19/11/2018
 

CENTENÁRIO MANDELA


O primeiro presidente negro da África do Sul, rosto da luta contra o apartheid, nasceu há 100 anos. As suas cartas foram editadas agora em livro e aquela que foi a sua secretária lembra que o seu legado “é suficientemente forte para resistir à traição” que foi, por exemplo, a presidência de Jacob Zuma

TEXTOS

António Rodrigues
Ricardo Cabral Fernandes

“A tarefa principal é o derrube da supremacia branca em todas as suas ramificações e a constituição de um governo democrático no qual todos os sul-africanos, independentemente da sua condição social, cor ou crenças políticas, vivam lado a lado em perfeita harmonia.” Nelson Mandela escreveu isto em 1967, numa das cartas que enviou da prisão ao executor judicial. A ideia de uma sociedade igualitária e justa em que ninguém seria discriminado pela cor, classe social ou crença religiosa orientou toda a sua vida política. 

Se fosse vivo, Mandela faria hoje cem anos. Foi para relembrar o seu percurso, mas também as suas vitórias e derrotas, a sua felicidade e sofrimento, que as cartas que escreveu na prisão foram finalmente publicadas, depois de dez anos de análise e recolha por Sahm Venter. Sob a ameaça da censura, Mandela escrevia principalmente sobre as suas preocupações para com os seus próximos e, por vezes, enfrentava as autoridades sul-africanas para reivindicar os seus direitos e dos outros presos políticos e opor-se a uma política racista que repudiava com toda a sua alma. Nas cartas, Mandela é pai, filho e marido, e não apenas o homem político de que o mundo se recorda. Umas cartas chegaram aos seus destinatários, muitas outras “perderam-se” pelo caminho, alvo da ira da censura dos guardas prisionais sul-africanos. 

Condenado a prisão perpétua por “terrorismo” pelo regime do apartheid sul-africano, Mandela viveu numa pequena cela durante 27 anos. Não repudiou os atos de violência que levou a cabo, mas admitiu que a insensibilidade do governo de Pretória fez com que não tivessem o efeito desejado. Entrou na prisão como lutador radical, mas saiu de lá como estadista pragmático, defendendo a via das negociações como estratégia para pôr fim ao regime do apartheid, vigente no país várias décadas. Quando saiu da cadeia conseguiu evitar, por pouco, uma guerra civil num momento em que os africânderes ainda controlavam as forças armadas e a polícia e tinham a maior parte das armas em seu poder.

DE LUTADOR RADICAL A ESTADISTA

Nascido a 18 de julho de 1918 na pequena vila de Mvezo, na província de Cabo Oriental, África do Sul, numa família de nobreza tribal, Mandela deixou a casa onde sempre viveu para ir estudar Direito em Joanesburgo quando tinha 20 anos. Viu-se envolvido num ambiente político radicalizado, mas não descurou os estudos e até constituiu família, tendo-se casado com Evelyn Mase, com quem teve quatro filhos. 

Tudo mudou quando o governo de Pretória avançou, em 1948, com a aprovação da lei que deu origem ao apartheid, separando os brancos dos não brancos em todas as vertentes da vida coletiva. Ao confrontar-se com a discriminação racial, Mandela aderiu ao Congresso Nacional Africano (ANC na sigla em inglês), sendo, pouco tempo depois, eleito presidente da secção provincial do Transvaal. Aliando a advocacia à atividade política, o jovem advogado acabou por atrair as atenções das autoridades. As pressões e as intimidações da polícia não o fizeram recuar na defesa de ativistas antirracistas acusados de traição. 

A repressão do regime foi aumentando; no entanto, o ANC manteve a mesma postura de não violência que sempre o caracterizou desde a fundação, em 1912. Porém, tudo mudou com o massacre de Sharpeville, em 1960, quando centenas de manifestantes se juntaram frente a uma esquadra para protestarem contra a Lei do Passe, que obrigava todos os não brancos a terem sempre consigo um documento de identificação especial. Perante o protesto pacífico de grande dimensão, os polícias começaram a disparar rajadas de metralhadora, matando 69 pessoas e ferindo mais de 180. Para Mandela e muitos do movimento de resistência ao apartheid, Sharpeville foi o ponto de viragem no combate político. A luta passava a ser violenta e Mandela estava na linha da frente. 
Mobirise
Em 1961, o ANC criou o Umkhonto we Sizwe (Lança da Nação), o seu braço armado contra o apartheid. E Mandela foi o seu primeiro líder, passando a viver na clandestinidade. A sabotagem era a principal atividade da organização. Regressado do estrangeiro, onde aprendeu técnicas de combate e demolição, Mandela acabaria detido e, a 11 de junho de 1964, condenado a prisão perpétua. 

