18/12/2018
 

MONTEPIO

A ÚLTIMA DAS MUTUALISTAS

TEXTO: SÓNIA PERES PINTO
As eleições da Associação Mutualista Montepio estão à porta - dia 7 de dezembro -, mas os milhares de associados já podem votar por correspondência. O i quis saber o que os três candidatos querem para a instituição e o seu programa eleitoral, não esquecendo os problemas de instabilidade que a associação enfrenta e a sua possível resolução. Mas não ficamos por aqui. Nestas páginas fique a saber como surgiu o Montepio, como funciona, quais as vantagens do associado e os desafios que a entidade enfrenta com as novas regras do mutualismo

A maior associação mutualista do país. Montepio nasceu em 1840

A Associação Mutualista Montepio apresenta-se como uma espécie de complemento à Segurança Social onde os associados são acionistas e donos do banco. Ao longo dos anos foi alargando a sua atividade ao negócio bancário e segurador

Francisco Álvares Botelho, funcionário da Fazenda Pública, dá o primeiro passo ao convocar, em março de 1840, a primeira reunião do Plano do Montepio Literário, na Academia de Belas Artes, mas nessa altura não sabia que estava prestes a criar aquela que viria a ser a maior associação mutualista portuguesa. A Álvares Botelho, o funcionário público considerado o fundador do Montepio, juntaram-se, na altura, 269 participantes. Quatro anos depois, a iniciativa ganhou um novo fôlego ao adotar uma nova designação – Montepio Geral – e com a abertura a novos associados que não apenas funcionários do Estado.

Assente nos valores da liberdade, igualdade, responsabilidade e solidariedade, as grandes preocupações do mutualismo do Montepio centraram--se na proteção e no futuro dos associados, num tempo em que a segurança social ainda não tinha dado os primeiros passos.

A verdade é que a instituição foi crescendo e conta agora com mais de 630 mil associados. Estes apresentam-se como acionistas e clientes do banco e, no final do ano, têm direito a receber dividendos consoante os resultados da associação.

Ao longo dos anos, a instituição foi apostando na oferta seguradora ­– através da Lusitânia – e em produtos diversificados de poupança que foram conquistando os clientes portugueses. Mas ao contrário da oferta tradicional da banca, nos produtos mutualistas a poupança é rentabilizada desde que o associado mantenha o vínculo associativo, durante o período de tempo em que a subscrição esteja ativa – tudo isto pensando nas poupanças a longo prazo, variando a média entre os 15 e os 20 anos.

Por isso mesmo, os produtos apresentam um custo para quem não quer pensar a longo prazo. Isto significa que resgatar a poupança mais cedo traduzir--se-á em penalização e até na perda de rendimento.

Além disso, para subscrever uma modalidade mutualista do Montepio tem de se tornar associado e, para tal, assegurar o pagamento de uma joia inicial e da quota mensal associativa. O montante da sua poupança e a quota da modalidade podem ser fixados à partida, concretizando-se em poupanças regulares programadas, ou serem entregues de modo não programado.
Mobirise

Benefícios

Por ser associado e por pagar uma quota mensal – um euro para associados até 2015 e dois euros a partir daí –, o mutualista tem acesso a uma série de vantagens, nomeadamente no que diz respeito à isenção de comissões mensais, assim como a vários descontos nos mais variados serviços, desde saúde a lazer, entre outros. É o caso de hotéis, restaurantes. serviços óticos, centros de estudo, entre muitos outros exemplos, mediante a apresentação do cartão de associado, ou seja, funciona na mesma modalidade do famoso Cartão Jovem. Daí ser disponibilizado ao cliente um livro de descontos. Estes também estão disponíveis no site da associação.

Mais recente é a aposta do Plano Montepio Saúde, que consiste num conjunto de benefícios orientados em exclusivo para os associados e destinados ao acesso a cuidados de saúde diferenciados, em condições de preços convencionados e mais vantajosos, prestados por médicos, clínicas e hospitais de referência que integram esta rede. “Tem o objetivo de proporcionar a excelência médica privada aos nossos associados, a custo reduzido, tornou-se uma realidade gratificante. Mais de seis mil utilizações mensais do Cartão Montepio Saúde, num valor superior a 3,4 milhões de euros de descontos para os associados, refletem uma estratégia certeira de benefícios e a confiança de respondermos às suas necessidades como associado”, garante a entidade.

Outra novidade diz respeito ao projeto Montepio U Live – Residências para Estudantes, que nasceu em 2016 com o objetivo de proporcionar aos estudantes alojamento de qualidade no centro das grandes cidades a um preço acessível. Serão cerca de 200 quartos disponíveis em zonas nobres de Lisboa, Porto e Évora, com um preço médio inferior a 400 euros e onde é oferecido um desconto de 10% no valor da mensalidade aos associados..

Além disso, por a Associação Mutualista Montepio ser a única dona do banco, acaba por fazer uma “venda cruzada” entre as duas instituições e o banco financia-se com produtos da associação mutualista. É frequente um cliente ter um spread mais baixo no crédito à habitação se for associado.

Mas a isto há que juntar outra diferença. A oferta de poupança disponibilizada pela associação mutualista está regulada pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social, pelo que não beneficia do Fundo de Garantia de Depósitos, que assegura até 100 mil euros por depositante – uma questão que, durante os últimos anos, tem gerado grande preocupação junto dos associados devido à instabilidade vivida na associação, dona a 100% do Montepio.

O i sabe que há clientes que querem fechar as suas aplicações, mas as penalizações que estão a ser cobradas são demasiado elevadas e, por isso mesmo, acabam por desistir e manter os produtos financeiros. Há casos em que as penalizações chegam a atingir os 10% do montante que está aplicado e há produtos em que os clientes são obrigados a devolver os benefícios fiscais no caso de terem tido essa vantagem em anos anteriores.

A aposta numa remuneração superior em alternativa aos depósitos a prazo foi a regra seguida pelo banco, nos últimos anos, na oferta dos mais variados produtos mutualistas, e nem sempre os clientes estavam a par dessas diferenças, sendo agora confrontados com esses riscos e penalizações quando têm a intenção de mudar as suas poupanças de banco.

A reserva do banco é que poderá indemnizar os clientes em caso de falência. “Estas soluções mutualistas são muito semelhantes a um seguro de capitalização. Até têm a mesma fiscalidade, mas a autoridade que as regula é um ministério, portanto, o próprio governo”, chegou a alertar o economista António Ribeiro, da Deco.

Banco de Portugal impôs separação de águas em 2015

O objetivo foi criar uma maior independência entre a associação mutualista e o banco. A liderança também deixou de ser comum

O conselho de ministros aprovou em 2015 um diploma que veio regulamentar a atividade das caixas económicas que funcionam como bancos. Uma clarificação e reforço da supervisão do Banco de Portugal e uma separação clara entre os acionistas e a administração das instituições foram dois aspetos destacados pelo anterior governo.

Este diploma veio distinguir as caixas económicas de maior dimensão, onde se inclui o Montepio Geral, que passam a estar equiparadas a bancos em matéria de controlo e supervisão. O critério é terem ativos superiores a 50 milhões de euros.

Na altura, o executivo considerou que, com estas alterações, foi possível ultrapassar um patamar de alguma indefinição em relação a esta instituição, designadamente em matéria de supervisão.

A lei “consagra a diferença, perante o mercado e os consumidores, de atuação e posicionamento no setor bancário entre as caixas económicas que pretendem exercer uma atividade bancária delimitada nos termos do presente diploma e aquelas que pretendam atuar sob uma licença de atividade bancária universal e de forma muito similar aos bancos”. Uma vez que “as caixas económicas são instituições de crédito, afigurou-se também necessário reforçar as regras de governo interno que lhes são aplicáveis, clarificando quais os modelos de governação societária que podem ser adotados e a aplicabilidade dos preceitos do Código das Sociedades Comerciais em matéria de eleição, composição e funcionamento dos respetivos órgãos sociais”.

Com esta separação, Tomás Correia, que acumulava a liderança das duas instituições, foi obrigado a abandonar um dos cargos, através da aprovação dos novos estatutos, e foi substituído no banco por José Félix Morgado, que entretanto já saiu da instituição, tendo o seu lugar sido ocupado por Carlos Tavares. A ideia era simples: garantir uma maior independência entre banco e associação.

ELEIÇÕES MONTEPIO

Corrida a alta velocidade num momento de grandes mudanças

Ato eleitoral ocorre numa altura em que está para breve a entrada do novo Código das Associações Mutualistas. Ainda assim, o Montepio vai beneficiar de um período de transição de 12 anos para adaptação ao novo regime
A Associação Mutualista Montepio já está em contagem decrescente para as eleições que se realizam no próximo dia 7 de dezembro. Na corrida estão três listas que apelam à necessidade de renovação da instituição que é dona do banco com o mesmo nome. Mas se, até há pouco tempo, as dúvidas estavam relacionadas com o nome que iria encabeçar a lista de continuidade a ser promovida pela atual administração – uma exigência dos estatutos, mesmo que não mantenha os administradores ainda em funções ­–, elas dissiparam-se no final de outubro, com Tomás Correia a avançar para aquele que poderá ser o seu último mandato.

À sua lista juntam-se dois dos atuais administradores: Carlos Beato e Virgílio Lima. Também Luís Almeida (ex-quadro da caixa económica) é outro nome que vai estar presente, assim como Idália Serrão (deputada socialista e secretária da mesa da Assembleia da República). Vítor Melícias mantém-se como presidente da mesa da assembleia-geral, enquanto Maria de Belém será presidente do conselho geral.

Também na corrida está António Godinho, que já concorreu às últimas eleições e junta a oposição do último ato eleitoral, tendo obtido no seu conjunto 40% dos votos. Fazem parte da lista Alípio Dias (conselho geral), o general José Pinto Ramalho (mesa da assembleia-geral) e Eugénio Rosa (conselho fiscal).

