É um exemplo que dá confiança a quem está à espera de transplante?
Não tenho dúvidas disso. Toda a gente sabe que ele foi transplantado.
Há muito medo quando se está à espera?
Só vão para transplante de coração as pessoas que a gente pensa – ou imagina, porque não há propriamente um aparelho de medição – que não vão sobreviver mais de um ano sem serem transplantadas. As pessoas vêm fisicamente muito incapacitadas e mais do que medo dizem que aquela vida já não dá para viver. Além disso há alguma preparação: as pessoas são seguidas por causa da insuficiência cardíaca e começam cedo a ouvir dizer que qualquer dia será preciso trocar aquele coração por outro. E qualquer dia não vão ser transplantes, vão ser motores elétricos. O coração é uma bomba, duas bombas na realidade, o coração do lado direito e o do lado esquerdo. Há um ano houve a notícia do primeiro coração artificial num recém-nascido. Ainda não é bem isso, é uma bomba paralela ao coração do próprio.
Por agora é usado sobretudo enquanto se aguarda o transplante.
Sim. Um coração artificial será tirar o coração do doente, deitá-lo fora e o doente ficar com duas bombas elétricas. Já foi feito e não tenho dúvidas de que é este o caminho, mas hoje ainda há dois problemas. Por um lado, os motores elétricos gastam muita energia… os doentes têm de andar com uma mochila ou com um cinto com baterias e depois carregar à noite. Mas é como os carros elétricos: começaram por só dar para 50 km e agora já dá para 200 km. O outro problema é que o sangue, ao contactar com superfícies estranhas, transforma-se em coágulos, que podem embolizar para o cérebro e dar AVC. Com uma bomba elétrica todo o sangue está em contacto com uma superfície estranha. Mas isto há de mudar.
Como?
Modificando essas superfícies para serem compatíveis com o sangue. Hoje é possível pensar em fazer culturas de células do próprio indivíduo para cobrir toda a superfície. Imagino que isto passe a ser prática comum dentro de duas décadas.
E um homem com uma coração elétrico continuará a ser humano, a mesma pessoa?
Hoje a morte cerebral é que define o fim da vida, o cérebro é que nos comanda não é o coração. Quando comecei pensava-se de outra maneira. A nossa característica está no nosso material genético e no nosso cérebro, diferente em cada pessoa. Não estou a ver a transplantação do cérebro ou o cérebro a ser substituído por uma máquina. Agora o coração é uma bomba, uma dupla bomba. Pode perfeitamente ser substituído e não transforma o indivíduo.
O tempo que a tecnologia demora a equiparar a natureza reforça as suas convicções religiosas?
A tecnologia leva tempo. Hoje as pilhas do pacemaker têm três centímetros, lembro-me de ver doentes com baterias externas do tamanho das de um carro. O coração consegue fazer isso sozinho mas temos de nos sentar à mesa, também não somos autónomos. As plantas são: têm ar e luz e fazem a fotossíntese.
O Centro de Cirurgia Cardiotorácica que veio fundar nos HUC, hoje no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, é o seu maior legado?
Creio que sim. Um dos fatores que me convenceu a vir de África do Sul foi vir criar um novo serviço. Havia um setor no hospital destinado à cirurgia cardiotorácica capaz de tratar 250 doentes por ano. Mal cheguei disse que tínhamos de fazer 400 ou 500 para as necessidades da população da zona centro e ficaram um pouco embasbacados. Hoje vemos 2000 doentes, de todo o país. Ao final do ano estávamos assoberbados e tivemos de construir um novo edifício.
Acompanhou as obras.
Sim, todas as quintas reunia com os construtores. Normalmente um serviço vai-se fazer e quando se chega lá é que se vê como ficou. Nós escolhemos tudo.
Teria sido possível hoje?
Hoje também se fazem coisas novas. E para a coisa sair do conceito para o papel não foi imediato. Basicamente foi dizer que um hospital que tinha sido inaugurado há 15 anos já não dava e era preciso um novo edifício… O desenho foi feito por nós, as portas estão no sítio onde eu e os meus colegas achámos que deviam estar e sem custar mais. Isto foi adjudicado por 10 mil contos e foi inaugurado precisamente no dia em que terminavam os 500 dias do prazo da obra e não foi inaugurado com uma fita para depois continuarem os trabalhos. Foi inaugurado connosco a operar de manhã nestas instalações e à tarde com o primeiro-ministro a vir cá. Depois eu formei uns e os uns formaram os outros. Portanto não é só um legado físico.
Foram o primeiro centro de responsabilidade integrada do SNS, um conceito de gestão com mais autonomia que ainda não está generalizado.