Mandela nunca deixou de enfrentar as autoridades pela política que praticavam para além dos muros da prisão. “A continuada supressão das nossas aspirações e o recurso à governação através da força empurra cada vez mais o nosso povo para a violência”, escreveu numa carta enviada ao ministro da Justiça, Petrus Cornelius Pelser, em 1969. “Até que o apartheid seja totalmente erradicado, o nosso povo continuará a matar-se entre si e a África do Sul estará sujeita a todas as tensões de uma guerra civil cada vez mais acirrada”, escreveu noutra carta, esta ao presidente sul-africano Pieter Willem Botha, em 1985. 

As tensões foram-se avolumando e, em fevereiro de 1990, Mandela foi finalmente libertado. O regime de Pretória estava cambaleante, a pressão internacional tinha sido demasiado forte. Com Mandela em liberdade iniciou-se um processo negocial entre o ANC e o governo para acabar com o apartheid, dando os mesmos direitos políticos e, na teoria, sociais a todos os sul-africanos, independentemente da etnia.

Eleito presidente em 1994, Mandela avançou com um processo de reconciliação nacional que incluísse brancos, negros, mestiços, indianos, uma rainbow nation, como lhe chamou. O seu papel foi decisivo para a consolidação da democracia multiétnica da África do Sul.

OBAMA. ELOGIANDO OS PRINCÍPIOS DE MADIBA

O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, participou nas comemorações do 100.º aniversário do nascimento de Nelson Mandela, em Joanesburgo. No seu discurso perante uma multidão de 15 mil pessoas, Obama realçou algumas das lições que Mandela ensinou ao mundo ao longo da sua vida. “Madiba [nome tribal de Mandela] mostrou àqueles que acreditam na democracia e na igualdade económica que terão de lutar mais”, afirmou. “Os seres humanos não vivem apenas de pão. Quando o poder económico está concentrado nas mãos de uns poucos, o poder político segue o mesmo caminho, e afasta-se da democracia”, continuou o ex-presidente dos EUA.

Uma das principais lições de Mandela foi ter sido capaz de abandonar o poder quando achou que o seu trabalho já não era necessário, explicou Obama. “Madiba poderia ter governado para o resto da sua vida - quem se lhe iria opor? Ao invés, guiou a África do Sul e mostrou que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria”, acrescentou Obama.

Lições que, segundo ex-líder da Casa Branca, contrastam com o atual estado do mundo, onde duas visões diferentes se confrontam. “Eu acredito numa visão de igualdade e justiça e de democracia multirracial construída com a premissa de que todas as pessoas são criadas iguais”, afirmou Obama. “Acredito que um governo governado por esse princípio é possível e pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca do bem comum”, acrescentou.

Obama sublinhou que “não temos outra hipótese se não andar para a frente” e que aqueles que “acreditam na liberdade, na democracia” terão de “lutar com mais força para reduzir a desigualdade e promover uma oportunidade económica duradoura para todas as pessoas”.  
Mobirise
Sem nunca se ter referido pelo nome a Donald Trump, o ex-presidente tinha um alvo em concreto para os seus ataques. Com as fake news de Trump sob pano de fundo, o ex-presidente alertou para a necessidade de se acreditar nos factos para poder dialogar com as outras pessoas.

“Temos de acreditar nos factos, sem eles não há base para a cooperação”, explicou Obama. “Se eu disser que isto é um pódio e vocês disserem que é um elefante, será muito complicado cooperarmos”. Das fake news para a negação das alterações climáticas foi um pequeno passo: “Não teremos um base para o entendimento se alguém disser que as alterações climáticas não vão acontecer, quando todos os cientistas do mundo nos alertam para isso”. 

“A história mostra o poder do medo e a persistência da ganância. A história mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a virarem-se umas contra as outras”, alertou o ex-chefe de Estado.

