Fala da importância da memória e diz que é a nossa maior riqueza. Quais são as suas joias da coroa?
Vergílio Ferreira dizia que o importante não é o que acontece, mas o que acontece em nós desse acontecer. Há coisas que, para muitos, não dizem nada e, para outros, são importantíssimas. Às vezes, nas pequenas coisas está o que fica incrustado na nossa memória. As grandes coisas têm fotografias, alguém pode falar delas. Depois há as pequenas coisas que estão para lá do tempo. Os gregos dividiam o tempo no físico e no espiritual. O Chronos e o Kairós. A minha memória é do tempo espiritual, não é do cronológico. Às vezes, no dia-a-dia, parece que o tempo custa a passar e há quem diga que vai ‘matar o tempo’. E isso é o que não quero. Eu quero é agarrar o tempo.
À medida que o tempo vai passando, vai-se tornado mais nostálgico?
Não. Vou-me tornando mais amante da minha vida. Gosto muito de viver. Foi a maior e a única prenda que os meus pais me deram. Foi terem-me dado vida. Tenho-lhes uma gratidão infinita. Não tenho muito medo de morrer, mas tenho muita pena. Eu sou católico e, portanto, tenho alguma esperança na vida para além da morte. Alimento-me da esperança que, ao mesmo tempo, é dúvida, porque só se pode ter fé existindo dúvida. De outro modo, não é fé, é crendice.
Já disse que o maior medo é não conseguir despedir-se…
Sim, disso tenho medo porque o que mais temo é morrer sozinho. Gostaria de morrer com a minha família, despedir-me deles. Acho que morreria num grande sossego.
Ao longo da vida, todos nós temos de nos despedir de pessoas ou de coisas. Houve despedidas que tenham sido particularmente mais marcantes?
Sim, desde logo, a despedida do meu pai e da minha mãe, porque os vi morrer. Estava ao pé deles no momento do último suspiro e isso é uma imagem que nunca sai. Foi com uma diferença de 20 anos. A minha mãe primeiro, o meu pai há três anos, e foi a maneira de perceber o fio que nos liga à vida. Mas, se me perguntarem se preferia que não tivesse sido assim, digo que ainda bem que foi assim porque acho que eles quereriam que estivesse perto. Além disso, percebi que a morte pode ter esse caráter de pacificação, permite entender o lado de evolução natural. Foi uma maneira de recear menos esse momento. Mas mais difícil do que a questão da morte é a questão da velhice, no sentido de consciência da finitude. Uma criança não tem essa consciência, um jovem ainda não pensa nisso e nós todos os dias pensamos. Fiz 70 anos este ano e simbolicamente é uma mudança. Todos os dias acordo a pensar nisso. Consigo combater, mas acordo sempre com a mesma ideia terrível. Vou, por exemplo, comprar um livro e pergunto-me se ainda valerá a pena e se viverei para isso. Consigo combater e ganhar essa batalha, mas é terrível. Por exemplo, vou tomar uma decisão e penso ‘já não vale a pena’. Tenho sempre este despertador. Mas a noção de finitude para mim não é para desistir. Temos de lutar. Como é que me defendo? Sou muito eclético, como disse. Gosto de tudo, o que gosto menos até é de economia porque era a minha profissão. Tenho mais livros de botânica do que de economia. Ando, por exemplo, a estudar italiano. Já traduzi dois livros italianos e estou a escrever um livro em italiano. Estou naquela fase em que faço coisas, mas não porque têm utilidade.
É porque lhe dão prazer…
Faço porque me dá prazer. A grande vantagem da velhice é que determino mais. Quando eu era profissional tinha as coisas para fazer. Agora, só estou com as pessoas com quem gosto, não almoço para fazer fretes, não vou eventos sociais que não me dizem nada e até me irritam e antes era obrigado. Faço o que quero, levanto-me às 6h00 porque é à hora que eu gosto. Sou eu que determino e isso é um ato de liberdade. A velhice para mim tem sido uma afirmação de liberdade ou de libertação até. Como dizia um filósofo francês: ‘Ser livre é depender do que se gosta’.
Sempre acreditou em Deus?
