O verão ainda agora começou, mas os turistas já estão a chegar à Comporta. E se o movimento destes dias está longe da agitação que invade a pacata aldeia alentejana em agosto – quando é mais procurada pelos visitantes que anseiam por uns dias de férias bem passados –, a chegada dos primeiros veraneantes já destapou um problema que não é novo para quem aqui trabalha.
“Há muita escassez de mão-de-obra, especialmente nesta altura”, diz ao i Cristina Branco, 43 anos. É coordenadora da área educativa e cultural da Fundação Herdade da Comporta e responsável pelo espaço Casa da Cultura, na Rua do Secador, que reúne várias lojas pop-up. Conhece bem, por isso, a dinâmica do problema.
“A estratégia na Casa da Cultura e em vários negócios locais passa por contratar universitários da zona. Mas isso não é solução, porque aqui a comunidade é pequena e a população também”, explica. Empregar estrangeiros é outro plano posto em prática, mas neste caso outro desafio se levanta. É que “não há alojamento. Existe, sim, alojamento de férias, a vários níveis de preços.
E como não abundam casas, claro que quem arrenda prefere arrendar por um preço mais vantajoso a um turista em vez de o fazer a um valor mais acessível para uma pessoa que vem trabalhar”.
Ao fundo da rua, no Largo de São João, há no Colmo Bar um caso gritante da dificuldade que contratar locais representa. “Este ano tivemos de contratar uma rapariga alemã”, conta ao i Felipe Bandarra, 44 anos. Casado com Cristina, os dois lisboetas decidiram rumar a sul há seis anos para mudar de vida. Abriram o bar – que está fechado durante o inverno – e é Felipe quem o gere. “Precisávamos de um bartender e não conseguimos arranjar. Aqui, indiscutivelmente, a maior dificuldade de qualquer empresário é a mão-de-obra. É que as pessoas no Alentejo, com o devido respeito, estão paradas no 25 de Abril.”
Para Felipe, a base da conjuntura económica que ali se vive está nos apoios estatais. “O subsídio de desemprego e o rendimento social de inserção são uma questão muito séria do nosso país, e aqui vê-se bem isso e é absolutamente assustador. É uma âncora. As pessoas preferem os subsídios a trabalhar, e isso trava a economia”, lamenta o empresário. “Neste momento, a minha perspetiva do Alentejo é que não tem futuro, pelas pessoas que aqui habitam e pela mentalidade de trabalho”, considera.
Quando estava à procura de uma pessoa para a função, enviou anúncios para a “Escola de Hotelaria de Setúbal, que não respondeu a três emails e cinco telefonemas”, a “Escola de Hotelaria de Lisboa, que respondeu” e ainda a “de Portalegre, que não deu qualquer resposta”.
E se a maioria dos empresários com quem o i falou optaram por não revelar as condições que oferecem, Felipe prefere a transparência. “Por oito horas de trabalho pago 850 euros, mais prémios no final do ano. Isto é dramático”, lamenta. E os jovens da terra? “A minha leitura é esta: por muito que a universidade abra horizontes, eles chegam a casa e ouvem aquilo que ouvem já há 40 anos. Tem de haver aqui uma reforma cultural e mental gigante para que a região tenha progresso”, defende.
Para Felipe, as câmaras municipais deviam ter um papel mais interventivo na criação de possibilidades de as pessoas poderem aqui residir para trabalhar.