17/08/2019
 

CATARINA FURTADO

"Sou supercrítica em relação ao meio da televisão"

TEXTO | MARIANA MADRINHA
FOTOGRAFIAS | MIGUEL SILVA

Usa muitos chapéus há muito tempo: é Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) há 19 anos – há tanto tempo como ela, só Angelina Jolie –, gere uma Organização Não Governamental, a Corações com Coroa, e continua a definir-se na sua vida profissional de quase três décadas como comunicadora – é apresentadora, atriz, já escreveu um livro e canções, fez rádio, dançou... Lá em casa, há quatro filhos: “Dois da barriga e dois do coração”. E na cabeça há muitos outros, fruto dos projetos que continua a desenvolver ligados principalmente à saúde materna, aos jovens e ao apoio das mulheres. Ainda em dezembro, inaugurou na Guiné Bissau a nova ala da maternidade do Hospital Simão Mendes. No início do ano, Catarina Furtado deixou a correria do dia a dia para responder às perguntas do i numa conversa onde o passado foi pontilhando a ânsia das missões a que se continua a propor.

Tem fama de ser muito pontual, super profissional.

Acho que super profissional sou, pontual não sou sempre, infelizmente. Faço um enorme esforço para ser, acho que faz parte do respeito que temos que ter uns pelos outros, cada um nas suas funções, mas profissional é uma daquelas coisas que não me imagino a não ser, ou seja, tenho muito brio na conquista da minha profissão. Já são praticamente 29 anos…


Para a SIC foi em 92, a convite de Maria Elisa.

Mas comecei antes! Bem, são 29 anos e se há coisa que acho que nós, que somos figuras públicas e essa é só a minha opinião e vale o que vale, temos que saber ser reconhecidos, não é conhecidos. Para mim o verbo é reconhecer, e não no sentido de conhecer a pessoa, de ficar conhecido só porque sim para mim não faz qualquer sentido. Mas isto é a minha maneira de ver. Assim que comecei há 29 anos aquilo que queria era que as pessoas gostassem do meu trabalho, portanto eu teria que me esforçar imenso para, em primeiro lugar, gostar e preencher aqueles que eram os meus requisitos de trabalho eficaz para que depois aquilo chegasse às pessoas. A ideia do caminho fácil… é muito fácil as pessoas apontarem, conhecerem e dizerem “ah, gosto tanto de si” e se calhar nem sabem muito bem quem é, sabem que aparece na televisão. Nunca fiz isso.


Mas quando começou já pensava construir uma carreira?

De todo, não pensava nada. Aliás, sempre pensei que iria ser bailarina ou coreógrafa e depois como decidi tirar o curso de Jornalismo e depois o de Teatro achei que podia ser várias coisas ao mesmo tempo. Em Portugal somos um país fantástico, mas pequeno, e portanto o olhar dos outros tem um peso muito grande sobre as figuras públicas, e naquela altura, de facto, alguém que poderia ter uma vontade de fazer uma espécie de multitasking, de cantar, dançar, representar, apresentar, escrever, era vista como estranheza porque havia uma espécie de crivo crítico em cima das pessoas.


Havia uma gaveta para cada um.

Havia um peso. Não nos podemos esquecer, e talvez seja difícil fazer este exercício, que não tínhamos redes sociais.


Era uma das coisas de que gostava de falar mais à frente.

Mas faço aqui um atalho, porque aquilo que é a construção de uma carreira, e não vou estar aqui com considerações sobre se [hoje] é mais fácil ou mais difícil, porque não é essa a avaliação que me interessa fazer e é sempre diferente,_mas para fazer uma carreira naquela altura os veículos eram muito restritos. Estou a falar de uma carreira televisiva. Quando comecei só havia a RTP, só depois é que começou a TVI e SIC. Para chegar ali era diferente, e para se manter ainda mais difícil.


Mas havia mais concorrência, mais pessoas a competir pelo mesmo lugar?

