23/01/2019
 

ESTE ANO NÃO QUERO PRENDA...

As campanhas de angariação de fundos no Facebook, geralmente organizadas por quem faz anos, estão a tornar-se um sucesso em todo o mundo e já permitiram doar mil milhões de dólares a instituições de solidariedade. Em Portugal, as associações mostram-se satisfeitas com os donativos e acreditam que, no futuro, esta será uma fonte de financiamento cada vez mais importante

TEXTOS | Carolina Brás

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DONATIVOS NO FACEBOOK ESTÁ A FAZER A DIFERENÇA NA VIDA DAS ASSOCIAÇÕES PORTUGUESAS



As angariações de fundos no Facebook estão a tornar-se campanhas rentáveis para as organizações sem fins lucrativos. As associações nacionais contactadas pelo i somam já dezenas de milhares de euros à conta da nova generosidade digital. Saiba tudo sobre a forma como a rede social leva os donativos até às instituições

Levar crianças à Disney é um dos sonhos que a Acreditar procura realizar às famílias com quem lida diariamente. Já aconteceu outras vezes mas, agora, a associação prepara-se para viajar com um grupo de dez rapazes e raparigas e nunca tinha sido tão fácil reunir o dinheiro suficiente para a viagem, disse ao i Filipa Carvalho, responsável pela coordenação de comunicação da associação de apoio a crianças com doenças oncológicas. O que mudou? O Facebook lançou há um ano uma nova ferramenta de angariação de fundos a pensar nas prendas de aniversário e os portugueses estão a aderir. Ao ponto de já haver várias associações a receber transferências regulares de donativos.

Filipa Carvalho conta que, desde agosto, a associação já conseguiu juntar 10 mil euros num total de 182 angariações. São essas verbas que vão permitir realizar aquele que era um dos objetivos da associação: levar as crianças a Paris. A Acreditar não é caso único. O i falou com oito das organizações sem fins lucrativos portuguesas que já podem receber estes donativos e todas se mostram entusiasmadas com os resultados, que ultrapassam dezenas de milhares de euros.

UMA FORMA DE MANTER A MÁQUINA A TRABALHAR

“De fevereiro até agora já conseguimos receber cerca de 15 mil euros”, revela João Marques, do departamento de comunicação da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM). “Para nós, enquanto instituição, esta é uma forma de angariar mais fundos e até mesmo de conseguir manter a máquina a trabalhar”, resume o responsável.

A novidade que permite conseguir algum dinheiro extra chegou ao Facebook dos portugueses em dezembro de 2017, faz agora um ano. No início, pouco se sabia, mas o crescimento parece ter sido exponencial e, no primeiro ano, ela deixou as instituições com os cofres mais cheios. “Não estávamos à espera que fosse tanto. Sabíamos que poderia vir alguma coisa, mas não tínhamos noção de que seria tão significativo”, confessa Filipa Morais Santos, diretora de Marketing e Fundraising das Aldeias de Crianças SOS. “Começou devagarinho mas, de repente, mostrou ser uma ferramenta muito boa para angariação de fundos.”

A associação não adianta valores concretos, mas revela que “até ao momento, quase quatro mil pessoas contribuíram para a causa através do Facebook”.

Já a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) conseguiu reunir 4500 euros. “Entre julho e novembro, a média das angariações andou na casa dos 890 euros”, disse ao i Tânia Antunes, da unidade de fundraising da associação. Também a Operação Nariz Vermelho, que trabalha com crianças hospitalizadas, diz que os donativos recebidos através do Facebook somam já um valor significativo. “Foi crescendo ao longo do tempo e tem representado uma boa parte do que é a angariação de fundos através de particulares, mas ainda não temos valores totais”, respondeu Paula Peres, coordenadora de angariação de fundos de particulares desta instituição. “Dá para termos um grande potencial de crescimento e a esperança de ganhar cada vez mais.” 

CAMPANHAS MULTIPLICAM-SE

Se a moda são as campanhas de aniversário criadas pelos internautas, esta nova ferramenta permite também que as instituições criem angariações de fundos próprias para causas concretas que podem depois ser partilhadas - uma tendência que também está a ser seguida em Portugal.

Bianca Santos, vice-presidente da Associação Zoófila Portuguesa (AZP), revelou por exemplo ao i que a associação tem duas angariações a decorrer. Apesar das vantagens da ferramenta, nem sempre a resposta é imediata, partilha a responsável. “No dia 22 de outubro lançámos uma angariação de donativos para um caso especial, o Rocky, um gato que precisa de ser operado, e pedimos um valor de 4100 euros, o valor que temos gasto com as operações ortopédicas até agora.” A campanha continua a decorrer, mas ainda vai na casa nos mil euros.