Sou muito heterodoxo. A minha relação com Deus é direta, ou tenta ser. Como dizia Teresa de Calcutá, ‘rezar não é falar com Deus, é tentar que Deus fale connosco’. Rezo em silêncio muitas vezes. Quando rezo uma oração é raro ela entrar dentro de mim porque é mecânica. Por isso, rezo muito em silêncio. Deus, para mim, é intimidade absoluta. Com qualquer pessoa tenho tabus. Tenho com amigos, comigo, com a minha mulher, com as minhas filhas, tinha com os meus pais. É natural, todos somos assim. Quando me liberto totalmente deles é quando estou com Deus. Eu procuro transmitir a minha pobreza essencial, despir todas as circunstâncias e todos os disfarces. Só encontro a minha autenticidade quando acho que falei com Deus.
Nunca teve dúvidas?
Acreditei sempre. Eu e os meus irmãos tivemos uma educação cristã. Não sou beato, longe disso. Sou muito heterodoxo. Uma das coisas que mais me custam na Igreja é ver que alguns dos seus elementos clericais são piores do que eu. Gosto de ter o apoio de pessoas que são melhores do que eu. Isso é que me dá perspetivas de me valorizar. E depois, como dizia Pascal, acreditar em Deus é impossível, mas não acreditar é absurdo. Ou seja, esta passagem só faz sentido se houver alguma coisa que me transcenda. Acreditar é difícil, primeiro porque está fora de moda e politicamente incorreto, segundo porque, para acreditar, estamos nas trevas, não estamos na luz. Estamos nas trevas porque não temos capacidade para entender o que é transcendental. Não temos linguagem e, portanto, tem de ser um ato de fé. Muitas vezes, caio, suplico, levanto-me, duvido, vergasto-me, avanço. Tenho todas essas atitudes na minha relação com Deus.
Implica que tenha de ser mais exigente consigo?
Sim. Esse para mim é o ponto fundamental. Ao longo da minha vida tenho tido várias barreiras: a profissional, a familiar e até a ética e a moral. Tenho uma moral cristã, mas não a posso impor ao outro. Posso impor a ética profissional, por exemplo. Mas a regra moral é um travão adicional.
A ideia do pecado é uma ideia pesada?
É pesada, mas também é purificadora. E mesmo na Igreja acontece muita coisa. A Igreja é feita de homens, de pecados. Deus perdoa os pecadores, o que não perdoa é os pecados. A questão não está no pecador. Já dizia Oscar Wilde que a diferença entre o santo e o pecador é que o santo só tem passado e o pecador só tem futuro [risos]. A ideia do pecado tem de ser vista de uma maneira construtiva e não castradora. A ideia do pecado é a ideia de exemplaridade.
Mas a Igreja muita vez não passa isso…
Cada vez menos. Eu nasci em 1948 e fiz a catequese no pós-guerra, de grande penúria. Quando conto às minhas netas, elas ficam parvas por perceberem como é que se vivia. E eu até não era dos mais pobres. Mas a tradição do mal e do bem era absolutamente brutal. Até aquela ideia de que as pessoas tinham de se confessar todas as semanas. Uma vez confessei-me e passada meia hora fui confessar-me outra vez. Tinha 11 ou 12 anos e tinha discutido com um amigo. Achei que era um pecado. A ideia do purgatório e do inferno deixa alguma marca. Claro que me libertei dessa lógica atrofiada. Mas a ideia de pecado vejo-a no sentido de maior exigência e tenho-me dado bem com isso. Para mim, Deus é a causa incausada. Também é um ato de gratidão. Senão fosse esta entidade, não estaria cá.
Mas isso vai contra o que a ciência explica…
No meu entender, não há um conflito insanável entre ciência e fé. As pessoas com fé devem perceber a importância da humanidade. As pessoas da ciência não devem considerar as questões religiosas uma charlatanice. De facto, a nossa linguagem e compreensão são limitadas. Compreendo melhor os agnósticos. Ser ateu é uma atitude profundamente religiosa.
