Como?
Acho que temos de começar a ser mais exigentes com as escolas, com o sistema laboral. Os nórdicos nem sempre foram “os nórdicos”, neste sentido de serem mais evoluídos. Já estiveram como nós. Quando me dediquei a prevenção de acidentes e fundei a APSI (Associação Para a Promoção da Segurança Infantil), comecei a analisar os dados que havia em cada país. Por exemplo na Suécia, até aos anos 50 a mortalidade por acidentes era igual à nossa. E de repente nós continuámos lá por cima e a Suécia veio por ali abaixo.
O que mudou?
Mudou uma coisa, que é isso que acho que tem de mudar. É uma história fantástica, de um professor que acabou por morrer num acidente, para salvar o cão. O prof. Berfenstam, que era de Upsala, conheci-o pessoalmente. Um dia foi convidado pela televisão sueca para ir a um daqueles programas muito vistos nos anos 50, dava perto da hora de jantar e era dirigido aos pais. A entrevista era sobre alimentação das crianças. A jornalista começou a fazer as perguntas sobre o tema e ele começou a responder. De repente para e diz “desculpe, não vou falar mais de alimentação. Estou a falar de uma coisa que sinceramente, coma arenque, coma salmão, tanto faz. Quero falar de outra coisa: quero falar dos acidentes que estão a matar n crianças suecas. Isso sim é o que quero discutir convosco.” E lá disse o que era preciso fazer, prevenir, melhorar os sistemas de proteção nos automóveis.
As primeiras cadeirinhas?
Sim, havia um engenheiro de biomecânica que tinha começado a desenvolver um protótipo porque tinha um filho que tinha morrido num acidente e nunca se convenceu de que aquilo fosse inevitável. Planeou uma cadeira, fez testes com volvos antigos. O Berfenstam faz esse momento na televisão, vai para casa e de repente toca o telefone e era o ministro dos Transportes da Suécia a dizer que, como pai, tinha ficado completamente siderado com a situação, não fazia ideia. Pediu-lhe para ele ir a Estocolmo para falarem. Ministro dos Transportes que veio a ser primeiro-ministro e que era o Olof Palme, que depois foi assassinado numa rua de Estocolmo. Dispensava a segurança, dizia sempre que queria andar com a mulher e os filhos, ir ao cinema sem ser com uma legião atrás. Conheci-o, a ele e à mulher, e era uma pessoa inacreditável. Para mim é o ex-libris do que deve ser um político, é talvez o político que mais admiro na história.
Cá quem são as referências?
Cá houve pessoas boas. Há políticos ótimos, há políticos péssimos. E depois há os malandros e os não malandros. Não vou dizer nomes mas é verdade.
Como vê o atual momento político? A crispação que se vê nos debates?
Já respondo porque é importante. Concluindo a história do Berfenstam. A partir daí o Olof Palme disse ao ministro “então faça-se, apresente medidas ao parlamento, orçamente e se for aprovado implementamos”. No fundo os saberes técnicos conjuntamente com a vontade política e uma população sensibilizada, contribuiu para uma sinergia que levou à mudança. O mesmo aconteceu cá. Quando a Leonor Beleza foi um dia visitar o Hospital Maria Pia e o administrador fez os salamaleques do costume, o Octávio Cunha disse: “Não, não está tudo bem, e eu seria um péssimo funcionário público e péssimo servidor do ministério se dissesse que está”. Disse que morriam ali crianças que vinham de Bragança, de Trás-os-Montes por más condições de transporte e acidentes, porque faltavam ventiladores. Ela agradeceu a honestidade e mal chegou a Lisboa convocou-o. E foi aí que se desenvolveu em Portugal o programa de saúde materna e infantil. Curiosamente, e já vamos à crispação, a Leonor Beleza era do PSD, disse apenas que a comissão devia ter como presidente Albino Aroso, que era do PSD mas até muito de uma ala à esquerda, uma pessoa reconhecida, pai do planeamento familiar, um coração maior que a caixa. Mas depois a ministra disse escolham três obstetras e três pediatras para trabalharem. As seis pessoas escolhidas eram todas ligadas ao PS ou ao PCP, ou não tendo partido, tudo gente esquerda. Nunca, com nenhum ministro, e trabalhei com vários, nunca houve problemas políticos. Houve sempre o compromisso: nós éramos os técnicos. Claro que a decisão é política, mas tivemos toda a liberdade.
Mas mesmo no livro há um desabafo de que o tempo da política nem sempre é o mesmo do dos técnicos.
E é verdade, houve discussões várias, mas havia um à vontade tal que tem se cultivar. O que às vezes é pena é que não haja mais conciliação. Sei que é difícil, da mesma forma que é difícil para um sportinguista aplaudir a jogada do adversário e vice-versa. Acontece excecionalmente, quando o Renato Sanchez meteu aquele golo, a Luz toda levantou-se apesar de ter enterrado o Benfica. São casos excecionais e geralmente assobia-se o adversário, mas na política também há isso e é pena não se ver nunca nos debates, quando justifica, um “por acaso tem razão”.