 A outra lista concorrente é liderada por Fernando Ribeiro Mendes, atual administrador da associação mutualista e que entrou em rutura com Tomás Correia mas, ainda assim, mantém-se no cargo. A este juntam-se nomes como Miguel Coelho (atual administrador da mutualista e quadro do banco, votou contra o aumento de capital e o lançamento da oferta pública de aquisição da mutualista sobre a Caixa Económica Montepio Geral), Maria Nazaré Barroso (membro do conselho de administração da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões – ASF) e Pedro Corte Real (professor da Universidade Nova). Já Vítor Baptista (antigo dirigente do PS de Coimbra) é o nome indicado para o conselho geral.

Eleições concorridas

Até 2003 houve sempre apenas uma lista a eleições e só no final desse ano é que começaram a surgir candidaturas alternativas. Nessa altura coube a António Maldonado Gonelha, ex-ministro do Trabalho e da Saúde, fazer face à lista de José da Silva Lopes, que saiu vencedora.

A partir daí, o interesse pelas eleições no Montepio foi ganhando maior relevo e as listas também se foram multiplicando. Exemplo disso foi o que aconteceu no último ato eleitoral: apareceram na corrida quatro candidaturas e foi possível, ao mesmo tempo, encontrar um pouco de tudo, de ex-políticos a dirigentes sindicais, contando ainda com apoios públicos, nomeadamente com figuras ligadas às artes.

A lista liderada por Tomás Correia venceu as eleições para a associação mutualista com 58,7% dos votos, mas envolvida em forte contestação. Uma das candidaturas derrotadas – de António Godinho, um dos rostos do projeto “Renovar Montepio” – chegou a pedir a impugnação dos resultados, apontando falta de transparência, nomeadamente por não ter sido possível às listas da oposição assistir ao processo de validação dos votos por correspondência (mais de 95% dos votos não são presenciais) com o argumento de que os dados dos associados são protegidos por sigilo bancário (uma vez que a validação das assinaturas é feita por semelhança com a assinatura dos clientes na base de dados bancária), considerando-se que isso facilitaria eventuais falsificações de votos. Mas, no ano passado, o tribunal chumbou a repetição das eleições, considerando improcedente o processo que tinha sido intentado.

Desafios

Estas eleições surgem numa altura em que estão em marcha mudanças profundas no setor. O conselho de ministros aprovou recentemente o novo Código das Associações Mutualistas, segundo o qual estas passaram a ser supervisionadas pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, sendo o Montepio Geral um dos visados.

No entanto, as associações de maior dimensão vão beneficiar de um período de transição de 12 anos para adaptação ao novo regime. Isto significa que o executivo vai ter responsabilidades diretas na fiscalização das adaptações da Associação Mutualista Montepio durante esse período. Ao mesmo tempo está prevista a criação de uma comissão de acompanhamento do período de adaptação, com representantes do Ministério das Finanças e da Segurança Social. O i sabe que esta foi uma das sugestões feitas pelo Montepio.

Com esta alteração, a comercialização de modalidades de benefícios de segurança social terá de cumprir as mesmas regras a que estão sujeitos os produtos financeiros das seguradoras. Aliás, este era um dos objetivos do governo e das autoridades reguladoras: assegurar que os produtos financeiros das mutualistas passassem a ser fiscalizados por um regulador financeiro, face à ausência de supervisão que existia. Recorde-se que, atualmente, esta supervisão recai no ministério de Vieira da Silva.

Além disso, as mutualistas com mais de 100 mil associados vão ser obrigadas a ter uma assembleia de representantes, para assegurar a “adequada representação dos associados por áreas geográficas, locais de trabalho ou grupos profissionais”, segundo o novo código.

Recorde-se que a associação mutualista é o topo do Grupo Montepio, tendo como principal empresa a Caixa Económica Montepio Geral, que desenvolve o negócio bancário e da qual, até meados de 2015, Tomás Correia também era presidente.

No ano passado, a associação mutualista apresentou nas contas individuais lucros de 587,5 milhões de euros, bem acima dos 7,4 milhões de euros de 2016 – isto depois de ter passado a estar sujeita a pagar IRC (imposto sobre os lucros das empresas), por decisão das Finanças, após um “pedido de informação vinculativa” da própria associação, apesar de manter o estatuto de IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social. Com essa alteração do regime fiscal, as contas beneficiaram do impacto de ativos por impostos diferidos superiores a 800 milhões de euros.

Já o presidente do banco mutualista é Carlos Tavares (ex-ministro da Economia do governo PSD de Durão Barroso e ex-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários). No primeiro semestre do ano, a instituição financeira apresentou lucros de 15,8 milhões de euros, o que representou um aumento de 21,1% face a igual período do ano passado. A redução de imparidades e de provisões contribuiu para inverter o ciclo negativo dos exercícios passados.

Também em cima da mesa está a mudança de nome do banco, que deverá estar concluída até ao final do ano.
A instituição financeira liderada por Carlos Tavares já deu entrada do pedido de registo da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial para Banco Montepio. Até 31 de dezembro corre o prazo de oposição possível, em que pode haver espaço para a reclamação por terceiros do registo da insígnia comercial.

A ideia não é nova e cumpre uma das sugestões do Banco de Portugal (BdP), que sempre defendeu a distinção entre a marca do banco e a sua acionista – Associação Mutualista Montepio. Com isso, a forma como irá apresentar-se aos clientes vai sofrer mudanças, assim como os balcões.

A necessidade de mudança já tinha sido anunciada pelo ex-presidente do banco Félix Morgado, mas acabou por criar uma guerra com Tomás Correia, presidente da mutualista, que nunca viu com bons olhos a mudança de nome. Ainda assim, admitiu recentemente que, pelo menos, a palavra Montepio se iria manter.

Ao mesmo tempo, o banco liderado por Carlos Tavares prepara-se também para reforçar a sua rede comercial com a abertura de dez balcões até final do ano. Serão pequenas unidades localizadas fora dos grandes centros urbanos, com dois ou três funcionários. “Procuramos estar mais onde os outros estão menos”, afirmou durante a apresentação de resultados.

António Godinho

“O que se passa na associação mutualista em termos de salários é pornográfico”

O empresário António Godinho voltou à corrida das eleições da associação mutualista depois de ter perdido o último ato eleitoral para Tomás Correia. Os dois voltam a confrontar-se, mas o candidato da lista C não tem dúvidas: é preciso renovar a associação e o atual líder não tem capacidade. Critica a falta de transparência e a opacidade que têm marcado a vida da instituição nos últimos anos
Nas últimas eleições já tinha concorrido e agora volta a candidatar-se...

Sempre gostei muito do Montepio. O meu primeiro e o único emprego por conta de outrem foi no Montepio, entre o início de 1996 e finais de 1998. Fui indicado para ser promovido, mas saí imediatamente. Não fazia sentido estarem a investir em mim e sair mais tarde. Já naquela altura tinha a ideia de criar o meu emprego e, apesar de não ter nada preparado, já tinha esquematizado na minha cabeça algumas ideias. Acabei por avançar com os meus projetos empresariais, mas nunca larguei a paixão pelo Montepio. Além de ter sido o meu primeiro emprego, gostei muito dos valores e da equipa, que não tinha aquele espírito agressivo da banca comercial. Acabei por levar o Montepio atrás de mim e fui sempre acompanhando a sua situação. Há quatro ou cinco anos comecei a estar mais próximo dos assuntos e em 2015 cheguei a ir a um debate com Tomás Correia, como consultor financeiro, para explicar o que eram os produtos mutualistas, numa das alturas mais conturbadas da instituição. Nessa altura, muitas pessoas começaram a metralhar-me com uma série de informações e comecei a ficar não só mais próximo, mas também mais preocupado. Foi aí que escrevi um livro com um colega, “Renovar Montepio”, que deu depois lugar ao slogan da candidatura.

Também foi nessa altura que começaram a surgir algumas vozes contra a liderança de Tomás Correia…

Exatamente, e coincidiu com a separação da caixa económica da associação mutualista, e essa separação foi o maior alerta que poderia ter sido dado pelo Banco de Portugal ao dizer que Tomás Correia não podia estar à frente das duas entidades, principalmente no banco, porque o regulador não daria a idoneidade, pois não estava confortável com a ideia de Tomás Correia liderar a instituição financeira. Daí ter ido para a Associação Mutualista. Foi a partir daí que se começou a abrir mais o livro sobre o que eram as contas, os reflexos na gestão das más decisões e o espírito de pouca transparência e opacidade em aquela instituição foi gerida nos últimos anos.

Foi nessa altura que surgiu a ideia de se candidatar nas últimas eleições?

Sim, candidatei-me pela primeira vez quando alguns associados me falaram nisso e consideraram que seria a pessoa mais indicada. Assim o fiz. Foi um processo eleitoral conturbado. A forma como as eleições são feitas no Montepio é algo muito pouco democrático e arcaico. Estamos a falar de uma eleição em que não existem cadernos eleitorais, em que não conhecemos a base de dados e, dessa forma, é difícil comunicar. Quem lá está e tem uma lista institucional, como é o caso da lista A, tem acesso a todas as informações.

É então mais difícil chegar aos mutualistas?

É muito difícil. O programa vai via correio, juntamente com todos os programas, e há ainda a possibilidade de enviar um ou dois emails para a base de dados, para depois a associação enviar. A partir daí, não há mais nada. Isso é tudo muito limitativo em termos de campanha.

É por isso que a adesão é baixa?

