15/11/2018
 

DOSSIÊ BANCA

AJUDAS AOS BANCOS NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS CUSTARAM O EQUIVALENTE A 23 PONTES VASCO DA GAMA

  • PORTUGUESES “ESCALDADOS” AGORA SÓ ESCOLHEM PRODUTOS FINANCEIROS SEGUROS
  • “QUANDO A BANCA TEM LUCROS DISTRIBUI DIVIDENDOS, QUANDO TEM PREJUÍZOS É O ESTADO QUE RESOLVE”
  • CAIXA RECEBEU A SEGUNDA MAIOR AJUDA DE SEMPRE NO ANO PASSADO. O MONTANTE SÓ FOI SUPERADO QUANDO SE DEU A FALÊNCIA DO BES

BANCOS

SETOR DÁ SINAIS DE ALÍVIO DEPOIS DE TER SIDO ALVO DE FORTES AJUDAS

O sistema financeiro parece agora suspirar de alívio, mas a fatura que os portugueses pagaram para salvar a banca foi elevada. Nos últimos dez anos as operações de capitalização dos bancos pesaram 23,7 mil milhões de euros. “Para termos a noção deste número, foram 23 pontes Vasco da Gama”, refere ao i Pedro Amorim, analista da XTB. Um número que leva o economista a admitir que a banca “já não é viável” e lembra: “Quando os bancos têm lucros distribuem dividendos, quando têm prejuízos é o Estado que resolve”, refere ao Pedro Amorim.

O responsável recorda ainda que foi necessária a criação de uma união bancária para evitar que a situação se repita. “Não se pode repetir este número para um país onde a austeridade teve um valor global de 15 mil milhões, onde o salário médio são 1000 euros, e temos um PIB de 190 mil milhões”, salienta.

No entanto, o montante não vai ficar por aqui, uma vez que o Novo Banco precisou de mais capital depois de ter apresentado, em março, prejuízos recorde de 1395,4 milhões de euros referentes a 2017, num ano em que constituiu mais de dois mil milhões de euros de imparidades (provisões para perdas potenciais).

Já em maio, o Estado foi chamado a injetar 430 milhões de euros na instituição financeira liderada por António Ramalho no âmbito do mecanismo de capitalização contingente – ao todo o Fundo de Resolução injetou 791,7 milhões de euros. Mas ainda não se sabe se o valor que o Estado terá de avançar irá ficar por aqui.

“O mecanismo de capital contingente, nos termos do acordo de venda do Novo Banco, dura ao longo de oito anos e tem limites máximos. Este ano, o Novo Banco, no contexto daquilo que é a avaliação feita também com o supervisor e com os auditores, registou um volume de imparidades muito significativo nos ativos que estão ao abrigo do mecanismo de capital contingente. No próximo ano, voltar-se-á a avaliar esses ativos.

Dada a avaliação que foi feita este ano, não esperaria que houvesse impactos significativos por essa via”, já veio revelar o secretário de Estado das Finanças.

MAIOR PESO

Mas foi em 2017 que se assistiu a uma das maiores sobrecargas de ajudas ao setor. Aliás, no ano passado existiu a segunda maior ajuda de sempre com a operação de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A necessidade de financiamento “extraordinária” do banco público fixou-se nos 5709,4 milhões de euros, o que conduziu a uma subida do défice de 0,92% para 3%.

Este montante tinha sido apenas superado quando se deu a falência do Banco Espírito Santo (BES) em 2014, considerado, até aí, o pior ano no que diz respeito às ajudas dos contribuintes para o sistema financeiro. Nessa altura, as ajudas superaram 5,1 mil milhões de euros e o défice orçamental do ano disparou para 7,2% do PIB.

O terceiro ano em que os portugueses foram chamados para pagar mais à banca foi em 2010, quando o Estado decidiu intervir no Banco Português de Negócios (BPN) com 1,8 mil milhões de euros.

