27/06/2019
 

MUNDIAL 2018

Portugal-Espanha. “Ponga los dos! Ponga los dos!”


O primeiro confronto entre as duas seleções para um Mundial deu em 9-0 para os espanhóis. Uma canção da época mofava: “Quando a seleção trabalha/ Como eu quero/ Então é que não falha/ Nove a zero!”

Se a fase final do Mundial de 1930 fora aberta a todas as seleções, para 1934, a FIFA tinha imposto jogos de qualificação, distribuindo as equipas por eliminatórias geográficas ou, pelo menos, o mais geográficas possíveis. 

Geograficamente, coube a Portugal disputar com a Espanha uma das vagas no Mundial de Itália. Ninguém em perfeita consciência seria capaz de adivinhar que, como nas aventuras dos gauleses desenhadas por Uderzo e inventadas por Goscinny, o céu estava à beira de nos cair em cima da cabeça.

E havia um otimismo comedido, no entanto. É verdade que em abril do ano anterior, em Vigo, Portugal voltara a perder sem apelo nem agravo (0-3) com o seu vizinho implacável. 

Coube a Portugal deslocar-se a Madrid, ao velho campo de Chamartín, do Real Madrid, para o primeiro de dois jogos que eram, nesse tempo, os mais importantes da história do futebol português, dia 11 de março de 1934. A segunda mão estava marcada para oito dias depois, em Lisboa. Em caso de ser necessário um desempate, este seria em Vigo. 

Na antevéspera do encontro, a esperança lusitana parecia crescer a olhos vistos. “Conseguirá o onze português ser a primeira equipa nacional estrangeira a bater a Espanha em sua casa?”, perguntava “Os Sports” na primeira página. Uma esperança que se mantinha acesa apesar de se relembrarem os trabalhos de Hércules que a “Alma” portuguesa teria de realizar para levar de vencida a Fúria espanhola: nunca, de Espanha, uma seleção estrangeira tinha saído com a vitória, nem mesmo essa todo-poderosa Inglaterra que lá perdera por 3-4; o relvado de Chamartín jogaria a nosso desfavor, habituados que estávamos aos pelados nacionais. 

DESASTRE!

O selecionador Ribeiro dos Reis não se deslocaria a Madrid. Apoquentado por doença grave de sua mãe, é substituído pelo seu companheiro de jornalismo e de vida, Ricardo Ornelas. Estudam em conjunto a estratégia, tudo está previamente estabelecido.

Ficou combinado que cada conjunto poderia fazer três substituições e que Portugal, que usava normalmente um equipamento igual ao de Espanha (camisola vermelha e calção azul), jogaria de camisola verde. A Fúria vestia vermelho-sangue. 

Aos 2 minutos já Portugal sofrera um golo, marcado por Lángara. O keeper Soares dos Reis acusava claramente a inibição da sua estreia internacional e precipitava-se sempre que a bola rondava a sua baliza. Havia na defesa lusitana uma sensação de completo descontrolo, apesar de estar tudo ainda no início. Cillauren, Marcoleta, Reguero e Lángara jogam a seu bel-prazer. Do lado português, apenas o experiente Augusto Silva, o velho Leão de Amesterdão, como ficara conhecido, se ia rebelando contra uma superioridade contrária cada vez mais asfixiante. É ele que empurra Acácio Mesquita (que só tinha sido internacional uma vez e não voltaria a sê-lo) e Domingos Lopes (estreia absoluta) para uns tímidos movimentos de ataque, apoiando Pinga, outro inconformado que vai tentando alvejar de longe a baliza de Zamora. Com um guarda-redes daquela dimensão, essas tentativas tornam-se quase patéticas. 

Os cantos contra Portugal multiplicam-se. Depois de três consecutivos, Gorostiza fornece a Lángara a possibilidade de mais um golo que este não desperdiça. O 3-0 surge num penálti convertido pelo insaciável Lángara. O desastradíssimo Soares dos Reis é substituído por outro estreante, o benfiquista Amaro. Alguém no público soltou, bem-humorado, para o treinador de Portugal: “Ponga los dos!” 

A pressão espanhola era tão grande que durante largos minutos Portugal não saía do seu próprio meio-campo. Com a vantagem, a Fúria foi esmorecendo. Mas o pesadelo estava longe de acabar. 