Os problemas do país resolvem-se mais devagar?
Muito mais, sobretudo os problemas que são cada vez mais sistémicos e que, por isso, precisavam de sinergias maiores.
Se agora fosse a sua vez de interromper o programa, alertava para quê?
Está a perder-se demasiado tempo com o combate de galos quando há coisas a resolver. São precisos grandes investimentos na saúde, que está numa situação crítica, e na educação. A saúde tem um problema estrutural de falta de recursos e corremos um risco de rutura - o orçamento da saúde tem de ser maior. E é preciso acabar com este clima. Os enfermeiros têm sido muito maltratados desde há décadas. Hoje querem, e muito bem, um estatuto diferente, mas sou completamente contra esta greve às cirurgias. Sou pelo direito à greve, mas o intuito da greve é incomodar o patrão. Incomodar aqueles que não têm nada a ver com o caso e sobretudo os mais desfavorecidos, acho uma perfeita indecência.
São quem continua no SNS?
Tendencialmente. Qualquer pessoa que precise de uma cirurgia a uma tendite e tenha um seguro vai ao sistema privado ou tenta desenrascar dinheiro com a família, como for. Mas quem não tem, não tem mesmo. A redução das desigualdades é talvez o grande problema do nosso país. Na educação também há escolas a cair e problemas, mas para mim não é tão preocupante haver paredes mal pintadas, até porque os miúdos se estão nas tintas. Para mim o problema da educação é estar um sistema educativo velho, que não está a pensar no futuro. A arte está cilindrada, a parte física idem.
Os professores testemunham que, quando os pais pressentem um jeito para as artes, tentam desviá-lo.
É logo, qualquer talento é logo abafado. As pessoas se forem boas, vão ser boas, é isto que temos de passar. O investimento dos pais deve ser em cidadania, respeito, em estudar com certeza mas também em ter tempo livre. Autonomia com responsabilidade.
Qual é que é hoje a principal preocupação dos pais?
Acho que é quererem ser pais perfeitos e fazerem tudo bem e culpabilizarem-se muito se alguma coisa corre mal. Têm sempre as gavetas cheias de culpa. Querem muito que os filhos tenham tudo e não conseguem dar-lhes um bocadinho de frustração. Quando dizem “Maria não vais comer um gelado porque acabaste de comer um”. Alguns não conseguem dizê-lo, a Maria faz uma birra e leva um segundo gelado. Mas mesmo aqueles que conseguem e dizem que não, ficam mortificados, “o que fiz à minha filha?”.
É o medo de traumatizar.
Sim, coitadinha, queria tanto o gelado. Não deu e pronto. As pessoas têm de perceber que não é isso que põe em causa o amor dos pais, pelo contrário, as regras, a firmeza e haver alguma orientação são uma demonstração de amor, mesmo que os filhos fiquem furiosos. O nosso papel é desmontar essa fúria e mostrar que há mais tempo, há mais gelados. É essa a perspetiva que os adultos têm de dar e por vezes se demitem, a perspetiva de quem já viveu, tem experiência e que a experiência diz que é preciso ter calma.
Dar significa ter um feedback mais rápido. Pais que vivem com pressa…
Sim, mas é comprar afeto, é despachar tudo. Mas se calhar acaba o segundo gelado e pede o terceiro e com que cara é que a pessoa não dá o terceiro. E este quero tudo já leva ao narcisismo, que é a pior doença social, a que desgasta mais. Está muito relacionada com poder: o narcisista quando tem poder, seja doméstico, social ou político, sobe aos píncaros.
Falou-se esta semana do flagelo da violência doméstica. Está muito por fazer?
Felizmente cada vez mais se fala destes casos, é dos maiores serviços públicos que a comunicação social tem feito. Lembro-me bem de ser normal, portanto nunca ser tido como violência, muito menos notícia, um marido bater na mulher, espancá-la, quando a equipa perdia, quando estava chateado ou quando tinha bebido para lá da conta. Bebia-se mais do que se bebe agora, os homens iam para o campo, levavam os garrafões. Se alguém levasse um garrafão de água era ridicularizado. E as frustrações, fosse do clube perder, fosse a mulher dizer alguma coisa. Depois como os homens no geral ainda são mais fortes do que as mulheres e não havendo argumentação verbal… isso é outra coisa que há que pensar. Quando as pessoas eram mais analfabetas, com vocabulário limitado, faziam vingar as suas ideias à força, o argumento era a chapada.
Discutir com uma pessoa bêbada...
Pois, até a pessoa mais erudita fica limitada. Portanto havia uma violência brutal e não nos esqueçamos que há 100 anos um homem podia matar a mulher se a apanhasse em adultério e era considerado defesa da honra. Houve uma grande evolução histórica e tiro o chapéu a todas as organizações que têm dado o poder às mulheres de falar, isto acompanhado de filmes e séries que dão também força. Disto isto, não se pode subestimar o que continua a acontecer. Deve incutir-se o respeito pelos outros. Claro que haverá casos de psicopatas no meio, mas haverá muitos problemas de álcool e um problema de má gestão da raiva. Temos de ensinar as crianças a gerir a raiva, não pode ser partir tudo. E nós próprios não soltando impropérios só porque um carro está mal estacionado. Temos de conseguir ser menos violentos todos. E perante casos concretos, não pode haver contemplações.