ZELDA LA GRANGE

O LEGADO DE NELSON MANDELA "É SUFICIENTEMENTE FORTE PARA RESISTIR A QUALQUER TRAIÇÃO"


O antigo presidente da África do Sul lembrado pelas palavras da sua secretária particular. “Ele morreu acreditando que tinha feito tudo ao seu alcance para fazer do mundo um lugar melhor”

Há pouco mais de dois anos, Zelda la Grange, que foi secretária particular de Nelson Mandela nos últimos 11 anos da vida do antigo presidente da África do Sul, passou por Lisboa para promover o seu livro “Bom dia, Senhor Mandela”. Na altura, no meio de todos os escândalos relacionados com o então presidente sul--africano, Jacob Zuma (que se demitiu entretanto), garantia que, apesar de tudo, o legado de Mandela não tinha sido destruído pelo Congresso Nacional Africano (ANC na sigla em inglês), que governa o país desde 1994.

“O legado é suficientemente forte para resistir a qualquer traição, seja ela qual for. Não penso que esteja no poder de uns quantos políticos danificar o seu legado porque ele é muito mais profundo que isso”, explicava. “Acho que avançámos como país, penso que temos de dar o exemplo, que era o que tínhamos nele, uma pessoa que agia de tal forma que o sul-africano comum queria garantir o aprofundamento da sua obra.”

Ter a figura de Mandela como referência é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. E a segunda está ligada à primeira, porque a maldição prende-se com uma dimensão de estadista tão grande que tornou difícil aos que vieram a seguir caminhar com os sapatos por ele deixados.

“Hoje temos um vazio de liderança na África do Sul e torna-se difícil que haja alguém que se erga para mostrar o caminho. É isso o que nos falta na África do Sul. Há muita gente comum que ainda acredita, não tanto na nação arco-íris, mas que, avançando, há espaço para todos, temos de trabalhar, precisamos de trabalhar em conjunto”, dizia a colaboradora de duas décadas de Mandela.

Zelda la Grange começou a trabalhar para Mandela quando este chegou à presidência sul-africana, em maio de 1994. O então presidente não defendia apenas por palavras a reconciliação nacional, a nação arco-íris, onde todas as raças e credos poderiam viver em conjunto, queria aplicar a ideia na prática. Aquela jovem africânder alta e loura, que tinha votado contra ele e vinha de uma família que vivera e defendera o regime do apartheid, tinha de trabalhar na assessoria presidencial. Ao longo dos anos, a relação tornou-se cada vez mais próxima, à medida que crescia a admiração e dedicação da jovem racista por aquele homem que se tornara presidente contra a sua vontade. Uma relação que se tornou tão próxima que se estendeu para lá da presidência: nos últimos 11 anos da vida de Mandela, Zelda foi a sua secretária particular.
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No livro que escreveu, Zelda la Grange é honesta no autorretrato de jovem branca racista sul-africana que votou pela manutenção do apartheid até se transformar numa mulher capaz de ver mais além: “É errado dizer que hoje não vejo as cores, porque vejo, mas respeito as diferenças, respeito a pessoa, independentemente da aparência, do estado, da riqueza ou seja do que for. Não é tanto a ideia do multiculturalismo, da multicor, mas do respeito pela diversidade que nós, sul-africanos, não percebíamos. Falar em rainbow nation dá ideia de que ignoramos as diferenças, mas não é verdade, apenas temos de as respeitar.”

Como explicou o próprio Madiba - nome pelo qual era carinhosamente tratado e que é o nome do clã a que pertencia -, no seu discurso do Dia da Reconciliação Nacional de 1995, “o arco-íris acabou por se tornar o símbolo da nossa nação. Estamos a transformar a variedade das nossas línguas e culturas, que antes eram usadas para nos dividir, na fonte da nossa força e riqueza”.

A traição do legado de Mandela de que fala La Grange tem a ver com a ideia, defendida hoje por muitos políticos dentro do ANC, de que a África do Sul tem de ser mais o país dos negros e não um país onde convivem raças e credos.

Em 2015, Zelda publicou um tweet que causou polémica, acusando o então presidente Jacob Zuma de estar a fazer com que os brancos se sentissem indesejados na África do Sul. Acabou por pedir desculpa pela afirmação, não por estar errada, apenas “por ter singularizado os brancos” quando a questão não está limitada. Zuma fazia “as pessoas desrespeitarem aquilo que são e de onde vêm”, fazia com que se sentissem “desadequadas”. “Não pedi desculpa por dizer isto, mas por ter dado mais importância à minha brancura. Sinto-me ameaçada da mesma forma que toda a gente se sente”, acrescentava.