O total desmembramento de Portugal facilita a ação dos espanhóis, que regressam para a segunda parte ainda mais dinâmicos. Chocha faz o 4-0 e, pouco depois, aproveitando o adiantamento de Amaro, Luis Regueiro faz o quinto golo com um remate longínquo e colocado. Nada há a fazer para evitar o descalabro. Sentindo-se capazes de uma proeza igual à que haviam cometido frente à Bulgária (13-0) no seu último confronto internacional, os espanhóis atiram-se desenfreadamente sobre a atarantada defesa lusa. Os cantos voltam a suceder-se a um ritmo confrangedor. E com eles prossegue a chuva dos golos: 6-0 por Valtolrá; 7-0 por Regueiro; 8-0 por Lángara; 9-0 por Lángara. Ufff! São quase seis horas da tarde em Madrid e anoitece. O árbitro Van Praag põe fim ao martírio de uma Alma destroçada. A Fúria, saciada, prepara--se agora para um passeio até às margens do Tejo.

Os 9-0 marcaram profundamente o futebol português. Seriam motivo de zangas e conflitos, alvo de chacota - ganhou fama uma canção chamada “Trevo de Quatro Folhas”, de Nascimento Fernandes, que ia assim: “Quando a seleção trabalha/ Como eu quero/ Então é que não falha/ Nove a zero!

A história dos números


Pelé foi 10 por causa de uma mala; Eusébio 13 por troca; Müller 13 por causa de Eusébio; Cruyff devia ter sido 1 mas foi 14...

O primeiro Mundial no qual os jogadores surgiram com camisolas numeradas foi o de 1938, em França. Vinte anos depois, na Suécia, o número 10 do Brasil marcava a história do futebol para sempre. Chamava-se Edson Arantes do Nascimento, dito Pelé, e tinha uns escandalosos 17 anos. Nelson Rodrigues, o inigualável cronista brasileiro, dizia que seria corrido de um filme de Brigitte Bardot, mas isso não impediu o selecionador Vicente Feola de levar o garoto para a Suécia.

Pelé não era titular dessa equipa. Aliás, não foi titular nos dois primeiros encontros da fase final do campeonato do mundo de 1958. Depois, quando foi, frente à União Soviética, nunca mais aquele 10 azul num fundo amarelo fugiu da memória dos que gostam do jogo inventado pelos ingleses. O adolescente parecia não ter costas para os dois algarismos, mas fazia coisas que até então ninguém se atrevera a fazer. 

Volto a Nelson Rodrigues, que adivinhou o que iria acontecer na Suécia dois meses antes: «Quero crer que a maior virtude de Pelé é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se acima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola que vem a seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos, de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril, mesmo insolente, que precisamos. Sim, amigos: – aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau».

Tinha razão.

O 10 de Pelé no escrete caiu por acaso. A Confederação Brasileira de Desportos atribuiu os números por equivalência aos números das malas dos jogadores. Assim, Garrincha, ponta-direita, foi o 11 e Zagallo, o ponta-esquerda foi o 7. Já Pelé ficou 10 para sempre! Nenhum outro número lhe ficaria tão bem.

EUSÉBIO DE 11 PARA 13

Se a Suécia fez a justiça de transformar Pelé no 10 absoluto, a Inglaterra, em 1966, deu ao mundo o número 13 de Eusébio. António Simões, seu colega de clube e de seleção, contou esta história certa vez: «Antes de seguirmos para o Mundial, os números foram sorteados. Eusébio ficou com o 11 e eu com o 13. Ora, eu jogava sempre com o 11 e convenci-o a trocarmos de camisolas. Disse-lhe que ele era o jogador ideal para desmistificar a ideia de que o 13 dá azar.

Que iria transformar o 13 num número feliz». Eusébio ainda franziu o cenho mas deixou-se convencer. Foi o 13 sem reservas. 

O Mundial de 66 foi o Mundial de Eusébio e o 10 de Pelé ficou embaciado pela luz intensa do futebol do rapaz da Mafalala. As exibições do 13 português correram os quatro cantos deste planeta sem cantos, apenas redondo e achatado nos polos. A exibição frente à Coreia do Norte, na reviravolta de 0-3 para 5-3 com quatro golos seus ficará para sempre pendurada como uma fotografia em movimento na parede branca da nossa memória.

Simões acertou. O 13 deixou de ser um número maldito para ser um número apetecido. No Mundial de 1970, no México, o avançado-centro da República Federal Alemã jogou com o número de Eusébio. Se o 13 se sagrara o melhor marcador do torneio em Inglaterra, com 9 golos, seria novamente o 13 a ser o melhor marcador do torneio no México, com 10. Quatro anos mais tarde, o 13 de Müller na Alemanha ficou para os registos universais: contabilizando 14 golos em fases finais, ultrapassava o francês Just Fontaine, que marcara 13.