As crianças apanhadas no meio destes casos ficam marcadas para sempre?
Este último caso foi trágico mas as crianças ficam muito marcadas. A violência verbal, a acrimónia entre os pais ou no ambiente familiar, faz as crianças ficarem encolhidas.
O Papa pediu noutro dia para os pais não discutirem à frente dos filhos.
E tem razão, embora ao estarmos a viver como animais enjaulados, ficamos como aqueles peixes lutadores que não se podem pôr dois no mesmo aquário. É instintivo. Até pode ser um aquário de dez metros que eles vão encontrar-se e lutar. Portanto passa por combater isto e ensinar às crianças que não pode haver violência. Uma das coisas que me assusta mais é constatar que os números da violência no namoro estão a aumentar. Mais de metade das raparigas de 15 e 16 anos acham normal a violência, acham um sinal de amor que os namorados lhes casquem em cima, ver mensagens do telemóvel, formas capciosas de controlo. Isto é assustador. E por isso acho que a escola, mais do que ensinar a multiplicação de potencias e superlativos, tem de fazer este exercício de mostrar que isto é inaceitável. Isto também começa pela maneira como tratamos os animais.
Há quem goze com esta nova forma de elevar os direitos dos animais.
Já fui gozado n vezes por ter projetos nesta área. As pessoas perguntam: “interessavas-te por crianças, agora és pelos animais?”, como se uma pessoa fosse de um clube e mudasse para outro. Hannah Arendt tinha razão quando falava da banalização do mal. Quando o mal é banalizado, custa a primeira vez mas depois uma pessoa habitua-se. Há uma dessensibilização, tal e qual as vacinas das alergias. O que são as vacinas dos ácaros? Dá-se tantos ácaros que a certa altura o sistema imunitário já não reage, desiste. A maneira como tratamos os animais, a natureza, diz muito.
Já se tornou vegetariano?
Não, como menos carne do que comia porque gosto mais de peixe. Acho que o ser humano existe e não temos de o tirar do ecossistema, mas podemos usar a nossa inteligência para não dar cabo disto.
Tem-se usado a pobreza do passado para explicar a má qualidade de vida na terceira idade. Com o stress de hoje, como é que lá chegaremos?
Pois, não sei. Não defendo a miséria do tempo de Salazar, mas a vida rural tinha alguns fatores protetores que importa resguardar, a confraternização entre as pessoas. Encontrar os vizinhos, conversar. O relacionamento social é altamente protetor.
É outro conselho aos pais, tentar fazer mais vida de bairro?
Sim, não ter medo de deixar as crianças saírem à rua. Este medo que se estabeleceu então depois do caso Casa Pia é terrível, como se houvesse um pedófilo em cada esquina. As crianças correm muito menos riscos hoje do que antes.
Porquê? Essas pessoas continuam a existir.
Era normalíssimo, nem era denunciado. Às vezes até era incentivado pela comunidade. Tive um caso na Madeira há muitos anos em que era uma comunidade em que era costume o pai da noiva, em frente ao noivo, ter relações com ela na véspera do casamento para mostrar que era virgem. Fui chamado para tentar explicar às pessoas que aquilo não era correto. Como o pai estava emigrado, foi a própria população que se quotizou para pagar o avião, se não o senhor não tinha dinheiro para vir.
Foi quando?
Nos anos 80. A questão que se punha era se era considerado um maltrato, mas para ele ir para a cadeia toda a aldeia tinha de ir. Era o normal. E a conclusão foi que só através de um trabalho enorme de fazer as pessoas perceber que aquilo não era ético é que foi possível mudar.
Há pouco não concluiu: sentir que esteve à beira da morte mudou o quê?
Vejo talvez a vida com mais calma, a expressão é difícil de arranjar. Sinto-me bem. Não queria perder muito tempo com discussões estéreis. Procuro ter momentos de paz. Uma coisa que me faz a tal angústia existencial, que agora obviamente me persegue um bocadinho mais, é levar-me a aproveitar a beleza. Sempre fui muito desprendido materialmente, livros e música são a minha adição, de resto gosto de passear e ver coisas bonitas.
Não fez as pazes com ninguém?
Tenho procurado estar mais com amigos. Aquela coisa do “um dia temos de almoçar” não é nada. Digo mais vezes “pega na agenda e marcamos”. Gosto muito da beleza das coisas e olho cada vez mais. Chamo cada vez mais atenção dos meus filhos e até dos clientes. Noutro dia estava a mostrar a uns pais aqui pela janela: podem olhar para uma árvore aqui em frente que está ainda muito invernosa, mas já há aí árvores com gomos e folhinhas a nascer. Isto é um ciclo. Fazer parte disto é um privilégio. É um privilégio estar vivo.