20/09/2018
 


MANIAS QUE A CIÊNCIA EXPLICA

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Precisa mais de café do que colega do lado? Os coentros sabem-lhe a sabão? Estudos da genética não têm servido só para perceber como surge a predisposição para doenças como o cancro e têm vindo a explorar hábitos e preferências alimentares

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Preciso de café

A equipa da Universidade de Edimburgo, liderada pelo investigador Nicola Pirastu, descobriu que existe um gene que parece influenciar a quantidade de café que bebemos

Os cientistas estudaram 370 habitantes de Puglia, em Itália, e 843 residentes de seis localidades na zona de Veneza. Descobriram que uma variação do gene PDSS2 está ligada a beber em média menos uma chávena de café por dia, o que sugere que este gene tem um papel importante na regulação da ingestão.

A suspeita dos investigadores é que esta secção do ADN será responsável pela forma como a cafeína, que se sabe ter um papel aditivo, é metabolizada no organismo, o que leva os portadores da variante a precisar menos café do que os que não têm a alteração.

O interesse dos investigadores na matéria tem a ver com o facto de a ingestão de café já ter revelado um papel protetor em alguns tipos de cancros, doenças cardiovasculares e doenças neurodegenerativa. Perceber o que leva ao consumo de café pode vir a ser útil em futuras terapias ou mesmo de prevenção.
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A rúcula sabe a quê?

A genética por detrás da nossa capacidade de detetar determinados sabores foi das primeiras singularidades genéticas a ser descoberta, ainda nos anos 30 do século passado

Tudo começou com a feniltiocarbamida, composto presente em vegetais das famílias crucierae ou brassicaceae. Os investigadores descobriram que a capacidade de sentir o sabor amargo associado a este composto resulta de uma variação no gene TAS2R38.

Nos últimos anos, dividiram as pessoas em três categorias: as que não são capazes de sentir o sabor, as que o sentem normalmente e as que o sentem de forma exacerbada (chamados super-tasters), o que explica os casos de verdadeiro amor e ódio com vegetais como couves de Bruxelas ou rúcula.

No campo dos vegetais, há outro dado curioso. Uma equipa de Filadélfia explicou em 2013 o fenómeno que move as legiões que detestam coentros porque lhes sabem a sabão.

Depois de analisarem dados de 30 mil pessoas, os cientistas descobriram que existem duas variações genéticas que estarão ligadas a recetores do olfato responsáveis pela experiência negativa.
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Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer

Os seus amigos não percebem como é possível acordar cedo e fresco que nem uma alface? Parece haver uma base genética para se ser mais ou menos madrugador por isso pare de irritar as pessoas à sua volta

Variações nos genes FTO, de que já falamos por estar ligado ao apetite insaciável por fast food, e no gene IRX3, que controla metabolismo e apetite, parecem ser as mais promissoras, mas até à data ainda não foi possível desenvolver uma cura para o excesso de peso que não comer menos e gastar mais energia fazendo exercício.

Ainda assim, alguns autores começam a sugerir que conhecer o perfil genético é o melhor caminho para perceber que tipo de dieta será mais eficaz. Pessoas com variações genéticas que as levam a procurar mais doces devem ter isso em conta, tal como pessoas que demoram mais tempo a sentir-se saciadas ou têm um metabolismo lento, tudo aspetos que parecem ter uma componente genética envolvida.

Beber água é uma das estratégias que mais tem sido ligado a aceleração do metabolismo. Beber 500 ml de água (a ideia de que precisa de ser gelada é mito) parece aumentar o gasto de energia em repouso até 30% num período de 40 minutos após ingestão.
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Nada é demasiado doce


Tal como existe um gene associado ao sabor amargo, nos últimos anos os investigadores identificaram dois genes que parecem estar ligados à perceção do doce e poderá explicar porque é que algumas pessoas devoram barricas de ovos moles como se não houvesse amanhã e outras não estão minimamente interessadas no assunto

Em causa estão variações genéticas nos genes TAS1R2 e TAS1R3. Em 2007, um estudo feito por investigadores finlandeses com 146 cobaias associou diferenças na reação ao doce a uma região do cromossoma 16.

Os investigadores sugeriram que até metade da atracão por soluções extremamente açucaradas seria explicado por mecanismos genéticos hereditários, sendo que homens parecem gostar mais de alimentos muito doces do que as mulheres.
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Tirem-me este pacote de batatas da frente


Os mais sensatos dirão que é uma questão de autocontrolo: batatas fritas e fast-food são para comer com conta, peso e medida e “é só fechar a boca”

Uma investigação do Imperial College London concluiu que não é bem assim e que parece haver uma explicação genética para o desejo insaciável de alguns por alimentos altamente calóricos.

O estudo divulgado no ano passado envolveu apenas 45 participantes mas a equipa considera que teve resultados significativos. A investigação consistiu em pedir às cobaia para avaliar o grau de atração de imagens de alimentos mais e menos calóricos enquanto eram submetidas a ressonâncias magnéticas funcionais ao cérebro, que permitem perceber as regiões estão mais ativas em cada momento.