Há um grande desinteresse e grande parte dessa responsabilidade é da associação mutualista, porque não envolve os associados na vida associativa. Além disso, no próprio ato eleitoral, quem quiser votar presencialmente só pode fazê-lo em Lisboa porque só aí há uma urna no dia 7 de dezembro. O resto do país tem de votar por correspondência porque não tem outra hipótese. Também as assembleias-gerais são sempre em Lisboa, não há uma descentralização. O novo código mutualista já vai obrigar, nomeadamente nas assembleias-gerais, à existência de representações em todo o país.

O que vai contra os objetivos deste tipo de associações…

Sim, supostamente vai contra a sua própria natureza. Hoje em dia, os mutualistas só se lembram da associação por causa dos cupões e dos descontos, parece quase o cartão do Continente. Quando ser associado é muito mais do que isso e isso é visível se olharmos para a sua história: devia ser visto como um complemento à proteção da família e um conjunto de serviços onde o Estado não chega, que são os famosos complementos de reforma, a iniciativa à poupança, sistema de saúde, cuidados continuados. Ou seja, há muita coisa que complementa o serviço do Estado e que, nos últimos dez anos, sob a liderança de Tomás Correia, não existe. Existe apenas uma tentativa de fazer lucros, muito virada para a área financeira, onde há uma aposta na área bancária pura e dura.

Mas a ideia de que os produtos mutualistas são inseguros não terá afastado os clientes?

Afastou, mas isso deveu-se mais à consequência do que à causa. Como não existiu uma gestão prudencial, as vantagens diminuíram e, depois, todo o clima de desconfiança e opacidade em relação à forma como era gerida a associação não ajudou. A questão do Fundo de Garantia de Depósitos, obviamente, é importante, mas nunca se colocou antes de 2014 ou 2015. Até aí, nunca tinha havido desconfiança em relação aos produtos mutualistas. Aliás, quando trabalhei lá, nem nos passava pela cabeça essa desconfiança.
OS MUTUALISTAS SÓ SE LEMBRAM DA ASSOCIAÇÃO POR CAUSA DOS CUPÕES E DESCONTOS. PARECE O CARTÃO CONTINENTE
 
E nessa altura não existia a separação entre produtos mutualistas e produtos do banco…

O produto mutualista era sempre o mais vantajoso e nem sequer era por causa da taxa, era por causa do formato e do objetivo. A gestão de Tomás Correia – e isso foi um erro crasso – é que transformou os produtos mutualistas em produtos de captação de capital, quando anteriormente eram produtos direcionados para funcionarem como um complemento de reforma ou de despesas periódicas. Tinham como objetivo uma poupança a médio e a longo prazo, não eram vistos numa ótica de “quanto é que isto dá” porque os produtos mutualistas não podem ser encarados assim, não são produtos verdadeiramente bancários.

E, por serem produtos de médio e longo prazo, a instabilidade afastou os investidores?

Estamos a falar de produtos, e eu tenho produtos desses, em que se põe um pequeno montante por mês: 7, 10 ou 15 euros mensais. É uma poupança quase forçada direcionada para uma perspetiva futura. Mas, nos últimos dez anos, o objetivo principal da associação foi a captação de capital porque precisa de dinheiro para pôr no banco e na seguradora, que dão prejuízo, pondo de lado os interesses do associado. No fundo, os produtos mutualistas concorrem com os produtos bancários, e não era esse o objetivo.

Mas não beneficiam do Fundo de Garantia de Depósitos...

Os certificados de aforro também não, e qual é a garantia? É a do Estado. O dinheiro na associação mutualista não está em risco, mas está sob uma gestão perigosa. O nosso dinheiro está muito centrado na caixa económica e na seguradora, que vão precisando de capital. Não sei exatamente o rácio mas, provavelmente, 70% daquilo que lá colocamos estará no banco. Ou seja, não colocamos o dinheiro para eles gerirem da melhor forma possível, como era há dez anos, mas para gerirem como querem. Isto é como na nossa vida privada: tenho 10 mil euros e vou colocar esse dinheiro todo nos certificados de aforro? A regra de investimento dita que não se deve colocar todos os ovos no mesmo cesto. E a associação mutualista deixou de fazer essa gestão, está presa à caixa económica e a uma série de operações, como o Finibanco, que se vai pagando, agravada por questões de falta de credibilidade. A questão financeira da associação não é boa nem saudável e vai sendo maquilhada com truques estatutários. As contas do ano passado beneficiaram de créditos fiscais, o que permitiu alavancar os lucros. É uma operação legal, não é isso que está em causa, mas não reflete a realidade das contas.

Tem sido um dos principais críticos de Tomás Correia e da falta de transparência. O que traz de novo a sua lista?

Há um elemento-chave e que, aliás, é o lema da nossa campanha, que é recuperar a confiança. Queremos uma gestão aberta, democrática, baseada nos princípios da ética e da integridade. A situação não é fácil e, por isso, queremos fazer uma auditoria a tudo, envolver os trabalhadores e associados num plano de reestruturação com o objetivo de voltar às origens. É claro que hoje há uma nova realidade tanto económica como social, mas o grande problema do Montepio é a crise de confiança e esta não é possível recuperar com truques nem com maquilhagem de gestão e de números. O que temos de fazer é implementar um conjunto de medidas com vista a encarar os problemas e resolvê-los. Por exemplo, na caixa económica é preciso encontrar um parceiro social forte que pode nem estar em Portugal.

Não terá de ser necessariamente a Santa Casa?

Todo este processo foi uma verdadeira trapalhada, todos estiveram mal na fotografia. Mas não tem de ser necessariamente a Santa Casa e não tem de ser necessariamente um parceiro social em Portugal. Pode ser um parceiro que esteja, por exemplo, na Europa. Este modelo não é só português. Há em vários países da Europa parceiros que podem ajudar a caixa económica, que podem ajudar a transformar e a viabilizar o negócio. Não estou contra a ideia de transformar o Montepio num banco de economia social, mas esse banco faz-se de lucros, e não de prejuízos. Um banco de economia social até pode ser mais rentável do que um banco tradicional que mais parece um pronto-a-vestir. Além de ser necessário recapitalizar a caixa económica, também o negócio segurador precisa de um parceiro, mas para isso é preciso credibilidade. É preciso um interlocutor válido, e Tomás Correia e também esta administração, de que Ribeiro Mendes também faz parte – está lá há seis anos, três no conselho fiscal e outros três na administração –, não podem ter lugar. É preciso uma renovação e ter pessoas novas.

Tomás Correia disse várias vezes que não via pessoas competentes nas listas de oposição. Como vê essa crítica?

Não pode ser juiz de uma causa própria. Se ele se candidata, não pode dizer que os outros são incapazes. O que acho é que ele não é o ator de mudança, está lá há demasiado tempo. Devia ter feito uma introspeção e passar aquela pasta, assumindo o que fez bem e o que fez mal. O problema é que só assume o que faz bem. Nunca ouvi Tomás Correia a dizer que algo correu menos bem, ele transforma o que correu menos bem em algo que correu bem. É alguém que nunca assumiu que cometeu um erro na vida e os resultados da sua gestão estão expostos.

Os casos que se tornaram públicos em torno de várias investigações fragilizaram essa gestão?

Claro que sim. Há dois anos, numa assembleia-geral, pedi a sua demissão para que não se associasse o nome do Montepio a estas investigações. As instituições vivem da credibilidade e esta está dependente dos seus dirigentes. O Montepio tem sofrido muito com a sua gestão que, a meu ver, é claramente negativa, assim como tem sofrido com a falta de credibilidade e idoneidade dos seus órgãos de gestão. Claro que as investigações têm de decorrer e é preciso concluir esses processos, mas o facto de existirem tantas suspeições não abona para o bem da instituição. Se ele diz que quer preservar a instituição, então porque não deixa outros gerirem? Abria-se um novo ciclo. Além disso, não deve ser Tomás Correia a liderar o processo de transição para o novo código mutualista porque muito daquilo que tem de ser feito vai contra as suas práticas.

Mas ele disse que avançou porque considerou que não havia ninguém com essa capacidade…

Ele não é o regulador e, se calhar, não terá idoneidade para liderar com o novo código das associações mutualistas. A partir do próximo ano tem de existir idoneidade prévia para todos os membros dos órgãos sociais e duvido que Tomás Correia tenha essa idoneidade. E, além de o seu projeto ter falhado porque o Montepio não é mais forte do que era há dez anos – até pelo contrário, é mais fraco –, e do ponto de vista financeiro é menos sólido, também do ponto de vista do número de associados não cresceu muito. Passou de 400 mil associados em 2007 para os tais 600 mil associados, cresceu pouco em 11 anos.

HÁ QUEM CHAME A ESTA LISTA ALBERGUE ESPANHOL, MAS NENHUM DOS ELEMENTOS PRECISA DO MONTEPIO PARA VIVER

Fala agora em atingir um milhão…

Ele já diz isso há seis anos. Isto mostra que não cumpre os objetivos nem quantitativos nem qualitativos. É uma ilusão, é um embuste, porque lança objetivos que nunca cumpre. É impressionante, e não há consequências. Qualquer administrador de uma empresa que não cumpre os objetivos tem de sair. E a mensagem que Tomás Correia passa é que está a dar tudo o que tem e que, se não fosse ele, o Montepio já teria desaparecido.

Mas como vê o apoio de tantas figuras públicas?

O número de associados ronda os 600 mil e só votam 50 mil ou 80 mil, consoante os anos. Não há uma verdadeira participação associativa. Estas figuras, algumas com algum peso, não estão a avaliar bem a situação. E já vimos, num passado recente, pessoas com grandes apoios à volta e não foi por isso que não tiveram os problemas que tiveram. Espanta-me muito o apoio que Tomás Correia diz que ainda tem. Essas pessoas estão enganadas e, mais tarde ou mais cedo, vão perceber que estão a dar um apoio que não deviam.