Estas necessidades constantes nos últimos de injeção de capital já levaram o comentador Marques Mendes a admitir que “há um verdadeiro complô de silêncio e de tentativa de encobrir todas estas situações”, acrescentando ainda que este “complô mete políticos e não políticos, mete gestores e não gestores, empresários e não empresários, da direita à esquerda, do governo à oposição”, afirmou recentemente no seu espaço de comentário televisivo, na SIC.

CGD RECEBEU, EM 2017, A SEGUNDA MAIOR AJUDA DE SEMPRE. O MONTANTE SÓ FOI SUPERADO QUANDO SE DEU A FALÊNCIA DO BES

E apesar do sistema financeiro já ter visto piores dias, o analista da XTB admite que ainda não viu a luz ao fundo do túnel. “O crédito mal parado da banca faz anular os resultados positivos (excesso de imparidades). A subida de taxas de juro podem significar aumento de resultados, mas na Europa só daqui a 3 ou 4 anos é que se vai ver isso refletido”, diz ao i.

Pedro Amorim afirma ainda que o aumento de taxas de juro poderá não significar melhores resultados. No seu entender, se este não for acompanhado pelo crescimento da economia (empresas) e crescimento das condições salariais das famílias (particulares) vamos ver o número crédito mal parado aumentar. “Vamos dar um exemplo para ser mais fácil entender o que quero dizer. Num crédito habitação, hoje sem taxa variável, um aumento de 1 ponto percentual significa um aumento de 47,98 euros num empréstimo de 100 mil euros a 30 anos. Significa quase 600 euros por ano. Será que as famílias estarão preparadas para este aumento?”, questiona.

A verdade é que o aumento da concessão do crédito à habitação que voltou a bater recordes e atingir máximos de 2010 fez soar alarmes junto do Banco de Portugal (BdP).

A pensar nisso, a entidade liderada por Carlos Costa já veio recomendar aos bancos a aplicação de limites nos critérios de concessão destes financiamentos. No entanto, para já, trata-se apenas de recomendações. Mas, se não forem respeitadas, o governador admite que possam ser obrigatórios.

MOVIMENTOS DE CONSOLIDAÇÃO

A verdade é que após as ajudas ao sistema financeiro, o setor caminhou a passos largos para movimentos de consolidação financeira. Mas também aí surgem vozes críticas que apontam para o risco dos bancos que operam no mercado nacional estarem, na sua maioria, detidos por mãos espanholas. Um cenário que tem ganho maior revelo com as recentes aquisições do Banif, do BPI e do Barclays que pesam mais 40% do sistema financeiro.

“Temos o Santander, com a fusão com o Popular, a concorrer à liderança de mercado com o BCP, que por sua vez se encontra em mãos chinesas. A aquisição do BPI por parte do La Caixa, o ex-BES para o Lone Star, a saída do Barclays para entrar o Bankinter e a saída do Deutsche Bank vieram reforçar a banca espanhola em Portugal”, refere Pedro Amorim.

E a predominância espanhola poderá não ficar por aqui se o Novo Banco for parar a Espanha. Ao i, o economista Avelino de Jesus, autor de dois livros sobre a resolução do BES, garante que a instituição financeira sairá no futuro das mãos da Lone Star para um banco espanhol, em que o Santander Totta é apontado como o candidato preferencial.

Se este banco acabar, um dia, também por cair nessa propriedade, mais de 50% da banca nacional passará a ser controlada por Espanha. Isto significará que o financiamento de toda a economia portuguesa, incluindo o setor público e privado, ficará dependente de centros de decisão de um único país estrangeiro.
Algo que não assusta propriamente os banqueiros nacionais, mas que já mereceu reparos de Marcelo Rebelo de Sousa no passado em relação à forte presença espanhola na banca deste lado da fronteira. “É importante haver uma participação significativa, o que é diferente de haver um exclusivo. É uma posição de fundo. Nenhuma economia deve ter uma posição exclusiva noutra economia”, chegou a alertar o Presidente da República.

