A Portugal, estes dois títulos, que beneficiam grandemente das poderosas ilustrações em xilogravura do artista britânico Andrew Davidson, chegaram em simultâneo, trocando o atraso de décadas da sua clarividente mensagem por uma urgência tocante. E o faro que se apura perseguindo, antes de tudo, a literatura é uma preferência que Vladimiro justifica em contracorrente face à abordagem das outras editoras nesta área e que, “quase hegemonicamente, nos parecia dar mais primazia à ilustração”.
Vladimiro confessa que foi já adulto que começou a olhar com mais atenção para a literatura para a infância, e isto por influência da mulher, Fátima Fonseca, com quem dirige a Ponto de Fuga. “Como professora primária e boa leitora, a Fátima estava bastante atenta a essa área”, e se nunca esteve em causa a importância da expressão visual, outro título que exigiria melhor atenção é “A Árvore dos Desejos”, de Faulkner, “um concentrado de ‘O Som e a Fúria’ com essência de ‘Alice no País das Maravilhas’, servido com ilustrações que pontuam o texto no tom e na medida certos”, como o editor resume ao i. Mas Vladimiro não hesita em assumir que “o nosso grande orgulho são os ‘Contos de Encantar’”. E adianta: “Esse é um daqueles livros mágicos em que o todo vai muito para além da soma das partes. A Hélia Correia, que em boa hora os traduziu, diz que são ‘textos jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão’, e eu acho que não há maneira melhor de os descrever nem de explicar a escolha de tradutora, que os abordou com a sensibilidade, o saber e a modéstia necessários para que valha a pena lê-los em português”. E em sinal do apreço pela componente visual, o editor refere que as ilustrações de Rachel Caiano, “além de lindíssimas por direito próprio, são a expressão de quem compreendeu, sentiu e respeitou profundamente o texto”.
É muito difícil, senão mesmo impossível, escapar hoje ao império da adolescência, aos sucessivos marcos da literatura dirigida a um público mais jovem, e que tem produzido títulos, personagens e universos que são como marcas fundas nas ombreiras das portas ou em algumas paredes, assinalando a altura que fomos ganhando na casa onde crescemos. Há os infelizes nomes com que se baptiza cada geração, mas talvez mais nevrálgico seja apontar esses personagens como Harry Potter ou Katniss Everdeen, que, como referia a revista “Time”, simbolizam conceitos que se tornam a moeda corrente da cultura pop.
E, no entanto, se ninguém discute que estamos a viver numa era de ouro no que toca à importância da ficção dirigida ao público infanto-juvenil, como referiu a investigadora britânica e autora de livros para a infância, Catherine Butler, tem sido difícil afastar a noção de que a perspectiva dos adultos é que está em linha com a realidade, e que, por isso, é esta que importa, ao passo que a das crianças não passa de uma aproximação. “Quando aplicado à literatura infantil, isto reforça a crença de que os livros infantis são literatura com rodinhas”, que servem aos petizes para se iniciarem no terreno sério e exigente que cativa os adultos.
Por outro lado, a docente da Universidade de Cardiff, aponta o dilema que se apresenta ao escritor que se dirige a um público mais jovem: “Se criam um espaço vigiado e seguro, à margem da mais ampla vivência do mundo, são alvo do paternalismo dos outros escritores, que veem no seu trabalho uma forma de chuchar no dedo. Mas se cortam com essa noção de uma literatura confortável e acolhedora, então estão a corromper os mais jovens, que precisam de ser protegidos”.
Maurice Sendak, um dos mais celebrados autores da literatura infantil, que deu ao mundo o magistral “O Sítio das Coisas Selvagens” (1963) - um marco deste género que chegou a gerar polémica pelo tratamento nada exemplar para com as crianças, colocando-o na companhia das obras de outros heróis do imaginário da infância como Lewis Carroll, J.M. Barrie e Antoine de Saint-Exupéry -, sempre mostrou pouca paciência e até desprezo por aqueles que lhe vinham com a conversa de que o seu trabalho ficava numa posição secundária face à ‘verdadeira literatura’, essa que não toma reféns, que criva de balas a perspectiva que os adultos formam do mundo. “Eu não acredito nisso das crianças”, disse Sendak, sinalizando o seu desdém por estas fronteiras às vezes tão ténues, outras simplesmente artificiais: “Eu não acredito na infância. Não acredito que haja uma demarcação. ‘Ó, tu não deves dizer-lhes isso. Não podes dizer essas coisas’. Diz-lhes o que que quer que te apeteça. Diz-lhes se for verdade. Se for verdade tens de dizer-lhes.”