24/09/2018
 

Henrique Garcia

“Cheguei a pintar o cabelo com pó branco para dar peso”


Texto | Vítor Rainho e Sofia Martins Santos
Fotografia | Miguel Silva

Imagine que está a fazer o filme da sua vida, início a 7 de fevereiro de 1948…

A minha vida é cheia de histórias. Nasci a 7 de fevereiro de 1948 e, naquele tempo, o Serviço Nacional de Saúde não existia. Quando começaram as dores da minha mãe, o meu pai encaminhou-se para a Maternidade Alfredo da Costa, que era a que ficava mais perto. Mas não podia ser ali porque disseram que a minha mãe nunca lá tinha estado inscrita. Tivemos então de ir para a maternidade do Socorro. Sou então um rapaz de Lisboa, do Socorro. Sou um fruto da guerra. O meu pai esteve para ir para Cabo Verde no fim da II Guerra. Foi desmobilizado e para festejar, casou-se. Passados dois anos nasci eu. Fiz uma infância normal, traquina, andava sempre com o meu irmão mais novo.


O que faziam os seus pais?

O meu pai era construtor civil e a minha mãe, até ficar a tomar conta dos filhos em casa, era modista. As primeiras letras foi o meu pai que me ensinou com a cartilha do João de Deus. 


A referência foi sempre Lisboa?

Sim, ali ao pé da Gulbenkian, que, na altura, era a feira popular. Entrei para a escola aos seis anos, uma escola particular na João Crisóstomo. Quando ia fazer o exame da quarta classe não me deixaram porque não tinha idade. Estive dois anos na quarta classe. Depois, tive de escolher entre o liceu e a escola técnica. O Liceu Camões era um liceu muito difícil, ainda que lhe deva muito. E há vários vultos que passaram por lá. 


Cruzou-se com quem?

O Guterres era mais novo, mas andaram lá os Lobo Antunes todos. Quando entrei estava o João no último ano, eu entrei com o Miguel e o irmão entrou depois. Durante a primária lembro-me de ter dado um grande trambolhão de bicicleta e atropelar um velho. Também me lembro de ter rachado a língua ao meio, depois de tropeçar na casa de banho, que tinha sido encerada. Parti o lavatório, levei três agrafos na língua e estive sem falar uns meses. Entretanto, abriu a feira popular e o meu pai dizia que me levava à feira quando eu falasse. Falei logo.


Como foi a adolescência em Lisboa?

Fantástica, brincava-se na rua. Íamos ao Parque Eduardo VII. Chegámos a partir umas árvores, andávamos pendurados. 


Paravam em algum sítio especial?

No liceu, o reitor não nos deixava entrar em nenhum estabelecimento comercial à volta. Tinha uns polícias que iam participar se as regras fossem infringidas. Mas havia o Monte Carlo, que agora é a Zara, na Av. Fontes Pereira de Melo, que era um dos cafés onde comecei a parar com os amigos do liceu. Havia também o Toni dos bifes e havia o Monumental. 


Frequentava o Parque Mayer?

Não. Mas íamos ver os cantores da época. E havia ali perto de minha casa um hotel para onde iam as celebridades todas e a malta ia para lá fazer esperas porque queria autógrafos. Tenho um do Pelé.


E guarda isso tudo?

Sim, naqueles livrinhos de autógrafos que tínhamos na altura.


Ainda o tem?

Sim, guardo tudo. Por isso é que tenho ainda documentos com as primeiras emissões e até os recibos de tudo o que me pagaram até hoje. E deu jeito agora porque, como fui funcionário público, tinha alguns descontos feitos para a Caixa Geral de Aposentações. Mas eles perderam a minha memória. Agora, já está tudo a andar. O Miguel Lobo Antunes também está com um problema destes, está há sete meses à espera da reforma. 


O momento mais marcante do liceu?

Eu sou desafinado e tenho zero ouvido musical. Mas apanhei um professor, o padre Ávila, que era avô da Lúcia Moniz, e as aulas eram obrigatórias. Primeiro, cantavam todos. Depois, durante cerca de 20 minutos cantavam os afinados, e depois os desafinados. A seguir havia 10 minutos em que fazíamos o que queríamos. Estávamos na altura em que os gravadores de som eram eletrodomésticos e o amigo do meu pai, que lhe vendia todas as novidades, vendeu-lhe um. No Natal de 1959, lá em casa, toda a gente queria gravar e ouvir a voz. Eu achei graça e começámos a fazer uns programinhas. Ainda tenho a primeira gravação. O padre acabou por comprar um gravador e começaram os desafios. Depois, nasceu uma equipa de rádio que o reitor lá tolerou. O Fernando Sousa e o Zé Nuno Martins começaram assim. Entretanto, fui para uma coisa que se chamava Rádio Universidade, que funcionou até à chegada do Marcello Caetano. Isto era uma estrutura ligada à Mocidade Portuguesa, que passou a ser mais ou menos autónoma. Mas foi aí que comecei. Ou seja, a vida na rádio começa porque era desafinado. Entretanto, fui fazendo o Técnico. Até que chego a 1974, faltavam três cadeiras, e minha vida muda. Estava já na altura a ganhar uns patacos de duas formas. Dava explicações de matemática e física e estava no Clube Radiofónico de Portugal e fazia animação. Não havia jornalistas que fossem ao microfone, nem à antena. Eram locutores de notícias. Havia os redatores que as escreviam e depois os que tinham melhores vozes é que as liam. Na televisão era igual. É o caso do Henrique Mendes e do Carlos Cruz. Depois, de 74 é que começámos a reivindicar o fim dos chamados papagaios, sem desprimor para quem o fez. 


Como viveu o 25 de abril?

Com grande euforia. O 25 de Abril foi o saltar da tampa da panela.


E a seguir o que acontece na sua vida? 

