Dentro do PSD, quem é que acha que teria as competências para ser primeiro-ministro? Se não fosse Rui Rio o candidato, quem é que podia ser?
Eu acho que, nas próximas eleições internas, que serão cerca de cinco meses depois das legislativas – marcantes para o que acontecerá internamente –, no cenário de não vitória do PSD, Rui Rio quererá ser candidato novamente.
Carlos Carreiras não admite poder ser candidato à liderança do partido?
Isso está completamente afastado. É preciso perceber a dinâmica de eleições no PSD. Acho que é muito difícil pedir-se a alguém que tenha no seu projeto de vida a aspiração de ser líder do PSD que não o faça. Portanto, eu respeitarei todos os candidatos, em alternativa a Rui Rio. De acordo com os estatutos do PSD, se não houver maioria do vencedor tem de haver segunda volta. É necessário que esses projetos alternativos construam linhas que lhes permitam que, passando à segunda volta, tenham o apoio dos restantes. Essa vai ser a minha preocupação nessa altura, se as coisas acontecerem como eu estou a dizer. Mas não estive como apoiante de Rui Rio. Até agora não vi nenhuma razão para vir a estar e o mais provável é não ser apoiante de Rui Rio nas próximas eleições internas do PSD.
Acha que Rui Rio é democrata? Não acha que tem tiques de autoritário?
Há democratas com tiques de autoritarismo. Eu não ponha isso nessa dicotomia de “não é democrata porque tem tiques de autoritarismo”.
Mas Rui Rio tem tiques de autoritarismo?
Ele já o tem vindo a demonstrar ao longo da sua carreira política, quer como presidente da câmara do Porto quer como líder do partido. Agora, o que acho mais grave nisso é que eu considero que isso acontece não por defeito, mas por feitio. Ou seja, é muito mais difícil de corrigir. E, por isso, reduzo o meu campo de esperança de que possa ser coerente com aquilo que disse que estava consciente de que o PSD não tinha ainda uma apreciação positiva dos portugueses, mas que chegaria às próximas eleições com essa apreciação positiva.
Admite que ele um dia o convide a sair do partido?
Na teoria, posso admitir tudo, mas o grau de eficácia disso é nenhum. Não há convite nenhum de nenhum presidente do partido que me fará abandonar um património que eu também ajudei a construir.
A deputada Teresa Morais escreveu um texto onde diz que há uma perseguição dentro do PSD e que tudo o que tem a ver com Passos Coelho é para abater. O que pensa disso?
Eu subscrevo essa perceção que a Teresa Morais exprimiu. Eu acho que é uma das coisas que eu considero mais irresponsáveis por parte da atual liderança. E quando falo na atual liderança não me refiro só a Rui Rio, mas sim a ele e aos que estão à volta dele. Desbaratar o património que foi construído pelo PSD e por Passos Coelho, em circunstâncias de uma enorme dificuldade, que conseguiu conduzir o país evitando ruturas sociais graves, criando motores de desenvolvimento económicos – muitos deles de que o governo atual está a beneficiar – e que reduziu em três anos um défice de mais de 10% para 3%, é falta de senso. E isso eu vejo com preocupação. Tenho muitos militantes a contactar-me e a incentivar-me a assumir responsabilidades que não quero assumir. Quando vejo o único órgão do partido que faz oposição, que é o grupo parlamentar, a ser desvalorizado pelo partido, não é algo que possa encarar de forma positiva.
Mas dentro do partido todos percebem que as coisas estão mal e não fazem nada?
Tudo o que se faça contra Rui Rio acho que é ainda mais prejudicial para o partido. Trata-se de uma contenção de danos. Muitos militantes defendem que se devia fazer um movimento para alterar significativamente a situação.
Já foi criado um movimento por André Ventura.
Não sou defensor de que se ataque populismo apostando no populismo. Não vou por aí. Na política como na vida, nós não temos uma folha em branco onde podemos desenhar o que quisermos, temos um conjunto de circunstâncias. Nas circunstâncias atuais, eu considero que seria muito mais prejudicial ao PSD estar a criar um movimento dessa natureza e uma descredibilização ainda maior do que a já existe.
Estão para o Rui Rio como o Bloco e o PCP estão para o PS?