Aliás, estes riscos de concentração do sistema financeiro por parte do país vizinho mereceram uma chamada de atenção de várias personalidades portuguesas. Em 2016 surgiu um manifesto contra o domínio espanhol da banca portuguesa organizado por um grupo de 50 personalidades, entre empresários, banqueiros e economistas, liderado por Alexandre Patrício Gouveia.

CRONOLOGIA

2 novembro 2008

NACIONALIZAÇÃO DO BPN

A notícia da nacionalização do BPN foi divulgada, durante um fim de semana, por Teixeira dos Santos – na altura ministro das Finanças do governo de José Sócrates, Vítor Constâncio e Carlos Costa Pina após a realização de um concelho de ministros extraordinários. Em causa estavam indícios fortes de irregularidades, incapacidade de cumprir compromissos e na origem da decisão esteve a necessidade de garantir que o dinheiro dos depositantes, estava garantido, sob a alçada do Estado. Na altura, foram criados três veículos para gerir os ativos com imparidade da instituição, que existem até hoje, estando longe de recuperar as perdas. A venda da instituição financeira só feita anos mais tarde.

20 novembro 2008

EMPRÉSTIMO DE 750 MILHÕES DE EUROS

João Rendeiro, fundador, maior acionista e então ainda presidente do Conselho de Administração do BPP, solicita a garantia do Estado para um empréstimo, de 750 milhões de euros junto do Citigroup. Quatro dias depois, o governador do banco central, Vítor Constâncio, anuncia que o Banco de Portugal (BdP) vai dar parecer negativo ao pedido de garantias estatais. No dia 28 Rendeiro renuncia ao cargo.

1 dezembro 2008

BANCO DE PORTUGAL DECIDE INTERVIR NO BANCO PRIVADO

O Banco de Portugal decide intervir no Banco Privado. Nomeia uma administração provisória, liderada por Fernando Adão da Fonseca, para acompanhar um plano de salvamento da instituição, que inclui um empréstimo negociado junto de seis outros bancos portugueses, no valor de 450 milhões de euros.

9 dezembro 2011

VENDA DO BPN

Venda do BPN ao BIC por 40 milhões de euros. Mais tarde, Mira Amaral que assumiu a liderança da instituição financeira admitiu que, se voltasse atrás, não daria tanto dinheiro.

3 agosto 2014

RESOLUÇÃO DO BANCO ESPÍRITO SANTO

Banco de Portugal anuncia a resolução do Banco Espírito Santo. O BES fica com os ativos tóxicos e nasce o Novo Banco, que recebe uma injeção de 4,9 mil milhões de euros do Fundo de Resolução. O governador Carlos Costa garantiu, na altura, que a decisão não terá custos para os contribuintes.

20 dezembro 2015

BANIF VENDIDO AO SANTANDER TOTTA

Banco de Portugal anunciou ao final da noite que o Banif foi vendido ao Santander Totta por 150 milhões. O negócio incluiu a atividade do Banif e da maior parte dos seus ativos e passivos.

30 março 2017

CONCLUÍDO O PROCESSO DE RECAPITALIZAÇÃO DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

Concluído o processo de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos com a injeção de 2,5 mil milhões. A primeira fase passou pela realização de um aumento de capital em espécie no montante de aproximadamente 1 445 milhões de euros, subscrito e realizado integralmente pelo acionista Estado Português, pela entrega de 945 milhões de euros respeitantes a obrigações subordinadas de conversão contingente (Instrumentos de Capital Core Tier 1) e respetivos juros, e cerca de 500 milhões de euros, mediante a entrega de ações da Parcaixa.

18 outubro 2017

Acordo para a venda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star

Anunciado o acordo para a venda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star que fica com 75% da instituição financeira. A restante percentagem manteve-se nas mãos do fundo de resolução. A Lone Star comprometeu-se em injetar mais 250 milhões de euros na instituição, depois dos 750 milhões que foram disponibilizados neste fecho da operação.