Estava a terminar o curso de engenharia e não tinha feito tropa. Tinha direito a adiamento enquanto estivesse na faculdade para acabar o curso. Se não houvesse 25 de abril, eu em setembro teria vestido a farda militar. Lembro-me que fui detido quando fui à inspeção militar, quando tinha 18 anos. Chegávamos às 7h30 porque a inspeção era às 8h00. E eu, como nasci no Socorro, fui parar a Sapadores, uma zona muito popular. Disseram-nos ‘dispam-se’ , éramos para aí uns 300. Despimo-nos e ficámos à espera. A meio da manhã e ainda não tinha sido chamado. Então, fui com mais uns parceiros para uma tasca. Lá voltámos. Quando chegámos, o general começa a chamar, mas faltava imensa gente e ele começa a chamar-nos nomes. Aquilo era mandar tossir para ver se os testículos saltavam e estávamos aprovados. Depois, era à sorte. 


Não fez tropa porque estava a estudar…

Sim, estava no Técnico. Acontece que, em 78, quando eu estava a acabar, estava tudo em ebulição em Portugal. E, entretanto, eu já estava a trabalhar na rádio. Estava na rádio universidade e fui bater à porta da Emissora Nacional.


Estudou só com homens. Até aí nunca tinha conhecido nenhuma mulher?

Quando entrei para o liceu havia umas turmas femininas, mas estavam isoladas. Entravam pela porta do reitor.


Que idade tinha quando viu uma mulher nua pela primeira vez ?

Não sei. Foi antes dos 19 anos. Mas vi mais cedo homens nus do que mulheres nuas. Na recruta e nos balneários. Mas íamos para a porta de um colégio feminino que havia na rua onde eu morava. E íamos fazer esperas. E é aí que sou multado no Parque Eduardo VII por dar um beijinho nos lábios a uma. 


Que idade tinha nessa altura?

Tinha 14 anos. 


Um beijo era uma grande conquista?

Era uma coisa extraordinária. Também me lembro de uma festa em que o reitor estava muito bem-disposto e permitiu que as meninas da escola vizinha fossem para um baile de finalistas connosco, mas puseram uma corda ao meio. Meninas de um lado, meninos do outro. 


Voltando ao Técnico…

Nessa altura, eu fazia rádio desde os 16 anos. Mas houve uma altura em que queria mesmo ser engenheiro. E era o que pensava que ia acontecer. Eu, com 26 anos, estava ainda no Técnico. 


Como é que ainda estava no Técnico?

Chumbei dois anos. Andei a fazer teatro e cinema e o curso tinha cinco anos. 


Voltando à Emissora Nacional…

No dia 25 de Abril, os tipos da Emissora Nacional dizem que não podemos entrar porque aquilo tinha sido ocupado por causa da Revolução e eu não achei graça nenhuma. No dia 26 de Abril, fomos à procura do MFA. Não encontrámos porque estava na Pontinha. Fomos três ou quatro à Pontinha. Eu sempre fui o mais desembaraçado porque um engenheiro não pode ficar enrascado. Lá me dizem que há uma Junta de Salvação Nacional que está a reunir com os órgãos de comunicação social na Cova da Moura. E fomos lá. Não era suposto um tipo de 26 anos, que não tinha rádio nenhuma, tinha uma rádio de estudantes, ir lá. Mas fui fazer um cartão pelo caminho, carimbei com uma moeda de dez paus e cheguei à Cova da Moura e metem-me na sala. Está o Balsemão, os diretores da RTP, da Emissora Nacional. Estava o Spínola, o Galvão de Melo e não sei quem mais a liderar a reunião. Estavam a discutir como é que as coisas iam ser. Eu percebo que se abro a boca me põem na rua. O Spínola não queria autorizar o 1º de Maio porque estava muito preocupado com o que se ia passar pelas ruas. Pensava que ia haver mortos e feridos. E é nessa reunião que relutantemente o Spínola autoriza. A reunião acaba e eu tinha ficado calado e mudo. Então, pareceu-me que o mais aberto era o Galvão de Melo. Vou ter com ele e conto-lhe a nossa história. Ele chama o Mariz Fernandes e diz-lhe para me arranjar um delegado da Junta de Salvação Nacional. Saí de lá triunfante. À noite ligámos para a Emissora Nacional a dizer que queríamos entrar e tínhamos autorização. E conseguimos entrar no ar no dia 28. 

Guardo tudo, tenho os recibos de tudo o que me pagaram até hoje

Isto marca a sua vida profissional...

Sim. Depois, vou à Emissora e tento entrar. Na altura, foram recrutadas pelo MFA várias pessoas que andaram na escola comigo. Fui dizer que também queria. Passou uma semana. Fui lá bater à porta outra vez. No meio daquilo, perguntei se tinham trabalho e disse que tinha de trabalhar e sabia fazer tudo. Foi o bater à porta no momento certo. Tinha havido uma greve de zelo dos antigos funcionários da Emissora Nacional. Alguns estavam ameaçados de saneamento e os outros, solidários, fizeram greve de zelo. Havia falta de pessoal e entrei para o quadro nesse mesmo dia. Depois as confusões do dia-a-dia, todos a conspirar contra todos, absorveram-me de tal maneira que nunca mais voltei ao Técnico. 


Não chegou a terminar o Técnico?

Suponho que não. Porque entretanto houve passagens administrativas. Mas nunca mais lá fui ver. 


Então, já não lhe passava pela cabeça ser engenheiro?

Não. Eu começo a fazer rádio.


Mas os seus pais tinham preferência?

Os meus pais torceram o nariz, mas deixaram-me fazer aquilo que quis. Nunca me disseram para não ir pela rádio. A minha mãe ia dizendo que não era modo de vida, mas acabou por aceitar. Depois, ficava todos os dias a ver se eu aparecia na televisão. Não dormia descansada, se não me visse. Eu envelheci em público, foi isso que me aconteceu.