Também a Sociedade Portuguesa de Esclerosa Múltipla tem criado algumas campanhas específicas, para já com sucesso. João Marques recorda que, através destes fundos, já conseguiu comprar uma carrinha para a sede de Leiria e oferecer alguns cuidados de neurorreabilitação.

Embora as associações sintam que os donativos conseguidos através da rede social aumentaram ao longo do ano, ainda nenhuma das instituições contactadas pelo i tem no Facebook a sua principal fonte de financiamento no que toca a donativos particulares. Mas a expetativa é que possa tornar-se uma das principais vias de angariação de fundos no futuro. “Está a tornar-se cada vez mais forte”, resume Tânia Antunes, da APAV.

ATRAVÉS DO FACEBOOK, O DINHEIRO CHEGA MESMO?

Tudo o que é novidade suscita curiosidade, mas também alguma desconfiança. Do lado das associações, por agora não há queixas. “Temos acesso à campanha em tempo real, quais os valores que foram doados e quanto falta para atingir o objetivo”, explica Rodrigo Livreiro, presidente da Animalife, sem revelar o total angariado até ao momento.

Do lado dos internautas, têm surgido alguns receios que as associações procuram desfazer. Como se trata de uma rede social, o contacto direto com a organização é privilegiado e há quem prefira jogar pelo seguro e perguntar antes de arriscar - uma situação que não é estranha à SPEM. “Recebemos contactos de utilizadores a perguntar se estão a ser roubados e se o dinheiro efetivamente chega”, diz João Marques. “Temos tido essas questões e é normal”, confirma também Paula Peres, da Operação Nariz Vermelho. “Podemos garantir que o dinheiro chega”, esclarece. Também as Aldeias de Crianças SOS já tiveram contactos de utilizadores da rede social que queriam perceber se o dinheiro era mesmo entregue, a quem responderam de forma afirmativa.

A HORA DO PAGAMENTO

E se a curiosidade é mesmo saber como as associações recebem as verbas angariadas, o processo é relativamente simples. As associações explicaram ao i que, havendo campanhas ativas, recebem transferências bancárias do Facebook a cada 15 dias. E não é preciso esperar para atingir o valor total da angariação de fundos: se tiver um amigo a pedir 100 euros para uma associação e só forem reunidos 30 euros, a instituição receberá esse montante na próxima transferência.

Se, do lado de quem dá, à partida não é possível saber o valor dos diferentes donativos, as associações têm o relatório completo. Mas há uma espécie de segredo: se for à sua página de Facebook e simular a criação de uma angariação de fundos (na barra azul em cima, no botão Criar, ao lado das Notificações) poderá perceber com alguma facilidade a que instituições é que os seus amigos têm estado a fazer donativos. Não são revelados os valores mas, se clicar em Instituições de caridade, verá que algumas contaram já, em algum momento, com contributos de pessoas conhecidas. 

ASSOCIAÇÃO ACREDITAR JÁ RECEBEU DONATIVOS NO VALOR DE 10 MIL EUROS, REUNIDOS EM 182 ANGARIAÇÕES

OS DESCONFIADOS TAMBÉM AJUDAM

Se muitas pessoas acabaram por confiar e fazer o donativo diretamente na rede social, as associações também têm casos de pessoas que souberam das campanhas pelo Facebook mas optaram por ajudar à moda antiga.

“Já tive contacto com pessoas que tinham receio de colocar os dados no Facebook e perguntavam se nos podiam doar o dinheiro através do NIB. Dissemos que sim e acabaram por ajudar”, partilha Bianca. Nestas ocasiões, porém, aproveitam para explicar que os donativos no Facebook têm outra vantagem do ponto de vista das associações. “O Facebook transfere exatamente o que as pessoas doam, livre de impostos ou taxas”, explica a dirigente da AZP.

Não terem de pagar taxas e não ser preciso fazer qualquer investimento à partida é, aliás, o que torna as angariações de fundos no Facebook atrativas para as instituições: o retorno é total. Mas isto é válido apenas para as associações. Se criar uma angariação de fundos a título pessoal, o que também é possível, o Facebook cobra 1,54% sobre o valor angariado e ainda 30 cêntimos pela criação da campanha.