Não, o que havia era uma enorme dificuldade das pessoas novas começarem. Hoje em dia surgem novas pessoas diariamente, ou através das redes sociais ou dessas plataformas que são boas. E quando digo pessoas são pessoas que se tornam conhecidas, que de repente passam a ter uma opinião. Uma influenciadora, uma blogger, é mais fácil, pode nunca ter aparecido na televisão e pode ter seguidores fiéis e que são verdadeiros. Ora no meu tempo havia um canal, a RTP. E havia a rádio, onde me estreei. Aliás, se tiver que dizer qual é a minha escola vou dizer que é a rádio. Fiz muita rádio, na Comercial, na Antena 1, mas era só isso. Era diferente, pronto. Não havia a prática de se deixar pessoas novas entrar porque quem lá estava era o suprassumo dos grandes comunicadores, os Carlos Cruz, os Fialhos Gouveia, essas pessoas todas...


E muitos mais homens do que mulheres.

Sempre. Tenho alguma pena que as novas gerações não conheçam esses comunicadores sem rede, sem teleponto. Pessoas que falavam com muita cultura, com muita bagagem, que sabiam muito. Hoje em dia as coisas são um bocadinho fast-food, é mais difícil termos carreiras sustentadas nesse sentido. Por outro lado, é mais fácil uma pessoa criar o seu próprio canal de comunicação e ter ou não ter seguidores.


E é possível ter uma carreira sustentada sem ter redes sociais hoje em dia?

É uma pergunta pertinente e posso confessar que não tinha grande vontade, era daquelas resistentes mas percebi que, de facto, pode haver um equilíbrio. É como nos programas, sou uma não adepta dos reality shows só por si, mas sou uma adepta dos talent shows onde também pode haver a questão emocional. Não tenho problema nenhum em que as partes, digamos mais emocionais, até mais pessoais, quer dos concorrentes e das famílias passem para o espetador. Acho que isso faz parte. Agora acho que o segredo é o equilíbrio e estou sempre a tentar arranjá-lo mesmo nos programas que apresento. E levei essa minha convicção do equilíbrio para a forma como comunico nas redes sociais. Tenho a equipa a trabalhar comigo, mas fui eu própria que senti que estava...


A perder o barco de alguma maneira?

Não, não é isso. Não sinto nada essa coisa do ficar para trás e ai que vêm aí mais novas, nunca! Sou a primeira a dizer às mais novas, bora lá, entrem no barco comigo.

TENHO ESTA IDEIA MEIO ROMÂNTICA DE QUE AS FIGURAS PÚBLICAS TÊM QUE TER UMA RESPONSABILIDADE CÍVICA E SOCIAL

Tem, aliás, também a fama de ‘amadrinhar’ toda a gente.

Não é toda a gente.


Ou que tem pelo menos a facilidade de abrir a porta a quem acredita, que não tem aquela coisa de diva.

Completamente! Nem de diva, nem de perder o que quer que seja. Medo, medo, só tenho medo de duas coisas...


Segundo li, tem pânico de morrer e...

Antes disso, que algo aconteça de mal a quem eu amo. E de resto de morrer. Mais nada. Acho que a vida é muito mais divertida e mais rica se nós abrirmos as portas a quem acreditamos. Se há coisa que adoro é trabalhar com quem está a começar e dar aquilo que eles acharem que posso dar.


E recebe-se em troca?

Quando as pessoas são bem formadas recebe-se. Quando não são adoto e depois deixo de adotar. Vou dar um exemplo: quando as pessoas trabalham mesmo, sou a primeira a identificar: ‘Esta pessoa merece que uma pessoa com quase trinta anos de carreira lhe dê a mão’. Por exemplo a repórter V do The Voice, a Mafalda Castro, que nunca tinha feito televisão. Ela esforçou-se muito e no final fiz questão de dizer: “Mafalda, o que quiseres eu estou aqui”. Acho bonito quando as pessoas se esforçam e ainda por cima ela vem desta geração de não sei quantos seguidores só porque põe uma roupa, uma bota, e isso para mim... faz-me confusão. Mas não critico essas pessoas e não digo isto para ser politicamente correta, porque nesta altura do meu campeonato estou-me nas tintas para...