Não lhe passava pela cabeça fazer TV?

Não. Esse foi outro acidente. Começo a fazer um programa com o Joaquim Letria. Era o “Dito e Feito” e tinha reportagem e noticiários. Eu fazia os noticiários. Estava um dia a sair, quando a telefonista diz que estava uma chamada para mim da RTP. Era o Hernâni Santos, que eu tinha vagamente conhecido em Argel. Não tínhamos qualquer intimidade. Disse-me que o Letria tinha falado bem de mim e pergunta se eu quero ir para a RTP. Claro, eu disse que queria, mas que nunca tinha feito televisão. Ele disse-me que não fazia mal. O salário que me ofereceram era o dobro do que eu estava a ganhar. 


Qual era o ordenado?

Diz no contrato 14 mil e tal escudos. Na rádio ganhava 7 mil e tal e continuei. Portanto, passei de 7 para 21. Estamos a falar de razoável dinheiro. Comprei uma casa na altura na Avenida do Brasil.


Quando entra na RTP vai fazer o quê? 

Lembro-me que no primeiro e segundo dia fiz o boletim meteorológico. Mas quem lia era o apresentador. Era o [José] Júdice, que na altura, foi quem me soltou no ar. Ao terceiro dia, vinha embora, e dizem que tenho que ir à estreia das “Horas de Maria” que na altura era um atentado para a Igreja Católica. Houve manifestações e eu fui fazer a estreia. Claro que, como não sabia fazer, lá tive de perguntar aos mais velhos como é que aquilo se fazia. E assim foi. 


Foi o primeiro direto?

Foi um falso direto. Mas foi a primeira sensação de terror. 


E tem essas imagens?

Não, não. Existirá em arquivo, mas não tenho. Mas guardo o primeiro texto, assim como tenho o último que fiz na Informação 2, que foi exterminada pelo Proença de Carvalho. 


O dia-a-dia começa a mudar na rua Começa a ser mais conhecido

Ainda hoje ninguém me interpela na rua. Ninguém. Mas, se abrir a boca, as pessoas olham. Há colegas nossos que não podem sair à rua. 


Na altura, ficou vaidoso?

Não, fiquei muito atrapalhado e lembro-me que sofria muito nas noites eleitorais. A primeira eleição do Mário Soares aconteceu quando eu tinha 30 anos e ia falar para pessoas que tinham a minha idade agora. Que credibilidade é que eu tinha Então, cheguei a pintar o cabelo de branco. Era só com pó, mas era para dar peso. Então, fazia o que tinha a fazer, mas 10 minutos antes ia para o carro, para respirar fundo e dizer para mim mesmo que era capaz. 


Há pessoas que são mais conhecidas pela voz, como é o seu caso… 

Acontece muito quando ligo para um restaurante para marcar mesa. Desligo e lembro-me que não me identifiquei. Quando ligo para pedir desculpa porque não disse o nome, dizem logo: Para quê, senhor Garcia


Deu a voz em publicidade…

Fiz uma vez. Um anúncio ao banco BCI. 


Não sentiu que estava a hipotecar a voz?

Estava era a hipotecar a imagem. Era para televisão. Foi a primeira vez que a taxa de juro à habitação desceu para um dígito e queriam que assumisse a forma de um noticiário. Eu não sou capaz de vender sabonetes, mas vender uma verdade consigo. E aquilo era verdade. 


Teve de entregar a carteira…

Sim, fi-lo. Aconteceu também à Manuela Moura Guedes e ao Artur Albarran. Não sei o que se passou com eles, mas sei o que se passou comigo. Tive de entregar a carteira profissional, mas aquela publicidade era uma notícia que tinha um prazo de validade. 


Nunca se arrependeu?

Não. Não perdi credibilidade. A publicidade era uma notícia que era verdade. 


Esteve na morte do Sá Carneiro… 

Estávamos em vésperas de eleições presidenciais em 1981 e, na RTP, a Autoridade da Comunicação impunha que fizéssemos a metro a cobertura das campanhas. Todas eram iguais e todos os candidatos partiam do zero. Tinham de ser dados três minutos a todos. E eu tinha de ir para um comício da Carmelinda Pereira e do Aires Rodrigues, do Partido Operário de Unidade Socialista (POUS). Estou à espera da equipa quando me dizem que tinha havido um desastre com uma avioneta. Mas, em 1981, um desastre, a menos que envolvesse alguém muito importante, era um acidente. 


Mas era um acidente com uma avioneta, não era com um carro… 

Sim, mas havia tipos que caíam em Monsanto. Fazia-se, mas não era vital e eu estava obrigado fazer o comício. Então, liguei a perguntar se era para fazer aquilo. Disseram-me para passar por lá, mas não demorar muito tempo. Quando chego lá, era de noite.


Foi o primeiro a chegar lá…

Fui. Depois, também lá foi a TVE. E aquilo é uma ladeira. Eu fui a correr, havia um cheiro horrível a carne queimada, os bombeiros tinham acabado de apagar aquilo e apareço com aquele ar todo constrangido em cima da roda do avião. Não se vê nas imagens, mas está um bombeiro a dar-me a mão para eu não cair dali. Eu vejo corpos lá dentro, não vejo mais nada, não há testemunhas, ninguém fala e o curso dos acontecimentos só muda quando eu desço a rampa para me vir embora e um dos bombeiros diz que não sabe quem vinha a bordo, mas vinha uma alta entidade militar. E é isto que muda tudo. Fui a correr para o Lumiar, ia fazer o comício porque ainda tinha tempo. Mas, quando chego, estava tudo deserto. Não estava ninguém nem no pátio, nem da redação. Olho para as televisões e não sei qual era a imagem que estava, mas estava a tocar música clássica. Às 21h00, não era normal. Fui a correr para o laboratório pôr o filme a revelar. Fui ao gabinete da direção e dou com uma quantidade de tipos lá dentro. Estava a direção e a administração.

