Prefere nem saber?
Ou porque também há infidelidade do outro lado. E essa ideia de que os homens são mais infiéis do que as mulheres acho que cada vez é menos verdade. Costumo dizer a brincar que os homens não são infiéis uns com os outros, não é? Nem só com mulheres solteiras, portanto... A minha ideia é que as mulheres mentem mais nas estatísticas do que os homens, são mais hábeis a esconder as coisas. Os homens são mais ‘tontos’, porque guardam mensagens, não apagam as coisas, as mulheres são muito mais eficazes. E há outra coisa. Quando um homem é apanhado, nunca é posto em causa que só andou aos beijinhos à outra senhora. Assume-se que fez tudo. Quando a mulher é apanhada conta uma história ao marido. E para o homem, se souber - ou pensar que sabe - que não houve quase nada físico, a coisa é menos grave, enquanto para a mulher, se andas a trocar mensagens com a mulher isso já é uma infidelidade.
Ao longo dos seus trinta anos de prática...
Infelizmente 40 [risos].
... deu por uma mudança de mentalidade e de atitudes nos casais?
Dei, dei. Uma coisa mudou radicalmente. Elas agora dizem: ‘Ou vais à terapia ou isto vai à vida, não pode continuar’, ou porque foram apanhados, ou porque são uns chatos, ou porque só trabalham e não pensam em mais nada. A iniciativa da separação não sei se é mais das mulheres ou dos homens, mas elas estão muito mais exigentes e eles estão muito mais numa posição defensiva... Os homens têm menos jeito para a relação conjugal, não há nada a fazer. Há exceções, mas têm menos jeito. Têm menos jeito para cultivar a relação, para mandar uma mensagem ou duas durante o dia, para telefonar, para fazer a mulher sentir que há uma cumplicidade. Têm menos paciência para a conversa das mulheres. Eu percebo que as mulheres são mais detalhadas na conversa, falam mais em discurso direto, os homens são mais sintéticos. Elas falam de coisas que às vezes não interessam nada aos homens, mas eles têm de ouvir. Não é o caso, mas se a minha mulher estiver a fazer uma conversa sobre o que se passou no trabalho dela, em discurso direto, ‘ele disse’ e ‘ela disse’, aquilo não me interessa nada, mas percebo que tenho de a ouvir. E a última coisa que se deve fazer quando alguém nos está a contar uma coisa é dizer: ‘Não tens razão nenhuma, a outra é que está certa’. Porque a pessoa está a procurar apoio e cumplicidade. Pode-lhe dizer mais tarde, mas naquela altura não. Há tipos que não entendem isto. Depois há outro problema clássico dos casais que é a parte da ternura física. Elas queixam-se de que eles só se aproximam quando querem... Quando estou com eles sozinhos digo: ‘Oiça, você não pode ser assim, a ternura física é importante, se quer uma coisa à noite tem de começar de manhã...’. Quando a mulher não está por perto falo com eles um bocadinho de homem para homem.
E eles?
Alguns conseguem interiorizar e perceber que as mulheres são diferentes. A questão do orgasmo, por exemplo, é completamente diferente. Um homem, se a mulher não tem um orgasmo, acha que foi incompetente. O orgasmo para as mulheres claro que é importante, mas não é tão importante como para os homens. Uma mulher pode estar muito bem fisicamente com um homem, não ter orgasmo, porque não acha muito importante, e ser porreiro para ela, mas para os homens ainda há muito esse pensamento ‘falhei’ ou ‘ela não está a gostar de mim’.
Acontece-lhe ficar irritado porque o paciente não está a ver o óbvio?
O meu papel é não me irritar. Estou treinado para não me irritar com as pessoas. Ao fim de uns anos a gente aprende e interioriza duas coisas. Primeiro, não estamos ali para nos zangarmos com as pessoas. Costumo dizer que não sou nada a favor da ‘terapia do ranho’.
O que é isso?
É pôr as pessoas a chorar. Não tenho lenços no consultório. As pessoas comigo não choram muito. Às vezes choram, claro que choram, até eu já me aconteceu chorar com as pessoas...
Porque se emocionou?
Porque me emocionei. Quando a minha mãe morreu, há dez anos, aconteceu-me com uma pessoa que me estava a falar da morte de alguém. Controlo-me, mas sou muito sensível e quando me falam pais que perdem filhos ou coisas do género, tenho de ter cuidado para não me descontrolar. Descontrolei-me - as lágrimas apareceram-me nos olhos - para aí duas vezes na vida e expliquei às pessoas porque é que estava a acontecer isso. Mas não tem problema nenhum. De resto somos treinados para duas coisas. Uma é não julgar as pessoas.
Isso não é difícil às vezes?