Já não tem filtros?

Não, e não houve durante muito tempo, por acaso. Mas no início da carreira eu era mais politicamente correta, porque havia o medo de uma pessoa não ser bem compreendida. Hoje em dia não. Aqui a questão é mesmo a avaliação do estado do mundo, não é dessas pessoas em concreto que estão a fazer pela vida. A única coisa que ponho um travão, e que me faz alguma confusão, é com [a exposição] dos filhos.


De mostrar as caras das crianças nas redes sociais?

Sim. Mas cada pessoa é livre de fazer o que quiser.


Esse equilíbrio que de que estava a falar e que levou para as redes sociais...

Ah, sim, acabei por não dizer. Pensei que tinha tantas coisas a acontecer na minha vida profissional e que não tinha canal para comunicar. Das duas uma: ou era através da minha estação de televisão ou era através da imprensa. Ora nem sempre é fácil nem sempre tem interesse para a imprensa determinadas coisas que possamos fazer. Ou mensagens, ou valores, porque tenho esta ideia meio romântica de que as figuras públicas têm necessariamente que ter uma responsabilidade cívica e social, e portanto pensei, aqui está: vou tentar com equilíbrio mostrar todas as minhas outras facetas que o ecrã não comporta, porque não há tempo nem espaço. E percebi que era uma ferramenta maravilhosa. Hoje em dia sou adepta mais até do Instagram, para partilhar. Acho que partilhar é o meu verbo preferido. Ainda antes de amar é partilhar. Amar pode ter um tempo limite, a partilha devemos praticá-la. As redes sociais servem para isso e para mim, como comunicadora, que é assim que me assumo, é absolutamente necessário ter redes sociais. Embora uma das pessoas que mais admiro neste país não tem redes sociais.


Que é quem?

O Ricardo Araújo Pereira. Não tem nenhuma e chega a toda a gente. Mas tem um programa semanal onde pode durante uma hora expor aquilo que pensa. E eu tive necessidade de expor aquilo que penso. Quando temos um programa como The Voice estamos a cumprir um formato, não estamos a expor as nossas ideias sobre uma série de coisas.


Se metêssemos agora na balança o trabalho de cariz social e a televisão, pendia para que lado?

Não consigo pôr a minha parte social ao mesmo nível porque não encaro como um trabalho. O meu trabalho, a minha profissão que adoro, é ser comunicadora, às vezes apresentadora, outras atriz. A minha parte social é a minha missão enquanto mulher, enquanto mãe, e cidadã. Tenho a certeza de que se deixasse de trabalhar em televisão, ou se me reformasse da televisão, a parte social iria continuar comigo, é indissociável do facto de eu ser uma pessoa preocupada com as pegadas que deixo aqui quando me for embora; de ser mulher, portanto confrontada com as desigualdades que ainda existem cá e lá fora. Isso nunca será um trabalho. Dá muito trabalho, tira muitas horas de sono, dedico horas infindáveis. As pessoas não imaginam o que é ter uma ONG que fez agora sete anos mas que é uma empresa no sentido em que tenho contratadas oito pessoas, mais todos os colaboradores a recibo verde porque temos muitos projetos para os quais contratamos para o efeito.
É um trabalho de gestão.

Sim, e com contrato temos oito pessoas! É a minha empresa, só que é social e onde eu sou totalmente voluntária. Neste momento posso dizer que esta parte voluntária me preenche de manhã à noite e muitas das vezes eu estou a trabalhar em televisão e tenho que conciliar este lado. É um prolongamento de mim.


Nunca pensou mandar a toalha ao chão?

Não. Não desisto nunca. Até agora! Também não digo desta água não beberei porque aprendi com a vida que não se devem dizer essas máximas fatais, que depois no melhor pano cai a nódoa (risos). Desistir não é... Amo aquilo que a associação já fez por centenas de raparigas e mulheres, centenas de centenas.


Como é que as jovens mulheres que tem lá em casa veem este trabalho, identificam-se?