Sim, desde dezembro de 1998. Houve outras experiências, mas muitas das prerrogativas dependem de quem está ali ao lado no edifício principal porque passam por uma delegação de competências.
Têm um orçamento autónomo?
A lei diz que sim, na prática não sei. É autónomo mas tão autónomo como é o orçamento do hospital no SNS. Isto é feito de cima para baixo. O ministro da Saúde sabe que tem tanto para o ano, distribui pelas regiões, que distribuem pelos hospitais. Teríamos direito a um orçamento autónomo e que depois poderíamos gerir à vontade, dentro das leis, não podemos contratar de qualquer maneira porque é preciso fazer concursos. Hoje em dia nem nós estamos tão independentes do hospital como devíamos estar nem o hospital está tão independente do ministério como devia estar.
É um dos problemas do SNS?
Acho que é. Acho que o senhor ministro não faz a mínima ideia daquilo que o hospital necessita a cada momento tal como o conselho de administração não faz a mínima ideia se a Maria ou o Manel estiveram aqui a trabalhar o dia inteiro como deviam estar. Se estiveram sabem porque agora há o sensor biométrico, mas não sabem se produziram ou não produziram. Só quem está no local é que sabe e por isso essa descentralização de poder era essencial.
Tem havido alguma turbulência no SNS, com críticas à falta de meios e à interferência das Finanças.
Alguns discursos que ouvimos são politicamente motivados mas independentemente da inclinação política percebe-se que o país passou por um período de bancarrota. Quem quiser dizer que é preciso mais 50% de orçamento para a saúde que me diga onde vai buscá-lo. Vamos fechar 50 escolas primárias, 20 escolas secundárias, tiramos à educação? São quatro rubricas os principais gastadores: educação, saúde, segurança social e a lei e ordem, as forças de segurança.
Não concorda com a ideia de que o SNS está subfinanciado?
Em qualquer um destes ramos vamos estar sempre subfinanciados porque a nossa economia não é a da Alemanha. Estaremos tanto mais subfinanciados quanto mais pobre for o nosso PIB e a produtividade dos portugueses. Podemos cortar um bocadinho nas Forças Armadas, se calhar podemos, mas isso não vai resolver o problema. Ajuda num ano ou dois. Mas podemos fazer melhor com o dinheiro que temos na saúde. Continua a haver muito desperdício.
No tempo da troika falava-se de gorduras.
O livro que escrevi (editado no ano 2000) tinha o título “A Doença da Saúde: SNS, Ineficiência e Desperdício”. Esses dois pecados continuam a existir e muito.
Um exemplo?
Reutilizamos no nosso serviço muitas coisas que noutros sítios vão para o lixo. Dispositivos de uso único que esterilizamos numa central própria. É muito mais fácil deitar para o lixo do que ter de lavar, esfregar, ver ao microscópio se não tem impurezas, embalar. O meu pessoal tem de fazer esse trabalho todo e aceitou fazê-lo. Outro exemplo é a distribuição de trabalho. Se me perguntar quantas horas o médico A passa na sala de operações, o enfermeiro A na enfermaria, eu não sei: o primeiro disponível vai para lá. Ao trabalharmos o dobro de horas poupamos logo numa coisa: o tempo de passagem de turno.
Compensa o dinheiro em horas extra?
Hoje são pagas praticamente ao valor das horas normais, não é por aí. Precisavam de ter o dobro das pessoas para fazer o que fazemos.
Mas como convenceu os profissionais a aceitar isso? E os sindicatos?
Durante muito tempo os sindicatos andavam aqui à volta e hoje já ninguém aqui no serviço lhes liga. E qualquer pessoa que não esteja bem pede transferência de serviço. Penso que as pessoas sabem que trabalham num serviço de excelência e que é reconhecido por isso. Qualquer jogador de futebol português gostaria de jogar no Real Madrid. Quem tem oportunidade de jogar lá não vai sair, só se for o Ronaldo. E diga-se outra coisa: ganhamos o dobro porque trabalhamos o dobro mas eu não estou nos 20 mais bem pagos do hospital.
Nem com os incentivos para a realização de transplantes?
Nós somos 117 funcionários e dão-nos 125 mil euros, dá mil euros em média por pessoa por ano, não chega a 100 euros por pessoa, embora a divisão não seja assim: dividimos por todos mas proporcionalmente ao salário. Um médico e um auxiliar não recebem o mesmo, mas é um aumento de 5% para ambos.
Já chamaram ao seu estilo a “manuelantunização”.
Foi este ministro, antes de ser ministro.
O que é?