Depois de 74 é que começamos a reivindicar o fim dos chamados papagaios, sem desprimor para quem o fez

Quem estava na administração nesta altura? 

Era o Proença [de Carvalho].


E percebe na reunião o que se passa?

Sim, é quando fico a saber que tinha morrido o Sá Carneiro. Dizem-me que tinha sido um avião que tinha caído em Camarate e é quando digo que tinha ido fazer. É assim que fico a saber.


E voltou para o local?

Não. 


Sente que foi o furo que perdeu?

Sim, mas não havia como sabê-lo. Não havia telemóveis. Não valia a pena voltar lá porque já lá estavam outros camaradas a fazer as coisas. 


Está convencido que foi um acidente? 

Sempre achei muito estranho. Eu estava destinado a fazer qualquer coisa com o Sá Carneiro como esta. Uns anos antes, o Sá Carneiro vai a Londres com a Snu e tem aquele incidente com a Thatcher porque a Snu não era casada com ele. Nessa altura, quando chego a Londres e vou a caminho do hotel ou do sítio onde eles estavam, havia um engarrafamento brutal e havia um acidente. Tinha sido o carro do Sá Carneiro que tinha sido abalroado, em Londres. Foi quando ele levou uma pancada forte na parte superior da coluna. Foi atentado Nunca ninguém investigou o que se passou. Devia haver um inquérito, não é Era um primeiro-ministro que ia ali. 


Isto foi quanto tempo antes?

Pouco tempo antes. Deve ter sido em 1979 ou 1980. Mas eu somo várias coisas. Acho que as teorias da conspiração são sempre uma coisa esquisita, mas acontece-me isto em Camarate e fazem-se inquéritos. Da Judiciária, depois inúmeras comissões parlamentares e nunca ninguém me perguntou nada. 


Mas o que é que viu? 

Não é normal que o primeiro jornalista que chega lá nunca tenha sido ouvido. 


Mas o que viu?

Os corpos não eram reconhecíveis. E eu só vi na janela. Hoje, se for ver as imagens, vê-se lá no lugar do Sá Carneiro um nariz que era o dele mas, naquela altura, era de noite e eu nem sabia o que me esperava. Aquilo era carvão, estava tudo preto. Estavam carbonizados.


As imagens nunca foram emitidas?

Não, é horrível. Combustível com carne humana.


Acha que o trabalho das equipas que foram a seguir foi bem feito?

Foi bem feito, mas houve pouco tempo e depois houve problemas com a polícia lá. Houve filmes queimados e jornalistas sem fotografia porque lhas arrancaram. Mas houve uma altura em que depuseram os corpos no chão e aí vê-se o corpo do Sá Carneiro. Eles estiveram em exposição algum tempo ali na rua e a malta filmou. Há imagens disso. 


As imagens que passaram durante anos eram as suas?

As minhas são aquelas em que se veem as sirenes e vê-se o meu vivo. É só isso que eu faço. Lembro-me que a Diana [Andringa] foi, mas eu acho que foram mais equipas para lá. 


Quem eram os seus amigos na altura?

O António Jorge Branco, que foi uma espécie de mestre. Mas eu entrei para a RTP para um grupo muito privado e muito único. Entre eles, estavam o Joaquim Furtado, o Mega Ferreira, o Júdice, o José Rocha Vieira, a Dina Aguiar, a Fátima Bonifácio. Era um conjunto escolhido a dedo pelo Hernâni. Quase todos chegaram à direção da informação. 


E o Henrique não chegou porquê? 

A pergunta tem de ser feita aos administradores. Cheguei a ser diretor-adjunto, mas não tinha perfil. 


Quantos anos tem de RTP?

Estive até 2000 na RTP. Foram 22 anos. 


Foi um dos grandes rostos da RTP 2…

Sim, sai o Mega e sai o Júdice. Havia um método de treinar pivôs. Ficava sempre um miúdo mais novo a treinar. Quando os outros saíam, subia o que tinha estado a aprender. Assim, se foi fazendo até que o Hernâni sai em rutura com a administração. É quando entra o Joaquim Amaral Marques e o Miguel Sousa Tavares. Entra também o Carlos Albuquerque, que chegou a ser diretor do canal 2. Até ao momento em que o Proença de Carvalho decide suspender aquilo, o que acontece pouco tempo depois de ele ter tomado posse. Queria reformular.


Mas porque acha que ele suspendeu? 

Porque o canal 1 era um canal oficial com as rédeas muito curtas e com o poder político a controlar tudo de muito perto. O canal 2 fugia um pouco a isso. 


Havia ministros a ligar? 

Não estava lá. Mas era evidente. Eu tive um episódio já depois de acabar a Informação 2 e eu entro na redação da RTP. 


Chegou a haver só RTP1?

Sim. Mas, enquanto havia as duas, iam sempre duas equipas e eram autónomas. Chegávamos a ter de disputar a câmara. Há conferências onde o repórter da RTP 1 disputa com o da RTP 2 quem faz a primeira pergunta. Eram dois mundos completamente diferentes. 


Ia contar um episódio…

Há um episódio com um ministro. Era ministro da Educação e havia um sarilho qualquer com a Educação. E nós fomos ao Ministério para fazer uma peça de um minuto ou dois. Mas ele começa a falar e nunca mais se cala. O senhor ministro entende que aquilo tem de ir na íntegra. E aquilo tinha 20 e tal minutos. O repórter telefona-me e eu digo que não vai. O telejornal tinha 30 minutos, não íamos passar aqueles 20. Começa a história de o ministro dizer que sim, eu digo que não, ele diz que sim, eu digo que não. O ministro telefona para a administração para que entre na íntegra.