Começámos esta conversa a comentar o facto de estar rodeado de mulheres desde sempre. Tem duas filhas, quatro netas…
Em primeiro lugar, eu e a minha mulher somos casados há 47 anos, mais seis de namoro. Somos da mesma terra e viemos os dois para a faculdade. Eu vim mais cedo, fiz três anos de tropa e casámos a meio da tropa. Ela ficou grávida e não havia ecografias. Não sabíamos o sexo do bebé. E queríamos uma menina. Da segunda vez também. Eu acho que as mulheres têm uma perceção do envolvimento que nós somos incapazes de alcançar. Posso estar a ser injusto, mas se tivesse tido filhos ou netos não teria sido a mesma coisa. Primeiro, já não sei contar histórias para rapazes. Tinha de mudar de kit [risos]. Para mim, o papel fundamental é o da mulher mãe. Como Deus não teve tempo para fazer tudo, inventou as mães. Depois, há os aspetos que gosto, acho piada aos vestidinhos. Só tenho irmãos e o meu pai dizia que tinha pena de não ter tido uma filha.
Partilhou agora uma memória do seu pai. Não é de Lisboa. É de Ílhavo. Como foi afastar-se da família?
Eu vim em 1965 e tinha 17 anos. Vim sozinho. Só havia Economia no Porto ou em Lisboa e, apesar de ser mais longe, escolhi Lisboa. Não foi fácil. Miúdo, não havia telemóveis, aliás, não havia telefone em casa sequer. Quando queria telefonar tinha de ir a uma estação do correio. Eu escrevia todos os dias à minha mãe e ela a mim. Todos os dias recebia a minha cartinha. Ainda tenho essas cartas todas. Hoje já ninguém manuscreve. Vim para um quarto alugado de uma senhora viúva. Depois, quando é que eu ia a Ílhavo? Só nas férias.
Era doloroso passar tanto tempo sem os ver?
Sim, eram dois meses e meio fora. Era como se fosse para o navio bacalhoeiro. Ao passo que agora temos um iPad e podemos vê-los. Mas aquilo na altura era tão diferente. Os comboios demoravam cinco horas, eram caros. Carros não havia. O único carro que havia na faculdade era do Pedro Ferraz da Costa. Mas era tudo difícil. Tomar banho era duas vezes por semana, às quartas e sábados. Não havia duche, havia banheira. Fotocópias não havia. Queríamos ler um livro que não podíamos comprar e lá íamos à biblioteca. Não havia nada.
Guarda muitas amizades dessa altura?
Guardo. Os meus amigos principais são dessa altura. Todos. Uma amizade para a vida. Encontramo-nos muitas vezes. É uma amizade muito saudável porque é completamente desinteressada. Já lá vão cinquenta e três anos que entrei na faculdade. Bons tempos.
Disse numa entrevista que é muito desprendido materialmente. Isto é uma escolha ou uma característica?
Tem evoluído com a minha idade. Tenho espírito de colecionista. Coleciono ampulhetas há 40 e tal anos. Tenho centenas delas. Livros também. E canetas – tenho centenas, desde o século XIX, e todas elas escrevem. Livro e caneta para mim é o meu mundo. Hoje não quero nada, a não ser o que é importante para a minha vida: saúde e o suficiente para fazer as minhas viagens. Conheço 80 países e viajei muito com as minhas filhas, felizmente. Não havia internet, estudava muito bem os sítios. Mas qualquer material que tenha a mais é um fator de pressão e stress para mim. É uma aflição. Por exemplo, agora no Natal não quero nada. Entre nós não damos nada.
Muitas pessoas dizem isso e acabam sempre por dar…
Não entro nisso. O Natal transformou-se numa coisa absolutamente terrível. Tenho o Natal do pós-guerra. Não havia nada e se os nossos pais nos dessem um chapeuzinho de chocolate era um Natal maravilhoso. E é desses Natais que tenho saudades. Há uns dias, fui à Baixa e tive de parar numa Igreja para sentir o espírito. Até ao dia 24 é o apogeu das compras, depois é o apogeu dos monos [risos]. É uma coisa terrível. As crianças recebem e no fim ligam à coisa mais simples. No dia de Natal estou a celebrar a vida e não quero stress.