Sente que há agora um maior apoio na tal capacidade de renovação face às últimas eleições?

Claramente, até o próprio Tomás Correia sente essa necessidade de renovação. Até disse que o ideal era que aparecesse alguém da geração posterior, com 50 e tal anos. No entanto, disse que procurou muito e não encontrou nem dentro nem fora do Montepio e, por isso, viu--se obrigado a candidatar-se e a fazer mais este esforço. Ou seja, ele próprio já chegou a essa conclusão e a maioria dos associados que votam e que acompanham a vida associativa também sentem isso. Até os próprios trabalhadores pensam assim e querem uma mudança na gestão. E esse sentimento é mais visível agora do que em 2015.

Defende uma redução do fosso salarial…

O que se passa em termos de salários é pornográfico. O valor-base do presidente é 30 mil euros mensais ou próximo disso; os restantes elementos da administração ganham cerca de 24 mil euros por mês. O que defendemos é que, além de uma redução dos salários, haja um equilíbrio entre ordenados. Não faz sentido ter estes ordenados na administração e depois ter alguém que esteja a trabalhar numa residência assistida a ganhar o ordenado mínimo.

Quanto terá de ser essa redução?

Terá de ser uma redução significativa. Não poderá ser só 10 ou 20%, terá de ser bem mais do que isso. Por isso é que está no nosso programa a criação de uma comissão, que será liderada por Bagão Félix, para proceder a uma revisão dos salários. A nossa ideia é que possa haver não só um índice salarial, mas também um índice de felicidade. Já não me lembro bem quanto é que ganhava no Montepio, mas era muito pouco. Estava no escalão mais baixo, mas sentia-me feliz a trabalhar naquela instituição. Não podemos trabalhar só por uma questão de dinheiro, temos de nos sentir bem na instituição, na cultura, no espírito, e isso foi-se perdendo no Montepio. Quando trabalhava lá havia um espírito de equipa que deixou de existir.

Falou-se na necessidade de existir apenas uma única lista para combater a de Tomás Correia. Ainda houve algumas negociações. Porque não foi possível chegar a acordo?

Existiram negociações. Estivemos desde o início do ano em conversações com Ribeiro Mendes, mas ele seguiu por outro caminho. Mas isso não impediu que as listas de oposição se juntassem. Além de considerar esta lista como a única de oposição, porque Ribeiro Mendes faz parte da atual administração e não deixa de receber o seu salário e de fazer a sua campanha.

Os elementos da sua lista são muito dispersos. A ideia foi essa?

Sim, até há quem lhe chame albergue espanhol. Os elementos da lista são todos associados, bem-intencionados, e não precisam do Montepio para viver. E por ter elementos tão dispersos também tem várias tendências, sempre com a ideia de mudança.

E é fácil gerir tantas diferenças?

É fácil quando existem os mesmos objetivos, que é devolver ao Montepio aos princípios de integridade, ética e honestidade. Todos os elementos desta lista têm essa preocupação. E quando existe essa base é mais fácil chegar a um consenso.

Mas o seu nome tem estado sempre associado a Braga Gonçalves…

Braga Gonçalves não é associado, nunca participou nem creio que vá participar numas eleições. Não é por ser amigo ou por ir almoçar ou jantar com ele que isso transforma esta lista numa lista de Braga Gonçalves.

Mas há muitas vezes essa associação…

O que faz sentido é atacarem as ideias, o projeto, não é atacar se temos um amigo ou se almoço ou janto com uma pessoa que teve problemas no passado, que esteve preso, mas que cumpriu a pena e saiu. Não vou renegar uma amizade para não me associarem a Braga Gonçalves. Prefiro estar ligado a Braga de Gonçalves do que a outras pessoas que se dizem muito apoiadas na nossa sociedade. Não está na lista, não é associado nem vai prestar serviços direta ou indiretamente. Prefiro que me digam que sou incapaz ou que as propostas que apresento não fazem sentido do que dizerem que esta é uma lista de Braga Gonçalves. Considero que isso é uma estratégia de defesa de quem está do outro lado, mas que começa a não fazer qualquer sentido.

Ribeiro Mendes já pediu que o ato eleitoral seja vigiado. Concorda com a ideia?

É estranho sugerir quando ele é administrador daquela casa. Ele tem essa responsabilidade, devia enviar uma carta a ele próprio. É isso que me assusta neste tipo de abordagens: ele foi eleito por este sistema eleitoral e agora vem criticar. Ele devia ter-se preocupado com isso há três anos. Eu preocupei-me e levei os resultados a tribunal.

Mas não venceu em tribunal. Ficou desiludido?

O caso ter ido a julgamento já foi um passo extraordinário. Não se compreende como é que hoje em dia não existe o voto eletrónico. Além disso, há um problema com o voto por correio: quem valida as assinaturas é a estrutura da lista A. Isso é inacreditável, contratam a PwC mas para fiscalizar do ponto de vista teórico.

Nas últimas eleições denunciou uma situação de votos duplicados…

Fiz queixa porque na contagem de votos apareceram 300 exatamente com a mesma assinatura. Isso não acontece com o voto por correspondência, existem uns kits de substituição que vão para os balcões da caixa económica e as pessoas que se esquecem ou que perderam a carta vão ao banco e alguns funcionários que estão instrumentalizados sugerem aos associados onde devem votar. Esses kits de substituição são pouco democráticos e pouco transparentes.

E vão ser usados este ano?

Vai ser tudo igual.

Por último,  concorda com a mudança do nome do banco?

Até acho que a palavra banco dá mais atualidade à nova realidade. Não tenho nenhuma objeção. Mas tudo isto foi necessário para separar o banco da associação mutualista e essa separação foi consequência de uma má gestão. E quando há a preocupação de uma parte contaminar outra é porque algo está mal.

E como vê a escolha de Carlos Tavares?

É uma escolha sensata em função do peso institucional e da credibilidade que tem. Espero que cumpra o mandato.

Ribeiro Mendes

“Nunca senti do lado do ministério qualquer capacidade de aconselhamento e de supervisão”

Fernando Ribeiro Mendes é administrador da Associação Mutualista Montepio e durante o seu mandato divergiu do caminho que está a ser levado a cabo pela instituição e avançou com uma candidatura às eleições. Associado há 20 anos e com um currículo ligado à banca defende uma maior aposta no serviço de saúde e nas residências universitárias. O candidato aplaude a passagem da supervisão para a ASF e defende que é necessário recuperar a credibilidade da associação 
Pertence à atual administração da Associação Mutualista, mas foi um dos primeiros candidatos a avançar para as eleições com uma lista de oposição…

O mandato que exerci representou um período de aprendizagem da dura realidade do Montepio e das possibilidades de desenvolver uma estratégia de recuperação da confiança. De facto não antecipei em 2015 todos os problemas que iriam surgir ao longo destes três anos, mas não tinha informação para isso. A partir de janeiro de 2017, quando se tornou público que existiam processos judiciais e investigações no Banco de Portugal sobre atos de gestão passada, a crise de confiança alastrou e até hoje não recuperou. Isso levou-me a tomar a iniciativa de começar a apelar a um novo rumo. Publiquei em março deste ano um primeiro artigo de opinião num dos órgãos de comunicação social que teve impacto junto de várias pessoas que acompanham mais de perto as questões do Montepio e gerou uma resposta. Formou-se um movimento de associados que apoiou a minha candidatura e, a partir daí, os dados estavam lançados.

Não pensou em desvincular-se dos órgãos sociais?

Não. Recebi um mandato dos associados e estou a cumpri-lo dentro dos limites que é possível. Agora, em pleno período eleitoral, as coisas são diferentes, mas continuo a exercer as minhas funções. Defendo que os mandatos são para cumprir até ao fim, só me demitiria se tivesse problemas com a supervisão ou com a justiça e é no final do mandato que terei de responder por aquilo que fiz e por aquilo que não fiz.

Mas a Associação Mutualista tem estado envolvida em fortes polémicas…

Não creio que seja preciso a saída ou a renúncia de um elemento da administração – e estou a falar daqueles que não são causadores dessa instabilidade ou que tenham o seu nome em dúvida. Se em plena crise, em 2017, tivesse renunciado ao meu mandato, o que é que os associados pensariam? Este está a abandonar o navio. Não foi isso que fiz, mantive-me porque havia uma situação muito grave de quebra de confiança que era preciso resolver. Lutei e contribui para inverter essa crise com o lançamento do cartão de saúde.

A partir do momento em que publica o artigo de opinião e fala na necessidade de virar a página ficou sem alguns pelouros na administração. Foi consequência disso?

Chamo a isso uma infelicidade de atuação do conselho de administração que integro. Retiraram-me os pelouros, mas devolveram-mos passado 15 dias. A publicação daquele artigo nunca justificou um ato desses.

E prejudicou a sua relação com os restantes elementos do conselho de administração?

As questões tornaram-se claras a partir daí e mostraram que havia caminhos diferentes para as pessoas que compõem o atual conselho de administração. Dois de nós entendemos – eu e o Miguel Coelho – que devíamos avançar com uma candidatura em resposta a esse movimento de apoio, enquanto os outros colegas preferiram apoiar este clima de instabilidade e de suspeição sobre o Montepio, ficando ao lado de Tomás Correia.

No ano passado também votou contra o aumento de capital?