BANCOS

AUMENTO DE COMISSÕES, FECHO DE BALCÕES E REDUÇÃO DE PESSOAL SALVAM RESULTADOS

TEXTO | Sónia Peres Pinto

Os resultados dos três primeiros meses do ano foram animadores e bem longínquos das perdas históricas apresentadas no passado. As quatro maiores instituições a operar no mercado nacional lucraram mais de cinco milhões de euros por dia. Aumento das comissões, redução de imparidades e cortes nas estruturas ditaram contas. E tudo indica que esta tendência é para ficar, pelo menos tendo em conta os números que têm sido avançados

O aumento das margens – em que as comissões estão a ser o motor das contas dos bancos –, a quebra das imparidades e um esforço na contenção de despesas, nomeadamente em termos de pessoal e de estruturas, é a formula de sucesso para “salvar” os resultados das instituições financeiras. E isso é visível pelos resultados registados no primeiro trimestre do ano, mas já começou a verificar-se em 2017.

Os quatro maiores bancos a operar no mercado português – BCP, BPI, Santander Totta e Caixa Geral de Depósitos – lucraram 493,5 milhões de euros nos três primeiros meses do ano. Dividindo este resultado por 90 dias dá um lucro diário de mais de 5,4 milhões de euros. Só este montante aproxima-se dos resultados alcançados em 2017, ano em que estas quatro instituições financeiras lucraram 684,8 milhões de euros, o que mostra um regresso à rentabilidade.

Este bolo ainda poderá ser maior se juntarmos bancos de menor dimensão que ainda não apresentaram contas. É o caso da Caixa Agrícola, que no ano passado mais do que duplicou os lucros para 150 milhões de euros, impulsionado pelo crescimento do produto bancário – só este contribuiu com 148 milhões de euros –, mas também pela redução das imparidades, que foi de 15 milhões, uma queda de 74% face ao ano anterior.

O BPI foi o campeão dos resultados ao apresentar lucros de 210 milhões no terceiro trimestre. Logo a seguir surgiu o Santander Totta, ao lucrar 130,5 milhões de euros.

Também o BCP viu os seus lucros subirem 70,8% para os 85,6 milhões de euros, enquanto a Caixa Geral de Depósitos (CGD) – apesar de ter sido a instituição financeira a apresentar resultados mais baixos, foi das que mais recuperaram – lucrou 68 milhões de euros, deixando para trás prejuízos de 39 milhões de euros.

A verdade é que as comissões têm vindo a engordar as contas dos bancos que operam no mercado nacional, que só nos três primeiros meses do ano arrecadaram mais de 400 milhões de euros em comissões. Este valor representa um aumento de mais de 30 milhões de euros face a igual período do ano passado. Feitas as contas, dá uma média de mais de quatro milhões de euros cobrados por dia sobre os mais variados serviços.

CGD FOI O BANCO QUE APRESENTOU MENORES RESULTADOS, MAS FOI O QUE MAIS RECUPEROU FACE A ANOS ANTERIORES

A Caixa foi o banco que mais aumentou ao registar uma subida de 14%, o que permitiu ao banco público arrecadar 89 milhões de euros. O aumento das comissões — que Paulo Macedo garantiu não será repetido — está “em linha” com o plano estratégico que está a ser cumprido pelo banco após a recapitalização pública feita no ano passado, que permitiu ao banco reconhecer imparidades de crédito.

Ainda assim, foi o BCP que mais ganhou nesta matéria. Apesar de ter sido o que menos subiu (um aumento de 4,5%), ganhou 167,8 milhões de euros. Já o Santander ganhou 93,9 milhões de euros nos primeiros três meses do ano, o equivalente a um aumento de 10,2% durante esse período.

Mais modestos foram os ganhos do BPI. As comissões subiram quase 12%, permitindo à instituição financeira liderada por Pablo Forero arrecadar 69 milhões de euros.

O certo é que este truque usado pelos bancos vai ter de ser mais transparente pois, desde o final de abril, o Banco de Portugal (BdP) obrigou os bancos a divulgarem as comissões dos serviços mais utilizados, seguindo uma lista dos 13 serviços bancários mais procurados. O objetivo é tornar mais fácil para os consumidores a comparação dos preços no setor. A partir de outubro, o regulador vai disponibilizar um simulador em que será possível comparar as mais variadas comissões: cartão de débito ou crédito, levantamento em numerário e transferências, entre outros serviços.