Os investigadores descobriram que os participantes que tinham uma variante do gene FTO, ligado à predisposição para a obesidade, davam as notas mais elevadas aos produtos mais nocivos para a saúde e tinham reações mais exacerbadas em duas regiões cerebrais, uma das quais o córtex orbitofrontal, onde é processada a compensação perante estímulos como sabor.
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Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer

Os seus amigos não percebem como é possível acordar cedo e fresco que nem uma alface? Parece haver uma base genética para se ser mais ou menos madrugador por isso pare de irritar as pessoas à sua volta

No início deste ano, a empresa norte-americana 23andMe, que analisa perfis genéticos para estudar a ancestralidade e predisposição para algumas doenças, revelou um estudo sobre este problema mais mundano.

Os investigadores analisaram mais de 89 mil perfis depois de questionarem os utilizadores sobre os seus hábitos de sono. Apuraram 15 variações genéticas associadas ao hábito de acordar cedo, algumas em genes até aqui já ligados ao funcionamento do nosso relógio interno (ritmo circadiano).

Os investigadores concluíram que as pessoas com estas variações genéticas não só tendem a acordar mais cedo como têm índices de massa corporal mais baixos e menos risco de insónia e depressão, pelo que o ditado popular confirma-se.

O problema é que nem todos têm bons genes que tornem fácil seguir a máxima.
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Malditos mosquitos

Tem havido muitas explicações para o cruel fenómeno de alguns de nós sermos o alvo preferido de melgas e mosquitos mas há sempre quem pense que tudo não passa de uma mania de perseguição

Os cientistas têm mostrado sensibilidade para com o problema, já que muitas doenças tropicais como dengue são transmitidas por insetos e perceber o que os repele pode ter um papel na prevenção.

Nos anos 70 percebeu-se que algumas espécies parecem ser atraídas por sangue do tipo 0. Outros estudos sugeriram entretanto que ter o sangue mais adocicado, por exemplo após grande ingestão de álcool, aumenta o risco de ser picado. Não encaixa no perfil? Aqui podem entrar os genes.

Em 2015, uma equipa da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres concluiu que parece haver uma base genética para ter um odor corporal mais ou menos atrativo de mosquitos.

O estudo envolveu 18 pares de gémeos idênticos e 19 pares não idênticos e concluiu que a atractibilidade parece ser tão hereditária como a altura ou o QI.

Falta saber se isso se deve há presença ou ausência de químicos atrativos ou repelentes e quais os genes envolvidos.
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Donos Disto Tudo

Esta é uma linha de investigação sempre polémica, já que a ideia de que os genes podem condicionar o nosso futuro e pesar mais do que a igualdade de oportunidades através da educação tem sido uma das bandeiras das sociedades de direito

Ainda assim, a ciência tem concordado na última década que parece haver alguma predisposição genética para assumir posições de liderança, por exemplo porque os genes condicionam a libertação de químicos ligados a correr mais riscos.

Por outro lado acredita-se que características como a extroversão também têm uma base genética.

Em 2013, uma equipa de investigadores estimou que 24% das ocupação de posições de liderança será explicado por fatores hereditários e concluiu que uma variação no gene CHRNB3, que exerce um papel na regulação da dopamina, parece estar mais vezes ligada a posições de liderança. 


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Não consigo deixar de fumar

Já se sabe que drogas como a nicotina ou a cocaína funcionam de forma semelhante no nosso cérebro, armadilhando os circuitos neuronais do prazer e criando situações de dependência

Em 2015, uma equipa de investigadores reviu 23 estudos que ligavam o gene ANK11 ao tabagismo e concluiu que um terço dos fumadores caucasianos parece ter uma variação deste gene que torna mais difícil deixar de fumar.

O problema parece estar num segmento deste gene, responsável pela libertação de dopamina, que influencia um outro gene cuja função é reconhecer a quantidade de dopamina disponível.

Difícil não deve significar impossível pois não faltam alertas da ciência sobre os malefícios do tabaco. O mais recente surgiu em junho: a cada 15 cigarros há uma nova mutação genética no nosso organismo, que pode contribuir para o aparecimento de doenças como cancro.

Investigadores britânicos estudaram o genoma de doentes com cancro do pulmão e identificaram mais de 23 mil mutações que poderão ser causadas pelo tabaco.
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Nasci para ter um motorista

Em 2009, uma investigação financiada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos concluiu que a genética pode explicar em parte porque é que algumas pessoas conduzem pior do que outras

O gene em causa chama-se BDNF e não terá apenas impacto nesta actividade, já que é responsável pela forma como a memória funciona quando estamos a realizar uma determinada tarefa.

Algumas pessoas têm uma variante que parece ser responsável por uma menor estimulação cerebral, o que também já foi ligado a piores prognóstico depois do AVC.

Mas parece haver um efeito protetor em doenças neurodegnerativas, com os sintomas a instalarem-se mais lentamente. No caso da condução, a equipa pôs à prova 29 pessoas, sete das quais com a variante do gene ligada a pior desempenho. Tinham de concluir 15 voltas de carro num simulador, numa pista com curvas difíceis e obstáculos.

Passados quatro dias repetiram o teste. As cobaias com a variante ‘azelha’ do gene BDNF tiveram resultados 20% piores e lembravam-se menos de como tinham superado a prova na primeira ronda.