Inicialmente manifestei-me contra o aumento de capital dentro do conselho de administração, mas depois apoiei essa operação dentro do conselho geral, que é o órgão de cúpula da associação que decide essas grandes decisões estratégicas. Mudei de decisão por uma razão simples, a administração da Caixa Económica foi a esse conselho geral e esclareceu que não havia alternativa e que a imposição do Banco de Portugal em relação aos rácios de solvabilidade tinham de se verificar de forma imediata. Ou seja, não havia possibilidade de haver um período de transição. Estávamos a discutir há muito tempo a entrada da Santa Casa e o governo tinha dado sinais públicos de que apoiava essa solução. Infelizmente, esse processo acabou por correr bastante mal. Santana Lopes, o provedor na época, tomou uma decisão prudente e queria que a Santa Casa entrasse através da aquisição de unidades de participação que eram os títulos que existiam no mercado de capitais. Isso foi inviabilizado pelo presidente do conselho de administração da associação e, a partir daí, as coisas complicaram-se e sucederam-se vários episódios lamentáveis. Desde logo pelo novo provedor, Edmundo Martinho, que cometeu uma gafe enorme ao começar a falar num investimento de 200 milhões de euros no capital social.

O valor de 200 milhões nunca foi falado com a administração?

O provedor é que trouxe esse valor à praça pública. Não estive presente em conversas reservadas com o provedor, mas admito que isso tenha sido discutido. No entanto, foi muito infeliz tornar isso público porque, nessa altura, a Santa Casa não tinha em seu poder uma base de avaliação do banco para poder definir a sua própria posição. Entretanto, as coisas complicaram-se e depois daquela gafe, o provedor teve de se contentar com uma entrada de 75 mil euros que ainda nem sequer está concretizada. Ou seja, como a entrada da Santa Casa já estava a ficar muito complicada, acabei por votar a favor do aumento de capital da Caixa Económica porque entendi que não podia haver o risco do banco entrar em incumprimento em termos de rácios de solvabilidade que o Banco de Portugal exigia.
OS MANDATOS SÃO PARA CUMPRIR. SÓ ME DEMITIRIA SE TIVESSE PROBLEMAS COM A SUPERVISÃO OU COM A JUSTIÇA
 
Tomás Correia afirmou recentemente que a sua entrada na administração foi um acidente deste mandato. Como é que vê esta declaração?

O que vejo é que o nosso mandato foi uma sucessão de acidentes. O primeiro acidente foi o presidente da equipa ter sido constituído arguido e foi um acidente gravíssimo. Depois houve todo um acidente de intranquilidade na opinião pública sobre a insolvência da instituição em 2017, e que levou a uma perda de valor. Portanto, os acidentes foram provocados pela administração anterior e também por esta, mas nunca pela minha mão. Nunca fui um acidente, nem causa de nenhum acidente. Respondi a um convite que, na época, me pareceu muito gratificante por parte de Tomás Correia, integrei a equipa dele, desenvolvi o meu trabalho com normalidade. Fui responsável pelo lançamento do plano de Saúde do Montepio, que é um benefício para uma série de associados. E foi também um instrumento importante para neutralizar a descrença que existia em 2017 e que se estava a aprofundar sobre o Montepio. O cartão de saúde foi distribuído aos associados em julho do ano passado e daí para cá tem havido uma adesão à sua utilização. É uma vertente do meu trabalho que me orgulho muito. Infelizmente, não se consegue com um ou dois atos de gestão bem estruturados e bem conseguidos – como este e também com a abertura de residências estudantis que também é um exemplo importante que foi conduzido pelo meu colega de lista Miguel Coelho ­– inverter um ciclo de desastres e de acidentes desastrosos conduzidos pelo presidente. Neste momento, a escolha dos associados é clara, quem votar neste processo eleitoral sabe perfeitamente que pode votar na continuidade dos acidentes, isto é, na trapalhada, nas megalomanias de grandes negócios financeiros que depois só criam encargos complicados ou então pode votar na lista que encabeço que é uma proposta de regresso às origens mutualistas, de reforço dos fins de proteção social e na aposta em novas modalidades porque é preciso modernizar a nossa oferta porque as necessidades são diferentes.

Nem que seja para justificar a quota...

A quota é de dois euros por mês e dá acesso automático a um conjunto de benefícios de saúde muito importantes. Quem não tenha nenhuma proteção de saúde complementar, além do SNS, se for a uma consulta dos grandes operadores de saúde privados pagará uma consulta que pode variar entre os 70 e os 90 euros. Com as parcerias que estabelecemos, os nossos associados têm acesso a essas consultas a 30 e poucos euros. São benefícios palpáveis e sei de muitas pessoas que se tornaram associadas porque encontraram ali um primeiro elemento de resposta às suas necessidades de saúde, porque sabemos que o SNS, que tem um papel importante e indiscutível, não chega para tudo e deixa muitas necessidades por satisfazer. Por isso, o problema não é tanto justificar a quota, mas ir ao encontro das necessidades dos associados.

Essas novas necessidades já estão identificadas?

É preciso continuar a desenvolver este plano de saúde que ficou bloqueado na atual administração. O que agora proponho nas eleições é evoluir no sentido de criar um subsistema de saúde. Em Portugal, a experiência que existe com os subsistemas de saúde é muito positiva, como é o caso da ADSE para a função pública e dos serviços médico-sociais de alguns grupos profissionais, como é o caso dos bancários e de outras grandes empresas.

A adesão seria opcional?

Claro. Tanto que há associados que já podem ter acesso a outro subsistema de saúde. Eu próprio estou nessa posição e só aderia a um sistema destes se fosse mais vantajoso.

Tem ideia entre os 600 mil associados quantos estariam interessados?

Fizemos um primeiro estudo, que foi desenvolvido sob a minha supervisão, e para que um sistema destes seja viável tem de ter à partida 100 mil adesões para que depois, num prazo relativamente curto de alguns anos, atinja entre meio milhão e um milhão de beneficiários.

Seria fácil atingir esse número?

Considero viável porque há uma grande carência em Portugal. Temos subsistemas setoriais que funcionam bem, mas a grande maioria das pessoas que trabalha sobretudo em PME não tem acesso a estes sistemas. Em alguns casos optam por seguros privados, mas essa resposta é muito cara e tem muitas exclusões. As pessoas a partir de uma certa idade descobrem que já não estão cobertas para determinados problemas de saúde. E como tal, a grande maioria da nossa população não tem mais do que o SNS e o mutualismo poderá dar essa resposta. Mas este é só um exemplo, temos muito mais. Em Portugal há uma carência enorme de residências para estudantes universitários. Sempre que um estudante sai da sua casa é confrontado com um problema muito complicado em termos de alojamento e os preços são muitas vezes inacessíveis. Estamos a construir uma oferta acessível a partir de imóveis do Montepio e que é sustentado financeiramente. A nossa ideia é alargar esta oferta a partir do próximo ano e cobrir os principais polos urbanos. Também fizemos um estudo em 2016, mas infelizmente a administração que integro não se interessou, para introduzir um novo benefício, muito flexível na área da dependência e da doença crónica. Outra resposta é no segmento dos seniores. O Montepio já tem uma resposta de residência para seniores, mas é uma oferta dirigida ao segmento alto de rendimentos, não vai ao encontro das necessidades da grande maioria dos associados que são pessoas de pequenas poupanças e de médios rendimentos. É urgente encontrar uma resposta muito mais acessível e com a qualidade das residências Montepio, que já existem, e isso é possível se houver um controlo de custos, nomeadamente na construção e na localização.

A atual oferta é de luxo?

Hoje em dia a mensalidade rondará entre os dois mil e os três mil euros por mês, consoante os serviços que são subscritos. É um valor muito elevado para um país onde as pensões são muito baixas.

Esta instabilidade em torno da associação acabou por afetar a subscrição de produtos mutualistas e a captação de novos associados?

O número de associados é público, consta nos relatórios dos exercícios já concluídos e tem vindo a declinar desde 2015. O número de subscrições também. Foram retirados do nosso balanço muitos milhões de euros, sobretudo em 2017, mas ainda não está estancada essa sangria que se tem verificado pela tal crise de confiança. Os associados mantêm confiança na marca Montepio, simplesmente já não lhe confiam as suas poupanças como faziam no passado. Muitos associados estão na posição wait and see, ou seja, mantém-se na associação, têm aplicações financeiras na associação, mas não estão a reforçar essas aplicações.

Chegou-se a falar dos lesados do Montepio…

A ideia dos lesados do Montepio foi uma expressão algo demagógica que a certa altura foi usada ao dizer que muitas pessoas poderiam não recuperar os seus valores se houvesse uma situação de incumprimento. Mas, na realidade, essa expressão dirigia-se a uma situação muito particular, a um conjunto de pessoas que tinham adquirido unidades de participação lançadas em 2013 e em 2014. E por que é que havia esse problema? Porque eram títulos que estavam cotados na bolsa de valores e a cotação tinha descido 50% face ao valor nominal ao longo dos anos 2015, 2016 e 2017. Então foi usada essa expressão de lesados do Montepio e que foi usada para explicar a OPA para adquirir ao valor nominal a aquisição desses títulos. Fui uma das pessoas que votei no conselho de administração contra o lançamento dessa OPA porque não distinguia as variadas situações entre os detentores de unidades de participação. Havia pequenos detentores que tinham confiado no Montepio e fazia sentido que a operação tivesse esses em conta, mas também havia grandes detentores de unidades de participação que conheciam melhor os riscos – e esse produto foi lançado com um nível de risco (não tinha capital garantido e a remuneração era aquela que fosse) –, que acabaram por não suportar nenhumas perdas e foram beneficiados sem qualquer justificação. Deveria ter havido apenas uma política para o pequeno aforrador e tínhamos elementos para separar uma situação da outra. Houve um grupo bastante beneficiado que, ao longo do tempo, foi comprando tranches a 50, 60 ou 70 cêntimos em vez de um euro, que foi o valor cobrado na emissão, e acabaram por vender todos os títulos a um euro.

Concorda com a separação dos produtos?

Essa separação existe. No passado admito que houvesse alguma confusão, mas hoje em dia já não existe. As pessoas sabem o que estão a adquirir e fazem-no de uma forma informada, mas esse trabalho tem de ser mantido a todo o custo.