Quem era o ministro?

Era o José Augusto Seabra. 


E o que é que o Henrique fez?

Disse que ia editar. Chegou a hora do telejornal e pusemos a peça editada no ar. Telefona o diretor de informação [o Fialho de Oliveira] a dizer que tinha de ir na íntegra. Suspendeu o telejornal e estivemos uns minutos parados. Depois deu-me uma ordem por escrito porque eu pedi. Tenho o papelinho em casa. 


E depois passaram os 20 minutos?

Depois, passaram os 20 minutos. 


Isto leva-o para a prateleira?

Não. Eu depois cumpri a ordem. Não aconteceu nada. Mas tenho um outro senhor, que era secretário-geral do PS, com uma cena idêntica. Foi o Vítor Constâncio. Na altura, em que o dr. Mário Soares, ao que parece, andava a conspirar contra ele. Há um colega que o vai entrevistar e foi a mesma cena. Queria tudo na íntegra. Eu disse que não, que ia ser editado. Ele telefona-me e eu disse que ele tinha direito a reclamar, se fosse manipulado. Partiu o telefone. Depois, ligou a pedir desculpa. E foi editado. 


Nesta altura tem que idade

30 anos. 


Já era casado? 

Fui e sou um homem recatado. O que fiz diz-me respeito a mim e às pessoas com quem estive. Mas tenho dois casamentos. O primeiro em 1980. Casei-me com uma islandesa de quem tenho dois filhos. O Pedro e o Henrique. 

Mobirise

Conhece uma islandesa em Lisboa? 

Recordo-me que eram duas turistas que estavam perdidas na rua e perguntaram onde era um hotel qualquer no Marquês de Pombal. Eu estava na Sampaio Pina, à porta a fumar, e gentilmente fui levar as senhoras ao hotel. Tagarelámos e fomos almoçar. 


E ela continuou em Portugal?

Não, ela seguiu viagem. Depois começámos a falar muito ao telefone e a conta era insuportável. Depois, resolvi ir lá. Voltei e, passado pouco tempo, propus-lhe casamento. Ela aceitou viver em Portugal uns anos, até que se desadaptou. 


Ela esteve cá quantos anos?

Até 1985. Cinco, seis anos.


E mantém contacto com ela?

Não, mantenho com os filhos que vivem na Islândia porque foram com a mãe. Vejo-os todos os anos. Eles vêm cá sempre no verão passar o máximo de tempo. Já tenho netos. Quando eram estudantes vinham mais tempo, agora vêm uns quinze dias. Um é médico e o outro é vagamente escritor e vagamente ligado às artes. Tirou um daqueles cursos que não sabemos para que servem que é Comunicação e Cultura. Recebeu o prémio revelação de literatura no ano passado lá. Está integrado. 


A segunda mulher, a atual, também lhe perguntou onde era o hotel?

Não, aconteceu por causa de um amigo comum, que queria que ela fizesse um programa de televisão comigo.


Ela tem a sua idade?

Não, é mais nova. Ela tem 58 anos. Isto foi há 20 anos. Ela tinha 39 e eu perto de 50. É de raízes angolanas. Passei do frigorífico para o forno. São culturas diferentes. Aprendi a defender a casa de certas coisas por causa da mãe dos meus filhos. Esquinas e móveis angulosos não existem na Islândia por causa das crianças. Depois, mudei-me para África e é outra cultura também. Dois choques culturais muito fortes e importantes que me ajudam a ser como sou. A minha mãe dizia que só falo quando me pagam porque prefiro ouvir. Fiz uma rádio, fundei a Gest. Nasce a TSF, a Correio da Manhã e a Rádio Gest. 


E como é essa experiência?

Era uma rádio fora do tempo. Esteve lá a Manuela Moura Guedes, o Joaquim Letria, o Rui Morrison, o Artur Albarran, o João Reis e a Rita Guerra, que era a secretária, rececionista e telefonista. Descobri que ela cantava num aniversário dela. Ela convidou-me e, no fim, fomos beber copos. Ela disse-me que tocava piano e eu fui perguntar se ela podia tocar. A miúda meteu as mãos ao piano e cantava. Eu estava a preparar a segunda festa da Rádio Gest e disse à administração, onde estava o Pedro Santana Lopes, que a devíamos pôr a abrir o espetáculo. As reações da administração à minha proposta foram dizer que estava maluco. Quem é a Rita Guerra Mas, a contragosto, aceitaram. Foi no Casino Estoril. A Rita sai contratada nesse dia. 


Depois a Rádio Gest vai à falência…

A Rádio Gest sofre vários percalços. 


E o que se segue?

A ocupação plena em televisão. Também a idade já aconselhava a não fazer 20 horas de trabalho por dia. Fiquei a tempo inteiro na RTP até 2000. Estive no jornal 2 que era um jornal assinado. Dávamos a notícia e dávamos a história. Havia sempre o grande tema do dia. Fiz isso algum tempo com toda a liberdade.


Até 2000, quais foram os momentos chave na televisão e na rádio?

Na rádio, houve dois programas que me marcaram. O Ovo de Colombo e a Maçã de Adão. O primeiro era uma parceira em que estava o João Alfacinha da Silva, o Rui Paulo da Cruz e eu. E a Manuela Moura Guedes que estava a começar a carreira de jornalista e era pivô comigo. Era um programa ao fim de semana. Cada programa começava com uma letra do alfabeto. 