Mesmo assim, sublinhava, “há muita gente comum que ainda acredita, não tanto na nação arco-íris, mas que, avançando, há espaço para todos, temos de trabalhar, precisamos de trabalhar em conjunto”.

ABNEGAÇÃO ESQUECIDA

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Quase cinco anos depois da morte de Nelson Mandela, e a 18 do fim da sua presidência, a África do Sul já esteve pior, mas também já esteve melhor. Sobretudo, não é aquele país que Madiba gostaria que fosse. Queria que houvesse mais progresso, menos pobreza, que muito mais gente tivesse acesso a coisas simples como saneamento; porém, o que lhe doeria mais seria “o facto de as pessoas terem esquecido a abnegação, de hoje girar tudo apenas à volta do ganho pessoal”, como explicava a sua secretária.

“O que se está a passar agora? Porque se comportam as pessoas daquela forma no parlamento? E eu digo estas coisas muitas vezes e meto-me em muitos sarilhos, mas é verdade. É por isso que falo em vazio de liderança porque toda a gente participa neste desrespeito pelo outro, no desrespeito pelo governo, no desrespeito pela autoridade. Nelson Mandela garantia que toda a gente era ouvida, não acusava as pessoas ou, pelo menos, não as responsabilizava hoje por coisas que não podiam ser mudadas. Só responsabilizava as pessoas pelas coisas agora, para garantir que funcionavam.”

O racismo é ainda muito forte na África do Sul, não que ele não exista noutros lados, só que ali “aparece mais na primeira linha, nota-se mais”, sublinhava Zelda la Grange. Por exemplo, mesmo em relação à sua família, custa-lhe ainda falar com algumas pessoas e aprendeu a evitar deixar-se apanhar em situações de pregar no deserto: “Porque, se ao fim de 22 anos não se consegue ver, pouco posso fazer para ajudar essa pessoa.”

Se há brancos que ainda não percebem, há negros que ainda criticam. Robert Mugabe, o ex-presidente do Zimbabué, chamou a Mandela o “santo que tentou agradar aos brancos”. Para Zelda la Grange, é muito simples: “Quem diz isso não estava lá naqueles anos em que podíamos ter deitado fogo ao país, todos nós, brancos e negros da África do Sul.” Não fosse Mandela a agarrar o rastilho nas mãos e o barril de pólvora da África do Sul pós-apartheid teria explodido numa guerra civil inter-racial de consequências imprevisíveis. “Foi preciso a liderança de uma pessoa como ele para evitar isso. As pessoas não conseguem acreditar como é que não tivemos uma guerra civil.”

Para os que considerem isto um exagero, Zelda la Grange usou o conhecimento de quem estava do outro lado da barricada para garantir que foi mesmo assim, que os brancos estavam preparados para a guerra: “Estávamos. As pessoas comuns prepararam-se. Armazenámos comida e água. Estávamos à espera de uma guerra civil. O exército, as forças de defesa ainda estavam nas mãos do regime do apartheid. Quando o Sr. Mandela perguntou ao seu braço armado ‘quantas armas tem o exército do governo do apartheid?’ e eles responderam que não sabiam, quando lhes perguntou ‘quantos homens têm eles?’ e também não sabiam, disse-lhes: ‘Como podemos entrar em guerra quando não sabemos a força do inimigo?’ Se tivéssemos tido uma guerra civil, centenas de milhares de pessoas teriam sido mortas.”

À medida que os anos passam e Mandela deixa de ser figura presente para se entregar nos braços da História, que se dá a muitas interpretações, a ação de Madiba perde o seu contexto e hoje haverá muitos jovens negros sul-africanos capazes de tomar as palavras de Mugabe como suas. “Ele morreu acreditando que tinha feito tudo ao seu alcance para fazer do mundo um lugar melhor. É a frustração atual que leva as pessoas a acusar o passado, a querer culpar alguém. O facto é que, e isso aprendi com ele, culpar não resolve nada, não conserta nada e não ajuda. Não culpes o passado ou o legado de Mandela, resolve as coisas agora.”

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