Elas e eles, eu tenho quatro. Se os pais forem feministas conseguem perceber as nuances que fazem ainda a diferença para as sociedades entre homens e mulheres. Viu o estudo que dizia que só atingimos a igualdade salarial daqui a 202 anos? Tenho a sorte de o meu pai e o meu marido serem feministas. E eles lá em casa têm que perceber as coisas de uma outra forma.


Mas quando diz que eles são feministas...

Esse esclarecimento também é importante. Para já, o que é ser feminista? É uma coisa muito pouco entendida porque mais uma vez a ignorância é causa de muitas das nossas desigualdades. As pessoas confundem o feminismo com o machismo e nada tem a ver. As pessoas acham que o feminismo é o contrário de machismo, e vice-versa. O machismo é uma prática que prejudica intencionalmente as mulheres, que as humilha. O feminismo é algo que pretende promover a igualdade, não está a diminuir nem a humilhar ninguém. Não tem nada a ver. O feminismo irá deixar de existir se for atingida a igualdade dentro das diferenças. O que quero dizer com isto é que o meu marido é homem, nunca saberá o que é ser mulher, nem eu saberei o que é ser homem e não vamos estar aqui com estas discussões agressivas de militantes. Não tenho nada esse discurso. O que faço é mostrar com provas concretas. Por exemplo, este estudo. Ou todas as mães que recebemos na CCC com divórcios horríveis, litigiosos, violência domésticas. Temos os dados todos. Não estou a falar de cor nem do que leio.


Está a basear-se em evidências.

Nas estatísticas da minha associação, para lá do trabalho todo enquanto embaixadora das Nações Unidas, em que viajando pelos países em desenvolvimento é mais cru e cruel ver essas diferenças. As pessoas que mais sofrem no mundo inteiro são as mulheres e as raparigas, e as crianças pelo lado de não se conseguirem defender. Eu mostro os dados, e assim nós conseguimos angariá-los [aos homens] como parte desta sociedade que se quer justa e igualitária.


E, apesar de ser um tema em cima da mesa, que está na moda, é uma luta que tem há muitos anos.

Há muitos já. Aliás, sou muito pouco de modas. Até nas roupas. Nunca fui. Basicamente sou uma chata. São 29 anos de coerência, é uma grande seca. Mas tem os seu frutos, acho que a coerência é uma coisa que tem que ser valorizada agora a puxar os galões (risos). Sempre trabalhei nessa área, mas foi por acaso. O facto de a minha mãe ser professora do ensino especial e de o meu pai ser jornalista deu-me os privilégios de eles trazerem a realidade dos outros para casa, e isso foi-me sensibilizando. Mas veio de mim.


Cresceu na Crinabel, aliás.

Cresci. E no livro que escrevi, que não queria escrever mas acabei por ser persuadida pelas pessoas à minha volta para que contasse o que tinha nos meus caderninhos pretos para lá dos Príncipes do Nada, conto isso. E vejo de onde vem esta minha inquietação. Nunca fiz psicanálise nem essas coisas, que muitas figuras públicas têm que fazer por causa do peso da exposição, mas o livro serviu para eu fazer uma espécie de flashback.


Juntou os pontos.

Juntei. Na altura lá me convenceram e uma das melhores experiências que tive nos últimos anos foi ter escrito o livro. Isto para dizer que, no fundo, tive o privilégio de ter essa informação toda em casa e há alguma coisa que nasce connosco. Tenho quatro filhos, dois da barriga e dois do coração, e há uns que são mais obcecados quase com isto como a Maria, a minha enteada que está a tirar dois mestrados, já fez voluntariado em muitos sítios e nitidamente está imbuída deste espírito. Também levámos isto para casa, mas também nasceu com ela. Há uma componente que não se explica. E que no meu caso me leva a não ter dúvida nenhuma: ‘Vou ter um grande sucesso profissional e nunca mais posso ter este meu lado?’ Não. Deixo o sucesso profissional nitidamente para trás.


Falando do que se traz para casa... Teve uma avó que não sabia escrever e outra que foi para uma universidade e tinha uma piscina tipo Hollywood. O que trouxeram estes contrastes para o seu caminho?