Fizeram até à letra Z…

No programa da letra D resolvemos fazer sobre descolonização. Eu queria ter em estúdio o Melo Antunes e o Franco Nogueira. O dr. Pinto Balsemão disse logo que aquilo era impensável. Mas eu pedi para me deixarem tentar. Ainda estava tudo muito quente. Fui a uma reunião com o Franco Nogueira e propus o tema. Tive de dizer que tinha uma reunião marcada também com o Melo Antunes e ele fica a olhar para mim a aceita. A seguir, vou para o Melo Antunes e tive de dizer com quem ia discutir o tema. Quando lhe disse que era o embaixador Franco Nogueira, ele concorda. Fizemos o programa que teve um eco fantástico. Ao ponto de chegarem ao final do programa e se cumprimentarem, a dizer que tinham sido adversários, mas que não eram inimigos e apertaram a mão.


Vamos para 2000 e a saída da RTP… 

Eu estou a fazer o Jornal 2 e tive um problema pessoal que me impediu de aparecer na televisão. Pus então o Pedro Pinto, que era um dos jovens que tinha na redacção, a apresentar. O José Rodrigues dos Santos interpelou-me depois de o ter posto a apresentar e disse-me que ele estava na iminência de ir para a TVI. Eu disse-lhe que não sabia, mas que ele continuava a ser nosso funcionário. Até que, ao final de pouco tempo, o tipo [José Rodrigues dos Santos] me manda barricar o gabinete, demite-me do jornal e põe outras pessoas. Eu tinha um gabinete transparente virado para a redação e ele mandou tapar com armários e fecha a porta que dava para a redação. Fico só com uma. Ele fecha aquilo tudo. Fico naquela vida, ele proíbe as pessoas de irem falar comigo, até que me diz que eu ia apresentar, coordenado por um tipo muito mais novo do que eu e menos classificado, o 24 Horas ou as notícias de fecho. E é nessa altura que eu bato com a porta e venho embora. 


Nunca mais falou com ele?

Nem falo. Ele disse que era conflito de gerações. Não. É conflito de dignidade. 


E fica a fazer o quê?

Fiquei desempregado uns dias e é quando o José Eduardo Moniz me telefona para ir falar com ele. Entrei na TVI no princípio de outubro de 2000. Na verdade, estive tecnicamente quinze dias no desemprego. O Rangel ainda me disse porque é que não lhe tinha telefonado. Não telefonei porque me telefonaram.


E qual é a mudança? 

A mudança é radical porque entro na TVI num momento em que estava à beira da falência, com indicações para despedir gente. O José Eduardo Moniz é convidado a entrar e opera a grande reviravolta com o Big Brother. Isso começa a alterar o panorama. E é, a partir daí, que a TVI começa a subir até onde subiu. Começa a ficção nacional, uma aposta mais forte na informação e, em vez de despedimentos, há contratações. A redação começa a crescer. E entrou-se numa onda de empolgamento. 


Mas a sua vida muda radicalmente. Começa a trabalhar mais horas…

Sim. Começo como adjunto do diretor. Apresento jornais. Depois começamos as manhãs naquele registo meio informação, meio entretenimento. Comecei a fazer a manhã com a Júlia. Confesso que hesitei no início porque o registo da Júlia não tinha a ver com o meu. Mas devo dizer que foi das melhores parelhas que fiz. Uma parelha é das coisas mais difíceis de fazer porque ou o mais novo tenta pisar os calos ao mais velho ou o mais velho tenta abafar o mais novo. Ou, até quando são iguais, há sempre quem se tenta sobrepor. Não foi o caso. Tínhamos de nos levantar às 4h30. Parecia que estávamos a viver no Médio Oriente. Os amigos estavam acordados às 20h00, mas era hora de ir para a cama. Fazer jantares em casa era impossível porque adormecia. Só recuperava ao fim de semana. Até que o Moniz me disse que era preciso fortalecer o Jornal da Uma e fui para lá. Fiz os horários todos. 


Acha que as televisões ficaram a dormir até ao aparecimento da CMTV? 

Não. O que me parece é que o Correio da Manhã tem uma rede de correspondentes locais infinitamente superior a qualquer outro. Muito apoiada na malta do papel. Alguém vai, pega, regista e manda imediatamente. Nós não temos. Temos muito poucos correspondentes locais e, por isso, a capacidade de chegar aos locais é muito maior. 

Conheci muita gente, mas a única pessoa que não me falou foi o dr. Ricardo Salgado

Mas não acha que é um bocado estranho que chegue uma televisão que arrasa o cabo ao final de três anos e passa a ser líder sem estar em todas as plataformas? 

Não acho estranho. Depende do público-alvo que se escolhe. A CMTV escolheu o público mais indiferenciado para conquistar e conquistou, já muito apoiado pelo jornal. 


Não acha que a forma de fazer televisão foi mudada por causa da CMTV?

Não. Em quê?


A TVI mudou. Agora, há programas de crimes e violência. Há diretos com funerais e antes não havia…

Quando morreram aqueles miúdos dos Morangos com Açúcar, fez-se, na minha opinião em excesso, algumas coisas dessas. 


O que acha da CMTV?

Não faz o meu perfil ou eu não faço o perfil da CMTV. A CMTV é uma televisão que procurou o seu espaço, na linha editorial do jornal e preenche dentro do perfil. 


Em relação à qualidade do que se faz hoje em televisão Acha que o excesso de estagiários prejudica a qualidade ou não?

Eu acho que há muita falta de ter mais velhos. Mas Portugal não é um país para velhos, nem para estagiários, não é para os novos, nem para os que estão no ativo que são descartados. 


Foi o primeiro rosto da TVI 24?

Sim e estava muito tranquilo. Quando me perguntavam se eu estava enervado, perguntava se se estava a passar alguma coisa. Falar na TVI 24 era igual a falar noutra televisão qualquer, mas eu já tinha 60 anos. 


A voltar à televisão, o que seria o ideal fazer?

Gostava de fazer a informação 2 ou o jornal 1. Esses formatos que já fiz. 