A LENDA DO 14

Se Müller levou o 13 de Eusébio a duas campanhas fantásticas da Alemanha Ocidental, em 1970 (perdeu na meia-final frente à Itália) e em 1974 (campeã do mundo frente à Holanda), Cruyff transformou o 14 em fundo laranja em algo de indiscutivelmente icónico. Mais uma vez por simples acaso. 

No dia 30 de outubro de 1970, o Ajax preparava-se para enfrentar o PSVEindhoven e Gerrie Muhren não conseguia encontrar a sua camisola 7 em lado algum do balneário. Cruyff ofereceu-lhe a 9 com que jogara sempre até aí. Muhren meteu a mão no cesto da roupa e tirou uma para o companheiro. Saiu a 14. O Ajax venceu por 1-0 e, na semana seguinte, Cruyff decidiu: «Gerrie, correu tão bem da última vez que vamos manter os números». A partir daí, sempre que possível, jogava com o 14 nas costas.

No Mundial de 1974, o treinador Rinus Michels decidiu distribuir os números por ordem alfabética. E, dessa forma, o guarda-redes Jongbloed ficou com a 8 e o avançado Ruud Geels com a 1. 

Cruyff, enfim, era Cruyff: ninguém teve coragem para o meter na lista e ficou com a 14. Se não, teria sido ele a usar a número 1.

A Argentina em 1978, 1982 e 1986 também optou pela política da ordem alfabética. E, dessa forma, no ano do seu primeiro título de campeã do mundo tinha um guarda-redes com o número 5 (Fillol), cabendo ao mestre do meio campo, Ardilles, o 2. Em Espanha, Ardilles foi assim como promovido. Alonso não foi convocado e subiu a 1. Já Maradona, em 1982 e 1986, ficou com o 10. Há certos privilégios que não se contrariam. 

Os 'velhotes', as estreias e os clubes com mais jogadores no Mundial 2018


O Mundial está quase a começar e com ele começam a surgir algumas curiosidades sobre a competição. Sabe quantos anos tem o jogador mais velho? E quais os jogadores que já estiveram mais vezes em mundiais? A FIFA organizou alguns números e criou um artigo só com estas curiosidades

AS SELEÇÕES FEITAS 'EM CASA'

A seleção de Inglaterra é composta 100% por jogadores que competem naquele país. A seguir à equipa das terras de Sua Majestade vem a Rússia, que, dos 23 convocados, 21 jogam no país que recebe este ano o mundial. A Arábia Saudita surge em terceiro lugar, com 20 dos 23 jogadores a competir naquele país.

Depois existe o lado completamente oposto: o Senegal e a Suécia não têm um único jogador que compita nos respetivos campeonatos nacionais. A Bélgica, a Islândia, a Nigéria e a Suíça têm apenas um jogador nestas condições.

No caso de Portugal, há mais atletas ‘lá fora’ do que a competir cá dentro: na época passada, 17 dos 23 convocados estavam em campeonatos estrangeiros e apenas seis jogavam em Portugal – Rui Patrício, Rúben Dias, Gelson Martins, Bruno Fernandes, William Carvalho e Ricardo.

A FIFA dá ainda um dado curioso: 74% dos jogadores que vão competir no Mundial deste ano jogam na Europa.

OS REPETENTES

De acordo com a organização, 200 dos 736 jogadores que vão estar na Rússia a partir de 14 de junho já competiram noutros mundiais. “186 estiveram no Brasil em 2014, 61 na África do Sul em 2010, 21 na Alemanha em 2006 e um na Coreia/Japão em 2002: Rafa Marquez”, explica a FIFA.

Destes jogadores, 53 marcaram golos. O alemão Thomas Muller está no topo da lista, com 10 golos, seguido do colombiano James Rodriguez (seis), o australiano Tim Cahill (cinco), os argentinos Gonzalo Higuain e Lionel Messi (cinco cada um) e o uruguaio Luis Suarez (cinco).

Rafa Marquez volta a aparecer nas estatísticas da FIFA: tanto o mexicano como o argentino Javier Mascherano, ocupam o primeiro lugar da lista dos atletas que jogaram mais vezes em mundiais – 16 vezes cada um.

Seguem-se Messi, com 15 participações, o alemão Mesut Ozil (14), Muller (13), o alemão Manuel Neuer (13), o espanhol Sergio Ramos (13) e o craque português Cristiano Ronaldo (13).