Também conto isso no livro. Acho que isso, de facto, teve uma importância gigante no meu crescimento, o que não quer dizer que não só as pessoas que têm menos conseguem ter uma visão mais abrangente do mundo e que as pessoas que têm mais estão fechadas na sua redoma de privilégios e não olham para o lado. Essa possibilidade e esse curso intensivo que tive sobre as disparidades da vida foi muito importante. E mais: foi um enorme abanão sobre os preconceitos que possam existir sobre as pessoas em geral. Vivemos escravos dos preconceitos, mesmo aqueles que dizem que não são preconceituosos acabam por ser. Não estou a dizer que esteja livre disso, porque de vez em quando tenho que refletir um bocadinho sobre determinadas coisas que também digo. Por exemplo, sou super crítica em relação ao meio da televisão e de vez em quando tenho que me acalmar um bocado. Então eu própria também caio nesse erro, porque não quero ter preconceitos. Por exemplo, a minha avó materna*, sem saber ler nem escrever, era das mulheres mais inteligentes e cultas, no sentido empírico, intuitivo, que conheci. Foi muito importante para o meu conhecimento. E a minha outra avó, uma pessoa que eu também adorava, trouxe o resto – o olhar sobre a estética, a literatura, no caso dela mais da pintura, que tirou Belas Artes. O meu avô [paterno], que era bombeiro, também foi fundamental para mim, tenho um amor...


Eles moravam em Lisboa?

Sim, vieram da fora mas moraram sempre cá. O meu outro avô, que quase não conheci, era professor universitário. E isto trouxe-me... tudo. Quando as pessoas me dizem que tenho uma vida boa... Quando vou nas viagens das Nações Unidas durmo nos sítios com as pessoas, no que houver, não vou como os políticos que põe tapetes. E não tenho problema nenhum. Tanto estou com um vestido de noite xpto e uma tiara como estou numa tabanca na Guiné Bissau com os senhores a comer caju. Há uma frase que decorei em pequenina que é “há de tudo para fazer o mundo”. Depois, temos é que escolher neste mundo as coisas com as quais nos identificamos e o que queremos fazer. Sem olhar muito para o lado.

"AS PESSOAS CONFUNDEM O FEMINISMO E O MACHISMO. O MACHISMO PREJUDICA INTENCIONALMENTE AS MULHERES”

E sempre foi fácil escolher?

Não. E sem olhar muito para o lado também não! Agora que se fala tanto em mindfulness... As pessoas andam ávidas e desesperadas, as que têm e as que não têm. Acho que até são mais as que têm relativamente boas vidas que estão mais desesperadas do que as que não têm nada. Porque as que não têm nada preocupam-se em preencher o dia-a-dia.


Uma das coisas que se ensina a quem vai em voluntariado é que devemos ensinar a fazer, dar ferramentas, não ir com caridadezinha. E outra ideia que passa é que as pessoas que moram nesses países em desenvolvimento são muitas vezes emocionalmente mais equilibradas – e de certa forma mais felizes – do que as que moram cá. É perigoso dizermos isto assim?