E a TVI Imagina-se a voltar a fazer coisas para a TVI?

Estamos divorciados e eu, como sou um cavalheiro, não direi mal do casamento. Até porque nem tudo corre mal dentro dos casamentos. O jornal do dia, que eu fiz na TVI 24, também é um dos modelos dentro dos outros em que me sinto bem. Gosto dos formatos que trazem ao público o contraditório. Traz a vítima e carrasco. Procuro que se exponha mais o que tem poder e é responsável porque conduziu mal, porque deixou as pessoas morrerem nos incêndios. Sou eventualmente mais agressivo com essas posições. Lembro-me, há uns anos, de perguntar a um presidente da CP, depois de haver uma série de acidentes com comboios no espaço de uma semana, porque é que aquilo estava a acontecer. Ele começou por pedir desculpa e eu achei cordial que o estivesse a fazer e dei de barato. Voltei a princípio e ele continua a dizer que fizeram investimentos e um grande esforço de modernização. E eu sou obrigado a perguntar outra vez. E sou obrigado a dizer que percebi que ele não foi ali para responder às minhas perguntas e acabo a entrevista. Também perguntei uma vez ao António Maria Pereira, que era feroz combatente das corridas de touros, se ele gostava de marisco. Ele disse que gostava e eu, que nem gosto de touradas, perguntei-lhe se ele sabia como é que a lagosta ia parar ao prato e a conversa azedou porque a lagosta vai vivinha para dentro da panela. 


O que acha de Proença de Carvalho e da Operação Marquês? 

Acho que a Operação Marquês tem que acabar porque todos os processos têm que acabar. Há várias fases nos processos. Alguns deles estão na fase de instrução, mas espero que esses processos se concluam, que haja resultados e que, quem tiver de ser punido, seja. Agora, o que estou a ver é que isto está tão enredado que houve um erro que foi a não separação de processos. Esta história do mega processo, não se sabe para onde é que vai. Nos EUA, tivemos situações semelhantes…


Mas como é que vê estes processos em Portugal?

Vejo com bons olhos porque a justiça, mesmo no tempo da ditadura, no fim, funcionou. Regra geral. Eu quero acreditar que a justiça há-de ser feita.


Como é que vê a divulgação das imagens dos interrogatórios?

Acho que há interesse público. Designadamente, quando essas pessoas nos representaram. Devem-nos explicações. Como é que fizeram e se beneficiaram disso tudo. Nomeadamente, como é que que o Dr. Salgado acumulou riqueza. Numa fase em que o processo está fechado, já não há mais matéria para pôr ali, acho que há interesse público.


Não chegou a dizer o que acha do Proença do Carvalho…?

Não tive tempo.


Manuela Moura Guedes disse que ele era o novo dono disto tudo?

Não sei se é. Há vários donos disto tudo. É um homem de muito poder e discreto. O Zé Mensurado chamou-lhe uma vez Maquiavel à moda do Minho e isso valeu-lhe ter sido suspenso e despedido da RTP durante um período. O Proença não gostou e o Zé Mensurado passou mal nesse período. Isto foi nos anos 80 para aí. Também me lembro de o ter levado a um programa, suponho que foi na Maçã de Adão, e havia uma altura em que fazíamos uma espécie de questionário de Proust. Havia três hipóteses e o convidado tinha de escolher uma. O Dr. Proença de Carvalho escolheu a verdade e já não sei o que lhe dei. Mas era entre poder, não sei quê e não sei quê. E o que ele escolheu disse tudo sobre ele. Mas não me lembro das perguntas. 


Escolheu o poder…

Já não me lembro. Mas é um homem que começou na Polícia Judiciária e que, depois, faz o curso de Direito e passa a ser advogado. É um homem que chega à presidência da RTP e foi ministro. O Proença de Carvalho, por exemplo, com o José Niza, fez a lei que obrigou as rádios a passar x música portuguesa, numa altura em que, se calhar, a música portuguesa não se justificava como se justifica hoje. O José Niza empenhou-se muito e fizeram uma lei ridícula a impor uma quota para que se passasse 20% numa hora. Já não sei qual era a percentagem. Fiz-lhe uma entrevista, era ele ministro da Comunicação Social, que começou no Palácio Foz e acabou em casa dele. A certa altura questionei a história da imposição da música portuguesa. Acabou a entrevista e ele diz que eu ia a casa dele para ver a música que ele consumia. Era jazz. Música portuguesa não haveria ou haveria muito pouca. Portanto, explica um pouco do que penso do Dr. Proença de Carvalho. É político.


Não levaria Proença de Carvalho para um hotel que ele não conhecesse como aconteceu com a islandesa…

Ele não precisa que eu lhe indique o caminho. É pessoa com quem tenho, até hoje, uma convivência tranquila. A quem telefono no caso de haver uma dúvida qualquer e me atende o telefone. Aliás, para além das amizades que esta vida me deu, deu-me também a facilidade de contacto com muita gente. A única pessoa que nunca me cumprimentou foi o dr. Ricardo Salgado. E até explico uma situação francamente deselegante da parte do senhor. Quando foi a gala das Sete Maravilhas e a TVI foi a televisão hospedeira, no Estádio da Luz, eu também estava encarregue de organizar aquilo. E entro no Estádio da Luz já quando ia começar. Quando eu e a minha mulher íamos a entrar no elevador, reparo que vêm quatro pessoas. Uma delas era o Dr. Ricardo Salgado. Vinha ainda a mulher e um outro casal. E eu paro o elevador para que pudessem entrar e disse boa tarde. Ninguém me respondeu. Registei o gesto de quem é dono disto tudo e não tem que cumprimentar vassalos ou súbditos. 


