18/07/2019
 

MICROPLÁSTICOS. O QUE SÃO E COMO PODEMOS ACABAR COM ELES

Os dados não são animadores: os microplásticos já chegaram à nossa cadeia alimentar porque, devido ao seu tamanho, não são filtrados pelas redes de tratamento e acabam nos oceanos. Essa preocupação já chegou ao parlamento e os deputados querem acabar com produtos de higiene e cosmética que usam estas pequenas partículas de plástico. A pensar nisso, o i fez uma ronda e deixa aqui algumas sugestões para fugir destas partículas recorrendo a fórmulas artesanais.

O QUE SÃO MICROPLÁSTICOS?

Partículas de plástico com dimensão inferior a cinco milímetros. Estão presentes em vários tipos de produtos, desde exfoliantes a pastas de dentes, e acabam por contaminar rios e, em última instância, chegam ao mar, uma vez que as Estações de Tratamento de Água Residuais não as filtram. Estudos mostram a sua presença na cadeia alimentar, em sal marinho, por exemplo

Há mais microplásticos do que
larvas de peixe no estuário do Douro

São poucos os estudos made in Portugal que se debruçam sobre o problema dos microplásticos, mas a partir das investigações mais recentes já é possível concluir que há motivos reais para preocupação: as aves aquáticas de todo o país estão a comer plástico que confudem com alimento, enquanto para cada larva de peixe no estuário do rio Douro
 há 1,5 microplásticos 

Em Portugal, a comunidade académica e científica está agora a dar os primeiros passos no estudo dos microplásticos e dos impactos que têm no ambiente. O i fez várias pesquisas em revistas científicas e contam-se pelos dedos os estudos nacionais que se debruçam sobre a temática. Ao i, os autores de dois deles confirmam que esta é uma temática que vão continuar a estudar, porque há ainda muito para compreender.

Publicado em janeiro na revista Marine Pollution Bulletin, o estudo “Plastic ingestion in aquatic birds in Portugal” (em português, “Ingestão de plástico em aves aquáticas em Portugal”) mostra que o flagelo dos microplásticos não é apenas uma realidade estrangeira: pelo contrário, já está a afetar, e muito, a vida selvagem em território português.

Ao i, a investigadora Marta Basto, que desenvolveu a pesquisa durante o mestrado em Biologia Marinha na Universidade do Algarve, faz a apresentação: “Este é um tipo de estudo utilizado para monitorizar o plástico que existe nos oceanos, rios e lagos. Não havia estudos que incluíssem todo o Portugal continental”. Marta Basto decidiu então colmatar essa falha e, em estreita colaboração com vários centros de todo o país, como o LxCras – que cederam as aves para estudo, reunidas pelos vários centros entre 2007 e 2017 – analisou o conteúdo do estômago de 288 aves de um total de 16 espécies. De acordo com o estudo, “todas as aves usadas nesta investigação foram encontradas isoladas, devido a lesões, doença ou exaustão. Estavam mortas quando foram admitidas nos centros ou morreram naturalmente durante a estadia”.

A análise revelou que das 288 aves recolhidas, 37 – pertencentes a seis das 16 espécies em estudo – tinham resíduos de plástico no estômago. Além disso, foram encontrados vários tipos de plástico, mas o mais comum foi o microplástico. “Isso indica que as partículas mais pequenas de plástico estão mais biodisponíveis e têm mais hipóteses de serem acidentalmente ou seletivamente ingeridas que os resíduos maiores”, conclui a investigadora.

“As nossas aves estão a ingerir plástico em grande número. Muitas vezes confundem com alimento. Não estava muito à espera deste resultado, porque se olharmos do ponto de vista de um cidadão comum, quando vamos à praia, por exemplo, não vemos grandes quantidades de plástico, mas os resultados mostram que ele existe”, lamenta Marta Basto.

