpretação. Na sua essência não faz sentido que a alimentação não tenha conforto, ou seja, a alimentação deve ser degustada, percecionada ao máximo pelos sentidos, dar prazer. “Aliás, é isso que procuro divulgar todos os dias nas redes sociais, no blogue, nos livros e nas consultas. A questão que se coloca é até que ponto as pessoas compreendem esta essência e conseguem praticá-la com moderação, de forma parcimoniosa. Aliás, isto remete para a origem da palavra ‘dieta’, que significa ‘modo de vida’, ‘conforto’ e ‘comedimento na forma de comer e beber’. Em resumo, fazer “dieta” é precisamente praticar essa alimentação de conforto, prazerosa, mas comedida”, diz Ana Bravo.
Mas com tantas modas, dicas, conselhos e publicações, ainda existe espaço para os nutricionistas? Ainda faz sentido recorrer a estes profissionais para tentarmos alcançar um estilo de vida equilibrado e um corpo saudável, quando tantas outras pessoas nos ensinam a fazer isso mesmo através da Internet?
Tal como Ágata Roquette, Andreia Santos não acredita que haja uma competição entre os dois meios e acredita que o papel destes profissionais é cada vez mais importante: “Faz cada vez mais sentido recorrer a um nutricionista, porque o excesso de informação e o facto de haver pessoas não habilitadas a manifestarem-se leva à desorientação. Há que saber separar as coisas”.
“Além disso, a ciência não é imutável, temos muito para continuar a estudar, aprender, compreender e o comportamento humano também está a mudar. A indústria alimentar progride do mesmo modo, fazendo com que o nutricionista seja o profissional que junta as peças todas desta puzzle, que agrega ainda a saúde e a doença, e traduz tudo numa intervenção nutricional. A partilha do saber, a educação alimentar das populações e as intervenções personalizadas mais específicas nunca se esgotarão em blogues, livros, nem em fórmulas idênticas para todos”, acrescenta Ana Bravo.