OS ‘VELHOTES’

Sabe qual é o jogador mais velho a competir na história do Mundial? Chama-se Essam El-Hadary e é guarda-redes da seleção egípcia. Tem 45 anos e cinco meses e é o homem mais velho a ser convocado para esta competição. A 15 de junho, quando o Egito se estrear contra o Uruguai, Essam El-Hadary deverá bater o recorde do colombiano Faryd Mondragon (43 anos) e tornar-se o jogador mais velho a participar num munidal.

El-Hadary tem uma diferença de idade de seis anos para o segundo mais velho (o mexicano Rafa Marquez). Para além disso, segundo a FIFA, existem três treinadores mais novos que este guarda-redes: Aliou Cisse, do Senegal, Mladen Krstajic, da Sérvia, e Roberto Martinez, da Bélgica.

Outra curiosidade é a diferença de idades entre treinadores: o senegalês Aliou Cisse tem 29 anos de diferença do ‘mister’ mais velho. Neste mundial o uruguaio Oscar Tabarez, de 71 anos, tornar-se-á o segundo treinador mais velho a participar nesta competição, a seguir ao alemão Otto Rehhagel.

OS 'NOVATOS'

Por outro lado, alguns jogadores têm idade para serem netos da maioria dos treinadores que vão participar no Mundial 2018. O australiano Daniel Arzani tem apenas 19 anos e é o atleta mais novo a participar nesta competição.

Segundo a FIFA, “Femi Opabunmi (17 anos e dois meses), Theo Walcott (17 anos e três meses), Christian Eriksen (18 anos e quarto meses) and Fabrice Olinga (18 anos e um mês) foram os jogadores mais novos dos mundiais de 2002, 2006, 2010 e 2014”, respetivamente.

De acordo com a organização, a média de idade dos 736 jogadores é de 28 anos – trata-se da edição que tem uma média de idade mais velha de sempre.

DE ONDE VÊM OS JOGADORES?

A equipa mais bem representada neste mundial é o Manchester City – 16 jogadores competem neste clube. Segue-se o Real Madrid (15), o Barcelona (14), o Chelsea (12), o Paris Saint-Germain (12) e o Tottenham Hotspur (12).

Segundo as estatísticas divulgadas pela FIFA, Inglaterra é o país onde mais convocados jogam (124). Seguem-se Espanha (81) e Alemanha (67).

AS GRANDES PAUSAS

Alguns jogadores estiveram mais tempo do que esperavam sem competir em mundiais. Mas, em 2018, chegou a altura de regressarem a esta competição.

É o caso do costa-riquenho Randall Azofeifa: há 12 anos, este jogador foi um dos suplentes que entrou num jogo contra a Alemanha, quando a Costa Rica perdeu por 4-2.

É também o caso de Lukasz Fabianski. O guarda-redes polaco foi convocado há 12 anos mas não chegou a jogar, deixando a baliza para o titular Artur Boruc.

EM EQUIPA QUE GANHA NÃO SE MEXE?

A Alemanha venceu o Mundial no Brasil, em 2014. Da equipa vencedora, o treinador Joachim Low decidiu voltar a convocar nove jogadores. Já Vicente Del Bosque decidiu convocar para a seleção espanhola 16 dos jogadores que venceram a edição de 2010, na África do Sul.

Portugal-Espanha. O golo de Batatinha à Hespanha com agá


Em dezembro de 1921, a primeira seleção nacional deslocou-se a Madrid de comboio para defrontar a equipa espanhola. Perdeu por 1-3. Seria preciso esperar 16 anos por uma vitória contra os vizinhos do lado

No dia 18 de dezembro de 1921, na página 2 do diário “O Século”, cá em baixo, ao lado da coluna da necrologia, que dava conta dos funerais da véspera e anunciava os do dia, vinha o título: “O ENCONTRO PORTUGAL-HESPANHA - Os hespanhoes triunfaram mas os portugueses honraram o foot-ball nacional”.

E lia-se, tal e qual como aqui fica:

“Os jogadores de ‘foot-ball’ portuguezes realizaram hontem, em Madrid, o seu primeiro encontro oficial. É já do conhecimento do público o resultado do match, pois o placard do Século no Rocio afixou, pelas 17 horas e meia, o seguinte telegrama: “MADRID, 18 - O encontro de foot-ball realizado hoje em Madrid foi de 3 ‘goals’ a 1 a favor dos hespanhoes. Não será o resultado do encontro Portugal-Hespanha honroso para nós? Certamente que sim e teremos de atender à má confecção do team, às dificuldades que a AFL teve para o organisar e a falta de interesse manifestado por várias entidades, a começar pelo Estado, que dificilmente concedeu licença a alguns jogadores, funcionários publicos.” Como o futebol mudou entretanto...