A par das aves aquáticas, também através do estudo dos peixes é possível medir a quantidade dos microplásticos nas águas. Esse foi, de resto, o objeto de estudo da investigação portuguesa publicada em dezembro na revista Science of the Total Environment. Em “Microplastic contamination in an urban estuary: Abundance and distribution of microplastics and fish larvae in the Douro estuary” (“Contaminação por microplástico num estuário urbano: abundância e distribuição de microplásticos e larvas de peixe no estuário do Douro”, em português), conta ao i a investigadora Sandra Ramos do CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto, “o objetivo inicial era estudar as comunidades de larvas de peixe – a primeira fase de desenvolvimento do ciclo de vida dos peixes – que existem no estuário do rio Douro. Depois, decidimos comparar a abundância das larvas com os microplásticos existentes”.

Entre dezembro de 2016 e dezembro de 2017, a equipa recolheu então amostras no rio todos os meses. “No laboratório, separámos as larvas de peixe para as contarmos – contabilizámos um total de 1498 – e identificámos as espécies. O resto da amostra sofreu vários tratamentos laboratoriais para ficarmos só com as partículas de plástico – os microplásticos, partículas com tamanho inferior a cinco milímetros – e ficámos com um total de 2152 partículas”, recorda ao i a investigadora.

A partir daí, foi possível chegar logo a uma conclusão. “A dimensão dos microplásticos é muito próxima da das larvas de peixe, e aqueles que têm dimensões inferiores às das larvas acabam por se assemelhar ao zooplancton, que é o alimento das larvas de peixe”, diz Sandra Ramos. Mas confundirão as larvas os microplásticos com o alimento? A investigadora acredita que sim. “O problema é que os plásticos bloqueiam fisicamente canais da larva como o tubo digestivo e o animal morre. O que pode acontecer também é as larvas ficarem com uma falsa sensação de saciedade, porque o estômago fica cheio, o volume aumenta, mas aquilo não é alimento e não tem nutrientes, e então o animal não tem energia, não cresce e acaba por morrer. Seria o mesmo que nós enchermos o estômago de pedras”, exemplifica.

Os microplásticos trazem consigo outro tipo de problemas indiretos: contêm químicos e transportam poluentes que se depositam na sua superfície e prejudicam as espécies aquáticas. Além disso, tapam a luz que entra na coluna de água, diminuindo a incidência de luz que chega aos peixes, explica Sandra Ramos.

Os investigadores dizem-se surpreendidos com a abundância de microplásticos,. “Estavam presentes em todas as amostras que recolhemos na zona entre a foz do rio e perto da barragem, no fim do estuário do rio Douro. Cobrimos a extensão toda e todas as amostras que recolhemos tinham microplásticos. É assustador, principalmente sabendo nós que não era suposto eles estarem ali”, diz ao i Sandra Ramos. De acordo com as contas da equipa, o rácio é de uma larva de peixe para 1,5 microplásticos. “Há sempre mais microplásticos do que larvas de peixe”, lamenta a cientista. Contudo, o estudo revelou outra evidência inesperada: “Verificámos que os microplásticos são mais abundantes quando chove mais e o rio traz mais água de montante e tem maior caudal”. E o que pode isso significar? “Isso aponta no sentido de que as fontes de contaminação são terrestres. Vêm de cima e não do mar”, elucida Sandra Ramos.
Fechado este capítulo, a equipa do CIIMAR já tem planos para estudos futuros. “É uma área muito pouco investigada no país e há muito por fazer. A seguir, queremos tentar descobrir quais poderão ser as potenciais fontes de contaminação, por um lado, e investigar se destas larvas que encontrámos algumas ingeriram microplásticos. Ao longo do estuário, verificámos que os microplásticos também estavam em maior abundância numa zona em específico, entre a Ponte da Arrábida e a Ponte do Freixo. E também queremos tentar perceber isso, porque é que se acumulam mais aí”, conclui a investigadora.

DE PLÁSTICO DISPERSO A UMA ILHA. COMO CHEGÁMOS AQUI?