Eu acho que o Bloco de Esquerda e o PCP estão ainda melhor para o primeiro-ministro do que nós estamos para o líder do partido, porque eles condicionam e influenciam de forma determinante. Nós não influenciamos de maneira nenhuma.
Já esteve totalmente ao lado de Marcelo quando muitos estavam contra, na altura em que ele era líder do PSD. Hoje ainda está assim tão próximo do Presidente?
Estou, completamente. O Presidente da República é hoje o único líder político em Portugal de quem uma parte substancial do eleitorado se revê.
Concordou com a posição do Presidente de não recondução da PGR?
É uma matéria que eu não domino tecnicamente e politicamente. A área da justiça não é a minha especialidade. Acho que sobre essa matéria o que faltou acima de tudo foi um assumir de explicações de todo o processo. Eu tenho para mim que Joana Marques Vidal não queria continuar e que informou a ministra da Justiça que, com alguma impreparação política, deu essa informação. Foi aí que tudo começou. Aí, houve falta de preparação política da ministra que lançou isso na agenda de forma extemporânea.
Mas acha que Marcelo esteve bem no papel da não recondução? Ele disse que escolheu a nova PGR.
Eu não fiquei com essa ideia de que foi ele que a escolheu. O que eu percebo deste processo é que houve uma vontade de Joana Marques Vidal, que admiro muito, de não prosseguir no cargo.
Acha que o Presidente da República não tem estado colado ao governo?
Acho que um Presidente da República não é um órgão de oposição. O Presidente da República é um órgão que tem de criar condições para que o governo governe bem, dentro dos limites e do respeito da Constituição. Portanto, se alguém pensa que é no Presidente da República que vai colocar a obrigação de ser o líder da oposição, na falha das que deveriam ser as lideranças da oposição, então vê o processo de forma invertida. E tem de avançar para uma maioria parlamentar para evoluir para uma Constituição completamente diferente desta. Não é isso que é suposto fazer um Presidente da República. Eu não conheço nenhum Presidente da República que, numa primeira fase, não tenha sido um garante de bom governo para o governo mesmo que fosse de cor diferente, como Cavaco Silva com José Sócrates ou Mário Soares com governos do PSD. Foi essa a maneira que arranjaram. E depois têm de obedecer apenas à Constituição.
Marcelo Rebelo de Sousa pode ser reeleito com votos do PS?
Só alguém muito desatento é que não percebe que a Presidência de Marcelo tem hoje uma adesão muito generalizada por parte dos cidadãos do país. E essa tendência é demonstrada nas sondagens. Acompanhando o Presidente da República, por exemplo, quando vem ao concelho de Cascais – certo que é um concelho sociologicamente e politicamente mais próximo – percebe-se isso.
As pessoas diziam que Isaltino “roubava mais fazia”. E depois apareceu Carlos Carreiras que tem a fama de “fazer sem roubar”. O que acha de Isaltino?
Isaltino Morais não foi condenado por nada que tivesse a ver com roubos, corrupção, usurpação do poder… Foi por questões fiscais. Devemos ter em conta também outra coisa. A forma como as coisas se processavam num passado não muito distante é muito diferente de como se processa hoje, quer em termos de fiscalização quer em termos de funcionamento do Estado. Acredito que um conjunto de práticas que eram absolutamente admissíveis num passado não muito distante mudaram de uma forma muito radical. Eu tenho a sorte de já ter entrado na vida política e executiva depois dessa parede ter caído abruptamente. Depois, todos os que vinham de trás bateram contra a parede. Os que vieram a seguir já não tinham esse problema. Agora, é preciso reconhecer que Isaltino Morais foi muito importante para Oeiras. E a população reconheceu esse trabalho que ele fez em Oeiras.
Põe a hipótese de André Ventura fazer parte de um bloco de centro-direita se avançar com um partido?
Acho que, se quer enveredar pelos populismos e por dizer coisas que acha que uma fatia do eleitorado gosta de ouvir e se defende e pensou realmente aquilo que disse, não está em nenhum ambiente político que eu defenda ou em que eu possa estar presente.
Disseram-me que num passado bem recente esteve próximo das ideias do PT no Brasil. Continua a defender Lula?