EMAGRECIMENTO DE ESTRUTURAS

Outra aposta da banca continua a assentar no emagrecimento das suas estruturas, tanto em termos de funcionários como de balcões. A fórmula é simples: reduzir custos com vista a aumentar a rentabilidade. O ano passado já tinha sido sinónimo disso – com a Caixa, Santander Totta, BPI e BCP a dispensarem dois mil trabalhadores e a encerrarem 269 agências – e os três primeiros meses deste ano não ficaram alheios a esta tendência.

Só no banco público saíram 250 trabalhadores, a maior parte deles por reformas antecipadas. No final de março, a CGD tinha 8071 funcionários na atividade doméstica, face aos 8321 trabalhadores que tinha no final de 2017.

Mas a redução não vai ficar por aqui. Paulo Macedo já veio garantir que mais de 100 trabalhadores apresentaram candidaturas no âmbito do plano por mútuo acordo. “Temos mais candidatos entre reformas, rescisões e reforma por idade de reforma do que será necessário, pensamos que será cumprida [a meta de redução de pessoal este ano] como no ano passado”, afirmou.

Em termos de agências, a Caixa manteve o mesmo número de balcões que tinha no ano passado: 587.

Já no Santander Totta saíram 50 trabalhadores, passando o banco a contar com um total de 8835 funcionários, e assistiu-se à fusão de seis balcões. O banco quer mais saídas, mas garante que não haverá planos de despedimentos, referindo que houve “fusões” e “integrações”, já que o Santander é atualmente um aglomerado de bancos.
“O que fazemos são fusões de balcões e as reduções de pessoal fazem-se por acordo ou por reformas”, referiu António Vieira Monteiro.

TEM EXISTIDO UM ESFORÇO PARA REDUZIR OS ATIVOS TÓXICOS E ISSO É VISÍVEL PELO TOTAL DE IMPARIDADES

Também o BCP registou uma redução de 172 trabalhadores quando comparado com igual período do ano passado. O banco ainda liderado por Nuno Amado conta com um total de 7155 trabalhadores e 578 balcões, uma redução de 37 agências face ao primeiro trimestre de 2017. Ainda assim, os custos com pessoal aumentaram ligeiramente, passando de 89,8 milhões para 91,1 milhões no primeiro trimestre.

Já o BPI assistiu à saída de 34 colaboradores nos primeiros três meses do ano. No entanto, segundo Pablo Forero, esta saída de funcionários está em linha com o plano de cortes do banco, que continua a encerrar balcões em Lisboa e no Porto. Também o número de agências sofreu uma quebra: fecharam duas no início do ano, mas no final de abril fecharam mais dois balcões, um no Porto e outro em Lisboa.

Este número vai engrossar ainda mais quando forem reveladas as contas do Novo Banco. Para já, a única informação que tem sido divulgada é que a instituição financeira liderada por António Ramalho continua com um processo de rescisões voluntárias e reformas antecipadas que deverá levar à saída de mais de 400 trabalhadores – cerca de metade em rescisões e a outra metade em reformas antecipadas –, além do fecho de 73 balcões.

Embora o problema do crédito malparado continue a preocupar as instituições financeiras, verificou-se nestes três primeiros meses do ano um esforço para reduzir os ativos tóxicos. O total das imparidades reconhecidas nas contas do primeiro trimestre passou de 243 milhões para 91,7 milhões de euros.

