Fala agora em atingir um milhão…
Ele já diz isso há seis anos. Isto mostra que não cumpre os objetivos nem quantitativos nem qualitativos. É uma ilusão, é um embuste, porque lança objetivos que nunca cumpre. É impressionante, e não há consequências. Qualquer administrador de uma empresa que não cumpre os objetivos tem de sair. E a mensagem que Tomás Correia passa é que está a dar tudo o que tem e que, se não fosse ele, o Montepio já teria desaparecido.
Mas como vê o apoio de tantas figuras públicas?
O número de associados ronda os 600 mil e só votam 50 mil ou 80 mil, consoante os anos. Não há uma verdadeira participação associativa. Estas figuras, algumas com algum peso, não estão a avaliar bem a situação. E já vimos, num passado recente, pessoas com grandes apoios à volta e não foi por isso que não tiveram os problemas que tiveram. Espanta-me muito o apoio que Tomás Correia diz que ainda tem. Essas pessoas estão enganadas e, mais tarde ou mais cedo, vão perceber que estão a dar um apoio que não deviam.
Sente que há agora um maior apoio na tal capacidade de renovação face às últimas eleições?
Claramente, até o próprio Tomás Correia sente essa necessidade de renovação. Até disse que o ideal era que aparecesse alguém da geração posterior, com 50 e tal anos. No entanto, disse que procurou muito e não encontrou nem dentro nem fora do Montepio e, por isso, viu--se obrigado a candidatar-se e a fazer mais este esforço. Ou seja, ele próprio já chegou a essa conclusão e a maioria dos associados que votam e que acompanham a vida associativa também sentem isso. Até os próprios trabalhadores pensam assim e querem uma mudança na gestão. E esse sentimento é mais visível agora do que em 2015.
Defende uma redução do fosso salarial…
O que se passa em termos de salários é pornográfico. O valor-base do presidente é 30 mil euros mensais ou próximo disso; os restantes elementos da administração ganham cerca de 24 mil euros por mês. O que defendemos é que, além de uma redução dos salários, haja um equilíbrio entre ordenados. Não faz sentido ter estes ordenados na administração e depois ter alguém que esteja a trabalhar numa residência assistida a ganhar o ordenado mínimo.
Quanto terá de ser essa redução?
Terá de ser uma redução significativa. Não poderá ser só 10 ou 20%, terá de ser bem mais do que isso. Por isso é que está no nosso programa a criação de uma comissão, que será liderada por Bagão Félix, para proceder a uma revisão dos salários. A nossa ideia é que possa haver não só um índice salarial, mas também um índice de felicidade. Já não me lembro bem quanto é que ganhava no Montepio, mas era muito pouco. Estava no escalão mais baixo, mas sentia-me feliz a trabalhar naquela instituição. Não podemos trabalhar só por uma questão de dinheiro, temos de nos sentir bem na instituição, na cultura, no espírito, e isso foi-se perdendo no Montepio. Quando trabalhava lá havia um espírito de equipa que deixou de existir.
Falou-se na necessidade de existir apenas uma única lista para combater a de Tomás Correia. Ainda houve algumas negociações. Porque não foi possível chegar a acordo?
Existiram negociações. Estivemos desde o início do ano em conversações com Ribeiro Mendes, mas ele seguiu por outro caminho. Mas isso não impediu que as listas de oposição se juntassem. Além de considerar esta lista como a única de oposição, porque Ribeiro Mendes faz parte da atual administração e não deixa de receber o seu salário e de fazer a sua campanha.
Os elementos da sua lista são muito dispersos. A ideia foi essa?
Sim, até há quem lhe chame albergue espanhol. Os elementos da lista são todos associados, bem-intencionados, e não precisam do Montepio para viver. E por ter elementos tão dispersos também tem várias tendências, sempre com a ideia de mudança.
E é fácil gerir tantas diferenças?
É fácil quando existem os mesmos objetivos, que é devolver ao Montepio aos princípios de integridade, ética e honestidade. Todos os elementos desta lista têm essa preocupação. E quando existe essa base é mais fácil chegar a um consenso.
Mas o seu nome tem estado sempre associado a Braga Gonçalves…
Braga Gonçalves não é associado, nunca participou nem creio que vá participar numas eleições. Não é por ser amigo ou por ir almoçar ou jantar com ele que isso transforma esta lista numa lista de Braga Gonçalves.
Mas há muitas vezes essa associação…
O que faz sentido é atacarem as ideias, o projeto, não é atacar se temos um amigo ou se almoço ou janto com uma pessoa que teve problemas no passado, que esteve preso, mas que cumpriu a pena e saiu. Não vou renegar uma amizade para não me associarem a Braga Gonçalves. Prefiro estar ligado a Braga de Gonçalves do que a outras pessoas que se dizem muito apoiadas na nossa sociedade. Não está na lista, não é associado nem vai prestar serviços direta ou indiretamente. Prefiro que me digam que sou incapaz ou que as propostas que apresento não fazem sentido do que dizerem que esta é uma lista de Braga Gonçalves. Considero que isso é uma estratégia de defesa de quem está do outro lado, mas que começa a não fazer qualquer sentido.
Ribeiro Mendes já pediu que o ato eleitoral seja vigiado. Concorda com a ideia?
É estranho sugerir quando ele é administrador daquela casa. Ele tem essa responsabilidade, devia enviar uma carta a ele próprio. É isso que me assusta neste tipo de abordagens: ele foi eleito por este sistema eleitoral e agora vem criticar. Ele devia ter-se preocupado com isso há três anos. Eu preocupei-me e levei os resultados a tribunal.
Mas não venceu em tribunal. Ficou desiludido?
O caso ter ido a julgamento já foi um passo extraordinário. Não se compreende como é que hoje em dia não existe o voto eletrónico. Além disso, há um problema com o voto por correio: quem valida as assinaturas é a estrutura da lista A. Isso é inacreditável, contratam a PwC mas para fiscalizar do ponto de vista teórico.
Nas últimas eleições denunciou uma situação de votos duplicados…
Fiz queixa porque na contagem de votos apareceram 300 exatamente com a mesma assinatura. Isso não acontece com o voto por correspondência, existem uns kits de substituição que vão para os balcões da caixa económica e as pessoas que se esquecem ou que perderam a carta vão ao banco e alguns funcionários que estão instrumentalizados sugerem aos associados onde devem votar. Esses kits de substituição são pouco democráticos e pouco transparentes.
E vão ser usados este ano?
Vai ser tudo igual.
Por último, concorda com a mudança do nome do banco?
Até acho que a palavra banco dá mais atualidade à nova realidade. Não tenho nenhuma objeção. Mas tudo isto foi necessário para separar o banco da associação mutualista e essa separação foi consequência de uma má gestão. E quando há a preocupação de uma parte contaminar outra é porque algo está mal.
E como vê a escolha de Carlos Tavares?
É uma escolha sensata em função do peso institucional e da credibilidade que tem. Espero que cumpra o mandato.