Odeio a palavra caridadezinha. Acho que é tão perigoso... Dedico três páginas do meu livro a falar sobre isso. E perpetuarmos isso é perigosíssimo. Ponto número 1: a Carta dos Direitos Humanos existe porque, efetivamente, todos nós temos direitos. Nós não nascemos pobres, nós estamos pobres. Portanto, temos direito a tudo: acesso à saúde, à educação, enfim, a todos os itens da carta. A partir do momento em que chegamos a um país em desenvolvimento, quer numa missão, quer de férias, e vemos as crianças a rir muito e a brincar com uma pedrinha e uma bola de trapos e depois voltamos a dizer “ai, têm uma bola de trapos e são tão felizes, e os nosso têm a consola e estão sempre a pedir mais...”. De uma forma muito espontânea, diria infantil, podemos fazer esta observação. Diria que a questão é anterior a isso. Se nós dissermos que estão mais felizes estamos a reduzir aquilo que é importante: eles têm direito a ter brinquedos, escola, direito a não morrer mais cedo – o número de crianças que morre até aos cinco anos é exorbitante, aqui não. Provavelmente se voltarmos lá cinco anos depois, não encontramos metade das crianças que tínhamos visto a correr e a rir porque entretanto já morreram. Aquela coisa de dizermos “ah levamos umas canetas e ficam todos contentes...” Não aguento isso, fico doente. Não quero dizer que não o façam, mas isso não quer dizer que as crianças fiquem mais felizes. Porque morrem! Vi muitas mulheres morrer porque faltava soro, e despedi-me delas. Despedi-me de três crianças, e nunca me irei esquecer das caras delas, com malária. E a mãe a chorar como uma mãe aqui chora, para dentro. E não é preciso sermos mães para percebermos como é revoltante perceber que uma criança de cinco anos morreu porque foi mordida por um mosquito, quando a malária já não devia matar. Este é o mundo que temos. A questão do emocionalmente mais equilibrados é pertinente. Nós, a Europa, países desenvolvidos, estamos num ciclo em que cada vez há mais, há mais tudo.



A partir do momento em que viu estas realidades...

Mudou tudo. A primeira viagem foi a Moçambique. Já lá fui mais de dez vezes, mais umas tantas à Guiné Bissau, São Tomé, Timor Leste, Indonésia, Haiti, Sudão do Sul, Índia, Cabo Verde. E vou com alguma recorrência, sempre para falar de projetos de desenvolvimento que estão relacionados principalmente com a saúde – e a saúde materna.


Em dezembro foi inaugurar uma maternidade na Guiné Bissau.

Sim. Diria que a saúde materna é a minha área de eleição, mas também gosto muito dos jovens. Temos a maior geração de jovens de sempre, nunca a humanidade teve tantos jovens.


Que balanço faz destes 19 anos de embaixadora da ONU? Quais os desafios que mudaram e os que se mantêm?

Não posso mentir, também tenho os meus momentos de desilusão. Quando vemos que afinal a corrupção afinal continua, quanto continuamos a ser bombardeados com números vergonhosos de mortes maternas, de raptos, violência... Nos países onde existem os campos de refugiados as mulheres são, mais uma vez, as grandes vítimas, são violadas.


Muitas até têm medo de ir à casa de banho.

Fiz exatamente uma reportagem sobre isso, neste caso no Haiti num campo não de refugiados mas de deslocados em que se puseram lâmpadas no campo que diminuíram drasticamente as violações. Gastou-se ali uma ninharia... Às vezes não é o dinheiro, é boa vontade, é querer mudar-se as coisas, ter belas ideias. Estava a contar que às vezes tenho o tal sentimento de desilusão, mas acho que, e não sei se sou um bocadinho nostálgica e romântica, acho que a poesia nos pode salvar a todos e temos que olhar para trás para dar uns passos em frente. E quando olhamos para trás e vemos quantas pessoas morriam de fome, quantas crianças não iam à escola, vamos chegar à conclusão que o mundo estava pior.


Então o balanço é positivo.

Claro que é! O difícil é acharmos que é positivo o estado em que as coisas estão, que ainda não estão bem, mas não podemos ter memória curta: o mundo estava muito pior há muitos anos. Ontem veio uma bela notícia sobre o divórcio na Arábia Saudita. Que as coisas não estão bem, claro que não estão. Mas dependem de quem? Hoje em dia já sabemos que a fórmula para endireitar isto é a sociedade civil ser mais ativa na sua cidadania, que as empresas exerçam a sua responsabilidade social, que os governos sejam menos corruptos e que haja um trabalho sério feito pelas ONG’s. Estes quatro atores têm que se unir, coisa que não acontecia até então. Se calhar sou um bocadinho naif, mas sinto que a coisa tem de começar muito por baixo – na escola. Acredito convictamente que desde o jardim de infância que temos que passar estes valores.



Voltamos sempre à educação como o pilar base.