Os utilizadores podem ainda pedir o comprovativo da doação e receber os devidos agradecimentos. E, aqui, as associações têm espaço para decidir como querem interagir com quem as apoia. Muitas vezes são respostas genéricas mas, por exemplo a Associação Zoófila Portuguesa explicou ao i que faz questão de mostrar para que fim foi utilizado o dinheiro e qual o estado do caso, como acontecerá, por exemplo, com a campanha para ajudar o Rocky.

“Ainda não encontrei nenhuma desvantagem”, conclui Bianca Santos, temendo apenas que acabe por surgir algum cansaço. “É uma ferramenta que não deve ser usada sempre pelas instituições porque as pessoas cansam-se e pode acabar por ter o resultado inverso.”

Por agora, as organizações agradecem a nova ferramenta, até porque nem todas tinham o mesmo domínio da tecnologia. “No nosso caso, não temos recursos financeiros tecnológicos para que a pessoa possa transferir o dinheiro por PayPal ou cartão de crédito, e o Facebook permite que isso aconteça”, reconhece João Marques, da SPEM.

Filipa Carvalho, da Acreditar, destaca ainda a responsabilidade social do Facebook, já que a própria rede social garante sempre 5 euros a cada angariação. “O que também é muito bom”, comenta. “Sem dúvida que o melhor deste instrumento passa pela simplificação dos donativos, até porque tudo o que é complicado leva as pessoas a desistir”, acrescenta Tânia Antunes, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

E quem dá mais? O público mais sensível a estas causas costuma ser maioritariamente feminino e “pessoas entre os 30 e os 40 anos, que já trabalham e já tem algumas possibilidades”, desvenda Filipa Carvalho, coordenadora de comunicação da Acreditar. Filipa Santos, das Aldeias de Crianças SOS, acredita que o perfil será mais diversificado do que nas campanhas tradicionais, já que qualquer pessoa pode facilmente encontrar uma angariação que faça sentido para si.

Além do dinheiro, as associações veem nesta ferramenta uma forma mais rápida e simples de fazer publicidade à instituição e à causa. “Há pessoas que nunca pensaram nisso e que nunca o fizeram, e que acabam por fazê-lo porque um amigo partilhou a doação”, diz Paula Peres, da Operação Nariz Vermelho. Em todas as angariações criadas há uma pequena descrição da instituição, o que também ajuda a passar a mensagem. “Tanto dá a conhecer a instituição e o nosso trabalho como é uma forma muito mais simples de comunicar com as pessoas que ajudam”, diz Rodrigo Livreiro, da Animalife.

Do lado de quem ajuda, a facilidade parece ser o grande argumento. “Basta escolher o valor, meter o PayPal e está feito”, resume Diogo Marques. Estudante na casa dos 20 anos, Diogo deixou-se contagiar pelos donativos e já tem apanhado boleia das campanhas criadas pelos amigos para ajudar diferentes associações. “A primeira vez que o fiz foi por brincadeira, mas agora começo a estar mais atento”, confessa.

Do lado de quem organiza as campanhas, todo este movimento acaba por ser uma inspiração. O Facebook é o primeiro a incentivar: antes de cada aniversário, a rede social lembra os utilizadores de que podem criar uma campanha para uma associação à sua escolha. Mas muitos utilizadores têm aderido porque veem outros a fazer o mesmo.

Foi isso que fez João (nome fictício). Pouco tempo antes de fazer anos, em março, decidiu criar uma campanha e ficou à espera do resultado. “Nunca pensei que tanta gente ajudasse e que chegasse onde chegou: consegui angariar mais de 100€”, disse ao i.

O i falou com algumas das associações de maior dimensão, mas entre as que já estão aptas para receber donativos (um processo que explicamos nas próximas páginas) estão várias entidades de menor dimensão espalhadas pelo país. João optou por ajudar uma instituição da terra onde nasceu, no Alentejo, e lembra que alguns amigos fizeram questão de lhe dizer que, como tinham participado, não lhe iriam dar prenda. “E não deram mesmo”, sorri. 

UM POUCO DE BUROCRACIA PAR UMA BOA AJUDA

Já há 166 associações portuguesas aptas a receber donativos através do Facebook, um processo que nem sempre é assim tão rápido. Se todos os utilizadores portugueses desta rede social fizessem um donativo de 10 euros a uma instituição uma vez por ano, o resultado seria uma injeção de 64 milhões de euros no terceiro setor

A nova ferramenta do Facebook permite aos utilizadores festejar o aniversário de uma forma mais solidária, mas não está limitada a estas datas: qualquer utilizador pode, em qualquer momento, criar uma angariação de fundos. A onda de solidariedade parece estar a espalhar-se por todo o mundo, tanto que a rede social de Mark Zuckerberg anunciou, em novembro, ter chegado a mais de mil milhões de dólares angariados por esta via.