É isto. Aos 70 anos continuo a trabalhar 75 horas por semana, 25 noites por ano, a operar 12 doentes por semana, continuo a andar aqui no serviço a subir e descer escadas como se tivesse 50 anos. Foi um método de vida e de trabalho que instituímos aqui e que é diferente na intensidade com que fazemos as coisas. Nesse aspeto, outra das reformas que o SNS vai exigir, se quiser alguma vez ser competitivo, é desfazer – e não quero ser ofensivo – esta concubinagem entre público e privado. Sobretudo nos médicos: o estarem umas horas e irem a correr para o consultório.
A exclusividade devia ser imposta?
O termo adquiriu uma conotação muito suja mas sim, a dedicação plena a um serviço, adequadamente compensada.
Há médicos a desviarem doentes do público para o privado e o contrário?
Se lhe dissesse que não, acreditava? Não tenho nada contra os colegas que trabalham aqui e trabalham fora porque a lei o permite, agora se não fazem aqui as horas que deviam fazer é mau. E se andam a transferir doentes de um lado para o outro, os bons para um lado e os maus para outro, também.
Mas andam?
Eu não posso dizer, mas suspeito que em todos os rebanhos há ovelhas negras. A ocasião é que faz o ladrão.
Como se trava a “concubinagem”?
Em vários países há uma incompatibilidade total. Cheguei a diretor de serviço na África do Sul porque o meu professor quis ir para a clínica privada onde foi ganhar três ou quatro vezes mais, o que eu também ganharia cá se tivesse ido, e não pode continuar.
Ofereceram-lhe?
Para aqui e para outros países.
Nunca hesitou?
Apesar de tudo, aqui estou perto da família. Não sou movido pelo dinheiro. Mas os meus médicos todos estão em exclusividade, os enfermeiros também.
É obrigatório?
Fizemos com que fosse, mais ou menos, mas se algum deles pedir um regime livre não há maneira de impedir. Hoje uma pessoa em dedicação exclusiva recebe mais 40% ou 50% de ordenado.
Porque é que acha que a exclusividade não tem avançado?
Acham que se torna muito caro. No hospital há 20% dos médicos em exclusividade. Se os 100% quisessem, aumentava a massa salarial em 50%. Mas obviamente que não se pretendia isso. Se todos passassem a exclusividade, se calhar 50% ficava na privada, se não a clínica privada desaparecia. E com o apetite que eles andam não vai desaparecer.
Apetite?
Apetite e capacidade financeira para investir. Não tenho absolutamente nada contra a clínica privada. Perguntam-me se agora que saio do SNS pela idade se poderei ir para a clínica privada e se isso não pode parecer estranho. Não percebo porque há de parecer. Como disse no início da nossa conversa, mantive-me fiel a esta mulher durante os 30 anos. No dia em que ela me põe na rua sou livre de olhar para outras.
Como vê propostas mais à esquerda por exemplo para revisão da lei das bases para o fim das PPP?
Não há maneira de transformar a saúde em Portugal em algo totalmente estatizado nos hospitais públicos. Precisávamos do dobro do orçamento. Não se pode pugnar pelo encerramento de todas as empresas para tudo ser público. Bem sei que a saúde deve ser tratada de maneira diferente, mas acho que hoje temos um equilíbrio razoável e basicamente temos de pôr o SNS a funcionar da forma mais competente possível. Já temos um dos melhores serviços de saúde do mundo, foi classificado em 12.º lugar. Tomáramos nós ser a 12.º potência económica. Claro que pode melhorar.
A ideologia tem sido um problema?
Tanto a de esquerda como a de direita. Eu pugno por um SNS forte, competente e que seja capaz de competir com o privado. Hoje não consegue. Os chineses estão aí, as CUFs, têm capacidade económica para criar clínicas privadas de grande qualidade. Coimbra foi recentemente exemplo disso: com a entrada da Idealmed no grupo Luz Saúde e com a compra do hospital privado pela CUF, chegaram cá os grandes fundos internacionais e subitamente chegam cá ao hospital e dizem aos médicos: “precisamos de ti, quanto é que queres ganhar?” Mas se defendemos concorrência, temos é de criar fortalezas do nosso lado para que não se aproveitem das nossas fraquezas.
Os médicos têm de ganhar mais?
Acho que sim. Hoje em litígios em tribunal já se pede um milhão de euros em indemnizações. Eu levo 20 anos a ganhar um milhão de euros, como é que me podiam obrigar a pagar isso? Dito isto, há outras vantagens no público, por exemplo o trabalho em equipa. Não tenho doentes meus, são da equipa. A manuelantunização também é isto. Nenhum médico aqui, e isso pode ser mau ou bom, é verdadeiramente independente. Ao passo que noutros serviços um indivíduo acaba de se tornar especialista e vai perguntar qual é o seu dia de sala de operações, qual é a sua tira – os serviços são tiras do cirurgião. Se as camas estiverem cheias não se pode pôr nas camas de outro cirurgião.