"AS PESSOAS CONFUNDEM O FEMINISMO E O MACHISMO. O MACHISMO PREJUDICA INTENCIONALMENTE AS MULHERES”
"Sou supercrítica em relação ao meio da televisão"
TEXTO | MARIANA MADRINHA
FOTOGRAFIAS | MIGUEL SILVA
Tem fama de ser muito pontual, super profissional.
Acho que super profissional sou, pontual não sou sempre, infelizmente. Faço um enorme esforço para ser, acho que faz parte do respeito que temos que ter uns pelos outros, cada um nas suas funções, mas profissional é uma daquelas coisas que não me imagino a não ser, ou seja, tenho muito brio na conquista da minha profissão. Já são praticamente 29 anos…
Para a SIC foi em 92, a convite de Maria Elisa.
Mas comecei antes! Bem, são 29 anos e se há coisa que acho que nós, que somos figuras públicas e essa é só a minha opinião e vale o que vale, temos que saber ser reconhecidos, não é conhecidos. Para mim o verbo é reconhecer, e não no sentido de conhecer a pessoa, de ficar conhecido só porque sim para mim não faz qualquer sentido. Mas isto é a minha maneira de ver. Assim que comecei há 29 anos aquilo que queria era que as pessoas gostassem do meu trabalho, portanto eu teria que me esforçar imenso para, em primeiro lugar, gostar e preencher aqueles que eram os meus requisitos de trabalho eficaz para que depois aquilo chegasse às pessoas. A ideia do caminho fácil… é muito fácil as pessoas apontarem, conhecerem e dizerem “ah, gosto tanto de si” e se calhar nem sabem muito bem quem é, sabem que aparece na televisão. Nunca fiz isso.
Mas quando começou já pensava construir uma carreira?
De todo, não pensava nada. Aliás, sempre pensei que iria ser bailarina ou coreógrafa e depois como decidi tirar o curso de Jornalismo e depois o de Teatro achei que podia ser várias coisas ao mesmo tempo. Em Portugal somos um país fantástico, mas pequeno, e portanto o olhar dos outros tem um peso muito grande sobre as figuras públicas, e naquela altura, de facto, alguém que poderia ter uma vontade de fazer uma espécie de multitasking, de cantar, dançar, representar, apresentar, escrever, era vista como estranheza porque havia uma espécie de crivo crítico em cima das pessoas.
Havia uma gaveta para cada um.
Havia um peso. Não nos podemos esquecer, e talvez seja difícil fazer este exercício, que não tínhamos redes sociais.
Era uma das coisas de que gostava de falar mais à frente.
Mas faço aqui um atalho, porque aquilo que é a construção de uma carreira, e não vou estar aqui com considerações sobre se [hoje] é mais fácil ou mais difícil, porque não é essa a avaliação que me interessa fazer e é sempre diferente,_mas para fazer uma carreira naquela altura os veículos eram muito restritos. Estou a falar de uma carreira televisiva. Quando comecei só havia a RTP, só depois é que começou a TVI e SIC. Para chegar ali era diferente, e para se manter ainda mais difícil.
Mas havia mais concorrência, mais pessoas a competir pelo mesmo lugar?
Não, o que havia era uma enorme dificuldade das pessoas novas começarem. Hoje em dia surgem novas pessoas diariamente, ou através das redes sociais ou dessas plataformas que são boas. E quando digo pessoas são pessoas que se tornam conhecidas, que de repente passam a ter uma opinião. Uma influenciadora, uma blogger, é mais fácil, pode nunca ter aparecido na televisão e pode ter seguidores fiéis e que são verdadeiros. Ora no meu tempo havia um canal, a RTP. E havia a rádio, onde me estreei. Aliás, se tiver que dizer qual é a minha escola vou dizer que é a rádio. Fiz muita rádio, na Comercial, na Antena 1, mas era só isso. Era diferente, pronto. Não havia a prática de se deixar pessoas novas entrar porque quem lá estava era o suprassumo dos grandes comunicadores, os Carlos Cruz, os Fialhos Gouveia, essas pessoas todas...
E muitos mais homens do que mulheres.
Sempre. Tenho alguma pena que as novas gerações não conheçam esses comunicadores sem rede, sem teleponto. Pessoas que falavam com muita cultura, com muita bagagem, que sabiam muito. Hoje em dia as coisas são um bocadinho fast-food, é mais difícil termos carreiras sustentadas nesse sentido. Por outro lado, é mais fácil uma pessoa criar o seu próprio canal de comunicação e ter ou não ter seguidores.
E é possível ter uma carreira sustentada sem ter redes sociais hoje em dia?
É uma pergunta pertinente e posso confessar que não tinha grande vontade, era daquelas resistentes mas percebi que, de facto, pode haver um equilíbrio. É como nos programas, sou uma não adepta dos reality shows só por si, mas sou uma adepta dos talent shows onde também pode haver a questão emocional. Não tenho problema nenhum em que as partes, digamos mais emocionais, até mais pessoais, quer dos concorrentes e das famílias passem para o espetador. Acho que isso faz parte. Agora acho que o segredo é o equilíbrio e estou sempre a tentar arranjá-lo mesmo nos programas que apresento. E levei essa minha convicção do equilíbrio para a forma como comunico nas redes sociais. Tenho a equipa a trabalhar comigo, mas fui eu própria que senti que estava...
A perder o barco de alguma maneira?
Não, não é isso. Não sinto nada essa coisa do ficar para trás e ai que vêm aí mais novas, nunca! Sou a primeira a dizer às mais novas, bora lá, entrem no barco comigo.
TENHO ESTA IDEIA MEIO ROMÂNTICA DE QUE AS FIGURAS PÚBLICAS TÊM QUE TER UMA RESPONSABILIDADE CÍVICA E SOCIAL
"AS PESSOAS CONFUNDEM O FEMINISMO E O MACHISMO. O MACHISMO PREJUDICA INTENCIONALMENTE AS MULHERES”