Falando do processo do seu despedimento há quem diga que não é despedimento porque é uma não renovação de contrato… 

Fiquei profundamente magoado. A carta que recebi, dias depois de ter feito 70 anos, a invocar a lei, dizia que me poderia ser feito um contrato a seis meses, porque também diz na lei. Mas a lei não diz mais nada e a TVI escreveu à frente não renovável. E depois o terceiro parágrafo era com os melhores cumprimentos, obrigada pela colaboração e a assinatura. A quem trabalhou 18 anos numa casa, deu o que sabe, achei deselegante. Senti que me tinham dado um tiro no meio dos olhos. Foi o que senti quando recebi a carta. 

Posso candidatar-me à Presdiência da República, mas não posso continuar a dizer boa noite e a dar as notícias

Quando recebeu a carta estava em casa. O que pensou quando a recebeu? Chorou?

Não, chorar, chorei na morte da minha mãe que é de facto algo irreparável. Isto é um acidente da história.


Mas o que pensou? 

Senti que não se trata assim ninguém. É evidente que se me tivessem chamado, em vez de terem enviado a carta, teria o mesmo choque. A reforma é cada vez mais tarde, a esperança de vida aumentou. Este prazo de validade não faz nenhum sentido. Posso candidatar-me à Presidência da República, mas não posso continuar a dizer boa noite e a dar as notícias. 


É por isso que diz que este país não é para velhos?

Sim, não é para velhos, não é para novos, para os que querem começar, que têm de ter muito mais escolaridade do que tem um empregado não qualificado. Também não é para os que estão no ativo. A qualquer pretexto, a entidade patronal tentará pôr a andar, se encontrar dois por aquele preço. 


Acha que foi desumano mandarem a carta?

Acho que foi desumano para toda a gente. Foi para o Bagão Félix, foi para o diretor-geral da Saúde, o Francisco George.


Mas aí é Função Pública…

Mas é injusto e gratuito. E é para quê Porque é preciso dar lugar aos novos Não é por aí que vamos lá. Há um conhecimento que se pode transmitir.


Prejudica as redações?

Eventualmente, o patronato que temos na Comunicação Social não gosta de ter memória lá dentro.


Mas isso é grave…

Para mim, é. Para eles, não é. Eles pensam nos lucros para os acionistas.


Mas o Henrique não dava lucro? 

No dia em que me despedi fiz mais 200 mil espetadores do que a SIC. 


Não estava à espera da manifestação de solidariedade?

Não. Mesmo lá dentro dizem que faço muita falta. 


Acha que a direção de informação não o defendeu o suficiente?

Acho que a direção de informação não tem alternativa. Foi dada ordem para que, em Espanha e fora de Espanha, utilizem a lei para se descartarem deste tipo de pessoas. Aqui, há executores da ordem da administração. As direções têm conhecimento, como é evidente. Eu, quando recebi a carta, fui perguntar ao diretor [Sérgio Figueiredo] e ele disse-me que já sabia. Eventualmente, não teve coragem de me dizer.


Mas acha que não o defendeu?

Não faço a mínima ideia. Não estive nessas reuniões. Mas a ordem era para executar. Ele aí não tem poder. Ele tem poder depois para fazer o que fez. Não quis que me viesse embora assim e disse que eu ia fazer o jornal das 8 para me despedir. 


O que sentiu a fazer o último jornal?

Tive quase a emocionar-me com uns depoimentos que foram feitos e com uma peça que foi feita. Em casa foi pior, quando cheguei e fui ver. Mas, mesmo assim, pelo que ouvi na parte final, com o Marques Vidal a dizer que “este tipo se percebe melhor pelos silêncios do que pelo que diz”, percebi que me percebiam. Porque, muitas vezes, é na pausa que se diz muita coisa. E na despedida também fiz. O que aconteceu ali foi a prova final. E emocionou-me muito estar ali aquela rapaziada toda. Mas perguntei-me, muito tempo na vida, e no outro dia alguém tentou encontrar uma resposta, uma senhora embaixadora africana que me telefonou…


Qual senhora?

Não interessa. Mas eu disse que andava por aí e as pessoas não me interpelavam. E ela dizia-me que se me visse não vinha ter comigo porque é tanto o respeito que não me vinha abordar. Se passasse o Herman José, ia lá dizer uma palhaçada qualquer. Porque eu perguntava-me o porquê de vir para aqui e ninguém me ligar nenhuma e, se fosse um outro colega, ia ser massacrado. Eu não sou. Passo pelos pingos da chuva. E sempre me perguntei se seria por ter um ar muito antipático ou porque tinha um ar tão badameco que ninguém me ligava nenhuma. 


Quando acordou no dia a seguir como é que foi?

No dia 2 de maio, acordei com uma grande ressaca. Percebi que muita gente tinha olhado para mim. Aquele dia seguinte foi a ressaca de ter estado tanta gente a ver. Mas eu tenho consciência de que há muita gente que quer que eu faça coisas. Há pouco estava a falar sobre a formação e a pessoa era o professor Adriano Moreira. Um dia telefonou-me porque queria que eu fosse para Tomar. Ia abrir um curso. Mas eu não sou capaz de ir formar gente que não vai ter trabalho. Disse-lhe que não. E ele há pouco tempo viu-me e disse que eu tinha sido um dos poucos tipos que lhe tinha dado um não na vida. 


Vai voltar em setembro para a televisão?

Não, mas também há televisão. 


O que se faz para ter 70 anos e parecer que tem 50?

São as plásticas [risos]. Quando me perguntam por que é que sou tão bronzeado tento o mesmo tipo de resposta. Digo que tenho muitos amigos na Comunicação Social, vou-me queimando. 


Quando tinha 30 anos, olhava para uma pessoa de 70 anos e achava que era velha. Agora, que tem 70, vê aqueles 70 anos que via quando tinha 30?

Não sei.