Nos 19 países onde esta nova forma de ajudar está disponível foram mais de 20 milhões as pessoas que criaram uma angariação ou doaram algum dinheiro para as mais de um milhão de organizações sem fins lucrativos já inscritas na ferramenta. Mas se criar uma campanha e doar é rápido, fazer parte da lista de contemplados não é um processo assim tão imediato para as associações e demais entidades.

A rede social exige, desde logo, que cada instituição se qualifique para poder receber estes donativos. No fundo, as associações têm de fornecer um conjunto de dados e documentos para atestar a sua idoneidade.

As organizações sem fins lucrativos sediadas na Europa têm de indicar a data de nascimento e endereço do diretor executivo da instituição e detalhes da conta bancária – incluindo o nome o banco, o titular da conta, uma carta ou um extrato bancário oficial com data dos últimos três meses e ainda os dados que serão usados para as transferências, como um código SWIFT e o IBAN. Têm também de apresentar documentos de registo da instituição de caridade, explica a rede social.

Além disso, a página da instituição na rede social tem de estar bem catalogada: só serão aceites entidades que estejam inscritas no Facebook como “organização sem fins lucrativos” ou “organização de caridade”.

Cumpridas estas obrigatoriedades, o administrador da página terá de iniciar sessão nos pagamentos e aceitar os termos de serviço do Facebook e os de gestor de negócio.

Perante os diferentes passos a seguir, por vezes surgem dificuldades e o processo chega a demorar meses. Essa foi, pelo menos, a experiência de algumas das associações contactadas pelo i.

A Associação Zoófila Portuguesa (AZP), começou a tentar aderir no verão, mas não conseguiu ser logo aceite. Em outubro fez uma nova tentativa, mas o Facebook parecia não querer aceitar o nome da associação, explicou ao i Bianca Santos, vice-presidente da AZP. “Tivemos de entrar em conversações com eles e tentar alterar algumas tecnicidades.” Seguidos todos os passos, começaram a receber donativos em pouco tempo.

No caso da Acreditar, o processo também levou alguns meses. “Iniciámos o processo em abril, mas demorou algum tempo porque foram necessárias muitas burocracias”, lembra Filipa Carvalho, coordenadora de comunicação da associação. O primeiro donativo aconteceu a 14 de agosto.

“Temos esta ferramenta disponível, mas não há muito tempo”, diz também Tânia Nunes, da unidade de fundraising da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. “Só no verão deste ano é que conseguimos aderir porque também houve uns processos do lado deles que demoraram um bocadinho mais”, referiu ao i.

Apesar de haver demoras, nem todos os inícios são atribulados. Paula Peres, coordenadora de angariação de fundos particulares da Operação Nariz Vermelho, explicou ao i que foram aceites já há um ano e não tem memória de ter sido muito difícil. “Fizemos o pedido ao Facebook, demos as informações necessárias para sermos uma organização de alguma forma credenciada ou autenticada e precisámos de enviar alguma documentação. Logo que o fizemos, começámos a angariar”, concluiu.

Uma boa experiência também partilhada por João Marques, do departamento de comunicação da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM). “Fomos uma das primeiras 20 instituições de solidariedade social a poder fazer este tipo de angariações. Fizemos uma submissão ao Facebook que foi aceite e, embora demorasse algum tempo a ser aprovada, em fevereiro começámos a receber estes donativos.”

Há também o caso das instituições internacionais, para as quais o processo é mais fácil e rápido. É o caso das Aldeias de Crianças SOS. “O Facebook já tem uma lista específica de organizações sem fins lucrativos que considera terem alguma popularidade e, portanto, como nós somos uma organização internacional, foi mais fácil”, explicou Filipa Santos. “Porque somos bastante conhecidos e porque já estávamos a utilizar este método noutros países”, esclareceu.

Com mais ou menos atrasos, a verdade é que todas estas associações conseguem angariar valores representativos e com peso na vida financeira da organização. E em Portugal já são cerca de 166 as organizações credenciadas na rede social.

Que impacto pode ter o Facebook? Não existem estudos, mas é possível fazer algumas contas. Portugal fechou o ano de 2017 com cerca de 6,4 milhões de utilizadores na rede social. Se cada um doasse 10 euros para uma qualquer instituição pelo menos uma vez por ano, seria possível injetar 64 milhões de euros no terceiro setor. A dividir por estas 166 associações, daria uma transferência de 385 mil euros para cada uma.

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