Essa questão tem de ser datada. Isso começou num dia em que fiz uma visita a um distribuidor da empresa onde trabalhava, no estado de Mato Grosso do Sul, no Brasil. Nessa visita, fiquei lá a dormir e fomos jantar. Eu estava longe de saber qual era a inclinação política dessa pessoa. Estávamos em pré-campanha eleitoral no Brasil, que levou à primeira vez que Lula foi eleito e ele pergunta-me como é que eu via a situação política brasileira, nomeadamente a possibilidade de Lula poder ganhar. E eu disse que via bem, porque ele não ia ter condições de alterar a política económica de Fernando Henrique Cardoso – que era muito positiva para o Brasil – e tem um conjunto de preocupações de ordem social que, até pela origem dele, pode dar um sinal positivo: o Lula fará uma distribuição da riqueza com maiores preocupações sociais, o que levará a que muitos cidadãos brasileiros que hoje não são consumidores – e não eram consumidores naquela altura – passem a ser consumidores e o mercado interno do Brasil tenha uma evolução muito positiva. Nesse sentido, até vejo como positivo ser o Lula ganhar. Ora, eu não sabia, mas essa pessoa com que eu estava a jantar era do comité… dos órgãos nacionais do PT e, na altura, o PT estava a ser acusado de que, se ganhasse, o investimento estrangeiro afastava-se do Brasil. Então essa pessoa disse: eu sou desses órgãos.. não sei o nome exato… do PT e aquilo que você me está a dizer é muito interessante e para nós é muito importante. Você não se importava de fazer umas palestras em que explicava essa sua teoria de que…? Ao fim e ao cabo o que ele queria era que o capital estrangeiro não foge, antes pelo contrário sobe, porque o mercado interno brasileiro vai aumentar de uma forma substancial. Eu respondi: olhe, eu não sou político, tem de falar com o meu acionista para saber se posso fazê-lo. E eu acabei por fazer três, quatro sessões nesse sentido.
Nunca se encontrou com Sócrates nessa altura?
Não, nunca me encontrei. Só aqui em Cascais nas funções de vice-presidente e ele primeiro-ministro. Bom.. mas até fiquei algo preocupado com o marketing brasileiro, porque em pelo menos uma dessas sessões eu fui apresentado como sendo um grande investidor, que não era (risos) e em que o senhor Américo Amorim, o engenheiro Belmiro de Azevedo e o senhor Alexandre Soares dos Santos eram meus funcionários… E eu dizia: vocês têm de ter atenção na forma como me apresentam, porque eu ainda me convenço disso, começo a gastar com o cartão de crédito e quando chegar a Portugal sou preso.
Hoje, se fosse brasileiro, votava Haddad?
Não. Para já, nessas coisas gosto muito de respeitar o país, a sua autodeterminação e a sua independência. Vejo com muita preocupação, porque gosto muito do Brasil e aprecio o povo brasileiro. E, mais do que isso, acho, por outra lógica, a comunidade afro-ibero-latino-americana é uma superpotência que não se tem afirmado e dentro desta comunidade o Brasil é, obviamente, um dos maiores. Enquanto membro desta comunidade, vejo com muita preocupação a evolução das coisas no Brasil, porque qualquer uma das soluções que se apresenta não é boa.
Os brasileiros são uma força aqui em Cascais, não são? São uma das maiores comunidades aqui? Grandes investidores…
Não, não são.
Mas os brasileiros gostam muito de Cascais?
Mas quem é que não gosta? Cascais tem mais de 80% das nacionalidades do mundo. E eu costumo dizer que, em Cascais, ninguém é estrangeiro porque estão todos integrados na nossa comunidade.
Você é o presidente do Mónaco de Portugal?
Não faço a mínima ideia. Para já, porque sou republicano, não sou monárquico. Segundo, sou dos que, por exemplo, acredita que Lisboa tem grandes vantagens por estar na periferia de Cascais.
Cascais não será, à semelhança de Loulé, das terras que mais dinheiro recebem de estrangeiros?