COMBOIO

Não existia ainda a Federação Portuguesa de Futebol, mas sim a União Portuguesa. A recém-formada seleção portuguesa, que se prepara para a grande aventura de uma viagem de comboio até Madrid, onde jogará em Manzanares o seu primeiro confronto, leva já um enorme atraso em relação a muitas outras seleções do Velho Continente. Países como a França, a Holanda ou a Áustria disputam confrontos internacionais desde o primeiro quinquénio de 1900; Inglaterra e Escócia defrontam-se em pelejas animadíssimas desde 1870! O mesmo não se passa com a Espanha, no entanto. Apesar de ser um dos países fundadores da Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA), em 1904, a seleção espanhola iniciara a sua carreira somente um ano antes, durante o Torneio Olímpico de Futebol dos Jogos disputados na Bélgica.

No dia seguinte, “O Século” desenvolvia a reportagem do jogo e voltava a dedicar--lhe um artigo na sua página 2 que aqui se reproduz sem alterar uma vírgula: “MADRID, 19 - A partida de foot-ball entre portuguezes e hespanhoes efectuou-se no meio de grande anciedade. Mais de 12.000 pessoas assistiram ao desafio e no campo as tribunas ostentavam colgaduras vendo-se bandeiras dos dois paizes entrelaçadas. Os vivas a Hespanha cruzaram--se de mistura com os vivas a Portugal. Os hespanhoes começaram jogando com grande impeto e, poucos momentos depois, Meana com um remate de cabeça consegue o primeiro ponto para a Hespanha; 5 minutos mais tarde Alcantara consegue o segundo. Continua o desafio, ganhando bem as duas équipes. Termina então o primeiro tempo, com dois pontos a favor de Hespanha e nenhum a favor de Portugal. No segundo tempo, Alcantara consegue o terceiro ponto para a Hespanha, o que estimula os portuguezes, que procuram dominar os hespanhoes, mas não fazem ponto algum, porquanto estes são superiormente aparados pelo ‘keeper’ hespanhol. Os portuguezes conseguem fazer um ponto, em virtude de uma mão metida na arena do goal, o que dá ocasião a uma enorme ovação a Portugal. A partida termina, contando os hespanhoes 3 pontos e os portuguezes 1. Ovações e hurrahs tanto à Hespanha como a Portugal. O arbitro do desafio foi Cazelle, do colégio belga, que tambem foi muito ovacionado pela imparcialidade e oportunismo que deu provas.”

Para a história, eis o registo desse primeiro confronto ibérico: Estádio Martínez Campos, do Atlético de Madrid, em Madrid. Árbitro: M. Barette (Bélgica). ESPANHA - Zamora; Pololo, Arrate “cap.” e Balbino; Meana e Fajardo; Pagaza, Arbide, Sesumanga, Alcantara e Olaso. PORTUGAL - Carlos Guimarães (Internacional); António Pinho (Casa Pia), Jorge Vieira (Sporting) e João Francisco (Sporting); Vítor Gonçalves (Benfica) e Cândido de Oliveira (Casa Pia “cap”.); J. Maria Gralha (Casa Pia), António Augusto Lopes (Casa Pia), Ribeiro dos Reis (Benfica), Artur Augusto (F. C. Porto) e Alberto Augusto (Benfica).

O 1-0 surgiu aos 6 minutos, na sequência de um livre marcado por Pagaza entre a linha lateral e a linha de grande área. Meana elevou-se bem e cabeceou com êxito. Aos 10 minutos, 2-0: Alcantara desmarca-se, isola-se frente a Carlos Guimarães e faz o golo com calma. Aos 66 minutos, de novo Alcantara - um avançado que chutava com tanta força que colocava um lenço traçado sobre o peito do pé para não se magoar -, num remate espetacular e sem preparação, faz o 3-0. Finalmente, o golo de Portugal surgiu de um penálti a castigar uma mão de Pagaza, impedindo que uma bola vinda de António Lopes chegasse a Ribeiro dos Reis. Alberto Augusto, o Batatinha, apontou o castigo e tornou-se o primeiro jogador a marcar um golo com a camisola da seleção nacional. 

Contrariados pela grande ascendência de lisboetas na formação da seleção, os técnicos e jogadores do Porto resolveram levantar um boicote à deslocação a Madrid. Apenas Artur Augusto desobedeceu às diretivas e destacou-se como o único representante de Portugal que não era da capital. 

Tirando o pormenor do nome do árbitro, ainda hoje mal esclarecido já que surge escrito de maneiras diferentes consoante as publicações consultadas, o Espanha-Portugal de 1921 poria Portugal no mapa dos confrontos internacionais de seleções.