Fernando Correia abre as páginas da sua vida e conta como ingressou na carreira de jornalista, apesar de o seu sonho ser seguir medicina. De 60 anos de carreira ainda guarda com alguma amargura a forma como foi saneado da rádio após o 25 de Abril, apenas por desempenhar as suas funções durante o anterior regime. É o “pai” dos debates desportivos, mas descarta qualquer responsabilidade na forma como as televisões replicaram este modelo, apostando em insultos e quase em agressões. Quanto ao seu novo cargo no Sporting, Fernando Correia admite que já foi insultado na rua e há quem considere que está a cometer um grande crime por tentar unir o Sporting. Para o jornalista, essas pessoas querem é a divisão e a instabilidade do clube leonino.
Lançou agora a sua autobiografia “O que Eu Sei de Mim”. Sentiu essa necessidade?
Não senti nenhuma necessidade. Foi uma teimosia do meu editor, uma boa teimosia. Dou-me muito bem com ele, que é o Manuel Fonseca, trabalhou na SIC e tem agora a editora Guerra & Paz. Esse pedido veio na sequência de vários livros que escrevi e foi quando ele me disse que tinha chegado a altura de escrever o meu próprio livro, porque considera que as pessoas devem escrever sobre si próprias porque, se for outro a escrever, não é a mesma coisa. Aceitei o desafio e resolvi escrever sobre o que sei de mim e é por isso que o livro se chama assim. Mas admito que escrevi pressionado, no bom sentido, pelo meu editor.
Que balanço faz destes 60 anos de carreira?
É um balanço necessariamente muito positivo porque atingi coisas muito bonitas. Nunca pensei em ser jornalista nem homem da bola, até pelo contrário, a minha paixão desde que me lembro era ser médico, e tentei tudo. Fiz o exame de admissão à universidade, fui aprovado, mas quando ia para entrar para o primeiro ano tive um problema familiar que veio retratado no livro, pois não escondi que foi a separação dos meus pais. Nessa altura tive de resolver um problema grave que era arranjar forma de ajudar a minha mãe a viver, ou a sobreviver. Fui trabalhar, tive de arranjar um emprego à pressa e, nessa altura, não havia cursos de Medicina à noite. Fiquei impedido de fazer aquilo que gostaria de fazer.
Tem pena de não ter seguido medicina?
Tenho muita pena, embora a carreira de jornalista seja muito digna e bonita. Sempre tive uma grande atração pela medicina desde miúdo. Em criança, juntamente com colegas meus, fizemos várias intervenções cirúrgicas a animais, estragámos algumas lagartixas para tentar ver o que havia ali por dentro. Nessa altura, como só podia estudar à noite porque durante o dia tinha aqueles empregos horríveis de entrar às 9h e sair às 5h ou às 6h da tarde, e que eram contra a minha maneira de ser, fui estudar aquilo que se podia estudar nesse horário, que era línguas. Estudei inglês, francês, e a minha vida modificou-se quando concluí o curso de Inglês porque fui para Inglaterra com uma bolsa de estudo. Fiquei muito feliz da minha vida. Nessa altura, a minha mãe já tinha arranjado um outro senhor e tive a oportunidade de viver em Inglaterra e de conhecer outros costumes, tanto que estava numa idade gira para perceber o mundo. É preciso lembrar que, na época, tínhamos Salazar a mandar em Portugal e estávamos aqui como que de pés e mãos atados. Ir para fora e conhecer outro mundo foi algo que despertou em mim toda a minha consciência. Acho que isso foi determinante para a alteração da minha vida.
Como é que entra na comunicação social?
Quando voltei para Portugal tentei arranjar uma forma de preencher o tempo e havia uma coisa chamada Comissão Reguladora do Comércio de Algodão em Rama, na Rua Castilho, que era uma dependência do Ministério da Economia, e fui para lá. Mas como uns colegas achavam que tinha muito jeito para a locução, porque tinha apresentado várias festas, e souberam que tinha aberto um concurso para locutores do então Secretariado Nacional de Informação, que era, no fundo, a censura, o lápis azul – o nome era só uma fachada, mas eu não sabia –, concorri e fiquei qualificado. Fizemos durante uns meses alguns noticiários e teatro radiofónico em diversos postos amadores. Entretanto surgiu um concurso para a Emissora Nacional, concorri e fiquei.
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Apesar de já ter 60 anos de carreira, Fernando Correia nunca pensou ser jornalista. Queria ser médico mas, quando ia entrar na universidade, foi obrigado a desistir para ir trabalhar, por causa da separação dos pais. Trabalhou muitos anos na Emissora Nacional no tempo da ditadura e ainda sente alguma revolta por ter sido saneado após o 25 de Abril apenas por ter cumprido as suas funções
O jornalista responsabiliza os programas desportivos por incendiarem o ambiente que se vive fora dos estádios. Para Fernando Correia, não faz sentido alimentar “guerras” porque não são os adeptos que ganham os milhões
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