NÚMEROS

493,5

milhões foi o lucro dos quatro maiores bancos no 1.º trimestre do ano

4,5

milhões foi o lucro diário dos quatro maiores bancos nos três primeiros meses do ano

400

milhões foi o valor cobrado pelos quatro maiores bancos em comissões no 1.º trimestre do ano

4

milhões é a média cobrada por dia em comissões pelos quatro maiores bancos nos três primeiros meses do ano

DESCONFIANÇA DOS BANCOS LEVA CLIENTES A QUEREREM INVESTIR SÓ EM PRODUTOS SEGUROS

TEXTO | Sónia Peres Pinto

A falência do BES e os milhares de lesados que sofreram com a queda do banco ainda está na memória de muitos portugueses que, por isso mesmo, também estão mais atentos aos produtos financeiros em que investem. Mais do que rentabilidade, os clientes valorizam a segurança do investimento, daí os depósitos a prazo liderarem a escolha. A explicação é simples: mesmo em caso de falência, as suas poupanças estão protegidas pelo Fundo de Garantia de Depósitos. Também os instrumentos de dívida pública chamam a atenção dos investidores, que pensam que o seu dinheiro só está em risco se o Estado falir – um cenário remoto

Pode dizer-se que há um antes e um depois da queda do Banco Espírito Santo (BES), que levou para as luzes da ribalta, e não pelas melhores razões, milhares de lesados. Muitos destes investiram em papel comercial a pensar que estavam a aplicar o seu dinheiro em tradicionais depósitos a prazo e as dores de cabeça começaram a partir do momento em que quiseram receber o dinheiro. Anos depois, muitos dos lesados ainda não conseguiram reaver as suas poupanças. Mas apesar de ter sido um problema de um banco, a verdade é que o sentimento de insegurança em torno dos produtos financeiros disponibilizados pelo setor acabou por se generalizar.

Esse cenário de insegurança é admitido por António Ribeiro, da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), ao revelar que “as más práticas conduziram a uma grande desconfiança por parte dos investidores sobretudo em relação aos produtos financeiros que são considerados mais esquisitos e que fogem ao padrão normal. Ainda existe desconfiança mas, no momento de investir, a escolha recai mais nos depósitos a prazo”, revela ao i o economista.

Foi esse sentimento que levou Carla Santos a investir todas as suas poupanças nos antigos Certificados do Tesouro Poupança Mais, por achar que o risco seria menor. A explicação é simples: só se o Estado falisse é que haveria perda do montante aplicado. “Tinha dois depósitos a prazo, feitos em alturas diferentes, com remunerações baixas. Com as notícias que foram saindo de bancos em risco de falir, comecei a ficar com receio e optei por resgatar esses dois depósitos, e apliquei tudo nos certificados de dívida pública”, revela ao i.

Hoje continua a achar que foi a melhor decisão e, de futuro, pensa em continuar a aplicar todo o dinheiro que vai conseguindo pôr de parte neste tipo de instrumentos financeiros. “Agora existe outro semelhante, e até conseguir juntar dinheiro vou deixando-o ficar na conta à ordem porque, a prazo, também não rende nada.” Além disso, Carla Santos questiona o tempo que levaria a ter acesso à sua poupança no caso de falência de um banco. “Sei que essa verba estaria abrangida pelo Fundo de Garantia, mas nunca ninguém me disse o tempo que levaria até que voltasse para a minha mão. É uma ideia que sempre me assustou.”

Também foi o medo que levou Pedro Silva a resgatar o dinheiro que tinha num produto mutualista da Associação Mutualista Montepio e a optar por colocar o dinheiro num depósito, na mesma instituição financeira. “Com um depósito, sabia que a minha poupança estaria protegida, mas com estes produtos mutualistas, o risco seria maior.” 

Mesmo assim, até tomar essa decisão, o investidor ainda demorou algum tempo. “Foi no verão passado, mas andei a pensar nisso durante uns dois anos. Perdi dinheiro, mas ganhei tranquilidade. Só estou arrependido de não ter feito isso há mais tempo”, confidencia.

Rita Ferreira lembra-se do tempo em que aplicava o seu dinheiro em seguros de capitalização e em fundos de investimento, mas a segurança e a cautela começaram a falar mais alto e, atualmente, pouco ou nada investe neste tipo de produtos. “Realmente são produtos mais atrativos do ponto de vista da remuneração, mas se alguma coisa corre mal corro o risco de perder tudo. Já me deixei disso, agora prefiro menos riscos, mesmo que isso signifique ganhar pouco ou mesmo quase nada. Mas pelo menos sei que o meu dinheiro está lá parado e que posso ir buscá-lo a qualquer momento. Não quero perder o sono, principalmente quando os bancos passam de uma situação de solidez para outra de falência quase de um dia para o outro”, revela a investidora.