Às vezes é difícil. Mas há coisas que não trato. Sou incapaz de tratar um abusador sexual - nunca me apareceu nenhum, mas acho que tinha muita dificuldade em fazê-lo. Tenho dificuldade em trabalhar com violência conjugal. Também não tenho jeito nenhum para toxicodependentes, quer seja álcool quer sejam drogas, trabalhei em tempos nisso e não gostei. São muito mentirosos, muito manipuladores, não tenho jeito, portanto procuro não tratar. Mas ao fim de uns anos você consegue não julgar as pessoas. Pode pensar: ‘Este tipo é parvo’ ou ‘esta mulher é tonta’ mas resolve isso e tem uma relação empática com as pessoas. A outra coisa que treinamos é a neutralidade - tentar o mais possível não influenciar. Tentamos não tomar posição e limitarmo-nos a apresentar as alternativas que as pessoas têm e elas que decidam. De resto, a nossa capacidade de influenciar também não é assim tão grande.
Não há quem olhe para vocês como um oráculo?
Não tanto como se pensa. Há uma pessoa ou outra mais dependente, mas também passa por nós criar uma relação de maior ou menor dependência. Não gosto muito de relações de dependência com ninguém, muito menos com doentes.
Não há doentes que dependem de si?
Há doentes muito antigos que dependem no sentido de que um dia se eu deixar de fazer clínica sofrem com isso. Estão há muitos anos comigo, temos uma história comum muito longa.
Um dos problemas sérios do país é a baixa natalidade. Do que fala com casais consegue perceber porque é que as pessoas hoje têm tão poucos filhos?
Sei duas ou três coisas. Não é a principal razão mas há mais infertilidade. Também há mais recursos para a combater, mas o percurso da fertilização in vitro é duro e complicado. Mas não será a principal razão. Os jovens estão a juntar-se cada vez mais tarde e a sociedade está cada vez mais individualista.
Mais egoísta?
Não chamaria egoísta, porque quando é preciso ajudar os outros as pessoas ajudam. Já não é tão importante para as mulheres como era terem filhos. Antigamente uma mulher que não tinha filhos era vista um bocado como uma mulher de segunda. Hoje em dia a coisa é diferente. E há casais que decidem ter um filho - a média neste momento é 1,3 - por razões financeiras, por razões de vida... A sociologia sabe explicar isso melhor do que eu. Os casais que sigo que não têm filhos é por razões biológicas, portanto não tenho uma visão abrangente.
Falou de condições económicas, mas é nos países onde há salários mais elevados que as pessoas têm menos filhos.
A nossa vida muda quando temos o primeiro filho. É uma pessoa sobre a qual vamos ter responsabilidade para o resto da vida. Por outro lado, os filhos também são um fator de stresse. Alguns saem calminhos mas outros não. Eu tenho dois e foram experiências completamente diferentes. Muita gente não está para isso.
Há cada vez mais casamentos que acabam em divórcio e, como me disse, as uniões de facto também estão a aumentar. Acha que o casamento é uma instituição condenada?
Não. Acho que vai continuar a haver pessoas a casar-se. E também há quem decida casar-se ao fim de alguns anos em união de facto. Há um problema que tem a ver com dinheiros, não tem só a ver com questões culturais. O estado de defeito atual do casamento é a comunhão de adquiridos. No futuro acho que vai ser a separação total de bens. Hoje em dia não faz muito sentido que as pessoas comprem uma coisa e tenham de a dividir quando se divorciam. Eu vivo com a minha mulher há 22 anos e não somos casados.
Por convicção ou por conveniência?
Fomos casados os dois antes, temos um filho em comum, ela tem dois filhos [anteriores] e eu tenho uma filha, e não achámos importante, isso só ia complicar as coisas em termos de futuro. A relação não é pior nem melhor por casar. Cada um tem as suas coisas, ela não interfere naquilo que eu compro ou deixo de comprar, eu não interfiro naquilo que ela compra ou deixa de comprar.
O compromisso não é menor?
Não. Há investigações sobre isso e não há diferença nenhuma. É igual e facilita muito as coisas. Eu costumo dizer a brincar à minha mulher: ‘Tu só sabes os carros que eu compro quando eles aparecem aqui à porta’. Enquanto há amigos meus que têm de discutir com a mulher qual é o carro que vão comprar.
E de pedir licença...
Eu sou muito a favor da separação. Cada um tem a sua profissão, as suas coisas. E depois há muitos problemas patrimoniais nos divórcios, os filhos são utilizados nisso. Volta e meia faço mediações de divórcios internacionais e quando há muito dinheiro envolvido é uma chatice. E quanto mais dinheiro há, pior é.
Porquê?
Cada um puxa para seu lado, a ver quem é a pessoa que vai conseguir sacar mais ao outro. Os pobres não têm estes problemas, são problemas só de ricos.
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