Foi com a descoberta da Grande Mancha de Lixo do Pacífico que a sociedade começou a ficar alerta para o flagelo do plástico e se apercebeu dos perigos que uma dependência tão acentuada do plástico pode ter

TEXTO | BEATRIZ DIAS COELHO

Atualmente, a comunidade científica estima que aquela que é a maior ilha de lixo flutuante do mundo – apesar de haver lixo em todos os oceanos –, tem cerca de 1,6 milhões de quilómetros quadrados e cerca de 80 mil toneladas de resíduos. Para precisar a dimensão, nada melhor que uma imagem: a dita ilha podia comportar 17 conjuntos de Portugal continental e ilhas.

Mas como foi “descoberta” esta ilha de lixo localizada no Pacífico Norte? O feito é atribuído ao capitão Charles Moore – que esteve em novembro em Lisboa para a palestra “A sea of plastics”, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – e remonta a 1997. Ao i, Charles Moore recorda que estava navegar do Havai para Long Beach, na Califórnia – de onde é oriundo – quando começou a ver, no giro subtropical do Pacífico Norte, “resíduos de plástico à superfície para onde quer que olhasse”. Não era uma ilha de lixo, como hoje, mas sim “pequenos pedaços intermitentemente”, precisa.

Moore esteve sempre ligado ao mar; o pai era um “marinheiro ávido”, como gosta de o descrever, e desde criança que cruza o mar. Essa proximidade levou-o a criar, em 1994 – antes da descoberta no Pacífico –, a Algalita Marine Research Foundation, uma associação sem fins lucrativos destinada a investigação científica para restituir as águas costeiras da Califórnia do Sul. Depois do infeliz encontro, o capitão e investigador mudou o rumo da investigação desenvolvida pela associação e centrou-se no estudo do impacto dos plásticos nos oceanos.

Questionado pelo i quanto às principais conclusões que já apurou, Charles Moore não hesita ao afirmar que “o plástico fundamentalmente altera a ecologia da região”. Debruçando-se em específico sobre os microplásticos, o capitão alerta que “os microplásticos estão a invadir a biosfera”, avançando que está a finalizar um artigo que será publicado numa revista científica em breve.

Em relação ao futuro, não faz previsões animadoras: à pergunta “acha que algum dia iremos conseguir limpar todo o plástico que existe nos oceanos”, Moore responde um assertivo “não”. Por outro lado, acredita que há algo que todos podemos fazer para diminuir a dependência do plástico e ajudar a diminuir a dimensão do problema: “reduzir o consumo de plástico”, afirma ao i.

Desde a sua descoberta, de resto, tem vindo a recolher resíduos plásticos do oceano para estudo e tem dado a conhecer o problema em todo o mundo, através de palestras e apresentações.
Limpar o oceano: uma missão impossível?

Charles Moore pode negar a possibilidade de retirar o plástico dos oceanos, mas há quem pense de forma diferente. É o caso de Boyan Slat, o jovem engenheiro herdeiro de uma grande fortuna que decidiu aplicar o seu dinheiro na criação de um sistema para fazer isso mesmo.

Criou para tal a fundação The Ocean Cleanup, em 2013, e em setembro último, o sistema que criou começou a operar no Pacífico. Não faltaram vozes críticas, que descartaram desde o início que o sistema conseguisse recolher o plástico das águas – incluindo Charles Moore, que recorda ao i que o sistema “nunca poderia ter funcionado” e que “disse isso” a Boyan Slat quando ele lhe “falou da ideia há 10 anos” – e houve quem defendesse mesmo que o sistema iria criar outros problemas, e a verdade é que no fim do ano vieram a público notícias que davam conta de que o processo estava a passar por várias dificuldades. Apesar dos obstáculos encontrados, Boyan Slat mostra-se esperançoso no sistema em entrevista ao i (página 17). E ainda que Moore afirme que se “provou que tinha razão” quanto à ineficácia do sistema, Slat não recua e garante ao i que “o objetivo do The Ocean Cleanup é livrar os oceanos do mundo inteiro de plástico”.

Boyan Slat

"TIVE O MOMENTO EUREKA NUM RESTAURANTE EM PORTUGAL"

TEXTO | BEATRIZ DIAS COELHO

Tem 24 anos e quer livrar os oceanos do plástico. Ao i, mostra-se confiante no sistema que criou e acredita que a equipa vai conseguir ultrapassar as dificuldades

É jovem e rico. Porquê criar um sistema para limpar o Pacífico?