DEFENDO A INTERNACIONALIZAÇÃO DA CAIXA ECONÓMICA. NA EUROPA HÁ ENTIDADES DA ECONOMIA SOCIAL FORTES

Disse recentemente que Tomás Correia não tem projetos, está esgotado e a falar sozinho…

Ele quer manter o mesmo rumo e isso é visível pelo seu discurso ao dizer que está tudo bem. Pelos vistos, está muito satisfeito com o seu trabalho desenvolvido ao longo deste mandato de três anos. Ou seja, vai continuar a haver descrença, desconfiança, instabilidade, dúvidas, suspeições e isso, naturalmente, reflete-se em menos ativos e em menos associados.

Acha que pode pôr em risco a própria sobrevivência da associação?

A continuação de uma crise de reputação como esta que temos vivido tem esse risco seguramente. Ninguém tem dúvidas que se assistiu no passado a verdadeiras aventuras financeiras, sem avaliação correta.

Foi o caso do Finibanco?

Ninguém duvida que foi adquirido a um preço insustentável que arrastou custos enormes. Duplicaram-se balcões e pessoal de uma forma que não trouxe vantagens. Houve balcões que tiveram de ser encerrados porque estavam na mesma rua, quase ao lado um do outro.

O próximo ano também tem novos desafios e um deles diz respeito à idoneidade...

No meu caso acredito que não vai haver problema. Antes de integrar este conselho de administração, integrei o conselho de supervisão da Caixa Económica e fui aceite pelo Banco de Portugal. A minha preocupação ao constituir esta equipa foi conseguir que todas pessoas demonstrassem, por um lado, que eram adequadas à função e, por outro lado, que eram pessoas idóneas. Estou bastante tranquilo nisso, aliás, uma das pessoas que integra a minha equipa é a Nazaré Barroso que atualmente é vogal na Autoridade de Supervisão de Seguros (ASF) que futuramente vai supervisionar o Montepio.

E não é incompatível?

Não porque a ASF nunca supervisionou o Montepio, só o fará depois do despacho do governo que será publicado, em princípio, em janeiro. Ou seja, a tempo para que possa renunciar para depois tomar posse.

Essas mudanças na supervisão vão tornar a associação mais transparente?

Julgo que sim porque dá confiança aos associados. Estes ficam a saber que as pessoas que estão a gerir as suas poupanças e aplicações em produtos mutualistas passaram por um crivo muito exigente.

E pecam por ser tardias?

Só posso falar por este mandato, mas nunca senti do lado do Ministério do Trabalho qualquer capacidade de aconselhamento e de supervisão da nossa atividade financeira. É uma entidade que atua sempre de forma reativa. Quando houve a crise em 2017 vimos o ministro a anunciar a sua preocupação e vigilância para que não houvesse problemas de maior. Nunca houve nenhuma atuação preventiva sistemática por parte do ministério, a tutela sempre foi insuficiente. É muito positivo que o novo código ponha termo a isto e que tenha confiado à ASF essa supervisão. Não se eliminam os riscos, mas cria-se uma capacidade de os identificar, de os mitigar e isso é fundamental na vida das instituições financeiras.

Em relação à Caixa Económica, tem defendido a abertura do capital para que possa crescer…

Julgo que o futuro poderá passar por outros parceiros, sempre dentro da economia social. Tenho defendido a internacionalização do grupo Caixa Económica. Há entidades ligadas à economia social muito fortes em França, na Holanda, na Alemanha, etc. e que têm muita capacidade de colaborar e participar em parcerias connosco para trazerem não só capital, mas também os conhecimentos adquiridos em mercados mais evoluídos que o nosso.

Uma aposta que nunca foi bem vista pelo anterior presidente do banco, Félix Morgado…

Mas o que assistimos foi a um braço de ferro entre o presidente do banco e o presidente da associação e que teve como epílogo a substituição do presidente da Caixa Económica. Penso que essa substituição não foi feita num bom momento, as equipas de gestão devem cumprir os seus mandatos e sua a interrupção não trouxe benefícios ao Montepio. Até pelo contrário, pelas condições em que foi feita e pelos nomes que foram divulgados publicamente e que caíram na praça pública, porque falhava isto ou aquilo para que o Banco de Portugal desse a autorização, não foi bom para o Montepio. Felizmente a situação estabilizou com a entrada de Carlos Tavares.

Falou-se durante algum tempo na necessidade de uma lista única. O que falhou?

Houve muitos contactos, mas infelizmente não foi possível chegar a uma lista de consenso porque havia uma divergência fundamental. Quando eu estava sobretudo concentrado em criar uma proposta com uma equipa de gestão que passasse pelos critérios apertados da ASF e que houvesse uma grande coesão entre os elementos para garantir uma liderança firme, lúcida e competente, essas listas de oposição digladiavam-se na luta pelos lugares. Não se preocuparam com a parte do programa. Respeito as ambições pessoais de cada um, mas não representa a preocupação de uma lista que quer ser uma alternativa à situação atual.

Também defende uma revisão das remunerações sociais...

Sim, mas não avanço com nenhuma quantia. As funções que a atual administração exerce já não são as mesmas dos mandatos anteriores porque deixou de existir uma administração comum entre a Caixa Económica e a Associação Mutualista, então, se estas funções estão autonomizadas, não faz sentido praticar os mesmos níveis remuneratórios. Isso já deveria ter sido revisto no mandato anterior, mas não houve essa vontade. Aliás, esta é uma das primeiras medidas que quero implementar. Agora tem de ser avaliado o que é razoável praticar em termos de remuneração.

Mas também beneficiou desses salários elevados…

Quando integrei esta equipa aceitei as condições remuneratórias, que até desconhecia, pois não perguntei nem me foram comunicadas. Ao longo deste mandato percebi que são valores elevados e que não se justificam face às responsabilidades muito menores que existem hoje em dia.

Uma das dificuldades que tem sido apontadas diz respeito ao acesso à base de dados dos associados. O que poderia ser feito?

Penso que as listas só deverão ter acesso aos nomes e contactos se os associados autorizarem para efeitos eleitorais. Ao longo destes três anos tivemos tempo para fazer essa consulta, mas não foi feita.

Na apresentação da candidatura foi revelado que tinha pedido ao ministério de Vieira da Silva para controlar o ato eleitoral…

Não fiz um pedido formal de intervenção. Houve associados que fizeram chegar ao governo essa preocupação e nesse contexto parece-me que se justifica plenamente que haja uma monitorização muito rigorosa por parte da tutela sobre a transparência do ato eleitoral. Mas isso não é um pedido formal é um dever da tutela. Se a tutela está distraída terá de ser criticada nessa matéria e é para isso que serve uma tutela, não é para ir a umas cerimónias públicas.

Como é que pode ser feito esse controlo?

Isso é uma pergunta que tem de ser dirigida ao ministério. Tenho uma ideia, mas eles sabem como é que o poderão fazer. Se a tutela me pedir uma opinião terei todo o gosto em a partilhar como candidato.

E já tem alguma resposta?

Não, mas admito que possa ter encontrado em contacto com o presidente da associação.

Tomás Correia

“Uma má negociação das novas regras mutualistas pode levar ao fim da associação”

Tomás Correia, depois de muitas semanas de incerteza, voltou a candidatar-se à liderança da Associação Mutualista Montepio pela lista A. O ainda presidente da associação afasta as críticas dos seus opositores que falam em falta de transparência da sua gestão. Com uma longa carreira ligada à banca, Tomás Correia fala em renovação da instituição e dos perigos que podem surgir quando for negociado o período de transição das novas regras mutualistas
Depois de semanas de tabu sempre avançou com a candidatura. Não encontrou ninguém à altura?

Não houve tabu nenhum. Havia uma vontade minha muito forte de não me candidatar, mas fui sendo pressionado por muitas pessoas para que me candidatasse. E as preocupações que foram sendo avançadas tinham a ver com o início do desenvolvimento do novo ciclo do Montepio e, sobretudo, porque me viam como uma garantia na negociação do período de transição das novas regras do mutualismo. Vamos beneficiar de um período de transição de 12 anos para aplicar as novas regras, mas este período de transição é muito exigente ao contrário do que se possa pensar. Quem entender que é um assunto que se pode tratar levianamente está errado, tem de ser tratado com muito rigor, com muita seriedade e tem de se ter um conhecimento muito forte não só do que é a Associação Mutualista, mas também daquilo que são as normas do setor segurador. Conheço muito bem as normas dos dois. Um período de transição mal negociado, negociado sem cuidado por alguém que até pode conhecer o setor segurador, mas não conhece a realidade mutualista - sei que há muita gente em Portugal até com responsabilidades que não sabe o que é uma mutualidade do ponto de vista da sua apresentação de contas, da gestão do seu balanço e os produtos que comercializa, etc. - o risco de acabar com a instituição é elevadíssimo. O código tem uma norma que estabelece que o regulador pode impor um conjunto de medidas, nomeadamente a proibição de continuar a vender produtos mutualistas, ficando apenas a gerir a carteira que tem. Se a associação mutualista ficar sujeita a uma decisão dessa natureza entra em período de liquidação, seria matar uma associação que tem 178 anos, não é uma matéria simples. Muita gente que conhece o Montepio, que está ou esteve nos seus órgãos sociais, acabou por me convencer com base neste quadro difícil de negociação, dizendo que era a única pessoa que reunia condições para discutir e perceber em toda a sua complexidade aquilo que deve ser o período de transição. E foi essa a razão por que me candidatei e estes argumentos surgiram quase no fim do período da apresentação de candidaturas. Espero que no decorrer do tempo se veja que havia pessoas com condições para poderem gerir a associação num quadro que não envolvesse esse período de transição. 