Mas é mesmo! Miúdos que têm pais que os estimulem para estas questões têm um olhar mais atento, menos umbiguista. A insatisfação é um mal das sociedades evoluídas, porque há qualquer coisa que não está a correr bem de facto. Eu acho que se fizermos mais pelos outros vamos encontrar a solução (risos).


Muito do seu trabalho como embaixadora passa por ir aos sítios falar com as pessoas, dar palestras, motivá-las. Nunca teve a sensação de que sabe a pouco ou tem depois o feedback de que esses momentos mudam efetivamente alguma coisa?

No início, quando recebi o convite que foi até do Kofi Annan...


“OS MEUS LIMITES [NO ENTRETENIMENTO] NÃO TÊM A VER COM AS EMOÇÕES – TÊM A VER COM A FORMA COMO AS PESSOAS SÃO UTILIZADAS”

Conheceu-o muito bem?

Só nas reuniões que tivemos. Tinha um grande sentido de humor e era muito afável, apesar da cara mais fechada. Mas quando recebi o convite senti um peso nos ombros, sentia que não sabia nada, apenas o normal sobre as Nações Unidas. Sobre o Fundo das Nações Unidas para a População nem sabia muita coisa. Comecei a ler os relatórios e as estatísticas e foi assim uma espécie de “uau, isto é uma oportunidade única”. Então a minha postura foi vou saber muito, vou informar-me muito e vou estar disponível. Mas isto é um cargo completamente voluntário...


E é vitalício?

Não! É renovado de três em três anos, portanto eu sou histórica, eu e a Angelina. Somos reconduzidos ou não, e depois vem por carta registada pelo secretário-geral. Eu ao longo dos tempos fui recebendo estas cartas e muitos dos meus colegas que conheci há 19 anos já não estão lá.


E o que significa isso para si?

Basicamente uma enorme responsabilidade. Falar em nome das pessoas que não podem falar é uma honra mas uma enorme responsabilidade. É a definição de poder com aspas. Não me sinto poderosa, não é nada disso: sinto que tenho a obrigação – porque tenho o holofote, o microfone – de verdadeiramente não desiludir aquelas pessoas a quem o mundo não liga nenhuma e que só aparecem nas estatísticas da vergonha. As da pobreza, do não acesso à educação, do não acesso à saúde. Não contam nas estatísticas da economia e isso para mim é uma afronta. Podia ser uma dessas pessoas, faço esse exercício e digo aos meus filhos constantemente – eles coitados têm que ouvir. Podia ter acontecido, a qualquer um de nós. Mas ainda não respondi: sim, no início foi uma frustração, sentia que era pouco. Mas às tantas pensei assim: és Virgem, super exigente, tens de abrandar aí um bocadinho. E quando tirei o pé do acelerador comecei a desenvolver projetos concretos, nomeadamente na Guiné Bissau, foi quando decidi fazer os “Príncipes do Nada” que são da minha autoria e do realizador Ricardo Freitas. Decidimos desenhar aquele formato que está quase como o TV Rural porque já está há 12 anos, e que eu espero que volte este ano. Isso é uma maneira de contribuir: ao mostrar estou a dar informação às pessoas, estou a dar-lhes poder. Por exemplo, quando informámos que os albinos não tinham protetor solar, juntaram-se médicos e sociedade civil e carregaram contentores de protetores solares para lá. E depois veio a Corações com Coroa – e mais uma vez, apoiar uma mulher é apoiar uma família, uma comunidade e um país.


Ter sido mãe mudou-a neste ímpeto de olhar para o outro?

Não. A única coisa que mudou é que passei a saber o que era ter dois partos com qualidade, tanto médica como humana, e ser confrontada permanentemente com a ausência de condições. Quando perguntamos a uma mãe quantos filhos tem e responde sempre pela negativa... Elas dizem sempre assim: “Morreram-me quatro, tenho dois”. Isto tira-me verdadeiramente o sono.


Estamos muito longe dessa realidade: estamos a conversar num café, numa das zonas privilegiadas de Lisboa, está um dia lindo. É fácil para si ter sempre presente o que conta?