Desde tenra idade que me interesso por engenharia. Construí casas na árvore, depois tirolesas e eventualmente este fascínio evoluiu para coisas maiores. Aos 12, dediquei-me à construção de foguetes. Isso resultou num record no Guinness pelo maior número de foguetes de água lançados ao mesmo tempo: 213, a partir de um campo desportivo na minha cidade natal de Delft, um projeto no qual participaram 250 estudantes universitários. A experiência ensinou-me a entusiasmar e envolver pessoas num projeto não convencional. Depois, no verão de 2011, eu tinha 16 anos e estava a fazer mergulho na Grécia, quando de repente me apercebi de que estava a encontrar mais sacos de plástico do que peixe. Por isso, pensei: ‘Porque não podemos limpar isto?’. Toda a gente me respondeu: ‘Não há nada que possas fazer quanto ao plástico quando chega ao oceano’. E eu questionei se isso era de facto assim. Depois, para um projeto científico no secundário, dediquei um ano e meio a compreender o problema em si e porque é tão difícil fazer essa limpeza. Isso acabou por levar ao nascimento do conceito de limpeza passiva.


Como desenhou o sistema e como funciona?

O mais perto que estive de um momento eureka foi quando estava a fazer uns esboços num guardanapo num restaurante quando estava de férias em Portugal. Pensei: ‘Porquê movermo-nos pelos oceanos, se os oceanos podem mover-se através de nós?’. E então, o conceito de limpeza passiva nasceu: um sistema passivo com barreiras flutuantes e telas sólidas por baixo, detendo o plástico na sua viagem pelos giros oceânicos. As barreiras começam por o apanhar e depois concentram o plástico, propiciando uma recolha eficiente e a extração do plástico de uma unidade de retenção no centro da barreira, enquanto a energia para a recolha é fornecida pelas correntes oceânicas. Ir atrás do lixo com navios e redes seria caro, moroso, trabalhoso e levaria à emissão de grandes quantidades de carbono. É por isso que o The Ocean Cleanup está a desenvolver um sistema passivo, que se move com as correntes – tal como o plástico – para apanhar o plástico. O sistema passivo do The Ocean cleanup é composto por flutuador com uma tela impermeável por baixo, concentrando os resíduos antes de serem extraídos por navios de apoio.


O sistema foi lançado em setembro. Alguns cientistas argumentaram na altura que o sistema não ia resolver o problema, criando outros. Como tem corrido?

O sistema foi lançado no ano passado e ao longo da últimas semanas de operações recolhemos imensa quantidade de dados. Por exemplo: das velocidades do fluxo e das direções para o interior e em torno do sistema, que iremos usar nas próximas semanas para chegar a um entendimento mais detalhado daquilo que causa os efeitos observados e depois desenvolver as melhorias necessárias do sistema. Os dois aspetos que precisam de mais trabalho são as dificuldades na retenção do plástico – que pensamos conseguir resolver deixando o sistema mover-se mais rápido com o vento – e a fadiga do material – um tipo de problema muito comum que surge com o desenvolvimento do processo. Estamos a trabalhar arduamente em soluções para ambos. De resto, a limpeza tem tido perturbações, mas a verdade é que estamos a trazer para terra em média cerca de 2000 quilos de redes-fantasma e plástico extraído do sistema. É uma quantidade menor do que estavamos à espera a partir da eficiência de captura que tínhamos projetado com o sistema totalmente operacional, mas ainda assim é uma contribuição positiva. Claro que prevemos regressar a terra com muito mais plástico quando tivermos o sistema já com as alterações de novo em funcionamento.


Que tipo de plásticos encontraram no Pacífico?