Uma má negociação, no limite, poderá levar ao fim da associação?

Uma má negociação pode ter essas consequências. Há uma norma do novo código mutualista que diz que se não cumprir o plano , o regulador pode determinar que a associação mutualista deixe de poder continuar a distribuir produtos mutualistas, gerindo apenas a carteira que tiver nesse momento e quando acabar essa carteira, porque os produtos vão-se vencendo ao longo do tempo, entra-se em processo de liquidação.

Mas tem-se assistido a um maior número de resgates dos produtos mutualistas face a esta instabilidade em torno da associação...

Esses resgates devem-se a algumas notícias que vão surgindo, muitas vezes promovidas pelas listas de candidaturas alternativas, que apontam no sentido de fragilidades económicas da própria associação mutualista. É uma falsidade. Ouço argumentos a dizer que a Caixa Económica está muito bem e que a Associação Mutualista não, mas a Associação Mutualista tirando as participações sociais, o que tem é imóveis e dívida pública no seu balanço. Não deve ser por causa dos imóveis que acham que o balanço da Associação Mutualista tem algum risco. Além disso, só tem dívida pública portuguesa. Não há qualquer risco, o que pode ser questionado é o risco da Caixa Económica no nosso balanço, mas se dizem que a Caixa Económica está bem, então não podemos questionar o ativo que está na Associação Mutualista. Há aqui uma contradição e uma incapacidade de ver as coisas de forma correta e rigorosa. O Montepio tem uma situação extraordinária, nunca deixou de honrar os seus compromissos e nunca defraudou a confiança que nele foi depositada pelos seus associados. Sempre cumpriu, não há lesados do Montepio.

Mas chegou-se a falar desse risco…

Mas isso insere-se no tal desconhecimento muito grande acerca do mutualismo e no grande desconhecimento do balanço da Associação Mutualista. Ainda admitiria que me dissessem que a Caixa Económica é um ativo problemático, apesar de não ser verdade, e sendo problemático teríamos aqui uma dificuldade. Mas não é isso que se diz. Além de que a Caixa económica tem um core TEAR 1 - medida central da saúde financeira de um banco - que se compara muito bem com aquilo que se passa no sistema financeiro português e não está dependente do financiamento do Banco Central Europeu. E quando ultrapassou a crise que afetou todos os bancos começou a ganhar dinheiro e até entrar nesse período teve um atraso de dois anos porque se as coisas se tivessem passado como deviam e se tivesse sido vendida uma carteira de crédito de mil milhões de euros, que estava preparada para ser vendida em julho de 2015, não teríamos tido necessidade de constituir imparidades como tivemos de fazer. E mesmo assim não se vendeu a carteira, não se venderam imóveis. E com isso está a contribuir, como sempre contribuiu, para acrescentar valor e ajudar a Associação Mutualista a cumprir os seus objetivos sociais que, no fundo, é servir os seus associados e destinar uma parte dos seus resultados a ações que visem o desenvolvimento da economia social e o desenvolvimento de parcerias.

E viu com bons olhos a obrigatoriedade de separar os produtos mutualistas dos produtos bancários? 

Não vejo nenhuma dificuldade. Aliás há uma série de coisas sobre as quais se fala e que foram objeto de uma grande preocupação e de grande manifestação de mudança ao longo do tempo. Quando assumi a presidência da Caixa Económica, no organigrama o Montepio tinha a Associação Mutualista como um departamento da Caixa Económica. Isso não fazia sentido, a Associação Mutualista é a cabeça do grupo e a Caixa Económica tem de estar subordinada ao grupo e tem de trabalhar para cumprir os objetivos sociais da associação. Tivemos de fazer um trabalho no sentido de afirmar os valores dos produtos mutualistas com as qualidades que têm e não deixar que se confundissem com os produtos bancários, nunca tivemos dúvidas em relação a isso. Quando falamos da Associação Mutualista e da sua oferta mutualista todos sabemos que queremos que essa oferta se distinga, porque entendemos que acrescenta muito valor, não só à associação, mas também aos seus associados. 

Mas não beneficia do fundo de garantia de depósitos…

Isso é mais um mito que resulta de uma certa dificuldade em perceber o que são os produtos mutualistas. Ninguém questiona o facto de os seguros não beneficiarem do fundo de garantia de depósitos e, no entanto, os seguros são vendidos aos balcões dos bancos com a maior tranquilidade e ainda bem que isso acontece. Os produtos das seguradoras tal como os mutualistas não são cobertos pelo capital das instituições, são cobertos pelas reservas matemáticas que as companhias de seguros e as mutualidades constituem para cobrir a sua responsabilidade. O mesmo acontece com os fundos de pensões, pois não têm uma base de capital para cobrir as suas responsabilidades e também não beneficiam do fundo de garantia de depósitos. Há reservas matemáticas que a Associação Mutualista tem e cumprem com as nossas responsabilidades entre 102 a 103%, o que é uma cobertura bastante conservadora. Se for ver, o setor segurador tem reservas matemáticas inferiores. 

Acha que tem havido má-fé em torno desta questão?

Não digo que tenha havido má-fé nestas discussões, aliás a responsabilidade maior até é minha porque não tenho tido capacidade para explicar tudo isto. Mas também nunca senti que houvesse ambiente para se querer ir ao fundo desta questão e percebê-la. Por vezes, há uma narrativa que se torna uma verdade absoluta e ninguém quer ouvir algo que contrarie essa narrativa. Mas o que estou a dizer aqui já o disse várias vezes e em várias circunstâncias só que as pessoas não ouvem. E não estou a criticar o facto de não ouvirem, às vezes não é politicamente correto alinhar por um determinado caminho e contrariar determinada narrativa. Durante muito tempo ninguém quis saber de explicações e é claro que em época de eleições as questões ganham outro relevo.

Foi o que aconteceu com a entrada da Santa Casa, em que o assunto foi discutido meses a fio na praça pública?

Nunca ninguém me ouvir dizer que a Santa Casa ia entrar com muitos milhões de euros. Em primeiro lugar porque não estávamos perante uma necessidade e, em segundo lugar, provavelmente nem faria sentido, mas isso é um assunto que não me diz respeito, é um problema da Santa Casa. A ideia da Santa Casa entrar no capital do banco surgiu em abril, maio de 2017 porque se dizia que era preciso salvar o Montepio. Depois foram surgindo números: 100, 150, 200 milhões de euros, mas nunca ninguém me ouviu falar disso. 
Há uma certa dificuldade em perceber o que são os produtos mutualistas e criam-se mitos
 
O provedor chegou a falar de uma posição mais elevada do que aquela que se veio a concretizar…

Até admito que o provedor tivesse esse desejo. Sei que o investimento no Montepio é muito interessante, sobretudo tendo por base o desenvolvimento de um grupo financeiro da economia social. Mas, de facto, não queríamos apenas um parceiro social e também para a Santa Casa não fazia sentido entrar sozinha. A entrada de instituições da economia social não foi por uma questão de dinheiro foi uma questão de projeto, que será único em Portugal. A ideia que o Montepio precisa urgentemente de capital não é verdade, mas essa narrativa passou. Toda a gente se convenceu disso, mas o que hoje podemos dizer com muito orgulho é que ninguém veio salvar o Montepio. O Montepio nunca esteve em risco de precisar de ser salvo porque sempre resolveu os seus problemas. Até ao final deste mês teremos fechado a entrada das primeiras 50 instituições que anunciamos no início do verão. 

Mas até 2% do capital?

Sim e 2% do capital representa um investimento de 40 milhões de euros. Não deve chegar a essa posição, mas para darmos alguma liberdade ao conselho de administração, o conselho geral disse que até 2% poderia ver vendido, mas nem mais um cêntimo. A associação vai continuar a deter 98%.

Mas a tutela liderada por Vieira da Silva apoiou esta ideia…

Tanto quanto sei, defende há muitos anos uma flexibilidade para que a economia social se juntasse no sentido de desenvolvimento de um grupo financeiro - e que essas instituições fossem portuguesas. Falamos da necessidade de ter um grupo financeiro desta natureza que é genuinamente português e é detido por instituições portuguesas que não saem daqui e que continuam a trabalhar em prol das pessoas deste país. Quando dizemos isso não dizemos apenas para termos os centros de decisões em Portugal, essa foi uma frase que foi usada em tempos por muitos e foi cumprida na forma como nós sabemos - à primeira oportunidade venderam. Neste momento, bancos dominados por capitais nacionais temos as instituições da economia nacional, o Crédito Agrícola, o Montepio e o banco público, o resto está dominado por capital estrangeiro. E vamos pagar caro por isso. Vejo com agrado que já há muitas vozes contra esta tendência. O mesmo acontece nos seguros, só cerca de 10% está em mãos portuguesas. 

Acha que o Montepio foi usado como uma arma de arremesso político?

Não vou tão longe, acho que o Montepio foi utilizado numa campanha em que saltavam à vista os mais diversos interesses e se calhar os mais pequenos foram os interesses eleitorais. Não tenho dúvidas que o Montepio é muito apetecível, é uma marca extraordinariamente conceituada. É a instituição financeira mais antiga em Portugal, mais antiga do que o Banco de Portugal e a Caixa Geral de Depósitos. 

Quando anunciou a sua candidatura disse que era para preservar a instituição, mas admitiu que era necessário renovar…

É mais para reinventar e se a Associação Mutualista existe hoje é porque foi capaz de se reinventar. A intervenção que tem hoje não tem nada a ver com a que tinha há 20 anos. Sentimos agora que estamos perante um momento de grande reinvenção, desde logo pela mudança de paradigma do digital. Demos passos importantes no digital nos últimos dois anos e vamos continuar a investir, o mesmo acontece com a oferta que tem de se adequar às necessidades das pessoas. Por isso, é que o Montepio tinha uma oferta quase exclusiva ligada à cobertura financeira nos últimos 10 anos e agora desenvolveu um conjunto de produtos que saíram desta área, como é o caso das residências seniores e dos cuidados continuados. Temos também uma série de parcerias ligadas a vários setores, como telecomunicações e combustíveis. 