Sim. Nunca estou longe. Tenho sempre projetos a acontecer. Agora este último [a inauguração da maternidade] está a acontecer, tenho o telemóvel cheio de mensagens porque queremos dar formação lá.


Recentemente escreveu mais a letra de uma música sobre a violência no namoro, que foi o tema da última conferência da CCC. Porquê este tema?

Nós na CCC andamos a fazer há um trabalho muito profundo nas escolas do país com uma peça original, com dois atores. Já temos quatro duplas a fazer a peça, juntamente com uma técnica. Basicamente vamos às escolas, fazemos esta peça de teatro, que no fundo diz respeito à relação entre dois namorados em que as coisas não estão bem e em que a violência verbal existe. É feita no contexto de sala de aula e há imediatamente sinais de casos que são sinalizados. Depois da peça entra a nossa técnica – que pode ser uma psicóloga ou assistente social – e que vai esmiuçar estes contextos. Em três anos temos um retrato muito triste da realidade. O que aconteceu com a violência doméstica, que passou a ser mais falada, tem de acontecer com a violência no namoro.


Para terminarmos, falemos um pouco de televisão. Nunca lhe passou pela cabeça fazer daytime?

Já me passou pela cabeça mas não era uma coisa que gostasse de fazer. Respeito imenso esse trabalho e até podia ser uma desafio interessante, mas nunca aconteceu e nunca dei por mim a pensar nisso. Tem sido tudo muito normal. Tenho gostado de fazer as coisas que tenho feito. É um privilégio fazer aquilo que gosto. Ao longo destes anos todos a estação tem acedido quando peço para fazer determinado projeto, portanto não dou por mim a pensar: “E se o meu caminho fosse outro?”.


E há limites no entretenimento?

Para mim existem. Na minha cabeça! São os limites que eu imponho?


Que são quais?

Acho que quando, sobranceiramente, alguém que está num papel privilegiado utiliza outra pessoa que está vulnerável para angariar audiências faz-me... é a velha história que digo aos meus filhos: não se bate aos mais fracos. Ou melhor, para já não se bate. E nunca aos mais fracos. É um bocadinho isso. Acho que não vale tudo. Mas é uma conversa surda – tenho grandes amigos humoristas que acham que vale tudo no humor, e é legítimo que achem. Não acho que valha tudo no humor. Isto sou só eu. Sinto isto porque depois, quando vejo, não gosto. Não tenho admiração pelas pessoas que fazem esse trabalho em televisão, a forma como o fazem e aquilo que comunicam. Se vejo que existe essa desigualdade eu desligo, não é a minha forma de comunicar. As emoções fazem parte, precisamos disso para nos orientarmos e confortamos. Os meus limites não têm a ver com as emoções – têm a ver com a forma como as pessoas são utilizadas.


E assistimos cada vez mais a um culto da personalidade dos apresentadores?

Não sei. Cada caso é um caso, quando comecei se calhar também existia com aqueles comunicadores mais antigos de que falei. Acho que as redes sociais potenciam isso, potenciam a verdade ou a falácia de que somos muito amados – ou muito odiados. Uma coisa boa que tenho é que não tenho que apagar comentários – e isto visto assim, quando as pessoas não são maltratadas, acho que é um sucesso (risos). Mas as redes sociais também fazem embriagar. Não sei, acho que não me cabe avaliar. O que me cabe dizer é que cada pessoa faz o seu processo, o seu caminho, e deve é ser verdadeiro com ele próprio. Prezo muito a sanidade mental e para mim o que é verdadeiramente sucesso é ter uma carreira já deste tamanho e é poder ver o meu toque na melhoria da vida pessoas.


Acha que hoje em dia se faz boa televisão em Portugal?

Acho que é muito relativo. Faz-se boa e faz-se má. Temos ótimas produtoras, profissionais de televisão excelentes – estou a falar dos que aparecem e não aparecem no ecrã. Mais do que nunca estamos a produzir boa televisão – os conteúdos há uns de que não gosto nada e há outros de que gosto imenso.

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