As manchas de lixo no oceano não são ilhas sólidas. O plástico está sim disperso e forma campos massivos de resíduos, mas isso não significa que estas áreas não são altamente poluídas e não requerem limpeza. A concentração média da Grande Mancha de Lixo do Pacífico é de cerca de 60 quilos por quilómetro quadrado e com máximos de várias centenas de quilos por quilómetros quadrados. Para comparação: a algumas centenas de quilómetros da mancha, tem-se dificuldade em encontrar quantidades de 0,1 quilos por quilómetro quadrado. A informação mais recente recolhida pelo The Ocean Cleanup, bem como uma explicação da ciência da Grande Mancha de Lixo do Pacífico, pode ser encontrada no site. Os tipos de plástico encontrados no oceano variam consideravelmente: desde pequenos pedaços de plástico decomposto a paletes e a redes de pesca inteiras cheias de material.


Quais são os próximos passos do The Ocean Cleanup?

Vamos passar algum tempo no Havai, em Hilo Harbor, para determinar a gravidade dos danos e preparação de materiais necessários para reparação. Depois, plaeamos voltar à mancha dentro de alguns meses. O maior propósito por detrás do Sistema 001 é conseguir aprender o máximo possível para ajustar e melhorar o Sistema 002. Sempre tivemos a intenção de construir o Sistema 002 e depois de pormos o Sistema 001 de novo no oceano, iremos caminhar em direção à expansão.


Houve algo que vos tenha surpreendido durante o processo? 

No The Ocean Cleanup acreditamos que não se consegue resolver um problema se não o compreendermos na totalidade. Por esta razão, apostámos muito na investigação da poluição por plástico desde o início para nos guiar para o melhore conjunto de soluções. Este trabalho continuou em paralelo ao desenvolvimento e implantação da nossa tecnologia de limpeza. Na pesquisa de plástico no oceano, observa-se um desequilíbrio na quantidade de plástico que acaba no oceano e a quantidade de plástico que estamos a encontrar a boiar à superfície.


Acha que algum dia conseguiremos ter a tecnologia necessária para limpar todo o plástico que existe nos oceanos?

O objetivo do The Ocean Cleanup é livrar os oceanos do mundo inteiro de plástico. Perceber a fonte, o transporte e o destino do plástico do oceano serve esta missão e a da comunidade científica. As nossas equipas de investigação esperam fazer uma contribuição significativa em direção à redução do balanço de massa de plástico no Oceano global nos próximos anos. Compreender a formação de manchas de lixo e quantificar a sua persistência é uma questão-chave e nós iremos continuar a usar a missão do Sistema 001 para ganhar mais conhecimentos e alcançar os nossos objetivos.

PRODUTOS ARTESANAIS. COSMÉTICA E DETERGENTES AJUDAM O AMBIENTE, CUIDAM DA PELE E ALIVIAM A CARTEIRA

Especialistas revelam quais as melhores formas para proteger a pele dos produtos tóxicos em cosmética e detergentes

TEXTO | CAROLINA BRÁS

O impacto dos microplásticos ultrapassa o ambiente e entra no nosso dia-a-dia através dos mais variados produtos. “O problema dos microplásticos é transversal à nossa vida”, disse Dália Jesus, umas das fundadoras da loja online Green Goji, em conversa com o i. “As pessoas devem fazer um consumo consciente, olhar para os rótulos e pensar não só na saúde, mas nas consequências para gerações futuras. As alternativas existem, é só fazermos um esforço para as encontrar”, aconselha.

“A pele é o nosso maior órgão, devíamos ter cuidado”, disse. Uma ideia partilhada por Cristina Figueira, criadora da página de produtos naturais Mãe Gaia, ao afirmar que “ao contrário do nosso corpo, que absorve e digere, a nossa pele é exposta a elementos tóxicos com os produtos que usamos que vão diretamente para o sangue”, contendo corantes, conservantes e componentes tóxicos, como microplásticos, revela ao i. 

A solução para este problema parece ser fácil:usar produtos naturais e biológicos, amigos do ambiente e da saúde. “Os produtos funcionam de forma igual, mas são feitos de forma diferente, menos prejudiciais para a saúde e para o meio ambiente”, disse Dália Jesus. No entanto, a responsável avisa que os clientes têm de ter cuidado porque nem todos os produtos identificados como naturais o são efetivamente: “Há um conjunto de normas que têm de ser cumpridas não só nos ingredientes como nas embalagens.” “Os consumidores devem procurar a certificação no rótulo para comprovar que são biológicos e não testados em animais, por exemplo”, explicou. 