Falou em atingir um milhão de associados é uma meta exequível?

Temos a ambição de atingir tão rapidamente quanto possível esse número. A crise atrasou um pouco esse projeto, mas ter um milhão de associados, ou seja, mais ou menos 10% da população portuguesa, é um objetivo que seguimos com grande determinação. Tivemos um período difícil, quando a associação perdeu entre 150 a 200 mil associados durante a crise. Mas não foi caso único, outras mutualidades mais pequenas também perderam porque era preciso fazer opções face à dificuldade de pagar contas. 

Acha que essa ideia de banco social foi mal recebida ou interpretada?

Foi bem interpretada, os destinatários da ideia perceberam muito bem o objetivo. Tivemos mais adesões do que estávamos à espera. O grupo financeiro da economia nacional não vai funcionar com base no capital. Estamos habituados no Montepio a trilhar o nosso caminho com base no principio de um homem, um voto e é assim que vai funcionar o banco de economia social. Vamos discutir em conjunto e não vamos decidir com base no capital que cada um tem. No final, vamos todos decidir consensualmente as coisas. Vamos ter um conselho estratégico que será constituído por personalidades que vão definiras linhas de orientação estratégicas que irão dar lugar a objetivos quantitativos e a orçamentos. O conselho estratégico vai dar uma ajuda nos setores e nas regiões a investir. 

Já pode avançar nomes?

A seu tempo será anunciado, mas em principio será no início do ano. 

Vai distinguir-se da banca tradicional como a conhecemos?

Seremos sempre um grupo financeiro diferente. Se quiséssemos criar um grupo financeiro igual a tantos outros, então não valia a pena dizermos que éramos um grupo financeiro da economia social. 

Voltando às eleições, estamos em altura de campanha. Como vê a situação de dois administradores concorrerem contra si?

Não me quero pronunciar sobre outras candidaturas. Eles terão oportunidade de explicar as razões que os levaram a concorrer. Já sabiam que não tinham condições para poderem integrar uma candidatura promovida pelo conselho de administração. Os órgãos sociais desde que estou aqui sempre foram muito abertos e pode verificar que muitos integrantes de candidaturas de oposição anteriores foram depois convidados para fazer não só parte da candidatura institucional, em muitas circunstâncias, como para irem para órgãos sociais do grupo, nomeadamente a Caixa Económica. Sempre tivemos grande abertura, queremos ter as melhores pessoas nos órgãos sociais da associação, agora não nos obriguem a estar disponíveis para integrar pessoas que não têm espírito de equipa.

O MONTEPIO FOI UTILIZADO NUMA CAMPANHA EM QUE SALTA À VISTA OS MAIS DIVERSOS INTERESSES

Mas faz sentido continuarem na administração?

O que posso dizer é aquilo que faria. Se estivesse no conselho de administração e se quisesse candidatar-me renunciava ao mandato imediatamente. Mas têm o direito de continuarem, não tenho de impor os princípios com que pauto a minha vida aos outros. Já estive em situações em que não concordava com o caminho do conselho de administração e renunciei ao mandato. Fui administrador da Caixa durante muitos anos, mas a certa altura entendi que estava a enveredar por um caminho que não me parecia correta, ninguém me ouviu dizer nada, mas renunciei ao mandato. Isso aconteceu a 31 de agosto de 2003. Mas também há coisas que não percebo, a área seguradora do Montepio é supervisionada pela ASF, então como é que um membro de um conselho de administração da ASF integra uma lista e não renuncia ao cargo no regulador. Não percebo como é que as autoridades não intervêm. Esse candidato, se ganhar as eleições vai manter a independência? Cada um faz aquilo que lhe apetece, mas depois eu é que sou acusado de falta de transparência. Não vejo a esmagadora maioria dos associados, mais de 90, a preocuparem-se com as questões da transparência. Será que esta esmagadora maioria é assim tão insensata que convive com a tal falta de transparência? Ou não será mais rigoroso dizer que há transparência e há uma narrativa que vai passando da falta de transparência. Algum dia acusaram os órgãos sociais da administração de tomarem decisões para as quais não tivessem competência? Não. Algum dia deixamos de cumprir com as nossas obrigações ou deixamos de respeitar as decisões do conselho geral? Não. Então, onde é que está a falta de transparência? Temos um conselho fiscal, auditoras e relatórios que são de uma transparência quase naif. 

A apresentação dos últimos resultados foi alvo de criticas por causa dos créditos fiscais….

Mas isso não é falta de transparência. As pessoas podem é não gostar, mas isso é outra coisa. Fomos alertados pelos nossos consultores fiscais que teríamos deixado de cumprir com um dos artigos do IRC. Consultamos a Autoridade Tributaria que nos disse que tínhamos perdido a isenção de IRC e a sua perda deu lugar a um conjunto de exercícios ao nível do tratamento do balanço. Quando se passa de um período de isenção para um de tributação tem de se fazer o exercício de apurar as diferenças passivas ou ativas entre o balanço fiscal e o balanço contabilístico. Estas diferenças levaram a que existam diferenças contabilísticas entre o balanço fiscal e o balanço contabilístico. É um exercício simples, não é um crédito fiscal normal, mas, pelos vistos, irritou muita gente. O que lamento é que muita gente com responsabilidades na Associação andasse muito contente com a possibilidade de termos fundos próprios negativos nas contas consolidadas. Conheço profundamente a história do Montepio, passou por momentos difíceis, não foi sempre um mar de rosas. Mas, nos momentos difíceis, há sempre qualquer coisa que nos protege. Desta vez, foi a tributação, mas creio que os mutualistas, sobretudo os responsáveis, deviam congratular-se muito com isto. 

Tem dito por tudo aquilo que o Montepio passou, mesmo assim não precisou de ajudas do Estado…

Qual foi a instituição em Portugal que não precisou de ajudas do Estado? O Montepio e o Crédito Agrícola. Mas agora já se fala que o Crédito Agrícola tem quase dois mil milhões de dívida italiana, espero bem que não se passe com o Crédito Agrícola o mesmo quadro de maledicência que passou com o Montepio. Desejo que respeitem o Crédito Agrícola como sempre desejei que respeitassem o Montepio. É uma grande instituição, é essencial ao país e, portanto, é bom que não se brinque com a instituição, como teria sido bom também que não se tivesse uma atitude de falta de respeito com o Montepio e aquilo que foi o seu desempenho.

Mas a associação tem estado envolvida em várias polémicas...

Durante a minha passagem pela Caixa Económica nunca se deixou de respeitar os processos impostos pelo supervisor. Quando cheguei ao Montepio, não havia sequer direção de risco nem áreas de controlo interno. Foi feito um trabalho ao longo do tempo no sentido de criar uma infraestrutura que permitisse um funcionamento rigoroso e alinhado com as normas emanadas pelas autoridades reguladoras e que fosse ao encontro das nossas normas internas de procedimentos. Não tenho dúvidas que foram cumpridas todas as exigências de controlo interno, branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo, etc. Foram desenvolvidos processos, muitos deles apresentados por mim ao Banco de Portugal. Quanto às concessões de crédito não tenho dúvida que todas as normas foram respeitadas de forma escrupulosa, rigorosa e temos muito orgulho nisso.

São argumentos que estão a ser usados pelos seus opositores...

Como não têm outros argumentos usam isso. Estou completamente tranquilo.

As listas de oposição dizem que têm muita dificuldade de acesso a contactos de associados.. 

Não percebo isso. A lista A não tem acesso a contactos nem quer ter. As listas podem enviar para os associados dois ou três documentos com as suas posições. O primeiro constitui o envio dos programas e no final desta semana todas as cartas já terão chegado a casa dos associados. E a comissão eleitoral é livre de definir quantas vagas de informação as listas podem enviar para os associados, além das respetivas candidaturas. Portanto, as listas podem, se assim o entenderem, e consoante o que for definido no conselho eleitoral, enviar novamente informação para os associados. A lista A não precisa de mais do que isso, agora é verdade que a associação mutualista é que faz a expedição da correspondência e suporta os devidos custos, etc. A lista A não tem dinheiro nem quer ter dinheiro para gastar nessa matéria, mas os candidatos da lista A conhecem muita gente e isso permite com grande facilidade organizar eventos com associados para podermos apresentar as nossas ideias e a visão do Montepio. 

E isso é visível pelo próprio anúncio de campanha quando teve aquele apoio da sociedade civil?...

De certa maneira, fiquei muito surpreendido por ver muitas pessoas das mais diversas áreas a apoiarem-me. Emocionou-me muito. 

A sua lista tem nomes de peso, como Maria de Belém...

A Maria de Belém é uma mulher do mutualismo há muitos anos, foi presidente da união das mutualidades, é uma pessoa ligada à economia social e associada do Montepio. É perfeitamente natural que queira fazer parte dos órgãos sociais, convidei-a e ela aceitou com muita satisfação. O mesmo aconteceu com Maria das Dores, presidente da Câmara de Setúbal, que é mutualista há muitos anos. 

Acredita que vai ganhar?

Estou sempre convencido que obtenho os resultados em linha com aquilo que são os meus objetivos, não me candidatava com o objetivo de perder. Candidato-me para ganhar e não tenho dúvidas que faço parte da equipa que apresenta o melhor programa. 

Se ganhar as eleições tem mais três anos à frente da liderança da mutualista e depois está a pensar em reformar-se?

Pensei em reformar-me há muito tempo, mas ainda tenho muita coisa para fazer.

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