Infelizmente não há essa estatística apurada a nível nacional, não é? Mas temos uma presença estrangeira em Cascais muito importante, que tem sido importante ao longo dos tempos, mas também caracterizada por aquilo que é a componente sociológica de Cascais, que são… nós não temos só estrangeiros, digamos, ricos, também temos estrangeiros pobres, não é por aí que a coisa vai… Temos é de garantir que haja uma boa coesão social e uma boa integração em Cascais e isso é através de políticas que desenvolvemos. Ainda hoje a minha filha, que não gosta de política, disse isto numa entrevista (e mostra vídeo da filha)…
Sai ao pai, portanto…
(Continuando a mostrar o vídeo) Ela vai dizer que gosta de fazer política...
A propósito de filhos, tem na sua câmara as filhas de Balsemão e de Helena Roseta?
Temos na Câmara duas excelentes profissionais, por quem tenho grande respeito do ponto de vista política e que, por sinal, são filhas das pessoas que referiu. Não estão na Câmara por serem filhas de quem são, mas pelo valor que têm.
Claro. O Mónaco é um território que tem grandes restaurantes e animação noturna. Porque é que Cascais não tem animação noturna?
A noite que nós identificamos no nosso tempo de juventude já não é a noite de hoje.
A minha continua a ser.
Você tem essa particularidade. Eu já não sou frequentador da noite como fui em tempos. Mas a noite, hoje, já não é igual à do meu tempo de frequentador da noite. Até porque hoje a noite começa a partir das três da manhã e antes acabava às três da manhã, se tanto. Depois, não cabe a uma autarquia…
Mas tem a ver com licenças, também…
Não cabe à autarquia tomar iniciativa de investimento, não é propriamente de interesse público o investimento na noite. Até hoje não travei, incentivei, mas é uma resposta que tem de vir do privado.
E a sua relação com o Casino é ótima, não é?
Tenho uma boa relação com o Estoril Sol, não só por via do conhecimento que tenho há muito nos em relação a alguns administradores, mas acima de tudo pelo reconhecimento que faço da importância do Estoril Sol para o concelho.
Gostava de lhe perguntar ainda sobre os passes da Grande Lisboa e Porto.
Não são do Porto e de Lisboa, são do país. Em 100, Lisboa tem uma comparticipação para aí de 60, o Porto de 35, o resto do país 15. A área metropolitana de Lisboa leva 60% da fatia, o Porto 35% e no resto do país todo, para resolver o mesmo problema são para aí 15%. Mas é uma medida muito positiva, aliás defendi-a a seu tempo e só posso elogiar o governo… (já me estou a aproximar do dr. Rui Rio) na medida que tomou. Foi uma medida que defendi e ajuda. Mas, para o lado de Cascais, a pergunta que fica é: a medida é boa, a medida é importante, mas pode ter pouca eficácia. Se eu não tiver transportes públicos para utilizar a medida, não adianta nada.
A curiosidade pela maçonaria chegou a fazê-lo ser iniciado nesta sociedade secreta? Faz ou não parte de uma organização do Opus Dei?
Curioso fazer-me essa pergunta, com essa associação. De facto, quando cheguei à Câmara de Cascais como vice-presidente assumi pelouros tão importantes como o urbanismo e o ambiente, a maioria das pessoas não me conhecendo, só encontraram uma explicação para ter tanto poder na opinião delas: ou era da Opus Dei ou era da Maçonaria, mas de facto não era, nem sou de nenhuma das duas, embora tenha tido contactos com qualquer uma delas e tenha formado a melhor opinião sobre as pessoas que conheci nas duas. Aliás penso que têm um deficit de informação e de afirmação que seria muito benéfico para a comunidade, por via dos valores e dos princípios que as norteiam. Sou um homem religioso e com a minha mulher frequentamos a Equipa de Nossa senhora, que é um movimento de leigos católicos. Uma vez por mês reunimo-nos com outros casais católicos e rezamos juntos. Já agora o fundador das Equipas de Nossa Senhora foi o Padre Caffarel, também conhecidas como Equipes de Notre-Dame.
O que tem a dizer do envolvimento do seu nome no caso Vistos Gold?
O meu envolvimento no caso Vistos Gold? Não tive. Apenas fui indicado pelo Ministério Público como testemunha da acusação, mas de facto nada tive a ver com os Vistos Gold, a não ser ter uma posição política contrária aos mesmos pela forma como estava estabelecido o acesso, embora perceba que na época foram muito importantes para fazer ingressar no país meios financeiros que eram muito escassos.
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