Os que o são “vão buscar produtos à natureza, 100% naturais ou de origem vegetal”, explica ao i Dulce Mourato, coautora dos livros “Sabão e Cosmética Natural” e “Cosmética e Saboaria Natural”, com Filipa Falcão. Para a autora, “não há desculpa” para as pessoas não optarem por este tipo de produtos, que já existem em “inúmeras lojas bio, muitos deles já produzidos em Portugal”, explica. 

Para Dália, é também importante que as pessoas percebam que estes produtos têm o mesmo efeito dos convencionais ou até melhor, uma vez que são biológicos. O preço é a única coisa que acabam por ter em comum. 

“Existem alternativas como a pasta de dentes branqueadora, que pode ser substituída por uma de carvão”, exemplifica, assim como as escovas de dentes de bambu (aconselhadas por dentistas) ou os fios dentários, em que a única coisa que se altera “é a embalagem onde se encontram”.

“No último ano, a redução do desperdício e do uso do plástico tem-se notado muito e acho que se começa a observar uma certa tendência”, confessa Dália. No entanto, diz que “o consumidor procura, mas ainda há muito trabalho a fazer”.
A sua loja surgiu como necessidade própria de encontrar produtos naturais, mas hoje, tanto via internet como em lojas físicas, “até mesmo supermercados”, já é possível encontrá-los.


Para quê comprar se pode fazer?

“O estado de espírito com que fazemos a cosmética é um ato de amor para com a nossa pele”, disse Dulce, criadora da receita de bálsamo labial em stick.

Para que estes possam ser feitos em nossa casa é necessário que se “conheça bem os ingredientes e a ação que têm na nossa pele”, esclarece, e afirma que “é fácil fazer em casa”. 

A regra parece ser simples: “saber o mínimo de regras de formulação”, os ingredientes que “temos em casa” e “poucos instrumentos que toda a gente tem e que são baratíssimos”, explica. 

“Há elementos que fazem parte do nosso ambiente e que contêm qualidades que podem ser usadas em todo o nosso corpo”, diz Cristina Figueira. “O óleo natural pode ser usado na pele e contém vitaminas e nutrientes que são absorvidas pelo nosso corpo”, exemplifica. 

Para quem quer experimentar fazer este tipo de produtos em casa, Dulce aconselha que o mais fácil passa por experimentar, procurar alguém que já o faça ou adquirir através de alguém que já produza antes de pôr a mão na massa, até porque, como garante, “não há ninguém que depois de experimentar não prefira estes produtos”. 
Ainda assim, Dulce avisa que estes produtos não podem ser vistos como cura para qualquer problema, por não se tratar de medicamentos, mas deixa a certeza de que “melhoram”. E diz mais: a mudança deverá passar pela pele, mas também pela alimentação e por outros fatores externos. 

Além disso, os produtos artesanais ajudam na carteira, uma vez que os gastos com os ingredientes necessários são mais reduzidos em comparação com a compra de produtos em loja. 


Em casa, para lá da cosmética

Para além do que aplicamos na nossa pele, Cristina Figueira acredita também ser essencial pensar nos produtos que usamos diariamente para limpar a casa. 

“É preciso que não deixemos que os produtos deixem a nossa casa mais poluída que o exterior”, avisa, e explica que os produtos que se usam habitualmente podem ser tóxicos para a saúde e podem estar na origem de alguns problemas graves de saúde. 

São inúmeras as receitas que existem para produtos domésticos artesanais e Cristina deixa um exemplo: “Uma garrafa de vinagre de cidra, por exemplo, faz mil e uma coisas em casa”, como limpar os vidros, retirar nódoas ou limpar o chão. 

Além disso, limão, alfazema, alecrim, laranja, sal e açúcar, entre muitos outros ingredientes, podem ajudar a limpar a casa de uma forma mais natural. 

Para as três especialistas em produtos naturais há uma regra que deveria ser sempre respeitada: a nossa pele só deve estar em contacto com ingredientes que possamos ingerir.

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