Quase cinco anos depois da morte de Nelson Mandela, e a 18 do fim da sua presidência, a África do Sul já esteve pior, mas também já esteve melhor. Sobretudo, não é aquele país que Madiba gostaria que fosse. Queria que houvesse mais progresso, menos pobreza, que muito mais gente tivesse acesso a coisas simples como saneamento; porém, o que lhe doeria mais seria “o facto de as pessoas terem esquecido a abnegação, de hoje girar tudo apenas à volta do ganho pessoal”, como explicava a sua secretária.
“O que se está a passar agora? Porque se comportam as pessoas daquela forma no parlamento? E eu digo estas coisas muitas vezes e meto-me em muitos sarilhos, mas é verdade. É por isso que falo em vazio de liderança porque toda a gente participa neste desrespeito pelo outro, no desrespeito pelo governo, no desrespeito pela autoridade. Nelson Mandela garantia que toda a gente era ouvida, não acusava as pessoas ou, pelo menos, não as responsabilizava hoje por coisas que não podiam ser mudadas. Só responsabilizava as pessoas pelas coisas agora, para garantir que funcionavam.”
O racismo é ainda muito forte na África do Sul, não que ele não exista noutros lados, só que ali “aparece mais na primeira linha, nota-se mais”, sublinhava Zelda la Grange. Por exemplo, mesmo em relação à sua família, custa-lhe ainda falar com algumas pessoas e aprendeu a evitar deixar-se apanhar em situações de pregar no deserto: “Porque, se ao fim de 22 anos não se consegue ver, pouco posso fazer para ajudar essa pessoa.”
Se há brancos que ainda não percebem, há negros que ainda criticam. Robert Mugabe, o ex-presidente do Zimbabué, chamou a Mandela o “santo que tentou agradar aos brancos”. Para Zelda la Grange, é muito simples: “Quem diz isso não estava lá naqueles anos em que podíamos ter deitado fogo ao país, todos nós, brancos e negros da África do Sul.” Não fosse Mandela a agarrar o rastilho nas mãos e o barril de pólvora da África do Sul pós-apartheid teria explodido numa guerra civil inter-racial de consequências imprevisíveis. “Foi preciso a liderança de uma pessoa como ele para evitar isso. As pessoas não conseguem acreditar como é que não tivemos uma guerra civil.”
Para os que considerem isto um exagero, Zelda la Grange usou o conhecimento de quem estava do outro lado da barricada para garantir que foi mesmo assim, que os brancos estavam preparados para a guerra: “Estávamos. As pessoas comuns prepararam-se. Armazenámos comida e água. Estávamos à espera de uma guerra civil. O exército, as forças de defesa ainda estavam nas mãos do regime do apartheid. Quando o Sr. Mandela perguntou ao seu braço armado ‘quantas armas tem o exército do governo do apartheid?’ e eles responderam que não sabiam, quando lhes perguntou ‘quantos homens têm eles?’ e também não sabiam, disse-lhes: ‘Como podemos entrar em guerra quando não sabemos a força do inimigo?’ Se tivéssemos tido uma guerra civil, centenas de milhares de pessoas teriam sido mortas.”
À medida que os anos passam e Mandela deixa de ser figura presente para se entregar nos braços da História, que se dá a muitas interpretações, a ação de Madiba perde o seu contexto e hoje haverá muitos jovens negros sul-africanos capazes de tomar as palavras de Mugabe como suas. “Ele morreu acreditando que tinha feito tudo ao seu alcance para fazer do mundo um lugar melhor. É a frustração atual que leva as pessoas a acusar o passado, a querer culpar alguém. O facto é que, e isso aprendi com ele, culpar não resolve nada, não conserta nada e não ajuda. Não culpes o passado ou o legado de Mandela, resolve as coisas agora.”