Rita tem familiares que foram afetados pelos investimentos que tinham no BES e, por ter acompanhado o desespero de perto, não se quer ver numa situação semelhante. “Nem quero imaginar se isso me tivesse acontecido. Não sei sinceramente qual seria a minha reação, nem sei se aguentaria passar por tudo aquilo que passaram”, confessa ao i.

 INVESTIDORES MAIS ATENTOS

Investidores mais atentos António Ribeiro garante que os clientes estão hoje mais atentos. Mas, ao mesmo tempo, também se assistiu a uma mudança dos próprios bancos, sobretudo porque a legislação se alterou. O economista recorda que, atualmente, todos os depósitos a prazo são obrigados a ter uma ficha de informação normalizada (FIN) e, como tal, têm de disponibilizar toda a informação e características detalhadas do produto que se está a comercializar.

“O objetivo é evitar o tipo de enganos que houve no passado, para que os portugueses percebam como é calculado o rendimento, a liquidez e o risco dos próprios produtos. Os fundos também facultam este tipo de informação. Esperemos que os erros que se verificaram não se repitam”, refere.

No entanto, lamenta que essa informação ainda não seja uniformizada e padronizada para todos os produtos financeiros. “Um investidor deveria facilmente comparar um fundo com um depósito estruturado ou com um seguro de capitalização. Isso, hoje, ainda não acontece. Por exemplo, no caso dos seguros de capitalização, as apólices ainda são muito difíceis de ler, pelo menos para uma pessoa que não perceba de legislação”, chama a atenção o economista da Deco.

Ainda assim, António Ribeiro garante que continuam a ser cometidos alguns erros principalmente junto do investidor menos instruído, “que é olhar para um produto financeiro e analisar apenas o rendimento, e depois ignora as outras questões, como o risco e a liquidez”. Para o responsável, um dos critérios mais importantes a analisar diz respeito à liquidez, e nem todos os depósitos a têm: “Há depósitos que não permitem a mobilização antecipada e nem sempre as pessoas estão atentas a estes detalhes, e podem precisar desse dinheiro passados uns meses e não podem levantar.” 

VAI INVESTIR? O QUE DEVE CONSIDERAR

A TER EM CONTA | O risco está diretamente relacionado com o valor que está disposto a perder, eventualmente, para atingir uma determinada rentabilidade. Quanto maior o risco, maior a rentabilidade. Uma boa forma de gerir o risco é diversificar a sua carteira de investimentos. Não se esqueça que um dos principais inimigos do investidor poderá ser a natureza do próprio investidor. No universo das emoções, o medo e a ambição excessiva, tal como a falta de disciplina dos investidores, são os obstáculos a todo este negócio. Associado à componente emocional, a grande maioria dos investidores não estão preparados nem mentalizados para assumir perdas, pelo que normalmente criam defesas mentais para manterem os seus investimentos.

01.

A TER EM CONTA

O investidor tem como grande objetivo preservar o valor investido. Por isso mesmo, prefere investimentos de baixo risco e, como tal, tem também uma expetativa de rentabilidade mais limitada. Neste caso, deve investir, por exemplo, em depósitos a prazo, certificados de aforro e seguros de capitalização

02.

PERFIL CONSERVADOR

O investidor já está disposto a assumir um risco considerável nos investimentos, de forma a potenciar um crescimento sustentado do capital aplicado a médio e longo prazo. Invista, por exemplo, em fundos imobiliários, já que apresentam um risco moderado, pois o capital não está garantido, mas regra geral rendem mais do que os depósitos a prazo

03.

PERFIL MODERADO

O investidor tem como principal objetivo potenciar um crescimento importante, a médio e longo prazo, da sua carteira de investimentos. Neste caso, assume um risco elevado nas soluções que subscreve e adquire

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